Corvo

Lidar com a morte nunca é fácil, imagine se você encontrasse sua mãe esfaqueada no chão da cozinha de sua casa? Raven descobriu, a partir desse momento, que talvez a sorte não estivesse ao seu lado. Três semanas após a morte de sua mãe e a posse de um misterioso medalhão hereditário, Raven se vê envolvida em uma série de assassinatos e um estranho novato em sua escola. Jean parece ser uma pessoa normal mas na verdade é um vampiro, não um vampiro de contos adolescentes, aqueles que chupam sangue e tem olhos vermelhos; um vampiro verdadeiro, ou um meio-vampiro. Na cidade de Raven Thorme, vampiros são sugadores de energia e feiticeiras usam as sombras para o bem.

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3. 2.Sonho

O som repetitivo do despertador de Raven se alastrou pelo quarto cinza. Era a hora de levantar-se e arrumar-se para o quarto dia de tortura psicológica na San't Ammis. Sendo assim, Raven sentou-se na cama, esticou os braços se alongando, esfregou os olhos e reprimiu um bocejo. Aquele seria um dia cheio para os alunos do colégio; para todos, menos Raven.

Dali duas semanas seria realizada uma festa de boas-vindas ao mais novo ano letivo. Todos estavam alvoroçados com a possibilidade de tornarem-se reis e rainhas; todos, menos Raven e Tasha, sua única amiga. Mesmo com toda a empolgação Raven não conseguia parar de pensar que a mãe adoraria comprar um vestido para a ocasião, passariam dias discutindo sobre isso e no fim Raven acabaria sedendo, passariam horas no shopping tentando encontrar algo decente e nada vulgar e no dia, Vivian daria um beijo na testa da filha e diria: "Não esqueça de se divertir!"

Agora essa possibilidade estava perdida embaixo da terra.

Encolhendo esse pensamento em um canto da mente, Raven levantou de seu "ninho" e entrou no pequeno banheiro de seu quarto. A luz da manhã entrava pela minúscula janela ao lado do chuveiro, clareando os azulejos brancos que encobriam o espaço e incomodando a visão da garota. Despiu-se e entrou debaixo da água quente e relaxante.

Ao sair do banheiro, enrolada a uma toalha azul, Raven trancou a porta do quarto e fechou as cortinas negras. Abriu uma das portas do armário branco e vestiu uma simples regata preta, jeans boyfriend e seus adorados coturnos pretos. Passou o medalhão da mãe pela cabeça e o deixou pender na altura de seu coração. 

A figura pálida ao espelho tinha o semblante delicado da mãe, seu corpo curvilíneo também foi sua herança assim como os olhos azuis. Já do pai, Raven herdou os cabelos extremamente pretos e a pele de porcelana, juntamente com a coragem e determinação. Sentia-se bem consigo mesma, era esse sentimento que a impedia de, cada vez que uma garota do clube de teatro a insultava, conseguia controlar sua raiva e não dar-lhe um belo soco no nariz. Tudo isso graças a mãe.

Raven juntou o material escolar em sua bolsa de franjas negras da Channel - presente da mãe quando completara dezessete anos - e verificou se seu "Transformador de sentimentos", o caderno de versos, estava dentro da mesma.

A casa estava silenciosa, sinal que seu pai já havia saido para trabalhar na delegacia. Patrick era delegado e raramente ficava em casa, a cidade onde moravam poderia dar a impressão de um lugar seguro e tranquilo, mas tudo não passava de impressão.

Uma buzina apressada fez Raven pegar uma maça e sair correndo da casa. Encostado ao meio fio em frente a casa estava o carro de Tasha Longsmith, a amiga acenava dentro de seu Mini Cooper branco enquanto buzinava repetitivas vezes na tentativa de apressar Raven.

Tasha era uma garota com feições indianas, de cabelos castanhos e pele em um oliva adorável. Sempre vestida em roupas coloridas e alegres, Tasha era totalmente o oposto de Raven: era simpática, alegre, não tinha medo de se impor, estava sempre com um branco sorriso no rosto e era a única garota que participava do clube de teatro — e a única pessoa da escola — que falava com Raven, desde seus cinco anos.

Assim que estrou dentro do carro e jogou a bolsa no banco de trás juntamente a de Tasha, Raven foi puxada para um abraço apertado.

– Como você está? – perguntou Tasha. Ela sentia que a amiga estava melhor que a três semanas, quando presenciou a horrível cena da mãe esfaqueada na cozinha, fazia de tudo para que um sorriso se mostrasse em seu rosto e mesmo assim a tristeza nos olhos ainda permanecia. Nunca esqueceria o dia do enterro de Vivían Batmoore, a mãe de Raven. Não esqueceria do aperto no peito ao presenciar a amiga acabando-se em lágrimas e gritando para que não deixassem enterrar a mãe, que ela iria levantar e sorrir como todos os dias.

– Melhor, obrigada Tasha.– um sorriso sincero formou-se no rosto de Raven. Ela sabia do esforço da amiga em levantá-la do fundo do poço, como estava a três semanas.

Tasha voltou a abraçar a amiga e deu-lhe um molhado e estalado beijo no rosto, que deixou um pequeno riso escapar.

A casa de Raven ficava em uma rua sem saída, a quatro quilômetros do centro da cidade. Tasha buscava-a todos os dias e juntas seguiam até a San't Ammis, isso desde os dez anos.

Vários carros já estavam parados no estacionamento em frente ao colégio. Alunos conversavam animadamente encostados a seus carros, sentados nas escadaria de acesso a porta de entrada e pendurados aos muros baixos e com tinta descascada. A estrutura da San't Ammis High School era em tijolos avermelhados, tinha três andares, seu interior era de paredes pintadas em verde claro e ao meio listras azuis e brancas estendiam-se, o chão em mármore creme era encerado uma vez por dia e o cheiro do produto impregnava o nariz de qualquer um.

As duas amigas seguiram em meio aos cochichos dos alunos dirigidos a Raven até seus respectivos armários azuis. Cada uma verificou seu horário e com uma troca de sorrisos constataram que, mais uma vez, teriam um dia juntas devido as mesmas aulas.

– Estou começando  a achar que a secretária do Sr. Logan é uma deficiente mental! – disse Tasha quando as duas começaram a subir as escadas da direita, em direção a aula de Literatura.

– Não entendi. Por que ela seria uma deficiente mental? – Raven estava com a testa franzida e olhava para a amiga como se estivesse louca. Talvez fosse verdade.

– Assim, quem seria burro o suficiente para nos deixar na mesma sala em todas as matérias? –uma gargalhada saiu da garganta de Raven, que reprimiu rapidamente. Tasha olhou surpresa para a amiga para, depois de tanto tempo e esforço,com uma simples frase conseguir uma gargalhada.

A professora de literatura já estava sentada em sua mesa em frente a turma quando Tasha e Raven entraram. Como de costume, as duas sentaram encostadas na parede do lado direito da sala, uma em frente a outra. Quando o sinal tocou, os alunos começaram a entrar e a maioria lançava olhares tortos em direção a Raven. Ela apenas abaixou a cabeça e fitou as unhas pintadas com esmalte preto.

Quando um assoviu se sobressaíu entre as conversas dos alunos, Raven teve a certeza que alguém do Clube de Teatro estava entrando pela porta. E tinha razão, ao levantar o olhar Raven encontrou seu pior pesadelo na escola.

A garota de cabelos castanhos e mechas loiras — efeito de sua californiana — adentrou a sala de literatura desfilando como todos os dias. Jaqueline Shadow era a presidente do Clube de Teatro e a garota mais popular na San't Ammis, apesar de não usar roupas vulgares tinha todos os garotos a seus pés e até mesmo as garotas se rebaixavam a seguir sua linha de pensamento; todas menos Tasha e Raven.

Todos já estavam em seus lugares quando a professora, Srta. Talulah Bell uma solteirona de trinta e sete anos, levantou de sua mesa.

– Turma, hoje iremos analisar algumas frases do grande William Shakespeare. – enquanto falava, Srta. Bell escrevia as palavras "análise oral" na lousa. – Quero cada um prestando atenção a cada ensinamento dele e daqui a algumas semanas faremos uma parceria com a professora de teatro, Sra. Cooper, para...– batidas ritmadas na porta interromperam sua frase.

Raven acompanhou os passos da professora até a porta e observou-a conversar com alguém no lado de fora. Minutos depois a professora abre a porta e um rapaz entra na sala, causando suspiros em todas as garotas e resmungos dos garotos.

– Pessoal, este é Jean Marshall, nosso novo coléga de literatura.

Raven deu uma boa olhada no rapaz a frente da sala. Seus cabelos castanhos, enrolados em cachos, caíam por seus olhos em um penteado desarrumado; sua pele clara contrastava com a luz vinda da janela formando fracas olheiras abaixo de seus olhos; suas roupas— calça, camisa e tênis pretos— davam-no um ar misterioso e deixavam-no ainda mais charmoso.

– Caramba!– sussurrou Tasha a sua frente.

Jean passou os olhos por toda a turma, recebendo piscadas e olhares irritados, mas quando seus olhos encontraram os de Raven um sorriso travesso surgiu em seu rosto. Raven sentiu o corpo todo tremer apenas com aquele sorriso, seu corpo congelou logo em seguida e em momento algum conseguia desviar da conexão visual em que estavam.

– Por favor Sr. Marshall, sente-se! – disse Talulah que de algum modo também se afetara a beleza do rapaz.

Jean finalmente deixou os olhos de Raven e caminhou tranquilamente para a única carteira vaga da sala, ao fundo do canto direito.

Um suspiro pesado fez Raven piscar várias vezes, lembrando-a de que ainda encarava o novato. Voltando sua atenção novamente para a professora — uma missão quase impossível quando se está sentindo alguém observá-lo— Raven  tentava ignorar os cochichos vindos das alunas.

–Então pessoal, continuando...

Raven não conseguiu mais prestar atenção. Seu medalhão, o presente de morte de sua mãe, esquentara impiedosamente e começava a incomodar seu peito. Aquilo era incomum, como ele esquentaria daquela maneira? O calor foi substituido por uma constante vibração, o que tornou ainda pior.

Com o braço no alto da cabeça timidamente, Raven chamou a atenção da professora e pediu licença. Levantou-se de seu lugar e andou a passos largos até o banheiro feminino.

O grande banheiro revestido em azulejos creme continha seis cabines sanitárias, uma ao lado da outra; ao lado esquerdo, um grande espelho estendia-se pela parede e a pia de mármore estava molhada. Raven apoiou-se com as mãos na estrutura de mármore e fitou o medalhão.

Não havia nada diferente, o medalhão continuava com o mesmo prata enferrujado de sempre e as mesmas asas gravadas no centro. O calor já havia passado e a vibração sessado.

Devo estar ficando louca, repetia para si mesma.

Após alguns minutos ainda dentro do banheiro o sinal tocou e Raven teve de sair a procura de Tasha. Esta estava sentada em frente a sala de literatura, roendo as unhas nervosamente e ao perceber que a amiga se aproximava, levantou rapidamente.

– O que aconteceu? – perguntou.

– Não estava me sentindo bem. –Raven não poderia falar a verdade a amiga, simplesmente por que ela não acreditaria.

–Você tomou os remédios antidepressivos?–perguntou Tasha cautelosamente.

Raven tomava antidepressivos a duas semanas. Ela não gostava, principalmente por que sentia-se muito melhor e alegre, mas o pai e a amiga obrigavam-na a seguir seus horários rigidamente.

– Sim. Agora vamos para a sala?

Tasha balançou a cabeça, concordando, e as duas seguiram para a próxima aula.

*

O refeitório estava extremamente agitado aquela manhã, tanto pelos comentários sobre Raven quanto pelas notícias sobre o novato ligeiramente misterioso.

Diziam que era membro de uma gangue, assassino, drogado entre outras coisas; mas esses comentários eram relevantes apenas nas conversas masculinas. Nas rodas femininas, Jean Marshall era visto como "o gato preto da San't Ammis".

Sem dar muita atenção as loucuras adolescentes, Raven e Tasha seguiram a fila com suas bandejas em mãos.

– Eu achei muito louco aquele olhar entre vocês. – disse Tasha repentinamente.

Raven não prestara muita atenção mas ainda assim entendera. Ela também achou estranha a forma satisfeita com que Jean a olhara, ainda mais estanha fora sua reação.

– Olhar entre quem?– fez-se de desentendida. Tasha semicerrou os olhos e estralou a boca duas vezes.

– Tudo bem, se você conhece e não quer contar eu não ligo. – suas mãos estavam no alto da cabeça e fazia um exagerada expressão decepcionada.

Raven virou o rosto lentamente em direção a amiga.

– Eu não o conheço Tasha, nem sequer sei o motivo dessa conversa!

– Tudo bem, não está mais aqui quem falou. – Tasha depositou um prato de bolo em sua bandeja e preparava-se para sair quando disse desesperada: -- Raven, cuidado!

Raven apenas sentiu mãos em seus ombros e em questão de segundos estava indo contra o chão. A pessoa quem havia derrubado-a não se contentou com a queda e derrubou um pedaço de bolo coberto de chantilly em seus cabelos pretos.

– Qual o seu problema Jaqueline? – ouviu Tasha gritar. Sua visão estava embaçada e ouvia as vozes distantes.

– Meu problema é ela!

Mãos ajudaram-na a levantar e mesmo assim continuava tonta. Sentia seus olhos rolares e sua respiração falhando. O que estaria acontecendo a ela?

O medalhão voltou a esquentar e vibrar. Raven não aguentou e deixou-se levar pela tontura, caindo no escuro de sua consciência.

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