Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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10. Capitulo 50 ao final

 L

             A semana passou com o tédio costumeiro.

             Desde meu banimento, comecei a estudar definitivamente, até chegar a conclusão de que não seria mais médico, que não levava o menor jeito para medicina, e por mim que o tal Hipócrates sentasse num tijolo, e arrodeasse, estava nem aí. Mudei de idéia, entretanto, ao ver o veículo importado de um certo oftalmologista, professor meu. Perdoem-me os médicos de coração: decidi ser doutor de qualquer jeito.

            Encontrei Ráina solitária no restaurante uma manhã daquela semana. O sangue gelou, o estômago apertou, deixei-a ali consigo, aonde almoçava quieta.

            Comprei jornal e pão todos os dias. Para ver o marasmo criativo da vida do homem: jornal e pão como atividade extraclasse. Passaram uns dias agradáveis antes da chegada de novembro. Fez sol tranqüilo, e choveu. Do tipo de chuva boa para se sentar embaixo de uma marquise, e observar as pessoas fugindo. Descobri um ninho de pardais em minha rota de sala de aula. Passei a cuidar, ver se via um filhote daqueles dois debochados abandonar casa, deixar a mãe chorando. Bobagem: pardais não sabem o que são lágrimas. Não tive nenhuma quando encontrei um pardalzinho, sem penas ,devorado por formigas, caído embaixo do ninho. Bem feito para aqueles dois atrevidos. Que seguissem rindo agora, debochando desse pobre ser cultural-tecnológico, esgualepado entre o ser o dever ser.  Foi quando Dona Pardoca fitou-me, cantou como se dissesse : “ainda tenho asas”, desaparecendo entre as folhas feias dos eucaliptos.

           Soube que Déborazinha teria feito sexo com um desses amigos novos. Nada de especial, se ela não namorasse o velho Luciano. Subiu um pouco de ciúme, nesse narrador, ao saber, talvez, por ter certeza, esses caras não quererem trocar papéis de carta com minhas amigas. Saudade dos tempos em minhas conhecidas apenas trocavam papéis de carta, roupas de bonecas,  assistiam desenhos.  Depois, não ia defender o patrimônio alheio. Luciano que pressentisse o perigo. Ou o peso na testa. O problema da igualdade de privilégios sexuais: não é bom para nenhum dos lados. Se no passado os homens traíam, agoras as mulheres traem também. Tudo bem, escancarado, dentro da mais pura e perfeita lógica individualista das “minhas necessidades”. 

           Tispa largou o estágio. Ignoro se citei que ele estagiava na Defensoria Pública do Estado, trabalhando de graça para o povo, ajudando a massacrar a classe dos advogados, em geral, tomando-lhes clientes em potencial. De pequena monta, mas clientes, enfim, ele ainda não pretendia ser advogado, pouco se importava. Ainda, digo, como todo acadêmico de direito iludido, supondo que vá passar am concurso público... Mas,.sem importância.

         Pensei em comprar um cão. Sempre pensei no o cão como um ser detestável, com aqueles modos de seguir o homem até embaixo de tiroteios. Que seres estúpidos, seguindo outro ainda mais sem fundamento. Veio pensamento da compra nesses termos: a fidelidade. Desisti da idéia depois de um singelo colóquio com um volume de parasitologia, na biblioteca da faculdade. Afinal, cães fazem cocô o tempo todo em que acordados. E merdas têm parasitas. Maldita Medicina. Eu até compraria o animal não tivesse visto o livro. E seria mais feliz com uma bolinha de pêlos mijando e correndo pela sala, do que evitando a contaminação parasitária.

         Seguiu-se esse ritmo arrastado até o dia de pormos as barracas na aragem. Não iludamos, a vida de estudante trespassa o limite do ócio condenável ao tédio enlouquecedor        Conseguimos duas barracas grandes, dessas de cinco pessoas. Conseguimos uma lamparina, a liquinho, como se diz nas bandas de cá do Rio Uruguai. Conseguimos um fogão de duas bocas, e redes, além de lonas e esteiras. Bom de se estar universitário conhecer várias pessoas. Em tese, pelo menos. Sem falar de um facão e um machado, mais as deliciosas cucas da querida sogra de Tispa, e a própria em sua cozinha colonial, caso o retiro se tornasse de tal maneira insuportável, na  confortável sede da estância. Gente trabalhadeira essa imigrante. A velha, mesmo abonada, metia as mãos no pesado sem resmungos. Vai ver que por isso era rica. Que massada , como diria a Emília, boneca falante do Sítio do Pica-pau Amarelo! Se os ancestrais do Tispa foram guerreiros temíveis por temperamento, e cultura, na aridez do pampa, os da sogra amada uns insuperáveis trabalhadores. Certo, devia ser alguma compensação no relacionamento dos dois o gênio aguerrido de com a praticidade de outro. Não sei. Mas  desde que o mundo entrou nessa fase de paz , para as gentes de guerra só resta rastejarem aos pés dos “bem aceitos” pacifistas, pobres sofredores, tendo que respirar como um bicho engaiolado todo dia santo, e comum, da existência. Ou , sempre há, às drogas e à cachaça, para as incompatibilidades sociais. Sempre há, somente isso. Como aquele outro sugeria: “mais fácil um homem de paz viver em guerra, do que um homem de guerra viver em paz”. Numa cultura de “paz sagrada” como a nossa, já viu o tamanho do osso entalado na garganta dos guerreiros de nascimento, fazendo a ressalva de não confundir uma vocação natural para atos sangrentos e heróicos com covardia dos criminosos comuns, os quais não se importam nem um pouco. Não se apiede , entretanto leitora, daqueles que nascem no tempo errado. Não será a evolução da ferramenta, ou tecnologia, que irá apagar a fúria dos genezinhos briguentos. Até por quê, nada seríamos sem eles. Pense que há fases e fases, se quiser. Ou não pense nada, pois nesse caso, pensar é somente pensar, e pouco do que se pense mudará. Só há de se notar que os países importantes não fazem questão nenhuma de se dizerem “amantes da paz”.

            Cuido que a pobre leitora deva estar tonta dessa idéia “nada a ver” dentro do capítulo que acertava dos preparativos do acampamento. Muitos filmes, creio. A imagem de acampamentos sempre retoma as cenas de cinema, batalhas e tal . Falávamos da mãe trabalhadeira de Fabiana, ainda 

            Melhor ao outro capítulo, de uma vez.

 

LI

 

            Combinado, iríamos cada um por si. Combinado assim por que ninguém supôs idéia diferente. De fato, preferia esse mais viajar sozinho, olhando pela janela as vacas pastarem, do  que  conversando fiado com alguém.

           As meninas amigas, o que me disseram, iriam por conta do carro de Luciano, o namorado de Déborazinha. E sem ele, pelo que entendi. O próprio teria ido para Porto Alegre tratar de negócios. Absurdo deixar um carro disponível na mão de uma garota de vinte anos. Pois bem, problema dele. Quanto a mim, chegaria de ônibus. E todos nos encontraríamos na rodoviária. E dali, direito para a fazenda e à  área de camping.

         Assim fizemos. Entramos nos veículos e nos atiramos. Devo dizer que as gurias me cumprimentaram com sobriedade. Menos Ráina, que me fitou quieta, depois virou o rosto , e não se abalou com a presença até nosso destino. Isso que fomos no mesmo carro, distante um do outro por um dos amigos novos, um sujeito estranho que me apresentaram como Zéco. Ora raios, que tipo ia ter um apelido desses?  De pronto, vi que o tal não era dos mais queridos de Ráina, pois mantiveram entre si o silêncio em todo o trajeto.

       Conforme decidido, armaríamos as lonas à beira do açude maior, ou barragem, como se referia Fabiana. Daria para pescar as traíras do velho pai seu por noite toda. Duvidei que minhas amigas tivessem intimidades com apetrechos. De qualquer jeito, enquanto montávamos as barracas, elas andaram, para lá e para cá, do pesqueiro vendo lugar para as linhas.

           E conheci os outros sujeitos.

           Além do tal Zéco, havia  um tal Edgar , nome de viadinho, diga-se. Um Émerson de não sei o quê. Um perigoso, ao qual chamavam Lagarto. Perigoso, por motivos pessoais óbvios: loiro alto e de olhos azuis. Imaginei, com segurança, deveria ser esse o que Ráina pegava. E deprimido, pois, não tinha condições de lutar com um tipo daqueles.

         Triste no homem, mas necessário: admitir quando não pode competir. O cara, gênero modelo de propaganda de refrigerantes. Sem condições de luta. E não devia ser somente o queridinho de Ráina, mas de todas. Mulher tem muito dessas histórias, escolhem um reizinho e irem logo entram na corte. E o mais triste, sujeito era o mais parceiro, desde a hora de erguer os ferros dos dormitórios de tecido até ir buscar lenha, caçar sapos na beira do açude para servirem de isca de traíra.

         Nosso dia se resumiu a isso: atitudes estruturais. E a mulherada ouviu música, andou para lá e para cá, disparou de uma cobra , tomaram banho de biquíni com os amigos novos.

         Esse não participou: resumiu-se a admirar todos de uma moita barranqueira, fingindo que preparava umas iscas para a noite

          Primeira vez que vi Ráina seminua sob a luz do dia.

          Surpreendi-me por ela estar um pouco amorenada, esperava a pele branca, do frio ainda. A cabeleira escura comprida brincando com a água, o reflexo do sol, mutucas malditas encontrando-me de duas e duas, enfim, dia perfeito na fazenda. E ela conservava distância sempre do modelo de propaganda , o tal Lagarto.  Era sinal de que havia algo entre eles, pois Ráina sempre agia assim com seus ficantes Não deixava o carinha se aproximar mais que alguns metros,  mergulhava, saía do sujeito .

           Foi isso até escurecer, pegarmos a carne, pormos no fogo. E para variar, um dos tais amigos novos  levara um violão. Clima perfeito, parecia filme. Esse mais por fora do que arco de barril, quando muito, servindo para fins práticos, tal catar lenha, expulsar um bicho ou outro, não deixar o fogo morrer. 

          Em um momento sonolento, não preciso dizer, o tal modelo levantou-se da beira do fogo, e alinhou com Ráina. Engoli um naco de carne que me restava. Não se beijaram, porém. Apenas dialogaram. Como se diz na terra, ficaram se trovando. Por reflexo primitivo, catei um pedaço de madeira, e afiei.  E pensei que devia ser melhor ter ido para o cemitério, ver meus mortos, do que  acampar.

 

LII

         Insight

   

         Por que antecipar as coisas ?  Ora todos vão para o cemitério, cedo ou tarde. A pergunta é se a vida serviu para, no mínimo , ir para o caixão com tranqüilidade. Olhei para o céu daquela noite, vi a vida desaparecendo entre as estrelas. Vi a vida de todos se consumindo lentamente. E creio que senti algo semelhante ao que sentia Ráina quando pegava a espada do suicídio. Desesperado ao ver,  na realidade, sempre há o vazio. Não haverá nenhuma redenção , dia nenhum, momento nenhum. Ráina não suportava o vazio.  Consegui entendê-la por alguns segundos.

  

LIII

         Levantei-me de onde comia carne, andei passos onde estavam os dois. Chamei por ela, sem o menor respeito por meu rival:

- Ráina,  vamos dar uma volta . – Absoluto , como se ela fosse minha, apenas. A guria fez a tradicional cara feia. Olhei-a no fundo das pupilas, como se quisesse roubar  sua alma.

  - Agora ? – Perguntou, sabendo a resposta. Fiz sinal afirmativo com a cabeça. Lagarto mirava espantado, deduzindo ter entrado numa velha relação sem saber.

Ráina levantou-se. Peguei-a pela mão, ela  tentou soltar, prendi com mais força. Ela cedeu. No ímpeto, esqueci que estávamos no mato. Andamos alguns metros no escuro:

- Ai, tá muito escuro. – Disse ela, segurando o passo.

- Eu enxergo no escuro . –  Respondi-lhe, convicto. Tinha virado Peri, que atravessava as matas na noite, nem corujas conseguiriam, por causa de Cecília. Seguimos o passo em torno da água. Nada. Só o estado de ânimo daqueles momentos  e o reflexo das estrelinhas no açude evitava dos dois caírem na água. Ráina parou-nos:

- O que queria conversar ? Fala logo que ... 

            Levantei com tanta pressa, esqueci. Pois bem :

- Fica comigo.- Ráina deu aquele riso debochado. Passou a mão no rosto, e cabelo:

- Por que ?

- Porque tu gosta de mim.

           Ela gargalhou. Puxei-a pela cintura , tentei o beijo. Ela me empurrou:

- Sai. Vai querer me estuprar agora, é? Me bate, agora quer me pegar à força?

            Não recuei.

-  Por que não aceita a idéia que tu me ama?

- Porque eu não te amo!

           Continuei avançando.

- Não foi o que tu me disse aquela noite...

- Olha, só dormi contigo por que estava bêbada. E podia ter sido qualquer um, bastava estar ali. Ou tu acha que é tão diferente assim dos outros ?

           Fazia parte. Respirei fundo.

- Por que eu sou, e nós sabemos muito bem disso !

- Agora te achou. Olha, cara, dou pra quem eu quiser, faço o que eu quiser, e tu não é nada pra mim. Não dá pra entender? Ficou burro, é ? 

         Estiquei o braço, peguei-a pela nuca. Firmou-se, furiosa:

- Que é, tchê ? Se vai me estuprar, covarde, me derruba logo de uma vez!- Não soltei. Forcei os olhos para tentar ver os seus na escuridão:

- Não, não vou fazer isso. Só vou te dizer que eu não tenho escolha. O vazio, lembra. Dói , não dói ? Quando estou contigo, ele desaparece.

- E acha que o meu vazio tu consegue preencher? Tu é um coitado, mesmo! Cara, olha, desaparece, não significa nada pra mim...

               Irritei-me:

- E se eu desaparecer, Ráina ? O que vai ser da tua vida importante se eu desaparecer ? Se eu realmente te abandonar, se te esquecer completamente, tu deixar de existir pra mim ? Briga, me xinga, fala o que quer. Mas e depois ? Se eu não estiver aqu?

              Ela recuou, baixou o tom.

- Tu te acha muito importante...

- Eu não sou importante, mesmo. Mas sou o único que joga nas tuas regras. O único que te aceita sempre. Está ali, te esperando. Todo mundo te chama de ficadeira, de puta, e esse daqui sempre te esperando de braços abertos!

- Por que quer !- Disse, voltando ao tom agressivo.

- Porque não tem escolha ! E não é assim, Ráina? Precisa tanto que acaba me deixando distante?

                 Ráina respirou fundo. Virou-se, sarcástica e irritante:

-  Ah, mas andou lendo livros de psiquiatra de novo, doutorzinho ?- Disse ela, irônica, tentando desarmar.

                Conseguiu:

- Cala a boca , mulher ! Vamos voltar pro fogo.- Andamos alguns passos na escuridão, em silêncio. É curioso como as estrelas piscam mais rápido quando situações como essas acontecem. Senti que ela dera um escorregão. Peguei em usa mão, outra vez. Realmente escuro naquela beira de açude.

Voltamos . Lagarto nos olhou como se dissesse “já era”. Voltamos de mãos soltas, e os amigos, especialistas em dissimular, fingiram até Déborazinha soltar :

- Se acertaram ?

             Respondemos com sorrisos de canto de boca, cada um de um lado do fogo.

 

LIV

           Adormeci num canto de barraca. Pelas três, imagino, acordei. Olhei pelo fecho semi-aberto um vulto que escondia o fogo. Reconheci a ponta dos cabelos, sentada solitária, olhando a madeira queimar.

            Ela estava perfeita, a cena de um desenho oriental, do Japão. Recordei-me . A arte deles tem sutilezas que não afetam um ocidental, o privilégio do vazio sobre o objeto, inimitável pelos artistas desse lado do planeta. Tal um quadro japonês, senti remorso e tristeza por ela, e por tudo. A perfeição sobre si mesma , unicamente. E senti que devia tentar fazer parte mais uma vez da moldura daquela mulher.    

          Aproximei-me. Ela percebeu, virou a cabeça para mim, e depois para o fogo.

          Sentei, encaixando minhas pernas em torno dela. Quando sentiu que estava sendo abraçada, recostou a cabeça. Abracei-a com mais força e carinho. 

           Fiquei sentindo o cheiro de seu pescoço, a saudade falecida por tê-la comigo outra vez.

- Eu vou continuar ficando com quem eu quiser. – Disse ela, convencida. 

          Não respondi. Prosseguiu:

- Mas a gente pode ficar junto quando quiser.  A gente pode ir pra cama às vezes, mas só às vezes entendeu ?

            Continuei calado.

- Tu não vai me dizer nada? – Perguntou, virando o rosto outra vez.

- Não .

- Então, aceita ?- O fogo estalou.  Resolvi responder:

- E eu ficar com outras?  Posso ?

- De jeito nenhum. E se a gente vai ficar sempre que tu quiser, por que vai querer outra?

Sorri. Achei engraçado.

- E tu pode me bater também, se quiser...

- Ráina , não quero te bater!

- A dor me distrai, sabia?- O fogo estalou mais alto. Passei a mão no seu rosto, respirei nos seus cabelos o cheiro de picumã.

- Tu precisa é de um antidepressivo de vez em quando.

            Ela virou-se:

-  Quer parar de me analisar? Se eu virar sociopata, eu te aviso.

            Meus conhecimentos de psiquiatria não eram tão bons para saber o que era um sociopata:

- Quer dizer que isso tem hierarquia ? Quer dizer, quando tu evoluir, vai ser sociopata ?

            Ráina riu, e me beijou. Depois de tantos meses, senti seus lábios de novo.

- Chega desse assunto.- Disse.

Parti à indireta direta:

- Ah, chega.- Asserti - Sabe amor, ali atrás tem uma moita, assim, tri aconchegante. Tu não quer ir lá comigo procurar uns gnomos  ? – Disse em tom infantil, dedilhando a sua perna.

             Ela corou-se, sorriu tímida:

-  Me chama de amor de novo que eu vou contigo até o inferno- Respondeu.

    

LV

            O que se seguiu no outro dia, não foi importante.

            Dissimulamos bem, e o tal  rapaz chamado Lagarto, modelo de propaganda de creme dental, voltou a assediá-la. Ráina, dessa vez, agia como uma verdadeira sonsa de cinema mudo para o sujeito. E sempre me dava um sorriso, muito mais para confirmar algo não dito do que para pedir permissão ou algo semelhante.

           Desmontamos o acampamento ao fim da tarde.

           Voltaríamos para a cidade dali mesmo. Não sem antes tomar uma ou duas geladas num dos bares locais. Ninguém estranhou quando ela sentou-se ao meu lado. E ninguém viu nosso esfrega de joelhos e coxas por baixo da mesa.    Acho que tinha uma namorada. Pela primeira vez em toda a carreira, uma namorada. Curioso, por que as pessoas costumam namorar cedo nesse país. E esse, tendo a sensação de compromisso pela primeira vez somente no primeiro ano de universitário. Cada um ama o que pode, não o que tem. Ráina estava dócil, e nem ela saberia se foi calor do fogo, a escuridão. Em nosso ambiente natural, certamente, ela agiria diferente. Pressenti esse porém observando-a beber, fumando um cigarro, passando a perna na minha. Pensei de novo, e minha namorada, no próximo fim de semana, haveria de se tornar a mesma ficadeira de todo dia, beijando qualquer vivente que pareça um homem. Desanimei de repente, e tão de repente, não mais que de repente, recordei de ter lido frase assim o amor é próprio dos seres imperfeitos.

            Deixamos o bar daquela cidade. Os que foram de carro, voltaram de carro.  No ônibus,  a caminho de retorno para a universidade-inferno, sendo que nem pagava por ela, matutava sobre o futuro.

 

LVI

            Outro dia:

- Então, chafurdaste com a Raininha de novo? – Berra o Tispa da cozinha para sala, em pleno almoço de segunda-feira maldita.

            Respondi com o tradicional:

- Te fode !!  – E engoli uma colher de macarrão de pacotinho.

- Tu nasceste pra tomar choque, piá !- E finalizou com uma gargalhada

           Pois sim.

           Então, decidi ir vê-la, sem estratégias, sem muito drama. Almocei o macarrão de pacotinho, esperei a digestão, e desabalei para o apartamento.

            Toquei interfone,  subi as escadas. Cumprimentei Anabela, que permitiu minha entrada:

- Ana, tudo bom ? E a tua colega de apartamento ?

- Tá no quarto estudando. Eu já chamo. Enquanto a guria sumia em direção ao quarto, sentei-me com toda falta de intimidade no sofá da sala. Ráina apareceu na sala com a expressão sonolenta. Sentou-se ao meu lado, e com  intimidade, selou minha boca com um beijo estalado.

           Abracei-a:

-  Tudo bom contigo. E a espada ?- Ráina corou-se. Mas sorriu amistosamente:

- Está muito bem na bainha. Quer ir ao cinema comigo ?

- Quando ?  - Perguntei.

- Na quarta.

- Quem mais vai ?

- Só eu e tu. Depois a gente pode fazer um lanche ? Que te parece ?

   Sorri. Um programa de namorados.

- Claro. Vamos sim.

         Ráina alisou delicadamente minha perna:

- Quer fazer sexo ?- Perguntou com intimidade e sem nenhum tipo de vergonha. Um homem com vinte anos  é sempre um homem com vinte anos, forte, senhor de si.

- Não sei. Bom, eu vim aqui só para te ver.

    Meu amor abaixou os olhos,  passou a mão no meu rosto como se quisesse fazer o  maiordos carinhos. Aninhou-se contra mim como se estivesse com frio:  

- Tenho uma prova horrível de cálculo amanhã. Não sei nada , e não estou com a menor paciência para me concentrar. Bem que podia fazer umas  cadeiras das exatas para me ajudar de vez em quando, não é  ?

- Bá, eu não tenho saco para matérias exatas. Muito menos matemática.

            Passei a tocar seus cabelos, esfregando a ponta dos dedos.

- Pára, senão eu durmo...- Disse, com voz infantil.

            Não obedeci. Ela prosseguiu:

- Eu vi num seriado de televisão que tu sabe que gosta de alguém quando consegue ficar vendo a pessoa dormir. 

            Pensei ser estranho aquilo:

-  Que tem que ver ?

- Não sei. Vi num seriado. Coisa de americano, eu acho.

     O braço onde ela se apoiara começou a formigar. Puxei-o antes que virasse uma câimbra.

- Tu vieste aqui só para me ver mesmo ? – Indagou, se erguendo e sentando outra vez.

- Sim.. Por quê ?

- Parece que quer me dizer alguma coisa, e não tem coragem .

       Não havia nada .

- Não . O que poderia ser ?

- Tu é meio maluco, sei lá . Mas fala, diz o qual o problema ...

- Não tem problema nenhum Ráina ! Disse que a gente ia ficar quando eu quisesse. Então, eu estou aqui !

             Pude ver o seu susto com minha reação. Ela deu uma respirada, como se preparasse para contra-atacar, e disparou:

- Isso é bem típico de borderline .

- O que é típico, Ráina ? – Perguntei, irritado.

- Essas reações despropositadas. Eu só te fiz um pergunta. Não precisava ter um ataque !

       E ergueu o tom, falou forte .

- Agora é tu que está me analisando... – Respondi.

      Ráina afastou-se um pouco no sofá:

- Melhor tu ir pra casa, deixar passar. Quando tu estiveres com menos disposição pra me atacar, a gente conversa de novo... – Disse em tom de psiquiatra.

- Tu que tá estressada com essa prova .- Devolvi.

      Ráina levantou-se:

- Vai. Agora.

- Tu tá me mandando embora ?

- Estou sim Quando a gente está no estado, o melhor a fazer é se afastar para não perder o pouco que se tem ...

      Perdi de vez a paciência:

- Isso só pode ser brincadeira ! Que “estado”  é esse ?

Ráina andou em direção à porta. Virou-se, pôs aquele o tom de possuída por algum espírito de consciência superior na voz

- Guri novo. Assim: tu estavas com uma carência enorme de mim, por que gosta de mim. Tu vieste aqui, satisfez a tua carência.  Inconscientemente, ficaste com um sentimento intenso em relação a essa carência, o que faz tu querer  atacar essa dependência. Portanto, me atacando. E se eu responder a essas agressões, pronto, vai sair daqui feliz e satisfeito, e triste, e irritado consigo, exatamente, funciona a tua mente, exige emoções intensas o tempo todo. Só que não tem pra ti hoje! Tchau, te manda antes que eu te bote pra fora !

            E gritou. Nunca tinha sido mandado embora. Ainda mais , daquela maneira. E apavorado com o que ouvira:

- Onde aprendeu isso ? Com teu pai  ? – Perguntei.

- Terapia de grupo. Pelo menos pra isso servem. Agora vai, antes que eu entre no estado, e gente acabe brigando de uma vez...- Terapia de grupo. Não um namoro, uma ficada. Terapia de grupo. Resolvi contra-atacar com o pouco de análise que sabia:

- Sei que tu não quer eu vá embora...- Ráina envaretou-se de vez. Creio,  deveria ser o tal “estado”. Berrou,  feroz e furiosa:

- Nem pensa em me vampirizar!

             “Vampirizar” . Deduzi o sentido , e devolvi:

- Tu me vampiriza sempre. Por que não ?

               Ira:

             Estávamos os dois furiosos. Os dois no “estado”, digamos. Embora o “estado” não possa ser explicado para uma pessoa normal, os efeitos, porém, são  bem entendidos.

             Foi quando Ráina tirou o tênis e arremessou. Esquivei como pude. Ela catou uma almofada, e fez o mesmo. Apenas aparei com o braço. Ela puxou o cinto da cintura, pegou na parte oposta a fivela e disparou na minha direção.

            Por reflexo, lembrei me da espada. E como não poderia passar, prensado pelas fiveladas, no lado oposto ao da porta, corri para o quarto, entrei, num pulo, peguei a espada. Ráina parou na porta, perdeu o espírito de luta, e gritou:

- Larga! Larga ela já !

Levei a mão no cabo. Ráina desesperou-se:

-  Não tira da bainha ! – Gritou outra vez.

            Dei me por conta do que estava fazendo. Essa altura, Anabela espiava do corredor, com os olhos arregalados, o tumulto.Atirei a espada embainhada na cama. E sai, passando pelas duas.Ráina atacou pelas costas.Cravou as unhas no me rosto, e os dentes no meu pescoço .Doeu. Tentei soltá-la, mas não pude. Consegui, e virei com o punho para acertá-la .

           Ela não fez sinal de defender-se. Lembrei-me do soco de meses atrás.

          Virei-me para sair. Ela atacou-me com um chute nas costas, e um ou dois socos na cabeça. Parei, afastei-a, mandei que parasse .

         Consegui sair vivo do apartamento.

 

LVII

            Nada mal, para uma segunda-feira normal.

             Saí do apartamento e fui procurar  Cris. Encontrei-a vendo as contas para a sua formatura. Com a cara arranhada, e dois dentes marcados no pescoço narrei, detalhe por detalhe, o ocorrido, mostrei as marcas da fera na minha pele.

- Se afastem antes que alguém saia ferido  - As primeiras palavras  que ouvi aquela tarde

-  Mas Cris...

- Não tem mais. Já reparou como o amor de vocês é relacionado com dor? Longe dela, antes que vocês se matem.

               Essa idéia pareceu terrível:

- Sabe o que é crime passional, não sabe?- Perguntou ela.

- Vai dizer que todos os criminosos desse tipo são, digamos, complicados como a gente ?- Perguntei.

- Não mesmo . Mas agora entende como o mecanismo funciona, não entende ? Uma cabeça fraca, e pronto. Não sei se vocês dois são tão fortes assim, ainda mais com esse agravante dos dois serem candidatos à terapia eterna.

           Lembrei de um dos termos da discussão :

- Cris, o que quer dizer “vampirizar” ?

- Quem disse vampirizar ? Tu ou ela ?

- Ela. Não sei o que quer dizer.

    Cris coçou a cabeça.

- Ah, minha Nossa Senhora Aparecida. Assim, quando... Digo, uma pessoa com a personalidade . As pessoas com ... Entende? Elas têm a capacidade de sempre conseguirem o que querem sem dar nada em troca, entende?  Elas roubam o que querem das pessoas sem devolver nada. Esse termo, não lembro se é esse o termo certo, mais ou menos isso. Como vampiro, suga a energia da vítima e pronto .

- Todo mundo faz isso!- Afirmei.

- Sim, em pequena escala, acho eu. Os pacientes bordelines não . Apenas fazem, sugam dos que convivem com eles e não dão nada em troca. E com ele mesmo, às vezes. Ele suga de tudo, e de todos, de quem ele gosta, de quem não gosta, não importando de quem seja. 

          Comecei a me sentir mal com aquilo tudo:

- Mas isso já é psicose !

- Não . Psicose é outra conversa. E é por isso que tem esse nome: limítrofe.

- Quem é normal , afinal ... – Restou-me indagar .

  E calei-me. Sensação péssima de ter o destino decidido.

- E se não soubéssemos de nada disso, Cris ? Como as pessoas não sabem,e vivem no mundo real, sem teorias e...

    Cris sorriu:

- Tu ainda pensa que é bonito ser feio, não é, pivete?- E pôs um dos papéis nos olhos terminando o assunto.

     Levantei-me. Deixei o apartamento. Fui pra casa.

 

LVIII

      O amor é para seres imperfeitos.

            Não a procurei no resto da semana. E o resto da semana também esqueceu de me procurar, pois não fiz nada, fingi que prestei atenção nas aulas, não comprei pão, nem jornal e assisti uns filmes dublados na televisão.

Joguei futebol , deixei o goleiro levar dois gols por falha, e ainda me estranhei com Sancho.

Para não dizer que não  houve nada de diferente, dormi sem escovar os dentes na quarta-feira.

Na sexta-feira, tomei uma caipira de vodca solitário, e avancei  comigo e sempre para o Tradicional Diretório, tentar me distrair. E não esperava encontrar ninguém além de mim mesmo com uma ou duas cervejas.

                   Desci a escadinha de acesso. Dei uns passos vi, na penumbra do Tradicional Diretório, Debórazinha, Pá e Ráina dançando, alcoolizadas, perto de uma das paredes desenhadas. Raro irem as três para o Diretório juntas.

                Pensei em ficar com Ráina outra vez.Atravessei o povo como o mais seguro dos homens. Alcancei-as, e quando ela confrontou-se com minha segura pessoa, tatibitou entre sorrir e enfear a expressão. Olhei-a como se fosse minha Puxei  pela cintura e beijei. Beijei não: enfiei a língua naquela boca como se aquilo salvasse a vida da nação. Apertei seus seios contra meu peito, os braços em torno da cintura, como se quisesse quebrar-lhe as costelas.

               Ráina cedeu.

               Nos escoramos na parede, sem tirar a boca um do outro.

              Quando nos soltamos, conversamos banalidades com as amigas, sem explicar nada, e uma ou duas horas depois, fomos ao apartamento dela.Fizemos sexo  sem dizer palavra. Adormecemos, e quando acordei , Ráina dormia ao meu lado.

        Deixei o apartamento antes que acordasse, num sábado de manhã sem ressaca.

 

LIX

           No domingo, Ráina veio tomar mate conosco. Tispa deu uma desculpa, deixando nos  como apartamento pronto.Não houve contato físico maior que uma roçada de dedos no momento de passar a cuia. Senti uma necessidade irresistível de atacá-la, de começar uma briga, de criar dor na tranqüilidade. Ráina  começou a contar de sua viagem de quinze anos para os Estados Unidos.   Quando a vontade de brigar alcançou o limite da garganta, soltei a cuia de chimarrão. Joguei-me de joelhos a sua frente sem dizer palavra. Não sei qual a razão, pareceu ser a única atitude sensata a fazer além de esbofeteá-la

                Ela parou de falar, olhou admirada e sem entender. Cruzamos nossos olhos,  e ela entendeu.

                 Sentou-se no chão a minha frente. Depois, ficou de quatro, e como uma gata, passou a esfregar seu dorso contra mim. Às vezes, gemia baixinho, e tentava passar sua nuca contra meu rosto.   Todo desejo de agressão dissipou-se. Sentei, Ráina acomodou-se de frente no meu colo, ainda movimentando seu corpo contra o meu.

- Tá mais calmo ? – Disse ela, corada e tocando minha boca. Quedei estático. Como ela sabia que aquele gesto derrubaria meu desejo de machucar quem mais gostava ?

 - Onde aprende essas coisas ? -  Perguntei.

                Meu amor riu, e não disse  Tomamos outro mate, levantamos e fomos dar uma volta.

Namorados.      

  

LX  

  

         Decidimos não ir ao Tradicional Diretório por uns bons meses.

               Sugestão dela. E no meio da semana, fomos ao mercado juntos, comprar alimentos. Ao contrário de mim e Tispa, Ráina e Anabela gostavam de fazer rancho, ou seja, comprar tudo que fosse básico de uma vez só, hábito dos tempos em que as distâncias eram longas, e os cavalos, cansáveis.

             Na quinta-feira saímos a passear de mãos dadas, para quem quisesse ver  E compreendi de vez, que essa história de namorados não passava de outra designação social convencionada, e não precisava de amor, algo do gênero, para acontecer. Confesso que senti saudade de não tê-la, de sofrer por sofrer, longe do objeto do meu afeto.

            Ráina estava feliz. Pelo menos parecia, e ela não seria do tipo que finge orgasmos. Tão carinhosa que se aproximava da chatice. Tudo bem, antes miando que rosnando. Quanto a mim, fui deixando domar meus instintos  Faltavam-lhe aqueles rugidos espevitados, atirar-nos em  emoções intensas . Destino infiel o nosso: só se acalmar com fúria. Tudo bem .

           Sexta-feira, estourou a paciência de vez com o mundinho perfeito, decidi levá-la ao Diretório. Devia ter ficado em casa.

 

LXI

            Entramos, e antes de tudo ficar e normal como toda sexta, um dos ficantes da minha namorada passa por trás de nós e solta do gênero: “Coitado.”

            O som barulhento, dessas frases típicas  para o cidadão ouvir. Mas não me abalei, afinal, o risco todo meu. Mas fez certa nobreza de espírito, talvez, entendido como Tispa encarava o suposto mal que afligia:ver o que realmente era importante, por ser importante. Um homem pequeno se preocupa com coisas pequenas. Eu jamais seria grande. Podia fingir, ao menos.    Andamos até onde o pessoal conhecido. Todos felizes, simpáticos, e bebendo como toda santa sexta-feira. Pá, sozinha, beijou-me na boca um beijinho estalado. Minha namorada fechou  expressão, a sua amiga brincou com ela, e as duas riram e compartilharam o copo.   

           Mas o diabo pareceu querer tirar um para dançar aquela noite. Algumas músicas e outras cervejas  boas depois, sujeito alemãozinho, totalmente desconhecido meu, passa a mão na minha guria. Ráina estava feliz, meio bêbada e risonha. Fez que não sentiu os dedos na bunda, e eu ainda tentando ser indiferente, e para não magoar a guria, que não  tinha visto.

           Até o alemão voltar no burburinho do povo e tentar  de novo.

            A guria nem se vestia de forma sensual  De preto, calça e camiseta e as botas que adorava. Nada demais para atiçar o tesão de ninguém. Tentou digo, pois agarrei o braço do alemão na curva e sampei um buenas-tardes nas fuças do infeliz.

           Sou homem. Que mais posso dizer ?  

            O indivíduo não caiu: agachou-se e o povo amontoado abriu-se ante meu gesto. Ráina nem percebeu, de costas conversando com Pá.  O sujeito, cara quebrada, tentou ver de onde tinha saído a pancada. Dei-lhe um coice nos peitos e o tipo desabou.

            Pronto, armado o salcedo: um outro, amigo devia ser do caído, abriu cancha e fez que se botaria na peleia. Que fazer: empurrei meu amor para tirá-la do alcance, que ainda de costas, ignorando as porradas. O índio atirou-se. Ladeei e ele passou. Botei-lhe a destra no ouvido, e o lasqueado caiu. Patrícia puxou Ráina, e entraram atrás de uns espectadores. Ao estilo, ouviu-se sapucais , os tradicionais gritos de guerras da pampa, anunciando o conflito. Preparei o espírito ao ouvi-los, e como as mulheres fora de risco, era hora de lutar.  

            Daí foi festa: saltou segurança de todos os lados, agarraram-me, e rua.

            Nem fiz caso de reagir. Sabia que tinha mais do lado de fora do Tradicional Diretório  .

 

LXII

           E teve .

           O alemãozinho recuperou-se E dessa vez vi quatro sujeitos se abalarem no intuito da minha cabeça.

            Certamente Tispa teria ficado feliz com a idéia. A mim, restou disparar porta fora do Diretório. Disparei como um bom covarde, corri quase meia quadra. Lembrei que Ráina tinha ficado para trás. Havia deixado alguém para trás. Com adrenalina nas artérias, desabalei de volta , e vi os inimigos agrupados na frente do lugar. Que esperança!

           Tispa sempre me disse para nunca dar voadora em elementos agrupados: tu erras o pulo, cai no alcance de todos . E homem no chão , vira bola de futebol. Mas corri, e os agressores alinharam-se, creio, esperando a voadora fatal. Não preciso dizer que  ajuntou gente para ver minha desgraça nessa hora. Basta um gritedo,  feita juntada de espectadores sedentos de sangue.

           Corri, ao contrário de pular chutando, cerrei braços e ombros e cortei a linha dos desgraçados. Passei, e na passada escapei do primeiro botaço.

            Virei e soltei a mão no primeiro. Levei a primeira, e a segunda. Tonteei e quase caio. Recuei, e avancei aos socos contra eles. Devo imaginar minha expressão, pois todos recuaram. Chutei o meio das pernas do alemãozinho e esse caiu de novo. Um pulou e me agarrou pelo pescoço. Tipo forte, até enfiar meus dedos no olho, e ele largar. Não preciso contar quantos chutes levei a essa altura. Escapei e acertei–o  no queixo. Mas estava apanhando.

           Outra cena dantesca, mas comum: o povo gritando e vibrando . Viro os olhos, dou com Ráina branca como uma barata. Levei uma garrafada na barriga que roubou o ar completamente .          Tentei escapar das porradas, sem ar e meio sem rumo. E um desgraçado errando aquela garrafa de tudo quanto era jeito. Juro, meio zonzo , vi Pá alcançar uma outra garrafa para Ráina.. E ouvi um berro do além povo : “só de três pra cima mesmo!”.

           Minha namorada saltou a frente e deu um garrafaço na boca do que me agredia com a arma de vidro. Consegui voltar ao ar quando um desarmado atacou-a, sem sucesso: Ráina deu-lhe um golpe na testa.

          Fúria.   

          Recuperei-me, estava em pé de novo, não ia recuar mais. Espantado com Ráina, deram-me as costas. Acertei o joelho na coluna de um por trás,  e esse caiu. O outro se virou no susto .Quebrei-lhe o nariz como o cotovelo. Empurrei meu amor de novo, mas dessa vez, ela não saiu da linha: atacou mais uma vez, e nessa , o alemãozinho levou a garrafa na testa. Atacamos os dois  que sobrara de pé, o mais alto e mais forte dos quatro.

           Fomos os dois batendo no sujeito, briga feia, socos de guri em porta de escola, quase até a o meio da rua. E o povo acompanhando a fumaceira em êxtase com o espetáculo.

            Os três correram. Não sei o que pensaram. Era briga de classe média, rusga entre estudantes, uma palhaçada. O alemãozinho que iniciou a contenda, esse saiu da briga  e tentou desaparecer. Deixei Ráina para  trás e dei uma voadora nas costas desse. Errei, e caí, btendo a bunda. O sujeito nem me viu .

             Ficamos os dois triunfantes e estáticos. Esse narrador todo lenhado, enquanto o povo gritava e fazia festa, satisfeito e com história para contar. Até me ofereceram um copo de cerveja, que bebi para tirar a secura da garganta.Universitários, acadêmicos, elite pensante do país, minoria intelectualizada...

 

 

LXIII

              Dali ganhamos rumo das casas. Até o apartamento meu, mais perto, melhor dizendo.

             Como doem as pancadas que se leva na vida. Sentei-me no sofá, acabado .Ráina fez menção para que não dormisse. E foi buscar gelo , um pano e água na cozinha. Sentou-se ao meu lado , pediu para que tirasse a camisa. Brinquei:

- Amor, agora não tenho condições. Quem sabe mais tarde dê para fazer um sexo legal. Agora não dá...

- Besta!- Disse ela, pondo o gelo dentro do pano, arrumando uma trouxinha. Esse trouxera de lembrança um vergão no rosto. Ráina acariciou , e brincou:

- Na próxima vez me avisa quando tu for apanhar! - Sorri com a cara dolorida. Meu amor começou a aplicar o gelo onde deduzia estar ferido.

- Sabe que no Japão feudal  as mulheres aprendiam a manejar uma arma para defender o castelo?-  Perguntou ela  De fato,  entendia pouco.

- Não, Ráina.  Não era uma garrafa de cerveja?

- Lógico que não! – Respondeu risonha, inquieta, completamente satisfeita parecia. E milagrosamente sem ter levado um tapa sequer.

- Pois no Tradicional Diretório as japonesas aprendem a manejar a garrafa! – Brinquei, doendo a face ferida.

 

LXIV

 

            Tudo bem: devemos admitir certa galhofa no contexto do capítulo anterior.

Tudo bem, também, as coisas da vida acontecem em fatos, nunca de impressões, análises, masturbações mentais de todos os gêneros. E de muito a nada adianta bater cabeças no sentido oposto, tentar viver mundo de dentro para fora, como uma via de mão certa. Pôr o desejo de ser antes da realidade. Serve somente para aumentar a dor, isso se conhece desde o nascimento. O difícil não fazê-lo conscientemente.

           Fizemos sexo pela sétima vez aquela madrugada. Tentei ao máximo não roçar a face ferida na maciez da pele dela, mas nos momentos de grande energia, Ráina, como de costume, agarrava minha nuca como um náufrago hidrófobo e esfregava, sem a menor consideração minha pele atacada.  Poderia mentir, afirmando ter o combate atiçado a libido. Mentiria, ela sempre agia do mesmo jeito, minha namorada: E como é prazeroso dizer: minha namorada. Mesmo hoje, casados e com duas guriazinhas, incrivelmente, parecidas comigo. E com a mãe.

            Bom, e como tocamos nesses assuntos, esse é o fim da história. Final feliz, e sem graça, comum de folhetim. Esse narrador disse que nada de especial havia nessa história, e que não mais mereceria além de um final romântico. E depois, foi  assim que aconteceu, que posso fazer? Ráina deveria ter se matado, eu virado um médico frustrado até as pleuras, bêbado, com uma amante com metade da minha idade, judiando de uma esposinha qualquer? Mas não foi. Confesso que foi na nossa sétima coita, essa citada, a da briga, que formulamos nossa primeira filha.

           Tudo bem, à narrativa.

            Depois daquela noite, a vida assumiu de vez a calmaria e nada de especial aconteceu. Aqueles foram os melhores dias, e se acabaram como começaram. Fez parte do tornar-se adulto, creio eu. De especial, nossa relação tinha amor. E como é raro uma relação com amor, amor de verdade, daqueles que se sente uma vez. E raramente se concretiza. As pessoas fingem, criam castelos para suportarem essas pequenas verdades. Castelos tão frágeis que meio sopro de uma menor possibilidade derruba.

             Talvez por isso tudo tenha dado certo.

              Quanto à gravidez indesejada,  nada em especial. Ráina veio com aquela conversa de que não precisava que esse assumisse o bebê, a gritaria histérica de mamãe querida, o pai dela querendo meu fígado, os apelos para entregássemos para a adoção. Como reagi? Como um homem.

             Mandei todo mundo se foder, que o filho era meu e ninguém tinha nada a ver com isso. E a mulher era minha também. E o problema também. Arrumei emprego de meio turno, vários pequenos serviços, diga-se. Até servir docinhos em jantares para ajudar no orçamento e nas calças plásticas. E olhe que nada temem mais os filhos da classe média do que ter que servir outras pessoas. Foi divertido, ao fim. Uma bela tarde, voltando pelo velho caminho do prédio da faculdade, trombei com pardal cantando como um desesperado. Não teve jeito, me senti como ele: completo. E o desgraçado deve ter sentido inveja de mim.Ráina, como esperado, tornou-se agressiva naqueles dias, com medo de ser abandonada. Logo que a criança nasceu, porém, ela foi se acalmando, e eu aceito pelo pai do meu amor. Trabalhei tanto e gastei tão pouco que pude comprar os trecos de bebê quase tudo de uma vez, depois do parto. E ainda era um futuro médico!

               O velho pai dela reconheceu meu esforço, nem tão horrível assim, ao final. Disse que sustentaria a filha e neta com a condição de que as duas morassem sozinhas no apartamento. Por razões econômicas, e nas circunstâncias, aceitei de imediato. 

              Temendo por minha filha indefesa, pois quem casa com tigresa deve, no mínimo, saber do tamanho das presas, fui ao apartamento dormir com elas quase todas as noites nesses primeiros dias. Vai que houvesse depressão ou algo parecido. Como disse, casou com tigre, aceita as garras.

             A guria viu a mãe se formar, se empregar, e iniciar uma pequena construtora com o capital somado de dois colegas. E quando Ráina estava finalmente  se acertando profissionalmente, esse inventa de vir da capital, onde recém tinha conseguido um bom emprego único, depois de meses pulando entre vários, fazer uma visita.

             De pronto: outra cria. Do sogro velho, um grito à posteridade: “Mas de novo!”.

               Esse montava um apartamento alugado, primeira residência, e pagava um carro bem mais ou menos. Meu amor decidiu vender o dela. Fui contra, e Ráina reafirmou que eu não mandava na sua vida e nem éramos casados. Vendeu. Pus um tanto mais de dinheiro, outro tanto do status de doutor, em cima e compramos uma cobertura média. E antes da segunda filha nascer, vendemos e compramos uma casa de sonhos. Fomos morar embaixo do mesmo barraco, finalmente.Então, numa terça-feira, a segunda filha com o ouvido inflamado, resolvemos nos casar, temendo pelo patrimônio, obviamente, das meninas. Mandamos as duas para a avó, fizemos o ritual : chamamos os amigos, e enchemos a cara de cerveja como nos velhos tempos. Pedi a Ráina que se vestisse como nos bons dias.

              Primeiro e, como costumeiro, xingou, perguntou se queria que ela beijasse outro na minha frente. Por fim, acabou cedendo. Fizemos sexo nessa noite, bêbados e felizes.

 

 Fim .

 

 

Versão final : Santa Maria, 20 de novembro de 2001

Finalizado em : Santa Maria, Rio Grande do Sul, 20 de Novembro de 2001

Edição de Registro: Santa Maria, Rio Grande do Sul, 10 de Setembro de 2002

                                                           Revisado em 06 de maio de 2009.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                            Ense et poena

 

 

 

 

 

 

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