O SINO DA TORRE

Uma seleção de poemas do escritor Sidiney Breguêdo feita pelo próprio autor. São poemas que retratam a leveza deste poeta que já escreve a mais de vinte e cinco anos.

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1. O SINO DA TORRE

HINO DE MORTE

Meu amor,
Que medo você me colocou,
Jogando contra mim suas palavras,
Que certas ou erradas,
Certeiras, mal armadas,
Atingiram-me o peito.
Você disse que me mata
Se eu te bater.
Você disse que eu nunca mais
Verei minha mãe
Se eu não amar você.
Minha querida garota,
Só existe um Breguêdo,
Este palhaço triste não tem clone,
Este palhaço triste
Não tem peito de super-homem.
Ele é só um,
Não tente destruí-lo,
Um dia ele ainda será
Entre os artistas um mito
A história dele já está escrito.
Não mate esse poeta,
Por favor!!!
Temos nossas diferenças,
Elas nada têm a ver
Com o trovador.
Você namora o homem,
Deixe a humanidade conhecer
O alter ego deste seu amor.
Talvez um dia
Alguém vai entendê-lo.
E vão comprar seus livros,
E vão recitá-lo
Nas rodas de amigos.
Meu amor não me assuste
Com a desproporção do seu carinho,
Minhas metáforas
Não têm espinhos,
Então eu nunca vou
Te machucar.
Minha mãe e o meu pai
São tudo o que tenho,
Além dos livros que nunca
Vou ver publicar.
Não me negue de vê-los,
De vê-los chorar porque me fui,
Como um anjo bom
Que não bate em mulheres com as mãos,
Mas as destrói
Com palavras bonitas
Endereçadas aos seus corações.
Não sei ser bom
Porque não sou,
Sou arroz grosso.
Minha alma é um poço
De tristeza,
Cheio até a tampa
De lágrimas cristalinas e brancas,
Que derramei
Por você.
Não me mate
Sem que eu aprenda a escrever,
Sem que eu passe no vestibular
E aprenda a tocar
Violão
Com o meu coração.
Não me mate
Sem antes eu provar
Seu bolo de cenoura,
Sem que compre uma fazenda
E lhe mostre sobre cavalos brancos
A lavoura.
Ah, minha menina, que
Sempre me esforcei para respeitar,
Eu sou poeta,
Não sou comum,
Estou cortado por dentro.
Gostaria de me esconder de você
Disfarçado de um pé de coentro
Na horta da minha mãe,
Para que ela fosse todos os dias
Me visitar.
Como gosto da minha
Mãezinha!!!
Deixe-me olhá-la cochilar
Na sala
Enquanto posso,
Amanhã pode ser que uma mulher
Maluca me perfure
A carne até os ossos.
Deixe-me beijá-la
Enquanto sou seu filho desempregado,
Amanhã pode ser que uma mulher
Me proíba
Mantendo-me preso em um cadeado.
Mas se deus é bom e existe,
Se ele acredita em mim
E insiste
Que serei um dos maiores poetas da terra,
Espero que ele não crie
Nenhum desastre para mim.
Hoje perdi meu rebolado,
Senti-me deserdado,
Solitário no mundo,
Fui ameaçado no eu mais profundo:
Alguém desejou
Matar a minha pessoa...
Deus que a todos os gênios abençoa
Não deixará que matem
A minha poesia,
Pois tão grande seria a ironia
Se necessário fosse
Dar o pescoço à foice
Para o poeta nascer.
Neste poema resolvi não citar nomes,
Para não delatar meu assassino.
Mas minhas poesias
A partir deste momento,
Que sejam cantadas como um hino,
Que entre por mentes,
Que possua gente,
Que faça o homem amar,
Que faça o homem matar.
Esse é o meu hino,
Um hino de morte.

 


O ALIMENTO DEFINITIVO

Recebe, minha deusa, os meus beijos cortados
Na mesa do café, como o leite e o pão.
Que te nutre o espírito
E te põe de pé.
Se preferir com manteiga,
Parta ao meio.
Sou um campo de centeio.
Sorva-me com chocolate,
Com mel,
Sou seu menestrel.
Quando me mastiga
A música sai de mim.
Sabes que sou assim,
Preciosa opala.
Chupa-me como a uma bala.
Para sua boa digestão
Deite-se, sou sua rede.
E lá pelas quatro quando acordares
Eu mato sua sede.

 

DEUSA DA FARTURA

Sacrossanta alegoria de mel,
Que canta
Literatura de cordel,
Transborda de fartura o Nordeste.
Põe sorriso às moças,
Faz sorrir aos garotos
E a estes veste.
Liberdade não tardou chegar.
Quem estava preso
Perdeu o brio,
Esqueceu-se do suor frio
De quem ia trabalhar.
Liberta os presos
Mãe amiga.
Trás alento para
Quem não conhece
Do padre Anchieta os versos.
O teu fogo eu conheço bem,
O que ele queima vira água.
E tudo o que faz
Pelo caminho onde passa
É um rastro de lavouras.
Nos teus pés
Nascem cenouras, deusa,
E as estrelas
Olham-te de longe,
Testemunhando a chama profunda
Do passeio teu.

 


CORREIOS

Que aventura bonita a dos correios,
Chegar onde
Só as gaivotas estiveram,
Transpor o infinito e o mistério.
As bolsas abarrotadas de novidade,
Desponta um fio de ouro
Na primeira rua da cidade.
É o carteiro,
Mensageiro intrépido e perfeito,
Que trás com dignidade
A bandeira nacional no peito.
Os prédios dos correios,
Como não dizê-lo,
São estruturas medievais
Aqueles edifícios belos.
Onde magras moças colam selos.
O atendimento é perfeito,
Enquanto aguarda,
O cliente senta-se a um leito.
Sua senha chega de forma democrática...
Que aventura bonita a dos correios,
Chegar onde
Só as gaivotas estiveram,
Transpor o infinito e o mistério.

 

 

CUECAS

Cinco ou dez camelôs
Vendendo cuecas no semáforo
Veja como gritam
Eu paro e olho
O guarda apita
Cinco ou dez camelôs
Vendendo cuecas no semáforo
O sinal abre e eu vou
Sem cueca nenhuma.

 

 

CORRESPONDÊNCIA SECRETA

Zaelma que saudade
Da sua língua invadindo minha orelha.
Acho que vou cortá-la
E mandá-la pelo correio para você,
Para que chupe de longe
O meu ouvido.
Às vezes eu me martirizo
Até a exaustão,
Me masturbo pensando em você,
No seu amor,
No leite que brota da sua fonte
E que nunca há de secar.
Seu rebolado quase transparente
Na nossa noite sempre eterna
De amor.
Serei louco se deixar você ir,
Serei louco, minha linda poesia
De carne, ossos e pensamentos perfeitos.
Terei que, de fato, cortar a orelha,
Como Vicente cortou
E mandá-la a você em uma
Correspondência secreta
Junto à última poesia.

 

CARTA

Quando a vi pela primeira vez
Houve gritos no sol,
O vento ligeiro espalhou-se acima
De poucos centímetros da grama verde.
O poeta estava por nascer,
Ela veio como um catalisador divino
E sensual
Para tirá-lo da escuridão.
Deu a luz, como a mulher escolhida,
A um mundo de beleza inumerável.
Saído de uma garagem hermética,
Aquele homem(uma eterna criança)
Não coube no mundo.
Achou canto no coração de uma deusa,
De uma mulher, de uma mãe, de uma amante.
O coração da amada
Que é maior que todas as cidades.
Decidiu que ali viveria, amarrando
Versos pelas artérias,
Acendendo lampiões pelas ruas escuras.
A luz encontrou a luz.
De dois que eram compuseram
Uma única estrela.
Ele iluminava seu interior,
Ela iluminava seu exterior.
Tinham uma razão para ser
O alimento um para o outro.
Ela sua deusa.
Ele seu poeta.
Os dois: os contrastes de uma reta.
A inspiração que ela lhe trazia
Era como o branco para o dia,
Mas não era só isso,
Ele tinha nela
Toda uma paleta de cores.
Amor não resumia estrito fato.
Nasceram, em verdade,
Um para o outro
Como diamantes que se fundem
No encontro de dois continentes.


O SINO DA TORRE

Como pode ser só isso
A alimentação do mendigo?
Tolstói confuso
E Florbela de parafuso.
Sem educação
Não tem como
Ser criativo.
Ignorância mata!
Se não de sede,
Pelo menos de pirraça.
Infância não foi feito para
Brincar.
Põe esses garotos
Para trabalhar!
Não é preciso construir
Escolas.
Agora é a vez de construir
O homem.
Tratar com zelo,
Como se fosse um
Cabelo de boneca,
Esses soldadinhos de chumbo
Que formam fila no pátio.
Preparem os livros
Para recebê-los,
Vamos romper
Com o analfabetismo
E com o pesadelo.


NA CADEIA COM OS TUBARÕES AZUIS

Sou o último vagabundo
A usar uma caneta para me masturbar
Ou um papel de jornal
Para me cobrir enquanto durmo
Na rua com fome.
Eu tenho insônias tão longas
Que cavalos brancos
Cavalgam nos meus olhos arregalados
E fuxicam
Os meus últimos fetiches sexuais
Para a multidão.
Plante-me
Um sorriso no coração,
Mas plante fundo e sem dó.
Eu quero ter
Um coração bem alegre
Quando for para morrer.
Por trás da grade
As sombras riscam minha carne
E meus companheiros de cela
Tentam gravar na memória
O som dos passarinhos na janela.
Vamos todos morrer velhinhos
Com um lenço branco
No colo
Matando nossos próprios piolhos.
Não somos velhos num asilo,
Somos criminosos em uma prisão
E nosso crime
O mais hediondo:
Escrever uma poesia tão simples
Que o mais humilde operário
Pudesse escutar.

 

PARA ENTENDER A PAZ

O espaço
Que caminha descalço dentro
Da minha alma
Com as mãos cheias
De sementes
Busca plantar a paz.
Em que lugar
De vazio eu
Um buraco fundo
Pode fazer nascer
Com estrutura sólida
A paz que o século merece?
Meu coração de poeta,
Fraco e dolorido,
Não suporta a ignorância
Que na arte de atirar pombas
Faz sorrir os incrédulos:
Somos centelhas da guerra.
Bombardeamos o irmão
Apenas, para ao fim
Tocar-lhe a mão.
Sinal de trégua e burrice
E desconstrução da verdade.
Onde encontrar um canto,
Para cavar fundo,
Na alma mesma do poeta,
Que representa todas as gentes.
Fazer sumir da memória humana
A mania de guerrear para fazer paz.
Qual paz
Se faz com a guerra?
Qual história se faz
Com a mortandade de crianças?
É preciso o sacrifício ideal,
Na carne que não lutou.
Mas que sentiu
As minas explodirem
No último lastro
De esperança.


ÓCIO

No ócio do meu cérebro
Oco
Tem um toco
Onde tropeço.
O governo não me deu chinelo,
O governo não ajuda
Intelectual a levantar bandeira,
Devido a isso
A paz
Somente cabe numa lufada de vento
Quando escrevemos hieróglifos.
Para entender
As cartas de sal
É preciso ócio
Até o natal.
É preciso
Navegar na indiferença,
Numa única oportunidade
Duas retas se encontram.

 

 

UM ANJO VEIO

Estou preso dentro do coração
E não tenho saudade lá de fora, então,
Não me canses
Com o teu falar quase surdo
Que não grita
E não é mudo.
Sabes, eu não sou
Um inseto de antenas
Uma televisão
Ou um cinema.
As mulheres é que disseram.
Eu era um urbanoide só
E queria uma roda de amigos
Que dissessem o que digo.
Fumaça de cachimbo
Branca e preta...
A verdade então para que servia
Se caia feito chumbo
E todos tinham medo de salvá-la.
Sabes tudo dos meus anseios,
Conheces o ponteiro das horas.
Ah, meu amor, minha senhora
Como tenho medo de sair daqui.
Esse canto é tão chique,
São rosas com espinhos,
Trincheiras de pau a pique e carinho.
Proteção.
Deixe-me fugir do mundo aqui,
Lá fora tudo está ferido
E eu estou morto, então
Chega perto do meu corpo um anjo
E é você.

 


BAGAÇOS DA LARANJA

Prazer e sede
Depois de provar
Teu sexo
Pendurado na parede.
A fumaça do quarto
Nos debuiar dos nossos olhos
Dança silenciosamente
Como uma serpente
Que dorme e se agasalha
Em seus joelhos.
É eterno esse momento mágico,
Na sua curiosidade
Deus vai perguntar
Sobre o paralelo entre
A divindade e o bagaço,
Verde chama silente
Do abraço humano.
Nós vamos responder:
É o que faz valer a pena
Não ser divino.
Estar chupado num canto
Destruído e sem gosto.
Somos somente um entreposto
Na estrada irracional.
Um homem lendo
Hieróglifos numa caverna de sal
Talvez entenda sem entender
O que é amar
E depois, por instantes,
Morrer.

 

A GAROTA AMARELA

Nunca mais eu vi
Aquela garota que caminhava
Com as mãos torcidas
Para fora.
Aquela mulher
Fantástica, no miúdo rebolado,
Que recebia o cabelo de mel
Que descia da sua cabeça.
Esculpida de forma tão estúpida.
Dois olhos meio gordos,
De grandes cílios batalhadores,
Que perscrutava
Os desenhos verticais
Que passeavam.
Era gostoso de vê
Seu bumbum circular,
Geométrico nos detalhes,
Mas humano na forma de
Se mexer.
Estou com saudade de vê-la
Caminhar na pista da administração
Onde, sempre, eu a encontrava
Para caminhar lado a lado,
Ela não me conhecia
Eu era uma sombra que brotou
Ali do lado,
Para soprá-la,
Que era pétala de rosa solta
Que voou.

 

 

NAQUELE LUGAR TINHA UMA CASA

Para que serve o quadro duma fazenda?
Com araras e córregos saltitando
Na pasta verde e real,
Se não para enfeitar a sala
Na Capital,
Ao menos para lembrar o verde madrigal.
Se os primeiros homens de Brasília
Tivessem feito um quadro
De suas tortas árvores,
Dos pássaros estranhos
Com canto encurralado
Pela iluminação dos mosquetes
Daqueles bandeirantes heróis,
O que não seria hoje Brasília?
Na memória é só mármore
Sem regaços resplandecentes
Que se foram como lágrimas
Dum jacaré
Que se farta e transborda mergulhando
No fundo da terra.
Que registro fez nascer a capital
Senão um mapa do futuro
Em forma de avião?
Numa casa simples,
Um quadro repousa a luz de velas
A certeza de que Brasília
Não veio primeiro.
Outros rios choraram
Ao morrer e lá ficaram
Sob a terra.
A violência de suas águas
Não pode correr
Do julgo arbitrário do progresso.
Sobre suas pedras,
Tantos bandeirantes levantaram
Brindes e desapareceram
Nas linhas da história.
Somente o Congresso ficou
Com suas mentiras perpétuas.
Com o pálido
De sua oratória
Insofismável no gralhar
Dos pássaros de outrora.
Hoje, se um homem
Daquele tempo pudesse
Chegar à esplanada
E fosse kamikaze
Com seu cordão de granadas
Certamente se explodiria.
Sem um quadro
Não é possível conhecer
A beleza do lugar.


ACIDENTE NA AVIAÇÃO
Boi, boi, boi,
Boi da cara preta
Pega essa caixa preta
Para a gente saber
O que aconteceu
Com o air buss.
Aquela gente está
Debaixo do mar
Entre a França e o Brasil,
Então, não guarde segredo,
Podem estar vivos
E com muito frio.
Dentro do seu berço
Alguém pode nascer de novo.
As tuas verdades
Causam ânsia e pavor.
Boi, boi, boi,
Boi da caixa preta
Salva essa gente.
Mostra para a marinha
O novelo de linha
Que leva aos
Sobreviventes.

 

TULIPAS DE CERVEJA

Explode em nossa venta a florescência
Doce e rica da maquinaria
Das tulipas negras em gritaria.
A plantação toda em onisciência

Arrasta as pétalas do outono
Como versos doces de um mudo,
Que teria na voz seu escudo,
Para ignorar da nova casa o abandono.

São como copos de cristal
Que nascem na grama do quintal
Já cheios de cheiro e cerveja.

Juntas impressionam a natureza humana,
Delícia ébria, expulsa deste nirvana
Para a contemplação em festa na igreja.

 

 

ESTROGONOFE QUASE PRETO

Quando nos desentendemos
Eu não quero chorar
Mas as lágrimas procuram
Uma brecha e molham o meu olhar
Sem graça.
Arde o rosto o passeio das pérolas,
É como um bolo de cenoura
Que não se recheia.
A gente mastiga
E o que parece
É estar comendo areia.
A bucha na boca
De canhão que nunca estoura.
A ressaca das ondas
Nas coroas dos dentes.
Eu não sei
Porque o ar parece parar
E uma combi triste
Passa vendendo melancias
Dentro do coração dela.
A casa se cala
E todos os lugares
São sempre o mesmo lugar,
Onde trancado
Estou dentro de mim.
Do outro lado da mesa
Uma cadeira me aguarda
Tomar o café.
Um sorriso sem graça
Entra pela porta
E trás de volta tudo
Que a gente podia esperar.

 

 

O MONÓLITO

Estou na última
Rua da Ceilândia,
Dentro de um bloco
De pedra.
Tento abrir meus olhos
Já faz mil anos.
A quem me achar
Dou o recado:
O material é precioso.

 

FUMAÇA DE UM FOGÃO DE BARRO

Dança como mariposa
A poetisa.
Sem jeito de deixar
De ser esposa
Faz a comida.
Seu príncipe já vai chegar
Trazendo
Rosa, cravos e
Um poema para trocar.
Escreveu o dia inteiro
Parando somente
Para ilustrar.
Desenhos lindos
Feitos de giz em tons escuros.
Olhos negros e profundos
Num sol
De raios pouco
Vencidos por nuvens.
Um disco longe, em outra casa,
Dá o acorde
Da paz e da alegria.
Quem canta esquece as trevas,
Desata a dor
E se compromete
Com o amor.
Hoje a poetisa
Vai sonhar com vagalumes
Apagados
Num hotel de beira
De estrada.

 

 

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer,
Não quero fama, nem estardalhaço.
Não quero caixão de pinho,
Nem gravata de laço.
Menino, hoje sou vivo e belo
E ninguém vê meu sorriso amarelo.
Amanhã quando eu morrer,
Tirarão do meu pé o chinelo
E esculpirão em bronze
Bengala ou cutelo,
Plaqueta para o senhor administrador
Assinar: poeta, menino, poeta!!
Me cobrirão com o pó
Do ouro amarelo
E a glória me darão em verdade,
Dos empresários serei a vaidade,
Seu ouro e sua vida,
O caviar e a bebida.
Quando eu morrer,
Não quero fama, nem estardalhaço,
Os homens declamando meu nome
Como estúpidos palhaços,
As moças me enrolando em abraços.
Nas escolas,
Não quero que estudem
A minha vida em bagaço.
Ou mesmo que revolucionei,
Que uma escola literária inventei,
Não me cante como herói
Para que o povo me compre,
Mas folheiem
Minha vida
Num instante.

 

 

BEIJO NA MÃO

Beijo sua mão
Porque nela toquei primeiro.
São as mãos que unem a todos
Num aperto de trégua ou desespero.
Pode ser paz ou guerra,
O derradeiro suspiro.
Beijo sua mão, porque é um gesto bonito,
Foi com ela que depois corri seu umbigo.
Foi com ela que te disse adeus.

 

SOU MÃE

Pedra sou, água e mel
E escorro sem ninguém aparar.
Caviar sou e o troféu
Que ninguém quer levantar.
Quem a mim tem
Passeia em bosque de ouro,
Deve sentir-se passarinho,
Pois vai dormir
E forrado acorda de carinho:
O calor desta mulher protetora,
O poço de leite e amor gigantesco.
A frágil borboleta governadora
Dos girassóis secos.
Sou o alimento de uma vida.
Nasci, cresci, lutei, pari!!!
Transformei-me em comida,
O alimento fino e sagrado
Da vida.
Da vida das flores,
Dos amores,
Dos garotos que já são senhores...
O que alimento?
Talvez a humanidade,
O sentimento de felicidade.
As estrelas do amanhã perfeito,
Educadas com o brilho e o zelo do aço.
Puxo a lavoura e faço!
Lavo roupas
Nas pedras de sentimento.
Guardo o céu no coração das flores
E rego a terra com sangue quente.
Vim para sofrer as dores
De todo o continente.
Sofro e calada fico,
Como o rastejar da grama
Aos pés das árvores
Saídas do meu umbigo.
Por meses,
Dentro de mim, cristaliza um fruto,
Uma preciosa joia,
A alquimia maravilhosa da vida.

 

 

SONHO

O amor me consome,
Consome a mulher,
Consome o homem,
Então eu não tenho fome.
Florescência, quintal de
Minha consciência
Na sexta lua de insônia,
Colocou brilho e asas em
Nossos ombros.
A inocência dos seus olhos
Viça
E cai na areia movediça.
Fica de fora só o bicudo,
Seio rosa bicudo.
Então o quarto pelotão
Tenta me fuzilar por ser feliz...
Balanço, balanço o escudo.
A controvérsia é desfeita,
Todo mundo erra o tiro.
Você grita, claro,
Porque me ama.
Sou agora só um estudo,
Papel dobrado
No bolso teu.

 

 

SETENTA MALFEITORES

Meu nariz
Com cicatriz de espinhas
Te ama tanto quanto eu.
E eu numa chacarazinha
Criando galinhas
Morro de saudade
De você.
E se findar o dia
Com sol,
Mas pode ser com chuva,
Eu vou estar na porta
Quando você
Dobrar a curva.
Setenta malfeitores
Não conseguem me roubar
De você.
A liberdade e o amor
Andam pelados.
Quem ama não tem vergonha,
Quem é livre
Não foge da chuva.
Para começar o que ama luta,
Perdoa, liberta, ri e grita.
Experimenta uma uva
E diz:
Meu nariz
Com cicatriz de espinhas
Te ama tanto quanto eu.

 


UM PASSEIO PELO MAR

Deita um lenço ao chão,
Como se fosse um rascunho
De carvão,
Feito no vento
Que carrega a embarcação.
Abraça e carrega
Um marinheiro ao colo
E grita,
Porque tu não és herói.
És humano feito eu,
Que não navego
Senão em pensamento.
Afunda teu pé nesta areia branca,
Enquanto a canoa
Se agita e balança,
Com medo que tu a deixe ali.
Vai que tu és rei.
E grita!
E grita!
E grita!
Deita um lenço ao chão,
E grita.

 

 

VERSOS PARA A RECONSTRUÇÃO

Sou o último grito da terra
Aflorando no pé da serra,
Dizendo aos homens que acordem.
Sou o filho de uma nação
Sem medo, que começa a ouvir uma canção
Que fala de reavaliar a ordem.
O gemido desse povo me equilibra
Na minha austera missão que vibra
E retira os loucos do sanatório.
Eu treino com afinco estes dementes
Para que os políticos não lhes possuam as mentes
Em provetas num laboratório.
Serei seu mártir, seu dentista,
Mas não deixarei que crucifiquem
Minha alma de artista.
Uma inconfidência pode ser pouco para o
Brasil contemporâneo.                    
Pois hoje, neste país belo
Tem homem morrendo amarelo
Porque está, meu deus, morando em subterrâneo.
As favelas se alastram pela capital
E poucos são os homens que acham canto no hospital.
Uma capa negra cobriu a humanidade.
Chamam esta peste de globalização:
Um jogo de gato e rato possuídos pelo cão.
E o homem comum fica refém dessa insanidade.
Olho com paixão verdadeira
As comunidades da poeira.
As formigas têm tanta majestade,
Não são como os homens
Que só veem o próprio umbigo.
E são as formigas que primeiro
São levadas pela tempestade.
Os homens elevados dos astros
Vislumbram a nossa guerra.
Riem uma gargalhada medonha
Sobre o atraso da terra.
E nada fazem para amenizar a ciranda que dança.
Somos a verde substância
De um quadro de ignorância
Que para poucos é bonança.
Homens, não tenham medo do pesadelo,
A realidade nos trouxe pouco zelo.
O nosso sanatório é a casa feliz
Com o azul despontando em colinas
E o mundo moderno em ruínas,
Depois nasce a casca e faz-se a cicatriz.
O mundo será melhor com toda pureza,
O mal sendo arrastado pela correnteza
E os homens sem medo algum
Saindo felizes para o trabalho.
E dos céus, orvalho, orvalho...
Não deixando dejeto nenhum.

 

 

VAGABUNDO DE ROTINA

Antes de dormir
Eu vou ao céu,
Minha alma usa véu.
Eu sou meu pai e minha mãe
Indo à igreja no domingo
Orar.
Oras bolas,
Às vezes, eu sou o próprio altar.
Sou o sacrifício de um deus grego
Desmantelado como jantar
De uma criatura
De duzentos olhos.
Sou a foto do meteoro
E o mar cheio de óleo.
Quando acordo e vago
Pelas ruas da Ceilândia
Sou mais um vagabundo
Na rotina da polícia.
Eu troco tiros
E depois vou à igreja orar.
Mando matar um porco
E coloco para assar,
É o sacrifício para um deus grego
Que não tem asas para voar,
Mas que é senhor
Das baratas,
Que conquistou o respeito
Das traças,
Que não traçam suas mulheres
Soltas pelas paredes
Da favela maravilhosa.

 

 

 

SACOS DE PANCADA

Estávamos quase todos esquecidos
Naquelas cadeiras de rodas,
Cadeiras duras...
Mas volta e meia
Vinha um e nos esmurrava.
Tínhamos que estar preparados.
Os dentes
(os que restavam)
Doíam e balançavam entre
Uma janela e outra.
O mais aterrorizante era um baixinho
Chamado jaqueta.
Ele tinha uma cicatriz
Em forma de zíper na cabeça
Que lhe autorizava o nome.
Era dito nos corredores,
Em voz muito baixa,
Que jaqueta um dia foi um dos nossos.
Não se sabe que lavagem cerebral sofreu,
Porém, é sempre assim:
Os filhos batem nos pais.
A hora mais feliz sempre era
O turno das doze.
Nessa hora passava a enfermeira
Limpando nosso sangue.
Isso se justifica
Porque o mundo não é selvagem,
Como será
Para os nossos filhos.
Colocaram uma enfermeira boa pra cacete.
Dedos de algodão,
Saia aberta do lado,
Seios estúpidos.
Aí, os homens mortos têm ereção.
No canto da ala três
Ficavam os que ainda não se dobraram.
Suas costelas eram fora do lugar,
O globo ocular saltava band jamp,
Os dedos tiveram seus ossos mastigados.
Era a nossa resistência.
Conseguiam ficar em pé
E se recusavam a trabalhar.
Não tinham direito à enfermeira,
Por isso o sangue fazia crostas nas
Suas peles.
Eu já estive lá,
Guardo isso com orgulho.
Sem pensar,
Com medo de ser detectado,
Como uma fogueira verde que não
Pode ser apagada.
O homem do zíper passa
E me esmurra a cara.
Mais um dente cai procurando o bueiro.
Sou servil,
Um trabalhador produzindo bugigangas
Para o primeiro mundo.
Aguardo chegar a hora,
A enfermeira vai limpar
O meu sangue.
Nos meus olhos uma fagulha de orgulho
E conformismo por estar ali
Servindo a nação.

 

 

TORMENTA DOS VAGALUMES

Disco voador
Ou disco de pano
Você não sabe
Como é ser humano.
Nossas incertezas
Nos faz acreditar
Que tudo é possível ao sonhar.
Lembro-me de coisas
Que não sei.
Como a visita de algo
Que não vi.
E dentro do espelho
O traço de certeza.
A verdade que não chega a ser...
Como se recolheria
As velas de um barco,
Velas brancas,
Ao chegar numa ilha?
Mesmo que trouxesse paz,
Mesmo que não se pensasse
Em incerteza.
Não se poderia
Pisar na areia desarmado.
Disco voador,
Outro planeta
Não se conquista
Com a curiosidade dos nativos.

 

 

VIA CRUCIS PARA OS ECOLOGISTAS

Dentro das sementes
O que pode encontrar?
Somente oração
Se for possível
Sonhar.
Alguém está morrendo
Quando a folha
Rompe o casco
E a flor
Se faz desabrochar.
O sol machuca os olhos,
A zoada é uma tortura.
Ninguém se importa
Com a beleza
Da nova estrutura.
Vai ficar ali parada
No tempo
Somente aguardando a chuva.
Se mãos
Não te recolhem
Ou te amassam
Como uva
Vai ser vigorosa árvore
Dada à sombra ou a fruta,
Importante ao planeta,
Lutando contra a poluição
Que põe o mundo
Em aparelhos.
Dos teus galhos
Feito muletas,
Nasce o sonho,
Inspiração.
Sai a seiva,
Alimento de boas mentes,
Bomba do coração
Humano.

 

 

MUNDO MODERNO

Qual é a culpa
Mundo moderno
Qual a desculpa
Mundo moderno.
Que coisa triste,
Morrer abraçado
A garrafa de caninha
Da roça.
Trinar na pedra fria
Aguardando a última visita
Todo nu.
Miolo bobo
Descartado
Para ser catado
No monte de lixo.
O frio da pedra no necrotério
Viaja pela coluna vertebral
Bebendo iogurte.
O que dizia?
Não há desculpa,
Mundo moderno
Atropela
Quem tem coração.

 

 

O LIMPADOR DE JANELAS

Andaimes prontos para lavar janelas,
O vidro tem atrito
Um tanto intelectual.
Virtude e transparência,
Olhar de quem não se importa
Com o lúdico imoral.
E os homens de macacão e rodo
Deslizam suas armas
Brotando o véu da espuma
E o corante
Das letrinhas do jornal.
Do outro lado a secretária
Lhe sorri contente.
A vista é mais bela
E ela aplaude,
Dizendo no telefone
Coisa sobre coragem.
Lá encima do prédio,
Perto do mais puro céu,
O reflexo de um homem
E ninguém vê.

 

 

OS POMBOS PRETOS

Como os pombos pretos
Sabem tampar o sol
Enquanto caçam mariposas.
São românticos
Dando na boca das esposas.
E eu na cadeira de balanço
Vendo tudo.
Surgiu no meu peito
Um furo.
Como fiquei assustado
Quando aquele pombo preto
Saiu dele.
Olhei para os lados,
Lá no asfalto
Os pombos comiam
Sem perceberem o que eu fazia,
Coloquei o dedo e abri
O buraco que fazia de mim um arco.
Entrei no coração
E me escondi
Do mundo medonho.
Sai depois de algumas horas
E o mundo
Estava devastado.
Aquele pouco tempo
No coração
Foram anos do lado de fora.
Andei pelas ruas,
As casas eram pombais medonhos,
Não tinha estrelas,
Não tinha sol, nem lua.
A rua era coisa crua.
Sem poesia,
Nem mesmo a dos miseráveis.
Nem mesmo a do augusto.
Pombos e mais pombos,
Como corvos negros,
Era a performance que se via.
Neste mundo,
Vivo dentro do coração.
Bondade,
Paz,
Tranquilidade
Que não deixa envelhecer.

 

 

O MUNDO VIRADO

Alguma coisa não está combinando
No mundo profano dos humanos.
O vermelho da maçã
Amanheceu mais claro
E o rosa tornou-se o rude preto
Num estalo,
A água está dura.
A pedra mole se esparrama ao ser jogada.
A estátua, que antes morta,
Agora namora na calçada.
Seus olhos de pedra
Escorrem em uma torrente pelo corpo maleável.
Um passarinho se suicida
Ao pular de um prédio.
Ele não voa mais?
Este é um novo mundo,
No qual o presidente
E quinhentos e tantos vagabundos
Preferem ir ao parlamento.
Tudo tão certo por este lado,
Que certo mesmo seria
Um mundo virado.

 


PÁLACE II

As pedras murmuram
Uma canção
Onde prédios e lembranças
Vão ao chão.
Os moradores de prédios
Estão assustados.
Lá não tem árvores
E a antena de tv
Não fica no telhado.
Todos têm que andar de elevador,
Mas a estrada
É uma contínua descida.
O pó
É a comida.
E as orações daquele povo
O congresso embargou,
Deus não ouviu.
Tudo acabou.

 

 


O VERBO LENDÁRIO

O Breguêdo tem diversas roupas
Com listras.
Ele gosta delas.
Foram eloquentemente
Elogiadas pelas garotas.
O Breguêdo é uma coisa esquisita
De cabelos grandes caracolados
Que usa calça verde
Para dormir.
Se é que o oraculo dorme.
Parece que o povo
Se reveza em sua porta,
Quando sai um
Chega o outro.
O Breguêdo se irrita
Com visitas fora de hora,
Às vezes ele estoura
E grita!
O homem de listras horizontais
Não gosta de perder tempo
Com bate papos infundados.
Ele descobriu que o corpo
É apenas um rascunho mal armado
Que sua alma fez
E que a qualquer hora
Pode ser apagado.
O Breguêdo é um rascunho
Em um museu imaginário.
O Breguêdo cria com milho,
Uma coleção de dicionários.
Ele vive no meio das letras
Como um verbo lendário.

 

 

O ELEVADOR CENTRÍFUGO

Me dá um pouquinho,
Me dizem alguns,
Querendo me arrancar a alma.
Quando escrevo poesia,
Não se enganem todos,
Eu estou capinando cabelos
Na cabeça de deus
E não darei nada aos que me pedem
Com ares de vencidos.
São loucos, isso sim.
Mas já dizia minha mãezinha
Que quem chama aos outros de louco
É réu do juízo final.
O purgatório está cheio de poetas.
Êita classezinha que gosta de chamar
De louco aos outros e a si mesmos.
Talvez os melhores só publiquem
Suas obras nos quintos dos infernos,
E só as pessoas muito irreverentes
Podem ler.
Minha namorada disse,
Que se eu morrer sem publicar
Meu trabalho,
Ela me levará em livro aberto,
Minha obra, bordada à linha
Em sua alma.
Pedirei um pouco de poesia,
Se os vizinhos não reclamarem
Que o silêncio foi abalado,
Estamos todos unidos em uma enorme
Peça de carne no cemitério,
Mas eu também sou um anjo alado
Com uma harpa na mão,
E sinto uma necessidade enorme
De quebrar o silêncio.
Mas antes que eu possa reagir,
Chega alguém e diz:
“Me dá um pouquinho”
Quebrando o silêncio primeiro
Que eu...
Assim sou tragado pelo elevador
Centrífugo, que me carrega
Para o inferno
Da minha alma.

 

 

O CRISTO VERDE

Não me chame de amor
Eu sou, eu sou
O horror
Não tente me fazer
Bonito
Eu sou como o grito
Minha alma foi rasgada
Por crianças crucificadas
No sinal vermelho
E hoje todas às vezes
Eu tenho que evitar o espelho
Eu sou, eu sou
A ilusão pútrida
De uma nação cheia de mulheres
Dadas
Que outros homens imbecis
Chamam de fadas
Meu castigo é o mundo
Que me faz nascer
Todos os dias junto com o sol
Queria está esquecido
Em uma igreja
Despido
De braços abertos
Em um sinal vermelho.

 

 

O COPO

Corro estupefato com marcas
No joelho.
Vou embora para dentro do
Espaço vazio do copo.
Sou visto por olhos estranhos
Que me carregam a alma
E me permitem o sonho.
Me lavo no vento
E adentro a torre
Da bruxa má,
Eu como a maçã
E me deito para dormir.
No terceiro dia acordo
E escrevo uma carta
Para minha mãe,
Depois arremesso longe a caneta,
É aí que o copo
Se parte em mil pedaços.

 


O CADERNO PERFUMADO

Deixei de ler Rimbald
Para ler o caderno escrito
Pelo meu amor.
Sua letra torta chorava
Contando toda a nossa história
Nas folhas perfumadas.
Começava no período
Da amizade,
Passeava pela saudade
E logo chegava ao fim.
O fim de um relacionamento
Assim tão longo
Deixa cicatrizes de piche
Na alma.
É uma coisa
Com a qual não se convive,
Nem toma chá.
Melhor seria embocar
Na próxima esquina,
Riscar o mapa,
Fugir da sina
De não ter coração para amar.
Deixei de ler Rimbald
Para ler o caderno escrito
Pelo meu amor.
Um fato estrito,
Singular, desmiolado.
A história de dois pássaros
Atirados ao ar.
Muita liberdade e sentimento
Oferecidos como último alento
Que a poesia
Da namorada escreveu.

 

 

O CADERNO PERDIDO
 
Ficou no balcão da padaria
Uma boa parte da minha vida
Em mais de oitenta poesias
Que perdi.
Junto aos pães de queijo
Esteve a minha ambrosia
E alguém a roubou.
Devolva-me o meu grito,
A minha voz e meus sorrisos.
Não me deixe triste para morrer...
A arte é de todos, e só ela amaina
Meu coração.
Tem suvenires melhores na feira
Garota do balcão.
O caderno de um poeta
Não se pode perder,
Pois em meio aos desenhos
Está eu e você.
Eu estou no meio das letras
Para te assombrar...
Num filme, amanhã, você vai ver
O meu olhar.
Eu te desprezo,
Mil vezes você não é a minha fã.
Misantropia agora é minha
Filosofia de vida
E meu quarto é meu lar.
Você acabou comigo!
Eu não quero mais vinhos baratos
De padaria,
Onde trabalha gente indecente,
Onde não tem achados e perdidos,
Onde não escutam o meu grito,
Onde só vendem pão.
Não venha amanhã tentar se aproximar
De mim,
Tenho aversão
À garota do balcão
Que não merece a minha alvíssara,
Só merece uma adaga no coração
E que eu despeje no seu cadáver
O vinho podre que me vendeu.
Poeta não é bom, é marginal,
Vão me dizer...
Daquele caderno não podem usar nada,
Aquele lá sou eu.
Lá tenho minha casa,
Minha noiva,
E o meu céu
E o meu néctar no alvéolo
Dos favos de mel.
Sentei-me no meio-fio e bebi pinga
Às duas da manhã,
Pensei em fugir,
Tornar-me um poeta underground:
Minhoca em fuga para o centro da terra.
Se não existem damas neste mundo,
Eu não serei bonzinho.
Vou fechar a porta do carro
Na sua mão.
A espada que você enfiou
No meu coração é muito fina
E não me ensinou nada.
Se sonhar depois de ler os meus poemas
Que seria para mim uma preciosa
Namorada,
Se engana,
Para mim você é só uma ladra.
Vou falar de você no meu show
Aos 53 anos de idade.
Vai ser um lindo show encima do
Prédio mais alto da cidade.
Espero que você já tenha morrido
E não tenha chance de assistir.
Perdoe a minha alocução
Um pouco revoltada.
É que roubando meu caderno,
Você tirou a ponte da minha estrada.
Meu discurso não é ambíguo,
É um tiro no peito.
Não sei fazer carinhos,
Mas para torturar tenho mil jeitos.
Você não sabe com quem mexeu,
Ainda estou pensando
Em mastigar o amendoim
Que você tem no lugar de cérebro.
Que tipo de mulher é você, que leva
Meu caderno ao peito
Mostrando a suas amigas,
Enquanto eu estou chorando?
Não sabe que o poeta sangra
Para criar,
Que asas nascem nas minhas costas
Todos os dias,
Não sabe que para cada poema desses
Eu fui fuzilado, desterrado, amado,
Cortado, crucificado, empanado
E sorri?
Alguém tem que gritar no seu ouvido
A importância do meu relicário,
Já fui ao céu três vezes...
Eu tenho a voz de deus
E a letra de Moisés nos dez mandamentos.
Não queira ser castigada...
Devolvendo eu te torno uma fada.
Você tem o pano e o balde,
Boa escolha seria limpar essa cagada.

GAFANHOTOS

O mundo me causa tristeza
O homem não tem salvação
A humanidade
É um cidadão escalando
Uma montanha para quebrar
O ovo de um passarinho.
Neste mundo só vale
Alguma coisa quem tem dinheiro,
O quadro de um artista
É um artefato econômico,
Alguns não valem nada
E devem ser substituídos
Por folhinhas de data e propaganda,
As paredes não são
O seu lugar.
Maços de poesias boas
São jogados no lixo em frente
A casa dos mais pobres.
É preciso uma escada muito grande
Para levar minhas orações
Ao criador,
Preciso contar a ele que não
Aceitam o barraco
Dividir o gramado com
O palácio do governador.
Esse mundo tem que ser destruído,
Se na minha cama
Só pode ter lençóis rasgados,
Na cama de alguém vai o pano bom.
Se na fila do desemprego
Tem até advogado
Ou outros homens letrados
Como químicos
Que acabam como soldados,
Este mundo já acabou.
Vivemos em um lugar qualquer
Do passado,
Onde é um charme ostentar
O pênis do garoto que cresce,
Mas pecado
De morte sem salvação
É falar em público
Do sexo da criança mulher.
Estamos no habitat
Dos jacarés
E somos todos machistas
Nascemos machistas
E vamos educar nossas crianças
Para serem generais
Da maldade.
Cortei meu coração e não vi
Sangrar, existem homens lavradores
E homens gafanhotos.
Os gafanhotos destroem a plantação
E não plantam nada no lugar.
Os lavradores organizam a morada.
Eu sou um gafanhoto,
Você também é,
Nós vamos acabar com o mundo
E depois vamos namorar
Fotografias cheias de estrias
Levantadas na internet.

 


A ALMA FRACASSADA

Tem um lugar no meu cérebro
Aonde vou para pensar em você,
Lá tem um grupo de negras fadas
Que me dão conselho.
Elas dizem que o amor é meu espelho,
E a paz eu ofereço
Para você.
A angústia me coloca em transe
E eu perdido por viver padeço,
Sou os restos de um cão na noite nebulosa,
Tenho na mão uma rosa
Mas você não está aqui.
Sou astros no peito de um guri,
Sou fadas de luz, medo e saudade.
Você está aí,
Nesta cidade
De paz, praia e ansiedade.
Preciso de você, minha deusa,
Meu peito sente a sua falta
E minha voz te exalta
Rainha do meu mundo de aventura.
Encanta-me com sua formosura
E o seu perfume me cega,
Sou a criatura
Mais perdida da terra,
Porque você não está aqui comigo.
Guardo derretido e escondido
Dentro do coração
A última lágrima tua,
Sou um cachorro abatido na rua
E meu hálito de sangue
Perfuma as vestes dos lobos.
A minha saudade é um arroubo
De felicidade e tristeza.
Onde nem as mãos mais doces
Das fadas
Podem tirar esta onça listrada
Que me morde a alma
Fracassada.

 

AQUI

Deus, debaixo do céu
Tudo merece troféu.
As pedras que roçam o pé
Ou que machucam
Os joelhos do fiel.
Os insetos que dormem
De dia,
Para à noite em desvairada euforia
Oferecerem luz e brilho
Às trevas, seu martírio.
Deus, que culpa tenho eu
Para ser julgado,
Debaixo das nuvens nada é pecado.
O coração do homem,
A cabeça e o olhar,
Tudo foi tocado.
Essa equipe não precisa se salvar,
Mas se vencer,
Aqui, deus, debaixo do céu
Tudo merece troféu.

 


MAR DE VOZES

Meu cérebro de água
Transporta o barco
Do teu desejo.
O lampejo
Do brilho das sereias
Reflete na água salgada.
Eu sou o pescador
Que espera,
Você é a amada.
Dobrando redes
Na praia da contemplação
Escuto histórias
Dos meus avôs.
Numa eu sou fogo
E entro no mar
Para te procurar.
Meus pés fervendo,
Meus olhos brilhando.
As tavernas todas abertas
Com homens barulhentos
E mulheres gargalhando.
Na praia toda,
Pessoas de areia e sentimento
Riem das histórias
Do meu avô.
Meu avô
É meu cérebro.
Aquelas pessoas,
Também são meu cérebro, vê?
E que sutil convite da matéria
O cérebro não enfrenta
Dentro das pedras.
Teu olhar guardado
Como as colchas de retalhos
Da minha mãe.
À noite vinha me cobrir
E cobria também você.
Dormíamos juntos
Pela longa madrugada.
E o mar do meu cérebro
Abria-se
Para os navios passarem.
Seu corpo nu,
Então,
Tinha forma de sereia
E minha mãe não te via,
Nem o pai dela.

 

 

CARANGUEJOS DE CHOCOLATE BRANCO

Aqui computadores
Ligam-se a gente.
Somos máquinas tristes
Nas repartições públicas
Mastigando letras e números.
Sem saudade de casa,
Não podemos sobreviver.
Tem muito direito
Mas falta você.
Tantas salas
No meu coração,
Todas cheias de máquinas.
Estou tão frio,
Meu Deus,
Quando estou sem você.
O governo
Alugou minha alma,
Por um tempo.
Minha filosofia morreu atropelada
E está deitada
Numa cama confortável
No necrotério dos teus sonhos.
Mas vou ficar por aqui,
Como um parafuso
Caído no chão.
E quando chegar a hora
Vou deitado
Na solidão do caminho
Abraçando as árvores
Que quiserem me cumprimentar.
Não chore
Por não me encontrar.
Ontem, estive em todos os lugares
Como a chuva ou o ar.
Perto de você
Respirei fundo
E soube que nunca estive sozinho.

 

 

TRESPASSADORAMA

Eu sou aquele poeta triste
Com as pernas presas a um
Mundo de ficção.
Nunca deixei os restos de mim
Pelo caminho onde passo.
Minha sina e burrice
Foi sempre recolher
Os meus destroços,
Nunca deixá-los para trás.
Eu sou um novo homem,
Um menino,
Mas não alegre.
Corro sem roupas e sem pertences.
O único bem que sempre tive,
De verdade,
Deixei para trás:
A liberdade... A minha liberdade!!!
Agarre a sua,
Não a deixe cair
E nem empreste a ninguém.
O homem é uno, indivisível e solitário.
O seu calvário é querer ser árvore.
Deixar nascerem raízes,
Elas seguram em tudo ao seu redor,
Prende-te a uma xícara sem asas,
A um vaso de planta,
Uma coleção de livros,
Outra de CDs.
Põe-te como um criminoso
Na jaula da dependência;
Do afeto mentiroso
E da liberdade pesada,
Cheia de tralhas
Dos lixos da vida,
Do medo da solidão.
Um porta-retratos quebrado
No chão da sala.
Um disco queimado
Que nunca mais vou ouvir.
A lembrancinha despedaçada,
Os óculos encostado
Que nunca mais irá ler.
Os livros jogados no terreno baldio.
Uma garrafa de vinho
Ainda e sempre fechada
Aguardando o passeio pelos canos
Do esgoto.
Sim, tudo se solta das mãos!
As asas da liberdade nascem
E renovam-se a cada dia.
Não são penas,
São sonhos cristalizados.
Diamantes nunca alcançados,
Esquecidos em um lugar
Onde um dia a mente
Deixou de procurar.
Ao som do machado
As raízes vão se partindo.
Um homem livre se despe
Dos objetos juntados por toda a vida.
Um céu azul-turquesa,
Nunca visto,
Descortina-se
Quando ele abre a porta da rua.
Os pássaros não guardam nada,
Não voltam para lugar algum,
Não se prendem...
Se me procurarem eu não estarei
No mesmo lugar.
Os sonhos que tenho
Dobraram minhas asas,
Catequizaram minha sede
De conhecimento,
Libertaram-me da primeira página
Do livro
E o vento desfolhou o resto.
Eu sou o poeta descontente,
Nu,
Com o livro preto
No colo.

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