Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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4. Capitulo 4 e 5

IV

              Um eu conhecia. Outro também, outro também. Conhecíamos todos.

             Conversavam ela, e o Jorjão. Por mais incrível que pudesse parecer, Jorjão não deveria chegar a um metro e meio de altura. Nunca perguntei por que chamavam esse vivente de Jorjão. Nem quero saber.

           Ráina estava de míni e sandálias. Verdade, tem ela os tornozelos um pouco finos para  meus padrões de mulher gostosa. Preferia-a com  botas, e o visual de enterro. Tinha charme a míni-saia, mostrado as pernas brancas. Mulher alva, clara de nascimento. Se o sol desabasse com força sobre ela viraria um camarão de dar pena.

Mesmo entre conhecidos, fiquei observando a distância segura. De repente, não mais que de repente, Ráina pegou a mão de Jorjão, e embalaram-se os dois em vigorosa valsa, em plena frente do prédio. Assim, como quem comemora seus quinze anos.

            Não ouvindo o assunto, cuidei curioso apenas. Ela despediu-se. Tomou rumo do ponto de ônibus, logo abaixo do prédio.Lembrei dos pardais. Acelerei o passo para alcançá-la.

            Consegui:

- E aí, Ráina! - A experiência ensina cumprimentar meninas mais agressivas como quem cumprimenta outro homem. Em vez de um “oi”, um respeitoso “e aí”.

- Oi. Que tá fazendo aqui? Tu não tem ressaca, não? – Respondeu, receptiva.  Minha sardinha em lata totalmente simpática comigo. Quis puxá-la para cima do fio do telefone, fazer como os amiguinhos de bico e asas:

- Nada. E tu, saindo da aula?- Nunca diga a uma mulher que foi procurá-la, só em fim de relacionamento

- É. Vai à festa hoje à noite ?- Indagou.

- Que festa?

- Não é bem festa, festa. A Déborazinha, sabe? A irmã dela está se formando esse ano em Psicologia, a gente vai comemorar a formatura.

- Mas ela só não se forma no fim do ano?- Pergunto.

- É, pois é. Mas as comemorações começam agora. Tu vai ir?

Esse narrador tinha grande estima por Déborazinha. De fato, tinha feito sexo com ela uma ou duas vezes no semestre anterior.

- Claro. O que tem que levar?

- Cerveja. Quatro por cabeça. Tá bom pra ti?- Quatro é uma cota aceitável para alguém mal bebedor. Para um aluno de Direito, Psicologia, ou Medicina, é uma ofensa. Em Roma, todavia, faça como os bárbaros.

- Só quatro?

- Ai, borracheira!  É só uma jantinha! Não é para encher a cara. E depois...- Não ouvi nada. Parei-me mirando aquela boca, e para ser o homem mais agradecido ao Criador da humanidade. Graças aos Céus por existir e poder tocar aqueles lábios.

-... As dez então, entendeu? E o Sancho?-Lembrou-me dela, Sancho, e o beijo. Irritação:

- Sei lá, não casado com ele!

Ráina riu amarelado. Deduziu que devia eu saber. E como boa cachorra:

- A gente ficou ontem. Eu queria que ele fosse na janta.- Disse sem nenhum pudor.

             Vós, leitoras dessa peça, imagino, desabaram de amores alguma vez. Se não o fizeram, o que desafianço por experiência e obrigação, parte avisar que são poucas agulhadas mais profundas que a rejeição. Elas existem, mesmo assim. Minha interlocutora acabara de fazê-las naquele solto momento de conversa.

 - Se eu encontrar com ele eu aviso.- Confirmei sem nenhuma convicção.   .

           O ônibus apareceu.

- Tu não vem?- Perguntou. 

- Na verdade, vou ali na biblioteca. Lembrei de um livro e...

      Ela virou as costas. Entrou, a porta bateu. Eu no mesmo lugar, invejando os pequenos pássaros, que podem trepar na frente de todo mundo.

 

V

        Outro ônibus veio dali a minutos. Deveria ter ido com ela? Não, Mulheres modernas detestam serem pressionadas. Deixei o coletivo levá-la.

       Daria umas cacetadas no Sancho? Não, não daria. Homens modernos não lutam: processam. E ia processá-lo no que mesmo? Esbulho de amada? Afinal, Ráina propriedade minha! E propriedade imóvel, do meu ser. Teríamos uma conversa de amigo para amigo, colega para colega, irmão para irmão. Certos finais de semana cheiram, de antemão, a problemas.  

      Aquele, em especial, lembrou desses em que se entra com ressaca para chegar à outra semana com a mais exata sensação de vazio.

       Uma jantinha para comemorar o fim do curso. Diversão mais perfeita impossível.

      Sentado no coletivo, o dever do trabalho cumprido, lembrei-me de Lispector e a cabeça pesou. Era o efeito do álcool etílico que chegava ao fim, trazendo o sono. E o gosto de ter deixado dinheiro demais com o dono da boate.Havia alguma duvida do meu estado pós-ainda-bêbado nessa manhã? Ora, por que razão homem macho leria “A Hora da Estrela”, se não estivesse dentro da garrafa?

             O maldito transporte de pobre não chegava no ponto de destino. A cabeça pesando. O sol fazendo furos no crânio por as frestas da janela.Tudo bem: pinga prejudica. Eu, futuro paladino da saúde social, devia dar o bom exemplo. Foda-se: vou encher a cara, beber até cair.  Entornar e fazer fiasco. Me benzer, dar uma bicada, botar pra dentro, até o dinheiro chegar ao fim. E por quê? Porque sou jovem. Porque Ráina não me ama. Porque a tecnologia não trouxe felicidade. Porque a instituição universitária estava corrompendo todas minhas virtudes, meus sonhos de criança. Porque seria um medicozinho mais interessado em trocar de carro a cada semestre do que salvar alguém que não pudesse pagar o preço do meu esforço de anos.Porque sou humano, e isso autoriza a ter mais fraquezas que virtudes.

       Algum chato dialético, desses que afirmam que tudo no universo é relativo, diria, questionaria, com a maior arrogância do mundo: o que são fraquezas humanas? E responderia esse passageiro que não chegava nunca na sua parada, que fraquezas são aquilo que não são virtudes.  E o chato empeçaria a chatice: “O que é virtude?” “O que for virtude para mim, não é virtude para outros”.“Tudo varia de pessoa para pessoa”. E bababá... bababá...bababá...O mais interessante dessa raça pé-no-saco: tudo no universo é relativo, variável, incerto... Menos as dores deles. Menos as pequenas coisas que os atingem. Ou o dialético descornado chega no bar, e diz: “Dá uma cerveja relativa, por que ela chifrou relativamente esse pobre ser relativo!” Nada. São os mais chorões. E o que, certa maneira, torna essa relatividade toda tremenda hipocrisia. Como dizia o mestre: “Ri das feridas quem nunca foi ferido”.

           Ou qualquer coisa assim.

            Avistei a parada de destino. Sonhei como minha cama amada, aquele lençol fedido de um mês sem trocar. Nisso fui feliz. Difícil foi arrastar-me até a porta do coletivo, cabeçorra com bárias, e bárias, de pressão sobre os ombros. Meia quadra, cheguei à porta do apartamento. Subi, mas não cheguei na cama, nem fui comer um pão na cozinha.

        Cai no sofá. Só acordei com o interfone apitando, pelas seis da tarde.

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