Eu amei uma borderline

A mesma velha história de amor, num certo interior, de um certo Rio Grande do Sul, da vida...

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3. Capitulo 2 e 3

II

Ressaca do Infinito.

 

As boas idéias vêm sempre da hora de ressaca, junto com “eu nunca mais bebo na vida”.  A sensação que me assombrou até o momento de minha querida pegar o coração nosso de cada dia, rasgar, fritar, e comer com cevada, residia, sobre a sua normalidade. Ou suposta falta dela.   Em tempo: Ráina não parecia ser boa da cabeça. Aquela menina não era normal. Ora, numa noite foi criatura mais encantadora da cidade, noutra, uma porca, sem nenhum tipo de respeito pela pessoa que escreve Em menos de uma semana, sem que nada fizesse o coitado para estimulá-la a  tornar-se uma naja cuspideira em sete dias.

Sempre soube que nunca fora mulher de um somente, sempre ficou com quem quis, e quem não quis. Mas são os tempos modernos, nada demais. Todo mundo beija todo mundo. Mulheres modernas, ferozes e independentes.

Ráina, outra mulher dos dias, apenas.

Alguma coisa não encaixava. Mesmo a ficante das ficantes costuma ter um mínimo de cuidado com seus escolhidos. Ráina também: queria os seus infelizes cozidos no óleo, de preferência bem longe dela, que nem sentisse o cheiro. Depois, aquele olhar vazio que vinha dia sim, e outro sim. Quando criticada, nas mínimas coisas, explodia. Não são assim as mulheres modernas, contudo? Não gostam de serem pedidas, detestam serem criticadas, odeiam homens chatos fungando nos seus livres cangotes.Senhoras de seus salários, de sua sexualidade? Então, bobagem. Ráina bem normal. Se fosse normal, boa da cabeça, poderia ser conquistada. Esse o plano: conquistá-la, tê-la para mim. E quem se importa quantos  beijou. Tempos modernos, parabéns a quem encontre uma virgem: ponha numa gaiola.O amor é unilateral, a glória, fazê-lo recíproco. Como aproveitar aquela noite, se todas as minhas noites num mesmo sorriso? E que insistia em mandar-me sair de perto, como se fosse algum leproso terminal!

            Levantei da cama com tudo isso, ainda ébrio, num sábado nublado de inverno. E havia uma porcaria de trabalho de Citologia I para executar, pela manhã, na faculdade.

 

III

Fizemos a porcaria de trabalho sobre a vida social da célula, entregamos, Sancho e esse narrador. Porcaria dizer que me concentrei nas viradas, e desviradas, do cromossomo dentro da imundície ridícula formadora do tecido humano: Ráina questões ocupava da telófase à interfase neuronal. Hipocrisias fora, qual pessoa com um amor na garganta segue a vida sem matutar sobre  quarenta vezes por dia? Se não for mais importante para suas células, por que explicação biológica ocuparia tantas horas na cabeça do infeliz? Foda-se minha brilhante carreira de endocrinologista, presidente do Conselho Federal de Medicina, exímio palestrante, caríssimo professor careca e barrigudo, até a terra puxar para servir de adubo de bactérias, aliás, têm somente uma miserável célula contra os meus milhões, centenas de tecidos, um que outro sistema. Não me engano atribuindo a elas, pobres células, meus sonhos profissionais futuros, meu apartamento na praia, meu carro feito na Alemanha. As minhas milhões só queriam uma coisa: acasalar, e o objeto do desejo, Ráina. Sorte Sancho estar mais habilitado que esse narrador nas artes das pequenas celas aquela semana. Salvou-se o trabalho e a nota de um estudante pouco aplicado.

Ráina cursava engenharia. Não tinha cara ou jeito de engenheira de casa alguma.  Não recomendaria a ninguém entrar numa barraca armada por ela. Mas, engenheira, que fazer? O que, também, não viria ao caso. Suas inspirações profissionais empolgavam tanto a minha pessoa quanto à possibilidade de haver água potável em Marte. “E o homem chegou em Marte”. Minhas botas! Quanto muito chego em Quaraí! E olhe lá,  nem sei onde fica Quaraí. Marte, para cima, é uma direção.

Sentei-me então, solito e meio bêbado, na biblioteca, depois daquela aula e entrega da imbecil atividade acadêmica denominada trabalho. Lia eu Lispector com a paciência e desconfiança de quem lê umas dessas revistas sensacionalistas do sudeste. Eis, se não quando, passa Patrícia,  portando um catatau de papel suficiente para dar nó num biógrafo alemão.

Cumprimentei-a:

- Pá, tudo bem?-  Patrícia olhou me com certa ternura. Peguei alguns de seus papéis, pus na mesa:

- Ai, aquela vaca quer essa porra de trabalho pra segunda! Que merda! E tu que tá fazendo aqui?

- Lendo.

- Não tem televisão onde tu mora?-Disse ela, sem rir.

            Foi uma pergunta pertinente. É consenso que universitários lêem quando querem nota, exclusivamente:

- Não há nada que preste na tevê.- Respondi.

- Ah, é verdade. Só aqueles programas pra criança. Uma bosta!  Esse livro eu conheço. Não é a “Hora da Estrela?” Tentei ler isso aí para o vestibular, mas me deu nos nervos, acabei lendo só o resumo que a professora deu no cursinho e...- Seguiu trovando fiado.

Patrícia desconcentrou-me da leitura. E nem parecia sofrer de ressaca nenhuma. Parecia que dormira tranqüila, a noite inteira, o sono das vazias. Prosseguimos discutindo as pequenas banalidades cotidianas como o preço do feijão, a programação das rádios, o estupro da menina de onze anos na noite anterior. Até baterem as feridas:

- Pá, sexta-feira, de noite, ontem, Ráina não disse nada?- Perguntei

- Sobre o quê?

- Sei lá. Alguma coisa.

- Não. Por que? Ela deveria dizer alguma coisa?

É meio triste isso. Tu gostas de alguém, tem um momento com esse alguém, pergunta a outro alguém se foi lembrado, ouve “nem sei” como resposta.

- Olha, ela disse nada. Mas tenho uma coisa para te dizer: uma hora que tu sumiu, lá pelas três...

- Eu fui ao banheiro.

-... é, que seja . O Sancho prensou ela num canto e eles se beijaram.

- Beijaram?

- É. Vamos dizer que eles ficaram. E foi beijo. Só pensei que tu deverias saber.

Não estranhei, nem reclamei. Primeiro: costume com as avoadas sexuais de minha querida. Segundo, tempos modernos: todo mundo beija todo mundo.

- Bom, e por que tu estás me dizendo isso ?

- Por que eu sou tua amiga! Chega de tu ficar fazendo papel de bobo pro pessoal. Todo mundo ri de ti, de tu ficar correndo atrás dela que nem um cachorrinho, e ela só te pisando na cabeça. E só isso que tu ganha. Virou palhaço pra todo mundo. Ráina não gosta de ti. Ela não gosta de ninguém.

O ego ferido. E ferido. Patrícia jamais seria o mais delicado anjinho. Largara aquelas palavras como um tijolaço na cabeça.

- Se ela não gosta de mim por que...

- Pra se divertir, por que ela estava a fim, sei lá! Ninguém casa com ninguém só por que deu beijo.Ou vai pra cama, ou sei lá, o que vocês fizeram juntos. Chega de servir de chacota pra gurizada. Tu é um cara legal. As gurias todas gostam de ti. A Ráina é minha melhor amiga, mas é uma cachorra. Não é justo contigo, entende?

Eu entendi. Até demais Abaixei os olhos, olhei a capa do livro. Nome sugestivo: “A Hora da Estrela”. Fiquei Macabéia com aquela conversa, mas sem ninguém para erguer-me nos braços e fingir voar. Pois bem, com expressão afetada, dei desculpa, e saí o recinto literário, com a alma na boca.

Devo crer que a verdade doa. Embora inexistente, embora variável para cada indivíduo, a verdade dói.

Andei até o ponto de ônibus, deixar a cidade universitária para voltar à cidade verdadeira.

Veio estalo de andar um pouco pelo campus, talvez passar pelos prédios das engenharias, ver se via uma pessoa . E andando, confrontei-me com dois pardais fodendo.

Claro, um pardal, e uma pardoca. Ou, conforme diria um bom aluno de medicina: uma pardala. Dois passarinhos trepando ali, sem vergonha algum, num tecnológico cabo telefônico.  Invejei o pardal. Ali, botando, como quem não quisesse saber se aquele fio permitia o acesso ao mundo via internet. Às informações da Groelândia, à pornografia infantil européia, a bate-papo com uma caliente mexicana. Nada! O bicho de pena dando uma carcada e pronto! Sem camisinha, Ministério da Saúde, sem pré-natal, ou sem rejeição pós-parto.

Nós, brilhantes acadêmicos, com os olhos num papel cheio de símbolos, confirmando o conhecimento sobre maldita parte do corpo que nem se enxerga,.a célula, chamando aquilo de trabalho que vale nota. O bichinho inferior, sem cérebro mamífero, sem consciência ou axiologia.

Eu invejando aquele desgraçado. O cara fazendo o que eu, superior, devia estar fazendo! E quem era o superior na história?

Acabei pisando em falso numa pedra. E aposto que Dona Pardoca deve ter rido das minhas pobres duas pernas.

Avistei Ráina na frente do prédio com seus colegas.

 

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