Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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5. Capitulo 6 e 7

VI

            Confuso pelo apito da campainha, e  atendi. Era Sancho, mandei-o subir. Até esqueci que ia bater naquele traidor. Bater não, processar. Somo homens modernos.

- Bá, mas tu tá dormindo ainda?

Esfreguei os olhos. Fedor de suor com cigarro subiu das minhas roupas até as narinas. Um banho, urgente.

- Tu não vai na janta das gurias?

- Como tu sabe dessa janta?

- Patrícia me ligou . E que tem demais? Não posso ir?

A razão do processo contra ele acionou a memória:

- Qual é a tua de ficar tocando pedra nas minhas pombas?- Perguntei.

Sancho entrou na cozinha. Se a leitora crê que por constrangimento, recurso dramático, ou qualquer consciência parecida, esqueça. Foi beber água mesmo. E respondeu:

- Olha cara, pelo que saiba vocês não tem nada. Só ficaram uma vez. A guria tava lá, dura de trago. Eu também. Tu tinha sumido. Lei da selva, meu amigo: chora mais quem pode menos.

Calei-me. 

            Pessoas que aplicam a Lei da Selva são sempre divertidas. Sancho era o filho de uma puta que fazia disso uma arte particular. Estava certo que Ráina e eu não tínhamos compromisso. Mas que ele sabia de todas as minhas boas intenções para aquela moça, sabia. Se não respeitava a minha pessoa sabendo esse suficiente, não respeitaria mesmo eu e Ráina nem mesmo na porta do altar.

- É, está certo. Nós não temos compromisso mesmo.- Disse, sem nenhuma convicção.

- E já que tu tocaste no assunto, eu vou ficar com ela hoje de novo. Tu já comprou a cerveja?- Berrou ele com o copo na mão e aparecendo na porta.

Isso é que era amigo.Teve a consideração de avisar que passaria a mão na bunda de minha amada, outra vez. Isso que é amizade.

- Não. Tchê, eu vou tomar um banho. Tu desce ali no bar, pega as borregas, depois eu te pago.-Avisei, coçando a cabeça.

- Feito. Vou levar uma das chaves do Tispa – Respondeu ele.

          Tispa, meu colega de apartamento.Creio não ter mencionado. Fazia Direito. Aquele final de semana, fora para casa da namorada, ou que quer que fosse aquela, Fabiana. Uma gringa, por demais bonita, de Agudo. China que doía, terror da Administração, diziam que chupava como um aspirador, e fornecia tudo. Sabe como é língua do povo. No caso dela, setenta por cento de verdade. Numa daquelas noites de confraternização universitária, percebi Tispa de mão dada com a loira, desfilando como se fosse  mulher da vida do futuro jurisprudente. E o povo já olhando de soslaio, e a mulherada passando a chaira na língua, quando viram o casal. Noutra manhã, perguntei ao meu colega de morada que passava. Desceu ele uma de suas teorias:

- Seguinte, tu já viu advogado que não anda com china? Faz parte da profissão o chinaredo!”.

E quando tentei argumentar as circunstâncias do suposto “chinaredo”:

- A Fabiana um amor de guria, esperta e bem resolvida. Não tem por que mentir para mim, não tem dúvida, nem essas merdas de fantasias. E esses que ficam olhando para ela, sabem que nunca vão conseguir uma mulher dessas, nem pagando. E esse putedo, fica olhando de cara feia, com inveja por que fazem de tudo não conseguem chamar tanto a atenção que nem a Fabi. Tudo um bando de invejosas, boqueteiras de final de baile. Mentem, fodem com outros caras, chifram todo mundo, e no final, ainda se acham santinhas!.

Tispa não deixava de estar certo em sua maneira de ver. Verdade que ele gostava de Fabiana, e o que a outra trouxesse na bagagem faria diferença nenhuma. Gostava, namorava, e acabado.Bem disse um, as vagabundas quando namoram são as mais fiéis. Não tem muito que elas já não saibam em relação a si mesma, e as mentiras masculinas em forma ou essência. E sabem muito bem quanto vale um sentimento sincero nesse mundo de tecnologias passageiras.

           Sancho pegou a chave e desceu.

          Mercado ficava em frente ao prédio. Catei algumas roupas, entrei no banheiro. Se bem  consciente dos hábitos do tempo, a tal jantinha deveria começar pelas dez, finalizando pelas duas da madrugada. Daí, cada um para o seu lado. Os que quisessem casa, para casa. Os que quisessem mais distração, sempre restava boteco com ceva barata. Afinal, sábado, e como tal não daria um filme que prestasse na televisão.

Outra a ser notada: estudantes usam a sexta de noite para farra.

Quem usa o sábado é a massa trabalhadora. O máximo que os carregadores de livros fazem no sétimo dia é o boteco mesmo. No linguajar do sudeste, o barzinho.Mas cá entre nós, quem vai para “barzinho” é “viadinho”. Macho que é macho vai pro bar. Machismos à parte. Eu voltaria para casa. Dormiria o sono dos injustos da cama dos desmerecedores, tão logo me livrasse da tal janta. De Ráina, dos estalos dos beiços dela com os de Sancho, da carência de delicadeza assumida de Patrícia.

         Além, esquecido, das crises de Déborazinha.

        Terminado o banho, sentei me no sofá. Sancho havia comprado a cota pedida, mais uma, que bebia sem estresses. Apressei-me a pegar o copo.

- Que te parece à janta hoje, Sancho?       

- Nada de especial. Tu não ficou de cara comigo por que eu vou pegar a tua de novo, ficou?

“De cara” queria dizer irritado, incomodado, brabo. Por que ficaria indignado? Só por que ele enfiaria a língua na boca da minha mulher? Tempos modernos... 

- Aquela lá é livre para fazer o que quiser da vida! – Assevereii, em tom profético, quase autoritário.

- Isso por que não achou um que fodesse ela direito!- Respondeu ele.

Meti o copo na boca ao ouvir aquilo. Melhor calar-se.

- E o Tispa?- Perguntou, amigo traidor.

- Pra Agudo, na casa da gringa.

           Esperei ouvir comentário sanguinário sobre a conduta da namorada do meu colega. Sancho, porém, manteve o silêncio. Não que fosse além o tipo do cara que não se preocupa com muito mais além de si. O que não dizia respeito a sua grande pessoa, simplesmente, não existia para ele. Por demais injusto fazer-lhe crítica, nesses dias, a maioria das pessoas, desse lado do planeta, são assim ou piores. Andavam sugerindo que palavra egoísta desapareceria do vocabulário da humanidade: tão normal o egoísmo, não teria mais sentido rotular ou acusar alguém da falhar.Particularmente, pensei ser mesmo medo de apanhar que outra coisa Sancho evitar usar o veneno da língua contra a “china” do meu colega de apartamento. Fabiana, a gringa, um tesão de loira. Sancho, o sedutor, jamais deixaria passar sem uma tenteada, fosse por detalhe singelo: Tispa, mesmo sendo acadêmico do Direito, perfeito homem das cavernas. Jamais deixaria pra lá o prazer de quebrar uns dentes na boca de Sancho por qualquer parafernália processual judiciária. Traduzindo: se meu amigo querido bulisse com a mulher do outro, levaria uma surra. E Sancho, o senhor das donzelas, conhecia bem tal possibilidade. De fato, ele  já tinha presenciado o Tispa derrubar dois seguranças de clube aos manotaços, certa feita. Que se passasse com Fabiana.

- Que hora tu vai lá para as gurias?

- Dez, penso eu. Que vai ter de comida?

- Carreteiro de charque.

Carreteiro de charque, indispensável!

- A Pá que vai fazer?- Patrícia cozinhava mal, para cachorro refugar. Preciso prevenir-se, comendo um pão antes caso fosse ela cozinheira.

- Graças a Deus não! Tu não ficou de cara comigo mesmo por que eu beijei Ráina?- Voltávamos ao assunto.

- Não. Te falei: a guria é livre para fazer o que quiser!

            “... mesmo se atracar de beijos com um palhaço igual a ti...”

 

VII

        Bebemos a cota imprevista, descemos a escada em direção a tal janta da irmã da Déborazinha .Guardava esse por ela e a mana, Cris, carinho especial. Cris já uma mulher, não uma enjoadinha de primeiro ano de faculdade. Apreciava mais sua mordacidade, incomum, frente às laçadas diárias. Carecia ela levar a sério às dores próprias e dos outros. Carecia até de humanidade, talvez. Sei que a companhia fazia um bem tremendo.

         Sancho, um idiota presunçoso. Ia para ver se conseguia alguém diferente “para comer”. E nesses termos. Não “fazer amizades”, “conhecer alguém”. Para comer mesmo, levar pra cama, afogar o ganso, chamar na chincha, fazer sexo, enfim. Para isso, e se achando o gatão, postava seus tradicionais óculos escuros na cabeça, marca registrada de galã de padaria.

          Não poderia recriminá-lo. Situação curiosa, bem verdade. Nós homens humanos temos sempre que agir como cães no cio, se não, mal aceitos. Falácia? Pois vá num ambiente que tenha mulheres, não dê atenção devida, as próprias as primeiras a duvidar da masculinidade. Reclamam elas de serem oprimidas, faltar sentimento, mas as primeiras a exigirem que os homens não tenham psiquê. Tudo pelos desejos de fêmeas da espécie.

            Da rua, vimos às luzes do apartamento acesas. Subimos. Déborazinha, “zinha”, como de costume veio atender a porta, seminua. Em que época do ano estamos? Verão ou inverno? Como Ráina estava de botas e calça num inferninho e depois, de míni e sandálias? Não culpem a mim, culpem aos milhões de toneladas de monóxido de carbono lançado na atmosfera, depois de um século de petróleo. Estamos no inverno, verdade., nos dias que seguem essa narrativa houve um inverno sem inverno, graças à tecnologia do macaco sem pêlo.

- Oi gurizes, vocês vieram! Dá as cevas para eu pôr no freezer!- Cumprimentou-nos com a cordialidade costumeira.Déborazinha passou à cozinha com Sancho. Fui para sala cumprimentar.

Uma sala bem decorada no apartamento, diferente da maioria das salas dos outros viventes, da massa carregadora de livros da cidade universitária.

         Em verdade, uma decoração hippie, com direito à cortina de contas, um John Lennon na parede, com aquelas bobagens de “Give a chance to peace” Com razão, o lugar peça de família. Fora de tia das gurias, na década de setenta para oitenta, antes da reabertura política, as tais “Diretas Já”. Déborazinha e Cris mantiveram  igual à época da marijuana com cacetada de milico, e Cuba Libre.

         Cris, sentada, um copo na mão. Refrigerante. Estranhei. 

         Cumprimentei-a como se cumprimenta a outro homem. E motivo já foi explicado.

- Finalmente, bola nessa casa! Como vai, despretensioso amigo?- Retribuiu a mana mais velha preferida.

- Tudo em dia. E a senhora psicóloga?

- Na merda, como de costume. Tem alegria do povo na geladeira.- E tomou o fim do refrigerante.

- Tu falou “bola”. Quer dizer, só dá chinaredo aqui?- Perguntei.

- É. Até tua morena, Ráina, por aí. Mas tu sabe que sexo legalmente proibido nessas quatro paredes.

            Sorri. Reparei no cartaz do John Lennon, aquela cara de quem nem sabe o que está acontecendo, pedindo paz. Déborazinha e Sancho trouxeram copos e garrafa da cozinha. Déborazinha quase nua, e mesmo pelada, não dava conta de superar a mana. Cris, um monumento erguido à reprodução. Bem mais alta que a irmã mais nova, pernas compridas, e uma boca deliciosamente irônica por natureza que fazia questão de manter sempre sem nenhum batom.

  - Cris, cuida o charque pra mim que eu vou com as gurias lá no quarto.

Cris fez cara de nojo:

- Débora, tu falou que eu não ia fazer nada!

- Aí, Cris que te custa!

Sancho acusou o toso:

- Eu te ajudo Cristiane! Não dá nada.

Cris redobrou a cara de nojo:

- Não, Sanchito. Agradeço, mas a parte mais difícil, matar a vaca, já fizeram.Vai lá com as gurias no quarto. Tu, cabeçudo, vem comigo!- E apontou para mim. Sancho derreteu-se. Olhou o tal John Lennon rindo de sua cara, humilhado, e foi para o quarto. Fomos os dois para a cozinha. Não havia nenhum interesse especial da irmã mais velha de Débora comigo. Só a companhia.

Creio não ser interessante descrever a cozinha, até, tirando um e outro desenho de pano de prato todas as cozinhas são iguais. Cris foi ao fogão e panelas. Sentei-me numa cadeira, com copo na mão.Cris olhou para o fundo da panela e soltou:

- Como consegue ser amigo de um cara desses? Tchê, insuportável! E que é aquilo, aquele óculos na cabeça, a noite?- Pobre Sancho. Cristiane, cruel.

- Cris, queria saber como trata teus namorados!

- Que namorados? A situação tão caótica que estou pensando em virar sapata!

Sorri. Levei o copo cheio à boca.

- Bá, Cristiane...

- Sério. Eu passei da fase do arreto em banco de praça. Preciso de um macho com condições sócio culturais de satisfazer minhas prioridades. Os que têm dinheiro, bando de tios velhos, barrigudos, cheios das manias. Os jovens, fortes e viris, mais pelados do que eu! Mal têm dinheiro para pagar uma pizza. È situação desesperadora para uma jovem fêmea adulta, velha demais para me deixar beijar em esquinas, mas jovem demais para casar com alguém.

            Deduzi que uma intervenção otimista seria interessante:

- Sempre tem os militares, pessoal da ESA, os recém saídos da academia, os tenentes...

- Olha o bem que me quer! Mulher de milico! Pára com a cerveja.

Não entendi:

- Bueno, eles têm dinheiro, são jovens. Todos com vinte e três, vinte e quatro. E têm o poder da força no estado. Quer coisa...

-...E vai tu agüentar um milico! Burros, incapazes de movimento criativo que não esteja numa prancheta. Os da ESA, então, pelo amor de Deus, nem oficiais não são. Eu ganho mais cuidando de mongolóide na APAE que eles cuidando dos “titulares de direito do uso da força armada”.

            Abuso daquela mulher! Até eu dei-me por ofendido naquele instante. Afinal, era também homem. E todo homem, mal ou bem, um soldado. Ao menos em tese... Cristiane continuou:

 - E os oficiais? Bando de judiarias que se acham os tais. Saem polindo aquelas espadas ultrapassadas, “feita à imagem e semelhança do espadim de Caxias”. Duque de Caxias, pois, ladrão de cavalos. Deixou Solano Lopes escapar nas barbas. Até dizem que permitiu de caso pensado, numa guerra ridícula para defender os interesses da Rainha Vitória. Aliás, ou babaram no ovo da Inglaterra, ou do Grande Irmão do Norte os soberanos militares brasileiros, aquela vez do golpe de sessenta e quatro...

Fiquei vexado. Cabelos em pé com as declarações. Não sabia que ela tinha tantas, e tantas, idéias formadas a respeito. Até por quê tinha nada a ver com isso. Nem historiadora.-. E vem me falar de milico. Todo mundo sabe que os exércitos latino-americanos existem para oprimir a população desarmada e sustentar uma elite no poder!

- Tudo bem, Cris. Mas eu só dei a idéia de tu namorar um tenente, e não casar com a corporação, instituição Exército! Tem ser humano embaixo, que veio antes, da farda, lembra? E depois, o tal ladrão de cavalos venceu a Revolução Farroupilha, ganhou dos farrapos, surrou os gauchinhos!

No meio da peleia, quase esquecemos o carreteiro. Cristiane virou-se de súbito a panela para ver se havia levantado fervura. Visto, voltou ao ataque:

- Não, meu querido. O homem é o que ele faz. Sem mais nem menos. Se mandar um militar atual meter a baioneta na barriga de alguma pretinha favelada, ele deve meter a baioneta na barriga da favelada, e pronto. Se não fizer isso, ele será um péssimo militar, entende? O homem é o que ele faz, não interessa a época, a raça, grau de avanço da suposta avançada tecnologia. Isso não muda nunca. E quanto à vitória do ladrão de cavalos, leia os termos da paz de Ponche Verde, e me diz depois se houve algum vencedor ou vencido, aliás, se encontrar!

            Cristiane desligou a panela. Estranhei, minha tecnologia culinária resumia-se a de um australopitecus: cuidar a carne no fogo. Por isso gostava de Cris. Sempre saia como um sapo com sal nas costas,  sem escapatória, depois de conversar com ela.

- Ai, mas que assunto chato! Vamos lá para sala, ouvir os cérebros-de-alface tentarem se comunicar, vamos? – E pegou outro copo de refrigerante. Agarrei-me em outra loira gelada.

Voltamos à sala. Falavam nossos convivas de assunto de importância: o comprimento dos biquínis nas praias gaúchas, verão seguinte. De qualquer maneira, profundidade sempre ponto de vista, diria o John Lennon na parede.Sancho, amigo meu, aproximou-se inadvertidamente de Ráina. Livres  para irem e virem os dois, restava-me esconder as frustrações com espuma da cevada, desejo de tocar alguém com uma marreta de pedreiro.

        Discutiam a programação da televisão, o corte de cabelo de um apresentador, aquela egoterapia típica do “eu acho isso”, bons universitários, balaústres da nova classe média nacional.  Eu e Cris calados como lebres, ouvindo e não reagindo. Reagir, normalmente pior.       Parte admirava minha adversária preferida, Ráina, com os olhos de cão olhando o frango assado girar.Muitos passaram por isso.Muitos passarão por isso. Mas sempre um trauma único, mas sedutor. Ter interesse ali, alguns metros, não tocá-lo, não sentir calor, o gosto do seu cheiro. Tão comum, convencional. Eficiente.

            Alguém perguntou por que estava quieto. Disse que meu hd sendo formatado. Mandaram suspender a cerveja.

De repente, não mais que de repente. Ráina e Sancho levantaram-se e foram os dois para o quarto.

            Como a porta quedou uma tanto fechada, outra aberta, deduzi que os dois resolveram se atracar um pouco antes do jantar.

 

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