Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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7. Capitulos 10 a 20

  XI

           O relatório clínico não perdurou mais que aqueles instantes. Cris explicou, levantou-se para pegar mais carreteiro. Quando voltou, dedicamos nossos neurônios não vegetais ao futebol, casas noturnas, e receitas com carne de ovelha.

           Sancho tentando seduzir Ráina: passava os dedos nos cabelos escuros, sons inaudíveis perto do ouvido da mulher louca. Às vezes, tentava arrastá-la da mesa grande, puxando, levá-la para um dos quartos. Veio a hipótese de que talvez não fazendo aquilo por algo mais que tesão, vontade de ficar. Talvez tivesse o canalha do meu melhor amigo sentimento pela nova rainha do psiquiátrico. Conclui  que minha interpretação estava confusa pelo momento, e duas noites bebendo. Não pensei mais nisso.

           Ficamos mais uma ou duas horas. Sem muito ritual, convidei Sancho para partirmos e deixar as meninas dormirem, ou se masturbarem, ou sei lá...

           Sancho beijou-a tal Romeu. Descemos a escada, entre tchaus e linguagem corporal de despedida. Antes de desaparecer no corredor, Cristiane chamou-me, aproximou a boca do meu rosto, não fosse moça de beijinhos, esperei o verso:

- Fica na tua, deixa o palhacinho sofrer quieto na mão dela.   Nem esquenta...

Sem entender, despedi-me, desci as atrás do companheiro de horas.

          O inverno resolveu voltar, céu cinza, vento frio e chuva de molhar bobo, caíam senhores sobre os dois caminhantes, meio atordoados do arroz com charque e cerveja.

         O prédio da janta há quatro quadras do meu. Sancho ainda morava com os pais, uma meia hora dali. Eu não estava com paciência para aturá-lo dormindo no apartamento Descemos andando, comecei a puxar assunto mulher, ver se o amigo confessava sentimento especial por alguém. Minha interpretação podia ser confusa, mas se não houvesse nada, a psicóloga nem teria dito aquilo.

- E aí Sanchito? Vai dar coelho daquela toca?

       Sancho escondeu certa preocupação na fala:

- Capaz, só quero dar uma bem dada ali e deixar. – e terminou a frase com aquela diminuição de tom típica de quem tem pouca, nenhuma, convicção.

- É, mas eu acho que a mina ta a fim de ti! – Disse com certa afirmação. Um instinto cruel subiu da barriga, delicado desejo de dar troco, descarregar em alguém.

- Capaz. Aquela ali não gosta de ninguém. Beija qualquer coisa que pareça um homem. Tu melhor do que eu sabe bem disso...

Calei, a verdade sempre tem maneira de dar uma enforcadinha. Seguimos andando Apesar da pressão na garganta, sutil desejo de revanche escapou:

- Por isso que eu digo. A mulher estava diferente contigo. Não sei, meio melosa demais.

Sancho disse nada. Sorriu um riso de esperança de metade de boca.

        Chegávamos na entrada do prédio aquele passo.

- Tu vai posar aqui, mouro velho?

- Não. Vou andar um pouco até em casa. Se falamos na segunda.

        Deu a despedida de mão. Saiu cabisbaixo no seu rumo. E afetado. Como ser humano, iria andar para pensar. Todos andam para pensar, mas ninguém pensa para andar, só para onde ir.

       Cheguei no prédio.Entrei no apartamento, o coração bobo arranhou, fui obrigado a por uma musica sertaneja no som, ligar a televisão e fingir não lembrar mais daquela moça.

        Deixaria Sancho comer o pão amassado com a outra. E por quê? Primeiro por que estava ferido. Segundo por que amizade é um nome chique para troca de interesses. Terceiro, por que o que tivesse de acontecer entre os dois enquadrava-se entre as coisas que devia ter paciência para aceitar. Em suma, fora do alcance de minha vontade.Sentaria como um torcedor de futebol, e vibraria patético com cada bola na trave, toda vez que expectativas dele não combinassem com as dela. Não é isso o amor perfeito, uma conciliação de expectativas? Tal coveiro de filmes antigos de faroeste, aguardaria o final do duelo. Disse alguma vez o narrador dessa era bonzinho? Que não fora tocado pela crueldade da companhia humana, intocável após vinte anos de convivência com toda a sorte de egoísmos, inclusive os próprios? Não, mesmo...

            A mulher da música sertaneja berrava aos oito universos que não tinha tido a chance de ser entendida pelo outro, acompanhada por uma guitarrinha irritante e uma bateria competente. Filosofei: quem tem chance? Acredito que uma meia dúzia, talvez mais. Nunca conheci ninguém, embora conheça namoros ditos “firmes” desde o colégio. Bem se sabe que namoros de secundaristas organizam-me mais por conveniência social do que por uma verdade sentimental. É a guria do momento, o cara legal, os espectadores, disfarçados de amigos,  que irão ver a relação. Os norte-americanos, irmãozinhos do norte, têm até substantivo, na língua técnica inventada por eles nas ilhas britânicas: reputation. Traduzindo livremente não cairia como uma luva no luso reputação. Bem se sabe, também, os nacionais juntam imensa dificuldade em rotularem o seu próprio comportamento e circunstâncias  com palavras únicas, com o significado preciso das palavras. Daí cidadania significar apenas direitos, e não deveres; responsabilidade ser dever, e não direito; ecologia é floresta Amazônica, não o terreno baldio da esquina, com de lixo e criatório de baratas e ratos.

            Tudo bem, seria a mesma palavra, reputation e reputação. São até semelhantes. Tenho dúvidas se ouvi reputação uma vez que fosse, em todos os três anos de ensino médio. Não estamos falando de significados estritos por aqui, a via Aurélio ou Michaelis. Os gringuinhos são conscientes da reputação. Os latinos, exteriormente, não. E todos se importam com a porcaria do que os outros vão pensar. Depois do colégio vem o cursinho, e com ele a separação. Sem o grupo para pesar, relações são rompidas, todos no espaço social da comunidade

           É melhor fase para pegar mulher, como diria Sancho. Meninas de segundo grau costumam ser deslumbradas. Costumam se achar únicas, e “se achar” no sentido mais ofensivo do “se achar importante.” Força social vinda do grupo. Quando esse acaba, na última borracheira do terceiro ano, adeus minha concubina: descobrem que apenas uma na multidão.Ficam bem mais acessíveis, mais conscientes de que não farão sucesso, não serão supermodelos, cantoras de programas de tevê; o príncipe encantado inicia seu longo processo de afastamento. E dizem as revistas femininas para a classe média que as primeiras trepadas começam por aí.  Trepadas, sim, por que a virgindade perdida no meio do grupo secundarista, com algum namorado “apaixonado”.Na faculdade, outro grupo. E o ciclo, sem nada de novo, recomeça. Mas aí o mulherio se deu conta das benesses do sistema capitalista, e o quão distante do proletariado melhor permanecer. Vulneráveis aos homens mais velhos, mas com contas bancárias. Ficam vulneráveis a qualquer elemento que pareça rico. Já não se importam em passar a noite inteira com um tio barrigudo, desde que tenham um apartamento para voltar depois. É a fase final.  

         Nesse ponto o príncipe encantado desiste de ser real, embora, nos sonhos felizes. Mas quem precisa de sonhos quando se tem um CPF para se manter, conta de banco, e um status profissional, contas, contas e contas?.

         A essa altura, onde fica o amor? Não sei. Na música, é sempre ferido. Nas flores, é sempre poesia. Nos que morreram, uma lembrança, e nas crianças, uma realidade.

        Falávamos, no início, de quantos tem a chance de serem ouvidos na hora da confissão. Há essa hora fui ver se não havia nada alcoólico pela geladeira. Nada. Nem vinagre. Tinha esquecido de ir ao mercado! A geladeira vazia! Por sorte, meu mecenas preferido, papai, depositaria na conta bancária minha. Dava, com o da carteira, para pagar um ou dois cachorros-quentes até segunda-feira.

       Quase uma da manhã.

       Cheio de risoto de carne, e cheio da vida de homem jovem solitário, deitei no lençol fedido de quinze dias e apaguei.

 

XII

         Nada aconteceu no domingo.

         Nada acontece no domingo. Levantei, comi bolachas secas, dormi outra vez. Assisti aos abomináveis programas de televisão dominicais, devo ter pensado em Ráina uma, ou duas vezes, no banheiro. Sempre lembrava dela no banheiro.

         À noite, perto das sete, Tispa abre a  porta com mesma delicadeza de sempre. Nos olhos, as alegrias de quem passara sinceros momentos com a gringa.

- Buenas, tchê. Que passou nessa cidade?

       Sentado no sofá, sem ânimo, respondi:

- Nada. E tu? Que tal o final de semana com a família?

Tispa atirou-se no outro sofá. Havia dois apenas no apartamento.

- Mas bá. O véio meu sogro comprou uma égua flor de bonita.

-  Bá. E a gringa?

- Tchê... Nem te conto. Pegamos o carro da véia, fomos para um tal de açude, rapaz... Demos uma  que gringa chegou a ficar roxa!- Por mais grosseiro que possa parecer, devo admitir, é grosseiro. Como não entendia nada, nem fazia questão de entender a relação, indaguei:

- Tchê, qual tua relação com essa mulher? Tu vai pra casa dela, chama o pai dela de sogro, aí chega aqui, sai largando comentários. Qual é a tua ?

Tispa coçou a barba de dois dias, fitou com aquela cara de advogado farejando dinheiro, bateu a mão na perna, e respondeu uma pergunta com outra:

- Tu tá muito delicado. Que foi? A Ráina de novo?

         Minha vida parecia uma bíblia pública. Todos sabiam ler, menos o dono do livro.

- Não. A mesma merda de sempre.- Tispa fez jeito de quem tinha acreditado. Coçou a barba, tirou algumas notas amassadas do bolso da calça.

- Olha, não sei, nem quero saber. Sei que a gringa me faz muito bem. Ela me apresentou como namorado. E tu sabe o que é foda? Depois que ela disse para a velha, me olhou com carinha de guria que fez coisa errada!-Como diria o próprio amigo homens: não trocam confidências, homens falam. E Tispa seguiu comentando- Como se esperasse uma cara feia minha. Tchê, me senti mal. Nunca nos pedimos em namoro antes, parecia que ela estava fazendo coisa errada! Bueno, para todos os efeitos, somos namorados. Namorados não declarados, eu acho!

        A sinceridade, comovente. Tispa levantou-se sem falar mais Pegou a bolsa com roupas da viagem, desapareceu para os quartos.

      Quem sabe Tispa, sem querer, relevasse a ponta venenosa da língua do povo. A lógica moderna: todas fazem, mas todas falam das outras, como se candidatas a beata do Vaticano.           Quem sabe se importasse?  Ninguém é tão bom assim, tão superior que não sinta um mínimo de fragilidade.

       Na segunda-feira, o dia seguinte, não havia aula pelo turno da manhã. O que garantiria em algumas ocasiões, no domingo, um trago de cerveja em algum  bar da cidade. O que aproveitávamos, afinal, ninguém poderia prever o calendário no próximo semestre. Olhando dessa maneira, a vida acadêmica parece uma constante de emoções, um esboço de roteiro de algum  filme, cheia de ações mirabolantes, e beijos com o mar dourado ao fundo.

         Não era, mesmo.

         De verdade, um tedioso repetir absoluto de ações e relações. As aventuras maiores, tentar fugir disso. O tédio dos tédios, a mesma música rock tocando todo o final de semana. O mesmo assunto saindo da boca das mesmas pessoas, as mesmas pessoas se achando as mais importantes do universo pelo mesmo motivo. A grande glória, ir com alguém diferente para a cama, dar os mesmos gemidos, seguir o mesmo itinerário peitos-barriga-coxas de sempre, não ligar no outro dia. O mesmo futebolzinho xarope, bom para curar desavenças e conseguir distensões musculares. O mesmo fígado para judiar com litros e litros da tal loira gelada.

       Vida universitária.   

       Algumas noites, olhando o céu imaginávamos. Mas não se havia vida inteligente fora da Terra, onde morava o Papai do Céu, como acabaram os dinossauros.Imaginávamos que de repente, sem nenhum aviso uma pedra imensa poderia desabar sobre nossa cabeça, e poria fim na palhaçada toda que se chama vida moderna. Passados anos, os animais sobreviveriam; novas espécies surgiriam; outro macaco sem pêlos ficaria indignado por leão ter comido outra filha sua, se ergueria e daria início ao processo tecnológico todo, mais uma vez. E numa noite deserta, sentindo-se uma criatura presa a si mesmo, e um universo de coisas que não acredita, nunca acreditou, nem será capaz, pediria a uma estrela qualquer que explodisse e mandasse um bloco de granito contra a sua bela sociedade.

         Imaginávamos.

        Quem processaria o cosmos por homicídio, perdas e danos, fraturas múltiplas? O poderoso ser racional, pisado como uma barata pelo chinelo de uma senhora obesa. E a quem iriam processar? Quem sabe a Lua. Não puseram a coitada ali para servir de escudo contra meteoros, cometas, e simpatizantes? Sim, processaríamos a Lua, já que a fé remove montanhas, mas não segura um bloco de milhares de toneladas, caindo mais rápido que uma  bala de fuzil,  chinelão de matar macacos. E a vida, tão cantada e decantada, seria então dependente do tamanho do chinelo. Para uma barata inocente, o nosso: para nós, a chinelada das estrelas. E claro que algum romântico, filósofo de reportagem de jornal de tevê, diria, senhor de si, o fim da vida na Terra. Mas que vida na Terra? Se todos sabem, e não é de hoje, quando um ser humano refere-se à vida, referindo-se à vida humana, mais exatamente a sua própria? Seres humanos não estão em extinção, mas ninguém se importa em destruir outros milhares de vidas terrenas para abrigar um condomínio, uma fábrica de inseticida. E diga que o homem não merece uma chineladinha só do Universo, por tanta falta de respeito com a vida?

       Uma chinelada, e seria a fatal. Mas veja as estrelas, não creia que a menor agressão delas será diferente. Basta pequena, simples, imperceptível ao campo gravitacional do menor dor planetas do sistema, e voltamos a ponto chave da existência: a vida só depende do tamanho da ameaça contra si. Sem choro, nem Internet, meditações hegelianas, cordas de berimbau ou geladeiras com portas que abrem para os dois lados.

       Imaginávamos.

      Nem ficamos muito abatidos com isso. Naquele marasmo, qualquer falácia que desse um mínimo de esperança, ajudava um monte. E a certeza da morte dá uma certeza absoluta na vida. Somente os muito autopiedosos afirmam, de pés juntos, o contrário. Imaginávamos, pelo menos, até a metade da garrafa de vodca, tequila, ou uísque.

  

 XIII

            E o domingo em que nada acontecia passou. Veio a segunda feira maldita, a terça-feira de cumprir calendário, a quarta-feira, dia do sofá (não que tivesse alguém para namorar no sofá), e a quinta-feira do bar, finalmente. Aconteceram coisas, sim, nesse pequeno intervalo de horas. rotina. Não viria ao caso, todos sabem o que é rotina, fingir que se vive para conseguir dinheiro. Sempre tem aquele desorientado que gosta do trabalho. Até descobrir o sexo.

         Quinta-feira, o dia do bar. Todo bom universitário bebe algo nessa noite tão esperada, prévia do fim de semana. O que fazia deixar o tédio das aulas de medicinas menos atordoante, menos abissal: há uma possibilidade de redenção depois das dezenove horas. Há a companhia das gurias, falar besteira, ouvir rock internacional, sim, por que só doido para venerar versão nacional do lucrativo estilo de música. Essa quinta, por demais interessante, falaria com Sancho, após uma semana de completa afazia. De caso pensado, obviamente. Resolvi deixá-lo para que resolvesse de vez com minha amada, quem não fiz menor gosto de ver semana toda. Sancho usava a técnica de estrangulamento com suas “pretendidas”: ligava cinco vezes por dia, mandava flores, fazia questão de ser visto, bem campanha publicitária de refrigerante.

          Nunca soube disso ter dado certo.

         Um homem nunca acha outro bonito. Não sou eu quem irá quebrar esse dogma. Mas devo escrever em linhas pequenas que meu amigo Sancho convidado para trabalhar para uma agência de modelos, uma vez, posso supor que somente por esse argumento sua sorte com a mulherada bem, superior a minha.Tudo bem, Sancho pegava mais do que eu. E bem mais. Raramente passava uma ida a algum lugar de hormônios ferventes em que ele não arrastasse alguma para a parede. Devemos admitir: ele e Ráina faziam um bonito casal. Combinava bem o cabelo preto dela com o olho azul dele. Naquele dia quinta-feira ficamos de nos encontrar a noite no Rua, um bar de cerveja barata e música tranqüila no centro da cidade.  Chegamos pelas oito.  O lugar ainda contava com duas mesas vagas.

         Sentamos, Sancho e eu a esperar o resto:

- E aí? Te acertaste com a Ráina? – Resolvi evitar o rodeio, ir direto ao jogo.Sancho fitou-me com certa curiosidade. Fez sinal ao atendente, respondeu, como se não fosse nada:

- Nós estamos ficando. Ficamos ontem na casa dela, quase deu sexo. Não sei, eu acho a guria legal.- Merda. Mais pura merda. Um seco embolou-se em minha traquéia. Que desgraça, o medo subiu as narinas com um aperto no estômago. Olhei para o lado, para disfarçar. Sancho prosseguiu o relatório:

-  Pois é. Ráina legal, divertida. Sabia que ela sabe tudo de mitologia grega? Tudo de mitologia, em geral. Mas não sei se vai dar certo. A guria é meio instável...- Ao ouvir a senha “instável”, a força voltou à alma. A conversa com Cris veio à memória. Quem sabia as regras da partida era esse narrador, não Sancho. Quanto muito era a bola.  O atendente aproximou-se, pedimos cerveja. Conforme o plano, deveria dar força, fazer Sancho iludir-se, o resto, a doença faria:

- É, Sancho? Não sabia dessa da mitologia. Mas eu acho que se vocês estão ficando dessa maneira só pode dar namoro.- Sancho admirou-se. Bonito, e previsível:

- Tchê, tu acha mesmo?

- Acho. E digo mais: aquela mulher nunca fica com o mesmo cara duas vezes. Se ficou, por que alguma coisa tem. Meu amigo Sancho encantou-se. Serviu os copos, bebeu um gole satisfeito da gelada.

- Bueno, toda a regra tem sua exceção. – Disse, em tom de ironia, achando-se o máximo dos máximos, obviamente.

Esse era Sancho, futuro oncologista, colega de aula e parceiro. Transformar uma lanterna de bolso em holofote a ego, imensurável, a sua especialidade. Prossegui com a falácia:

- Pois é. Vai ver que tu conseguiste domar a “Suçuarana da Engenharia”, como diz o outro...

- Como é que é? – Sancho indagou.

- Suçuarana da engenharia. É assim que o pessoal da filosofia ali, o Tadeu e o Tarta andam chamando a Ráina: suçuarana da Engenharia.

- O que é suçuarana?- Perguntou ele, em tom infantil.

-           Suçuarana, puma. Aquela onça marrom menor que a onça pintada.

- Ah, tá – Compreendeu, e tomou outro gole. Era mentira. Ninguém chamava a moça de nada, Inventei na pior das intenções, com intuito apenas de valorizá-la, e, por conseguinte seus dotes de conquistado. Não assim os boatos? Alguém diz, ninguém sabe se verdade, todos acreditam.

- Ela nem é tão má assim! – Disse ele, achando-se mais.

            Esperávamos encontrar o resto dos amigos por aquele horário. Tispa viria, depois do futsal, fedendo a suor. Ele sempre fazia dessas na quinta, dia do semestre dele se digladiar com os outros semestres do curso. Bons jogos, ótimas faltas, nenhum arrependimento.As gurias não viriam. Dificilmente sentavam elas no bar Rua conosco. Consideravam aquele estabelecimento  abaixo do seu nível. O que era ruim sobremaneira, pois naquele bar freqüentavam estudantes de todos os tipos, cores, e contra-cheques. Mulher atrai mulher, como dizem. As outras presentes veriam nossa mesa cheia de meninas, se interessariam por nosotros.

        Parece estranho, mas pura verdade. Tispa e Cris diziam que esse fenômeno ocorre graças à competição feminina: vendo aqueles homens com mulheres à volta, precisam saber o que eles têm a oferecer para terem mulheres consigo. E se elas têm, todas as outras querem.

        Bebemos uma garrafa. Bastou pedir outra para o Tispa aparecer com seu uniforme de jogador de quinta-feira:

- E aí gurizada, aliviando a pressão?- Soltou, e puxou uma cadeira, não sem antes pedir copo.

- E aí Tispita, vamos dar uma volta na sexta, tradicional, ou tu vai levar a gringa para comer iaksoba de novo?

         Tispa achou graça. Creio que devia saber o que era iaksoba.

- Vamos, claro. Tradicional Diretório, como sempre. A Fabiana vem junto, normal.

 

XIV

 O Tradicional Diretório

 

           Em nada diferente das boates de estudantes administradas por estudantes ao longo da extensão do território nacional. Talvez o único diferencial fosse o nome: Tradicional Diretório.   Contaram-me que o apelido surgira pelos anos oitenta, quando um dos membros de gestão da agremiação de estudantes da universidade federal local mandou pôr faixa, festiva, com os dizeres: “Nova República, Tradicional Diretório”.Narra o mito que foi único lugar de universitários que os militares, golpistas de 1964, não fecharam. Motivo: não foi necessário. O comodismo tanto na época dos militares que a atividade política se resumia a ler jornais, aplaudir a Copa de 70, e decorar nomes de generais bem vestidos de Brasília.

          Se tradição de pouco se importar, nessa vida, com algo mais que as notas perdurou naquela comunidade acadêmica, acredito. De minha parte que tomassem o poder os fascistas, os nazistas, os taoístas, os mercantilistas, não me importaria, desde que me formasse, ganhasse meu diploma de médico, e pudesse comprar meu carro importado. Sei que Ráina também pensava assim. Sancho, nem se fala.Fazia-se nas sextas-feiras, que é o dia da massa carregadora de livros, a mais simples, perfeita, e direta diversão alienada: bebíamos até sair pelo ladrão. Dançávamos quando sobrava tempo, e às vezes até tentávamos ficar com alguém, se fosse o caso. O padrão: beber até o último centavo. 

         Tradicional Diretório não passava de um porão amplo com umas luzes coloridas, uns desenhos de sei o quê pelas paredes, um banheiro de status variando entre desaconselhável a nojento, dois bares vendendo o líquido precioso.Vendiam cachaça também. Não caipirinha: cachaça pura. Deviam ali caber umas setecentas cabeças. Nas noites áureas passavam pela porta uns mil e quinhentos. Diversão de estudante.

 

XV

            Sancho não sabia o que queria dizer iaksoba. De uma ignorância lendária, ignorava qualquer frase, palavra, produto que não tivesse origem norte-americana. E se achava o rei por isso.

            No auge da idiotia, andou com um lenço pintado com a bandeira vermelha e branca na testa. E se achou o máximo.Hot-Dog, conhecia, querer ir a um pub, desejava, isqueiro de filme possuía. Também sabia de cor todos os paradores da Route 66, morreria seco se não pudesse fazer a rota numa motona de trocentas cilindradas, uma vez na vida. E todos os fastfoods de São Diego a Los Angeles.

           Pergunte a ele se sabia onde ficava Manaus?

           Creio que talvez soubesse. Havia passado em vestibular. Uma vez estudou isso. Aliás, quando as pessoas estudam esses assuntos somente em sua longa caminhada: na época de prestar,  temida prova. No segue, é mais útil não esquecer caminho da padaria, que a maioria dos formados faz. Menos os mestrandos, das mais diversas áreas, claro,. contudo esses nem Deus sabe o que fazem. Também não condenemos o amigo Sancho, apenas um normal estudante de medicina. A ignorância universitária não é de hoje. E todo mundo sabe que a faculdade é lugar para se conseguir ascensão social, não para pensar, refletir, saber onde é Manaus ou iaksoba.    Evitaria afirmar que minha querida Ráina passaria muito distante disso. Para ser sincero, Ráina,  simples estudante das artes exatas, imagino, nunca desejou ter horizontes maiores que os das propagandas de butiques, capas de CD, novelas televisivas. Imagino que minha amada nem teria condições de se colocar como um produto da mídia, do consumo. Nem teria condições para se perceber em circunstância sócio-cultural alguma. Era só a Ráina.

        Por que amar uma mulher assim? Porque amava. Encerrado. Ráina e Sancho caberiam no papel do típico filho da classe média que crê que todo ladrão é pobre, ou, em suas palavras,  preto; toda a prostituta tem cara de índia; todo assalariado é cachaceiro e bate nos filhos; toda dona de casa é infeliz. Particularmente, não teria moral para recriminá-los. Nem acho que deva. Mesmo por quê, posições como essa imperam nos meios universitário da tal classe do meio, sem nenhum remorso. Quem pensa diferente logo muda de idéia. Depois, quem disse que a academia  feita para reavaliar posturas?

         Certa feita, andávamos todos por uma das praças da cidade. Noite morna, creio que no semestre anterior. Uma festa dessas, feira do livro, artesanato, ou algo do tipo.Passamos por um grupo de pessoas, uma família ou duas, todos parentes, deduzi. Todos negros, dignamente vestidos, como sou filho de classe média pseudobranca também, não deixei de reparar nas camisas de boas marcas que os homens vestiam.

             Ráina virou-se em minha direção, quase pôs o rosto no meu ouvido:

- Que negada! Deixaram a porta da delegacia aberta.- Entendi, mas não reagi. Amava aquela mulher desde antes daqueles dias, e bem sabe quem ama,  o amor molda julgamentos. Dei um sorriso meia boca, e no fim,  acabei concordando pela circunstância.

            Olhei para baixo e vi uma guriazinha com eles. Uma “neguinha”, como diria Sancho.   Não deixei de reparar em suas tranças, tão delicadamente montadas. Não várias, ao modelo jamaicano, como dita a moda. Apenas duas, firmes e delicadas.

          Ela parou por um instante, atrevida. Olhou para Ráina como se não a conhecesse, virou as costas, e sumiu correndo na multidão passante.Apreciei mais o fato de que, pensasse Ráina o que o pensasse. Ou pensasse quem quer que fosse, eu, Sancho, ou Raína, nenhum, tiraria a beleza daquela criança . 

 

XVI  

SEXTA-FEIRA, enfim.

 

           Ficamos os três no Rua até três, ou quatro, da manhã naquela quinta-feira.

           Bebemos todo dinheiro suado do labor dos nossos pais e mães. Sem nenhum remorso em gastar o dinheiro em cerveja, mais fútil de todos os gastos.  Outros amigos apareceram, dois ou três, na mesa em que estávamos Desses bem sem importância, sempre dão as caras em momentos como esse cachaceira, má vontade em criar algo produtivo. Deixamos o bar um tanto nocauteados pela bebida.

          Cerveja deixa bêbado, sim. Essas propagandas todas mostrando o quanto à loira gelada é social, é dos amigos, da alegria, não passa de genialidade  de publicitários. Cerveja embriaga, tem álcool, e faz tanto mal quanto qualquer trago, tanto quanto qualquer branquinha. Penso até que deva fazer mais mal, e de alcoolismo menos perceptível. Há toda a suposta questão social de confraternização. O sujeito vira alcoólatra pensando que estará sempre se confraternizando   Dentro disso, devemos pensar no quanto de ressaca fui para a aula na sexta-feira pela manhã.  Levantei como se tivesse ingerido butano até as três, e não inofensiva cerveja.  

        Sem lavar o rosto, entrei  no banho frio.  Para nada adiantou. Peguei todo o leite velho da geladeira e engoli. Leite, uma base, costuma deter momentaneamente acidez do estômago.

         Deu para respirar até a parada do ônibus para o campus. Dentro do coletivo, todavia, o pára-acelera do motorista acabou por dissolver as esperanças em uma manhã menos dolorida.Ainda havia a dor de cabeça, nem valido comentar. Entrei na sala de aula sem falar com nenhum dos meus futuros concorrentes de profissão.  Dormi, enquanto a nobre professora falava.          Babei sobre um dos cadernos

        Saímos às onze. Decidi almoçar no restaurante da instituição, o restaurante universitário, comida subsidiada pelo governo. Além de estudar de graça, o Estado ainda financiava a comida, simples, mas balanceada, boa para curar sistema digestivo pesteado 

        Comprei uma bandeja. Fui comendo, comendo, até ouvir aquele balido agudo entrando dos tímpanos à espinha:

- De  ressaca de novo! Isso que dá beber a noite inteira!- Era Déborazinha.

        Débora recebera o apelido por ser “zinha”, delicadinha, infantil, meio abobada, não por ser pequena ou mínima de corpo. Em verdade, havia naquela bobeira um par de coxas,  experiência própria, guardava imenso valor.

- Oi, Déborazinha- Cumprimentei-a com a boca lotada de feijão com toucinho.

- Viu? Fica bebendo a noite inteira, depois dá nisso. Que belo futuro médico teremos!

         Minha resposta àquela pilhéria foi meter o garfo com mais feijão na boca. Débora sentou-se, havia lugar vago ao lado. Por alguns segundos, lembrei o passado. Fiz sexo com aquela mulher duas vezes, agora, comíamos juntos como dois irmãos. A modernidade é curiosa.

  - Tu vai ao Tradicional Diretório hoje? – Perguntou, no tom de puxar conversa.

 - Acho que sim. Quer dizer, claro que vou.  E tu?- Cris tinha o cabelo liso, loiro e tesão. Débora trazia o gene sedutor da mesma maneira da irmã, liso, comprido até o fim das costas.

- Não sei. Vou sair com meu namorado, a gente vai comer pizza. Depois, não sei...

              E Déborazinha tinha um namorado.Havia passado completamente despercebido, razões talvez de alguns não convencerem com tal convenção denominada namorado. Aquele não convencia mesmo: cara mais velho, lá pelos seus quarenta, separado da mulher, com crise de meia idade. Nem preciso lembrar as chacotas que fazíamos com o coitado do velho. Lógico, sem a presença de Débora.

- Leva ele.- Disse, enfiando uma agulhada na amiga.

- O Luciano não gosta muito desse tipo de ambiente – Respondeu. Como haveria de gostar? O cidadão tinha uma filha com vinte (a idade de Déborazinha), uma com dezessete anos, um guri de treze. Como haveria de gostar da arruaça do Tradicional Diretório? Nem na crise de identidade.

 - Sabe que ele está com problemas com a ex-esposa de novo? A mulher quer que ele pague..-

        ... E ela seguiu falando dos problemas conjugais do namoradinho. Aproveitando a ressaca, concentrei-me na dor de cabeça, e nada ouvi. Pelo menos para isso serve uma boa dor de cabeça: não ouvir alguém falando dos problemas de casamento de alguém. E rezei para que quando chegasse aos meus quarenta anos de lida, não passasse pelo vexame de estar correndo atrás de moças com a idade de minha filha, tal o Luciano. 

           No meio do monólogo, Débora pegou minha mão.Recordei a noite em que fizemos sexo. Entrelacei meus dedos com os dela enquanto fazíamos o ato. Fiz isso somente por que ela pareceu  gostar. No final, acabei gostando. Ao sentir sua pele, perdi o foco da dor de cabeça. Ouvi o final da falação:

-... Mas por que o Luciano tem que pagar pensão para a guria maior? Essa mulher é neurótica mesmo!- Concluiu.

- Pois é. Mas está no direito dela. – Tentei a emenda da forma que pude, afinal, nada ouvi do palavrório.

- Direito dela o escambau, ora. A vagabunda que vá trabalhar! - Havia terminado de comer. Perguntei-a se iria naquele instante para a parada de ônibus. Disse que não, ficaria para uma aula na primeira hora da tarde. Despedimo-nos ali mesmo. Não nos tocamos, beijamos. Deixei o restaurante.

        Por estar bêbado ainda, o toque de mão valeu mais que meu último beijo. Parece estranho, pois um ósculo dilacerante tem muito mais valor que  qualquer outro toque em público. Aquele, todavia, demais importante. No ônibus pareceu que no final da festa todos querem mesmo cumplicidade. Senti que havia uma entre nós. Interessante, meio irreal, totalmente desconsiderável por parte de quem assistisse, valorizasse de acordo. Nesses dias de beijos fáceis,   consumíveis, iam rir da cara desse, caso  contasse a alguém. Eu iria rir, se me contassem.  Nada acaba por tirar a graça de sermos humanos. Foi encantador o gesto, e mil vezes deixaria me encantar.

            O ônibus chegou à parada. Duas quadras do prédio à cama querida. Contei os passos até o lençol.

 

XVII

             Acordei às sete horas. Enquanto dormia não pensei em Ráina. È engraçado, quando se dorme não se pensa em ninguém! Vai ver que dormir serve para isso mesmo, não pensar em ninguém. Os cães dormem, e não pensam, supostamente. Nunca ninguém foi um cão para saber. Disseram que perguntaram ao animal se funcionava dessa maneira,  mas o danado do cachorro evitou a resposta.

         Mas acordado, voltou àquela desgraçada à cabeça.

         Antes de sair, sempre ficava a esperança de encontrá-la desacompanhada.

        Esperança que sempre morria quando trombava com Ráina grudada em alguém por algum canto escuro do Tradicional Diretório. Ela conhecia todos muito bem. Passava a maior parte da noite prensada em um deles, recebendo mãos por todos os centímetros quadrados daquele corpo.

        Decidi não criar expectativa em relação a isso. Matar a esperança antes que se criasse e  dano maior. Tentava, mas não consegui. Estar ocioso não auxiliava na distração. Ia e vinha, sempre, a imagem de Ráina com alguém que nunca nem eu, ou ela, havia visto na vida, na rua, no campus, grudada aos beijos com esse num dos cantos do Tradicional Diretório, como ela sempre fazia.

        Tispa chegou em casa da aula depois das 22 horas. Não recordo se o narrei o fato de seu turno de estudos ser noturno. Chegou, e encontrou-me fazendo a mesmíssima coisa que fiz desde o momento que levantei da querida cama, olhando televisão. Tudo bem, papai querido patrocinava, o gosto de ter um filho médico, e tal. Então, disse nada contra dar-nos uma imensa televisão, indispensável máquina de fazer idiotas, evitar convulsões sociais, e arrecadar votos.

 - Tchê, tu vai ao Diretório hoje?- O meu colega de apartamento sabia a resposta. Fiquei sem entender a pergunta.

- Vou.

- E aquele xarope do Sancho deve ir contigo?

- De certo. Que tem?.

- Tem que aquele tabacudo anda dizendo que está botando na Ráina. Eu passei pelo Duda, tu sabe, aquele parceiro mongão dele...

- O alemão de óculos?

- Esse. Tchê, me disse que o cara tava botando na morena gostosa da engenharia...- Ráina  era branca de cabelo escuro. Morena tem cabelo escuro, e pele morena.

- O Duda disse isso?

- É. E que o cara estava barbarizando a mina.- Barbarizando a mina significava ter sexo anal, oral, moral, surreal, o que fosse. Ráina não fazia sexo. Sancho mentia outra vez. Grande África, novidade.

- Acreditou, tchê?- Perguntei.

- Olha tchê: tu sabe que tenho as quatro patas atrás com aquele galãzinho de rodoviária. Se tá dizendo que é mentira... Mas que a moça é ficadeira e alçada, é fato.- Tispa falava sempre do seu jeito. Perdera pouco do sotaque fronteiriço, mesmo anos longe.

         Dizer que Ráina ficadeira não obrigava em classificá-la como vagabunda, vez que não havia relação carnal. Beijar todo mundo, e ir para a cama com todo mundo estão uma para outra como a maconha para a cocaína. Pode ser que uma leve a outra ou pode ser que não. Sempre admitindo que é bem  simples de um maconheiro virar cheirador de pó, do que um não usuário de droga alguma. Qualquer maneira, os dois, ficadeira ou vagabunda, belíssimos estigmas sociais.

- Bueno, Tispa isso eu sei. Mas que daí a dizer que a guria anda dando pra todo mundo...

- Eu sei, tchê. Quem dava para todo mundo era a minha! – E  soltou uma gaitada, abrindo a da geladeira.

Fiquei vexado:

- Tu que tá dizendo, tchê.

         Tispa voltou para sala com caneco de água gelada na mão.

- A verdade é dura mas dói, meu amigo. De fato é que nossos amores não estão nem um pouco para donzela, as duas.

Vez que o causídico falava de amores.

- Mas bá! Mas então a gringa já virou amor!

- E vê se conta pra ela, infeliz! Te quebro os beiços!- Deu outra risada forte, e se sumiu direito ao quarto.

       Insegurança não morava naquele corpo. Pelo menos, não demonstrava. A minha, ficadeira. A dele, vagabunda. E o desgraçado dando risada.

- Mas a minha tem borderline! Tem desculpa!- Gritei.

- Tem borderline, mas é consciente! Sabe muito bem o que está fazendo!- Disparou.

Vexei-me de novo. Tispa conhecia tanto de psicologia assim?

- E tu sabe o que é borderline?

      Tispa meteu a cara na porta:

- Claro. Aquela musiquinha da Madonna. Sei sim ...E sei que a guria tem isso.  Cristiane me contou do caso de vocês três. Quer dizer, sabia o que era antes dela me falar.Agora, Cris espalharia aos ventos:

- Mas bá, ela só falta botar no jornal!

- Não. Conhece a Cristiane. Contou por que sou mais chegado, mal ou bem, fica postura de irmãos mais velhos em relação a vocês. Depois, eu estou pouco me importando com as neuroses do outros, quanto mais as tuas!- Fazia lógica. Tispa foi banhar-se.

         Ráina era tal borderline, mas consciente. Sempre aludiram a dificuldade do homem em relação ao comportamento feminino. Todo mundo adora uma franga, mas ninguém assume, nenhum fica muito interessado no por que da galinhagem. E na maioria dos casos nem a galinha gosta de ser apontada como galinha. Odeia, aliás. Como diria o pessoal do asilo, a leviana. O que falha em um, virtude no outro. Macho é macho, mulher é recatada, doce, gentil. Até na semântica: chamar de macho elogio, chamar de fêmea,  remete a sexo, ofensivo. Mulheres bem vistas não fazem pouca-vergonha. Para graça de algumas, a modernidade, a tecnologia, a oficialização da satisfação do desejo superficial: o ficar. Todo mundo fica com todo mundo, todo mundo beija todo mundo. Esse narrador beijou tantas que perdeu a conta. Observou meninas do primário contarem com quantos tinham ficado como quem conta peças de roupa. Assistiu relações de afeto,  estáveis por aparência, terminarem por uma ficada, muitas vezes sem álcool para acusar de culpado, frase mais acolhedora do universo: “eu estava bêbado”.

          Parecia nem tão idiota sentir-se feliz com toque de mão de Déborazinha, nesse cotidiano paraíso de aperta, -e- enfia a língua, das relações modernas, tecnológicas, e consumíveis. Suponhamos que individualismo, ao gosto da forma de produção, tenha uma parte na ditas “mudanças de comportamento”, e, por conseguinte, o tal tão feminino “ficar”: as “MINHAS necessidades”, o “MEU desejo”, as “MINHAS roupas”, o que “EU acho”, “Compre aqui e VOCÊ será mais lindo que o vizinho.

 

  XVIII

          Sem muita conversa, esperamos o ponteiro executar sua trajetória circular.

         Falsidade: o contador de tempo do apartamento era digital. Um artefato impossível nos anos setenta, raro nos oitenta, abandonado nos noventa: nosso relógio de parede tinha números.           Deixamos o apartamento pelas onze e pouco, rumo inexpugnável ao Tradicional Diretório. Mais uma outra sexta-feira de puro êxtase e luxúria... 

         Não sei se importante seria falar um pouco do relógio de parede digital. Um contador de tempo avermelhado, números de duas polegadas e meia. Daria para converter para centímetros,  minhas aptidões universitárias careciam de informação técnica desse nível. E que mais dizer sobre o desenho de um relógio? O objeto pertenceu a uma tia modernosa de Tispa, da vez que a outra morou um tempo por Londres, pouco antes da Anistia. Como se sabe, os gaúchos do interior adoram ir lavar pratos em Londres desde os primórdios. Os da cidade em que passa essa narrativa, obcecados. Assim como os mineiros de Governador Valadares adoras os EUA como um todo, os santamarienses vão servir cafezinho em Londres, em particular. Creio que tal peça deva ser lixo cultural do tal período “new wave”, ou qualquer coisa assim. Quer dizer, lixo cultural para os dias que essa narrativa acontece. Na época um sinal da vitória da evolução, um bobo sem ponteiros. Chamava atenção, nada comum uma peça daquelas, sobrevivente de época esquisita, e por isso, para lá de desnecessário. Ora, por que raios um bobo de parede com números?

      Quase meia noite, chegamos no nosso destino.

     Via-se o povaréu freqüentador exibindo-se, comprando cerveja dos ambulantes de sempre, tentando encontrar maconha, na frente do Tradicional Diretório. Algumas moças, ligeiras e tão saradinhas, fazendo questão de mostrarem-se sem nenhuma vergonha. Ou fingirem, ao menos, visto que ninguém consegue ser tão sem limites. A vida social da classe média é fingir tão bem quanto o poeta.

     Pois o mais atento deve andar pensando: onde está a massa menos favorecida deste texto? Num país que... ba ba bá ... Onde a desigualdade ba ba ba... E a grande maioria ba ba bá.. Onde estão os populares propriamente ditos? Falamos de realidade universitária. E universidade federal. E de cursos como Medicina, Psicologia, Direito e outras. Agora, procurem os historiadores, nos dias que se sucede essa narrativa, algum filho de assalariado dentro da realidade universitária de uma universidade federal nesses cursos.

      Voltando a frente do Tradicional Diretório, uma massa de estudantes empeçava a atulhar-se à frente da porta do Diretório, e de um ou outro bar menor dali, que sempre aparecem em lugares de movimento. Tipo peixes-piloto em boca de tubarão com as sobras de bebedores que escapam do objetivo comum: entrar e tentar “ficar com alguém” no Diretório.

       Por que ficar se empurrando na frente da porta?

        Para se exibir, fingir ser alguém especial por que pôde comprar uma ou outra valorada peça de vestuário. Até daria para se fazer um mestrado sobre isso. Imagino ser sobre temas parecidos esse tipo de tese. Bueno, o  que importa é que somente o Criador sabe o que se faz, e que fim prático há, num mestrado.

       Tispa disse que esperaria Fabiana na entrada. Compramos uma lata de um desses vendedores ambulantes conhecidos.

        Quedamos a admirar o povo.

         Imaginei que Ráina e o resto das gurias ainda não haviam entrado. Imaginei que Déborazinha viesse sem o namorado. Como diz o outro: elas querem os velhos ricos para casar, mas a gurizada para amante. Palavras sábias.  Aquele momento, empiricamente falando, mais fácil terminar numa cama com Débora Comprometida do que com Ráina livre e desimpedida. A vida moderna guarda algumas  idiossincrasias curiosas, para não dizer paradoxais. A solteira menos acessível que a comprometida. Vá entender.. Estávamos numa boate, eu, estudante de medicina. Uma imensa possibilidade de “comer alguém” pairava. Ora,  qual aquela moça não famosa, comum, que não se deixaria seduzir por status quo desses?

         Ráina. Justamente aquela branquela inseduzível a minha imensa capacidade de ser médico em um futuro próximo.A minha capacidade de ter uma clínica, fazer aperfeiçoamento no exterior, de ter carros alemães, dar a ela cirurgias plásticas, viagens à Paris, casacos de bicho peludo em extinção. Enfim, estávamos ali, povo se exibia e comprava trago em frente ao Tradicional Diretório. Em breve, entraríamos. Outra sexta-feira

Virei-me. Vi Fabiana se aproximando com uma amiga feia. Toda gostosa tem uma amiga feia.

- Boa noite, meninos! – Cumprimentou-nos faceira.

          Tispa sorriu, esticou-lhe a mão, não disse nada, no gesto mais frio do mundo. O que fez com que a outra se derretesse. Pensei: quando crescer, quero ser igual a esse cara. A amiga feia ficou meio de lado.

- Essa é Aure. Vocês já conhecem, não conhecem?-Apresentou Fabiana. Obviamente, todos conheciam-na, nas savanas, quer encontrar carniça, observar onde sobrevoam os urubus. Quer encontrar a gostosa, procure a amiga feia.

- Oi, tudo bom.  – Cumprimentamos. Seco, sem chances de sexo, como se deve cumprimentar alguém que não interessa. Entramos no Diretório. Mostramos as carteiras universitárias ao enjoado da entrada. Quer ver algum, ficar enjoado, dê poder a ele. Dê poder a um estudante, teremos o superlativo da afirmação.Pensei em ficar mais algum tempo esperando na frente. Creio que na esperança classe média ser classificado importante por estar de roupa cara. Percebi a imbecilidade do ato, entrei sem protestos.

           A passar em definitivo ao teatro de operações, descíamos escada em linha reta, mal iluminada, como os lugares de festa do tempo do nosso relógio digital. Findada essa, o porão, os bares, a baixaria de mexer de um lado para o outro como se isso fosse a maravilha do mundo, e não belíssimo ritual de disfarce. Disfarce de intenções, ora.

         Chegamos perto de uma parede meio descascada pelos arretos sucessivos da comunidade freqüentadora. Se a leitora nega o que possa ser arretos digamos serem chamados arretos aquilo que a mídia, as absolutamente desnecessárias sexólogas, denomina preliminares.  reliminares do ato em si,. executadas em local público, por que não? Nada de errado em chupar, lamber, pescoço, nuca, parte dos seios sobressaindo do decote, mão nas coxas, nas ancas, e onde mais a  que a moça consentisse. Por que não? Depois, se aquele povo dependesse de motel, morreria sem comer ninguém. O capital mal dava para umas quatro cervejas, quanto menos, hora em uma cama alugada. E constatem: muitos pais se admirariam das liberdades que as filhas dão a desconhecidos em público.

          Afastei-me do clã para comprar os tíquetes do líquido santo. Comprei–os,  não sem perder a chance de me esfregar numa, ou outra, fazer cara de macho para um, ou outro, no caminho. Como bem posicionados perto de uma das copas, trabalho era esticar o braço para o atendente, depois de tê-los. Fabiana gritou comigo no ouvido:

- E as namoradas, onde estão?- Seria delicado dizer que a namorada de Tispa sussurrou, ou semelhante. Porém, se tivesse feito assim, não teria escutado. Ela gritou mesmo, lembrei-me de minha querida avó, referindo-se as minhas pretendentes.

-  Nem sei!- Berrei na orelha da outra. A gringa bebeu, achou graça da minha assertiva tão coerente. Tispa cuidava a calça feminina de alguém, nem reparou em nosso colóquio fraterno.

       Dei-me conta que havia pouco diálogo entre nós. Em verdade nunca, paramos para conversar sobre assunto, mesmo cruzando consigo várias vezes no apartamento. Quando recordava ao seu respeito, vinham imagens como: “vagabunda”, “deu pra todo mundo”. Preconceito machista, terrível. Agora, por que tinha feito com vários queria dizer que não tinha um encéfalo desenvolvido, uma personalidade? Haveria de ser sempre a vadia da aldeia?

       Bebi, para tirar o gosto dessa idéia.

       Tocava um rock balada na aparelhagem. Deus sabe como rock balada é chato. Costumam falar de “girls” virgens e indecisas; “feelings” incompreensíveis; “loves” mais bregas que bolero de uruguaio. São os que mais vendem. Estava lá um a entupir de incertezas importadas o ambiente, de forma inevitável, trazendo a lembrança de Ráina. Estranhei. Ela deveria ter chegado.

        Talvez tivesse ido fumar maconha  em algum lugar. Talvez, com crise borderline, fazendo cafuné em algum mendigo. Poderia estar com Sancho, todavia.

         Ou só estivesse atrasada.

         Peguei outra garrafa. Atendendo ao tédio geral da casa, tiraram a porcaria do rock balada,  soltaram um punk rock nas caixas. Felizmente. Tispa beijava Fabiana. Reparei que a amiga feia olhava para o chão. As amigas feias costumam agir dessa maneira.

Por piedade, a mais santa das piedades, aproximei-me. Ofereci o copo.

   - Como é teu nome mesmo?- Perguntei.

   - Aure. Ou Aurélia. Mas todo mundo me chama de Aure.

O nome não parecia estranho:

- Aurélia...Aurélia... Tinha alguém com esse nome...

- Aurélia Camargo, do livro Senhora, lembra?

Lembrei-me imediatamente. E também:

- Ah, sim. Mas eu não li o livro, só o resumo que deram no cursinho.- A moça sorriu. Não que não tivesse sorrido outras vezes. Foi primeiro sorriso que reparei.

- É, como todo mundo. Só na base dos resumos. Normal. Se não caísse no vestibular, caía no esquecimento. – Afirmou ela. Foi minha vez de achar graça.

Vi uma cabeleira escura, um vulto esguio, algo familiar. Virei ligeiro, mas era outra qualquer, não quem esperava. Lembrei que deveria esperar Déborazinha, não Ráina. De nada serviu a lembrança.

  - Tchê, e o tal Sancho?- Perguntou Tispa, soltando a boca da namorada.

  - Não sei. Deve estar por aí...Tradicional Diretório lotando àquelas horas. Uma mulherada sem fim caçava desesperadamente melhor pretendente. Devia ter trazido meu boné com os dizeres: “Futuro Médico” em azul chamativo. Terminava a noite acompanhando.

Mas não desejem ainda minha morte, leitores não-médicos. A questão não é de ser melhor ou pior. A questão transpassa o fato de em nossa cultura, e estrutura econômica. Médico é igual a alguém com dinheiro. A gurizada mais nova, que se torna arrogante quando passa na pasmaceira de um vestibular, mal têm essa noção. Pensam por que foram aprovados entre vários candidatos serão grande coisa. Pensam que por andarem com uma roupa branca serão grande coisa. Pensam que quando a titia conta para a comadre: “meu sobrinho faz medicina” serão grande coisa. Que a humanidade há de abrir o arco dourado dos vitoriosos por sua nobre graduação.

 Besteira.

É a associação direta, sem dó ou cafuné: médico igual a boa condição financeira.  Acabado,  arcos, foguetório, aclamação.

Vi Ráina passar com Pá há alguns passos. Quis chamá-la Num sopro de dignidade, virei as costas, segui conversando com Aurélia.

- O que tem aquela moça? – perguntou a feia com ar matreiro.

- Que moça?

- A morena de cabelos compridos, que passou com a ruivinha sem graça.- Acertara o alvo minha nova conhecida:

- Nada. A gente ficou algumas vezes.- Aurélia pôs o copo de cerveja na boca, como se tivesse acreditado.

- Sabe que as gurias chamam a ruivinha de um apelido. Tu é amigo dela?

            Eu até teria laços de amizade. Sempre a chance de uma gozação, porém.

- Pode contar.

- Galinha polaca.- Tranquei o riso na goela:

- Por que galinha polaca?

- Bueno, olha a cor da guria, vai ver por quê ...- e riu ironicamente. De fato, Patrícia vinha de uma região do estado com forte migração polonesa. Era avermelhada, cabelos vermelhos Pensei cruel aquilo.

- Que sacanagem! .

- Nada. Que ela cisca para todo o lado, cisca-cisca.- Conhecia a ave galinácea. São esquisitas, tem o pescoço pelado. Minha querida avó tinha algumas galinhas polacas na estância. E ciscam sem parar. Igual Patrícia, estimada amiga.

- Quem chama ela de galinha polaca?

- O pessoal da administração, não é, Gringa?- Aurélia puxou o braço de Fabiana, distraída,  tentando ficar bêbada. Como o som não permitiu ouvir, repetiu  perto do rosto da colega.

Fabiana virou-se para nossa conversa:

- Verdade. A galinha polaca. Ou carijó de velha...

   “Carijó de velha?” Aquela eu não conhecia. Carijó, outro tipo de galináceo. Mas por que carijó de velha?

- Por que carijó de velha?.

- Tu já reparou no tamanho das ancas dela? Vai dizer que não parece uma galinha gorda, um carijó de velha?- Caí na gargalhada. Carijó, um tipo de galinha arredondada pelo formato das penas. E bem sabe o interiorano como as senhoras mais idosas mimam os seus bichos de pátio.. Depois, Tispa que era o gaudério.

Rimos. Bebemos mais um pouco para confraternizar-nos.Eis que se não quando, carijó, digo, Patrícia e Ráina se aproximam. Dou-lhes as costas novamente, fingindo pouco importar a presença:

- Oi gurizes! – Anuncia Pá a sua presença. Creio que os convivas devem ter feito mesmo esforço que esse para controlar risada inevitável. A galinha de senhora de idade avançada cumprimentando

Virei-me. Patrícia veio a mim. Minha amiga, apesar da pilhéria:

- Ela ainda está só hoje... Pode ser teu dia... – Disse em tom de confidência. Tomei outro gole. Sem efeito ouvir aquilo.

         O problema maior do ficar, em opinião de rodapé, reduz a maneira como os acontecimentos se passam. O cidadão beija a cidadã, e não significa muito além dessa afirmativa. Não precisa de requisitos, atração anterior, desejo declarado ou escondido. Patrícia insinuou que seria minha noite de sorte, pois nada anteriormente faria que isso não fosse verdade. Creio, mesmos os cães lembram uns dos outros depois de acasalarem. Afirmo, pois seus primos lobos mantêm parceiros fixos por toda a vida. Entre ficantes, todavia, sempre ação primeira, irresponsável, e nova. Mesmo que tivesse esbofeteado Ráina em nosso último encontro, respeitado o devido exagero, ficaria com ela sem problemas depois, afinal, estaríamos apenas “ficando”, toda a relação entre nós estaria reduzida a isso. Tal duas samambaias desmemoriadas, começaríamos e finalizaríamos sempre do zero.

            Ráina decentemente vestida de calça preta e blusa azul. Raro vê-la de celeste. Ofereci o copo as meninas.

- Cadê Déborazinha? – Perguntei à amada. Olhou-me com a cara de desprezo de costume,  expressão de quem estava pouco se importando. Deus não devia ter feito aquela criatura.

- Não sei. Deve estar com Luciano.

Deus não, certamente. Na hora de distribuir as formas dos seres humanos, a dela despencou no fogo dos infernos. E Diabo pôs o tempero de minha desgraça.

- Sozinha por enquanto, Ráina? – Provoquei a vespa. Sou filho Dele, ora. Tenho direito a redenção.  A guria além do desprezo, pôs um ar de “o que tu tem a ver com isso” na boca perfeita. Preferiu responder, educada

-  Não tem ninguém interessante aqui hoje!

Silenciei. “Fala o que quer, ouve o que não quer”.

- Mas isso não é nenhum problema para ti, não é mesmo? Perguntei arrogante, irônico,  passando a chaira na língua.

-  Qual teu problema, guri? Tu tá estressado, é?- Meu amor não gostou da ironia. Disse que amava aquela mulher. Em nenhum momento afirmei que engoliria ofensas ou provocações. Virei o rosto, desfoquei o assunto. Vi Fabiana, abraçada em Tispa, mirando espantada. Vi Ráina se oferecendo para um que passou sem nenhum pudor.

           Quis baixar a ripa, o sarrafo, descer bordoada naquela vagabunda. Quando quis agredi-la verbalmente, a amiga feia puxou meu braço:

- Vêm, vamos comprar cerveja comigo!- Saímos os dois direito ao lugar dos tíquetes de cerveja, ou vale-ceva, para os iniciados. A feia puxava minha mão. Estava de saia, primeira vez que reparei como se vestia. Primeira vez que olhei seu corpo. Era atraente, de costas.A beleza é cultural. Mas nós, apenas produtos da nossa cultura. Esse, simples filho da classe média pseudobranca, universitário, acadêmico de medicina de instituição pública, impossível de se desatar do que a sociedade mediana, medíocre, pré-determina como bonito ou feio. A guria era feia de frente, mas bonita de costas. Em palavras machistas: “Raimunda”, feia de cara, mas boa de... 

            Guiou-me até a fila da compra.   Dado aperto da fila, aproximei-me o máximo permitido pela física do corpo da feia. Senti cheiro e calor subirem do peito ao nariz. Lembrei-me outra vez de seu nome:

- Aurélia, quem sabe a gente não deixa para pegar depois que diminuir o movimento ... Disse no pescoço, aproveitando para sentir seus cabelos no meu rosto.

- Capaz... Nós estamos aqui. Vamos pegar agora!

          Sou humano, pobre de espírito e convencional, já afirmei. Aurélia  estava gostando do aperto comigo, queria ficar mais tempo no aperto para ver se despertava alguma atitude desse macho. Queria ficar, transar. Tinha despertado tesão na pouco provida de beleza. Como não pensar dessa maneira?

          Apertei-me com intensidade contra ela. Para não ser delicado: cravei meu quadril contra aquela pior das intenções. Com multidão espremendo-se para consumir álcool, boa desculpa teria.

         Mesmo ali, o que Ráina estaria fazendo, com quem,  não saía da idéia. Deve ser isso que chamam de amor, com tudo para dar certo com uma pessoa, incapaz de parar de pensar em outra. 

   

XIX

           Voltamos, trombando em um ou outro passante. Encontramos todos onde os deixamos. Ráina estava ainda sozinha. Quer dizer, ninguém explorava o seu palato-médio por enquanto.   Creio que por instinto puxei a amiga feia para perto. Os macacos sem pêlo, tal como os animais de bando costumam, adquirir intimidade com semelhantes que façam atividades em comum. De certo, algo de comum havia entre nós por ali.

         Ráina não me olhava. Fitava as luzes, o peito de um, a cor das manchas da cerveja virada pelo chão imundo. Olhar para esse, porém, nunca. Creio que por lembrança de minha aproximação quando de nossa ficada: parei a admirá-la, olhos nos olhos, depois a aproximação,  soneto e emenda, e beijo de língua, tal regra social, nem mais ou menos. Não fizemos sexo. Como disse, aquela não fazia sexo. O amor tem nuances dignas da comédia. O amor não passa de uma comédia: o constrangimento, a desgraça, e a torta na cara. Não basta sensação detestável ser unilateral, egoísta, e escravizadora.

           Ráina nem fez sinal quando um incauto passou-lhe a mão no traseiro. Vi, estava de frente para ela. Nem olhou para trás, a imprópria.

           Aurélia puxou-me:

- Não esquenta. Se a gente fosse bater em cada um que passa a mão aqui, dava morte!

          O mundo moderno e suas curiosidades. No passado, mal se via o tornozelo. Agora além de se trepar com quem nem se sabe quem possa ser, ainda instituída a mão na bunda, mão boba, como diziam meus tios. Tudo normal. Arranca-se o bolso da calça de uma, se alguém bater no tipo, vai preso e processado. Nunca mais concurso público.

- É verdade, Aure... – respondi  à amiga feia.

- Mas tá na cara que tu gosta dela! Não dá nada!

  - É uma baita cadela, Aure!- A guria pegou o copo de minha mão:

- Toda mulher é uma cadela em potencial!- E bebeu.

          Entendi o recado.Mas difícil não é entender: é aceitar.

         O sucedido no resto da noite em nada se diferenciou do resto de todas as noites no Tradicional Diretório. Bebemos, até acabar o dinheiro, dançamos como macacos bêbados, rimos bastante, e no fim, Ráina sozinha, o que muito me surpreendeu.

           Impossível de se estabelecer comunicação eficiente entre mim e Aure, restou-nos dançar.

           Pelas cinco e alguma, Aurélia e Fabiana decidiram partir. Certamente Tispa haveria de acompanhar Fiz o mesmo por solidariedade. Ráina e Patrícia deixaram o Tradicional Diretório desacompanhadas.

        Subimos a escada, agora saída. Fim de festa.

       Tão logo a gringa passou, tipo estranho, desses que tardam sobrevoando porta de boates, inadvertidamente, tocou Fabiana de mau jeito. Sem delicadezas: enfiou o indicador, com toda violência, em uma área restrita, digamos, da namorada do amigo Tispa.

         A   gringa dá um pulo a frente, sem olhar para ver de onde tinha vindo àquela mão.

         Tispa caminhava ao seu lado. Parou, Fabiana a puxar-lhe, temendo a confusão iminente.

         Vinha esse narrador com Aurélia, mais atrás.

       Aquele dogma de não bater em bagaceira para não ser processado? Bem, não se aplicava ao estudante de direito, e fronteiriço, Tispa

        Ele estaqueou-se. Índio acostumado à lida, não se atracou, de vereda, com o tipo, deduzindo, sozinho, somente um muito drogado para meter com a mulher de alguém. Não estava: havia quatro ou cinco com ele. Todos parecidos, tipo longe de ser universitário quanto gato à água, marginais de verdade, espécie sabedora da relação estudante-drogas. Foram ali para vender pó,  baseado, ou para assaltar, bater em filhinho-de-papai, estudante, classe média pacífica. O principio da coação: uma turma contra um, sem menor vergonha, como se donos da rua, reizinhos absolutos do monopólio da violência;forma de revanchismo social “vocês têm, eu não, eu bato em vocês”.

           Então, passaram a mão na namorada do cara: “E aí bundão, filhinho-da-mamãe, vai fazer o quê? Metemos com a tua mina, e daí?”.

            Enfiaram o dedo na mulher errada.

            Tispa contou os três ocultos. Mirou uma cadeira vazia. Não sei se citei, havia um bar terceirizado na entrada do Tradicional Diretório, dentro do recinto do lugar. Está citado. Mirou nos olhos do rapaz que enfiara o dedo, bem mais franzino que ele. Um dos três, vendo a bronca, ergueu-se de onde estava sentado, logo adiante, prontos eles a surrarem um pl,ayboy.

  - E aí, piá, perdeu a noção do perigo ou a vontade de viver? – Perguntou  Tispa  ao agressor de sua namorada.

            Quando eu crescer, quero ser igual ao Tispa.

Aquela altura disposto  barbárie sem pingo de  titubeação. No ínterim, parei Aurélia:

- Fechou! Sai pelo lado, e some!- Disse a ela.Também dei minha de herói-cavaleiro: mulheres e crianças primeiro, como em um navio naufragando.Aurélia passou. Fabiana, conhecedora de confusões, deu uns três metros do namorado e o criador de casos. Deu espaço seguro, mas não deu as costas.

              Digam o que quiserem. Se fosse mal acostumada às violências da vida, teria tentado tirar o namorado dali, feito gritaria, entrado em pânico. Ao contrário, distancio-se e esperou para ver o tamanho do osso.

          Como diz o popular: “Na rua, passou  das três da manhã, não há mais virgens”.

          Quanto a esse, tinha vantagem de não ter sido visto. Táticas de guerra: a turminha tentaria cercar o amigo aguerrido, tentariam derrubá-lo e chutá-lo. Esperaria de minha posição, e atacaria por trás, com todo o ímpeto de um guerreiro Charrua. Não durou mais que segundos o encarar do amigo com o sujeito: deu-lhe um tapa com a destra no ouvido, esse desaba ao lado. Como esperado, Tispa esquivou de um soco do cidadão que atento, já havia levantado, e acerta-lhe um coice na virilha. O pobre agacha-se, Tispa agarra-o pelo cabelo e desfere um soco de cima para baixo no nariz.

       Um terceiro pula de trás. Tispa, sem piedades, pará-lhe com uma direta fatal nos queixos: cai por cima da mesa. Três no chão e um de pé.

       Quando crescer, quero ser igual ao Tispa. Dois que sobraram, vendo o tamanho do problema, vacilam. Devo confessar que se o namorado de Fabiana não fosse sangue-frio, o resultado diferente. Tispa pula, acerta a cara de um dos que vacilaram. O índio é touro, tonteia, mas não caí. Outro dispara na direção. Tal a regra: só são homens de seis para cima.Tispa agarra uma cadeira enfia uma das pernas na buchada do infeliz que não caiu, ele se agacha, tenta pegar outra perna do móvel de sentar, leva uma cadeirada. Cai como um cobertor de um armário.

Era guerreiro, não santo, meu parceiro. Não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo.

       Os inimigos estavam em maior número: um outro desabala correndo por trás de Fabiana, passa por ela. Para o meu absoluto espanto, a gringa dá um passo a frente e chuta a perna do cara por trás, na mais exata das rasteiras. O cidadão cai de nariz na calça de seu namorado.Pobre derrubado: Tispa recua, dá-lhe um tiro de meta em cheio na face do caído, sem mínimo respeito pela anatomia humana. O cidadão apaga, nocauteado, onde havia caído.

           Pois que o primeiro a ser derrubado levanta-se e parte para cima de Tispa como um animal furioso. Péssima idéia: o amigo agarra-o pela garganta, e o acerta com a esquerda de todas maneiras possíveis.

            Nisso um outro ataca Fabiana. Dá um tapa. A gringa se defende. O indivíduo tenta pegá-la pela cabeleira loira.

             Minha vez de entrar em campo.

             Como um cavaleiro persa, abandono o covil de onde aguardava, ganho velocidade, salto o maior salto de minha jovem carreira de macho, com a sola do tênis no peito do covarde agressor de mulheres.  Na verdade, nem foi pulo tão alto, ou tão cinematográfico. Mas derrubou. O cara desmontou de costas no chão. Vi Tispa entre os três, desferindo e esquivando.Empurrei Fabiana para o lado. 

             Entrei no combate. Trezentos anos de história, gaúcho farrapo, e etc, aquela conversinha toda...

            Nada supera o calor da batalha. Nenhuma sensação.Que amor,o que! Onde o homem sente o homem escapando das narinas, sangue escorrendo entre as gengivas, apertadas pelo rosnar dos caninos, presentes sempre, nunca lembrados Danem-se os pacifistas, a luta corpo a corpo é fundamental.

           Dei um mata cobra meio atravessado na nuca de um dos sujeitos. Até ali, pensava que qualquer soco derrubava. Não derruba. O cara virou-se, levei uma porrada na cara, quase caí. Quando abri o olho, outro sopapo passou de fino no nariz. Era o índio vindo para cima. Soltei outro, mirado o olho do animal. O cara recebeu, sentiu e recuou. Soltei mais dois, três, quatro, todos contra os olhos daquele traste. No quarto, o sujeito tonteou e caiu com a mão no rosto, temendo levar um chute na cabeça. Não chutei: pisei-lhe a barriga. Virei, haviam derrubado Tispa.

          E mesmo caído, soltava coices certeiros, evitando que a turma conseguisse chutá-lo.

         Saltei abrindo roda.Levei uma bordoada na têmpora, e cai. Mas deu tempo para o guerreiro, de fato, erguer-se. Em pé, os agressores recuaram, Tispa avançou acertando mais um. Quando crescer quero ser como ele. Um soco e um caído. Outro soco, outro de cara no chão. Os oponentes estavam perdendo a vontade de pelear, Tispa continuava a atacá-los como um cachorro de briga.

Nisso, vi Fabiana encaixando um golpe conhecido como gravata no mais forte deles. A guria tinha torcido o quadril, prendendo antebraço pelas costas do pobre na garganta. O estrangulado fazia força para não ser derrubado. Num jogo de pernas, soltou ela os joelhos trazendo o enforcado ao solo, sem soltar a trava mortal da goela dele. O cara se retorcia, tentava se soltar de Fabiana  Um dos parceiros dele foi acudí-lo. Tispa não viu,  distraído em afugentar a patota, saiu do recinto distribuindo socos e cabeçadas. Tentou chutá-la para que largasse a chave. Fabiana percebeu e largou. Levantei-me, na corrida outra vez. Acertei a perna nas costelas do desgraçado. Derrubei-o.

          Deu para ver o meio metro de língua para fora que o mais forte colocava ainda depois da gringa ter soltado a gravata terrível. Depois, diria ela que fez judô quando criança, golpe estudado, talvez o único bonito daquela rebordosa.

         Nisso, alguém da multidão, alheio a cena, pulou chutando o cara que  atacou Fabiana,  o caído enforcado. Outro, e mais outro vieram do povo estudante. Fez–se  uma turma de improviso e todos passaram a coicear a cabeça, barriga, pernas do pobre. Corri para acudir Tispa do lado de fora. A pancadaria havia se generalizado. Todos batiam nos nossos oponentes. O que passara a mão na guria conseguiu erguer-se dos catiripapos e passar por mim. Era o franzino e magro, do tipo que conta sempre com maior número, e a não reação das vítimas.

       Olhou-me, mesmo com o nariz rebentado, corajoso, encarou. Rebentei-lhe as fuças, caiu, e chutei outra vez. Doeu-me os dedos! Filho da puta, quebrou-me os dedos! Pisei na cara do indivíduo que gostava de meter o dedo na namorada dos outros. E que meus professores de anatomia não me ouçam: enfiei o calcanhar, para quebrar-lhe os dentes. Quebrou-me os dedos!

      Tispa ligeiro. Visto que a massa observadora partira contra os seis, batiam-lhes, não deixando  fugir, catou a gringa pelo braço, saiu no meio do auê.

Um dos que vacilaram com o amigo, levava chutes. Talvez nunca esqueça da cena: sentado no chão  ergueu os dois braços tentando proteger a cara, pedia pelo amor de Deus que não o chutassem.  E o povo estudante chutava, com Deus e tudo.

          Vi Aure correndo aonde s outros. Fiz o mesmo. Fugimos até a esquina.

Eis que se não quando, dobra a rua o Estado, suavemente identificável pelo nome de Pelotão de Choque.

  

XX

            Não afirmo que eles estivessem ali pela briga em especial. Digamos que estavam ali na sua rotina de sexta à noite. Pararam ao nosso lado. Saltaram oito brigadianos da viatura. Paramos.

            A turba continuava, sem perceber, o massacre. Um sargento desceu do carro, ficou a olhar a cena medieval sem entender nada. Pegou o cacetete, deu a risada da experiência quando viu uma nobre acadêmica correndo com uma taquara na mão. Sei lá por quê, onde há tumulto, sempre aparece uma taquara.

- Gurizada, que está havendo aí?- Perguntou-nos sarcástico o sargento, rindo da gritaria de outra menos nobre acadêmica, essa pouco garantida na violência, pedindo o fim do linchamento, ou algum direito humano.

            Tispa foi muito técnico com o policial.

- Parece que foi um “157”, e a gurizada se emputeceu.

O resto da tropa já alinhava os cacetes, e lambia os beiços, ria dos gritos, da turba inflamada.O Sargento fitou com espanto. Deduziu que lidava com alguém da área.

- 157, rapaz?  Vocês viram?

Tispa estava alinhado aquela noite.

- Não.. Só vimos um elemento evadindo, com uma galera de atrás.

- Evadindo, é, rapaz... - O sargento reparou na marca de soco que Tispa tinha na face direita. Deu outra risada de canto de boca, cuidou Fabiana escabelada. 

          E àquelas horas, de briga por desaforo a linchamento nordestino clássico, um inferno de Dante pintado por Goya: correria, chutes, gritos histéricos de “Pára, pára, fulano”, acompanhamento de “chuta, mata esses filhos da puta”,  “pisa no pescoço”. A moça que berrava os direitos humanos, nervosa e meio bebum, chorava; uma patricinha corria com um tijolo. Até um cachorro latia, aproveitando a opotunidade.

Um tenente saiu detrás da viatura:

- Que bagunça é essa aí, Souza?- O sargento manteve o sorriso na face:

- Segundo o estudante aqui, tentaram assaltar alguém, a gurizadinha que estava na frente  pegou os elementos, tenente!- O tenente cocou a cabeça:

- É? Foi assalto  Então, dá mais um tempinho pra gurizada se divertir! Quando eu estava na faculdade, Souza, me assaltaram bem ali naquela esquina! – E apontou ao sargento. Pareceu ser  que o sargento esperava ouvir. Nesse tempo, Tispa escorou-se numa parede. No meio do pega-arranca, esqueceu de descansar.

A tropa espero minuto, mais ou menos e avançaram. Divertido foi ouvir o berro da turba:

-  Olha a Choque!!!- E a multidão em desabalada carreira por onde podia. Depois da três, sem virgens:tem que saber disparar da polícia. Não ficou um.

       Restou os surrados mais sem sorte do mundo. Um tinha apanhado tanto que não conseguia ficar de pé. Nem quando o soldado enfiou a botina em suas costelas, mandando que se erguesse. Sob aplauso de um grupo que saia do prédio aquele instante:

- Isso aí, tem que baixar o pau nesses vagabundos!

Uma outra berrou:

- Os caras vem assaltar a gente aqui! Pode bater, moço!

Imagino que  apanhassem mais, cemitério.

  

 

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