Biology by Vee

Uma fanfic que conta a vida de uma adolescente,que vive uma realidade bem diferente da habitual, uma relação física com dois professores de biologia. "- Quando eu apenas imaginava como seria te ter, você já era meu vício – ele sussurrou, arrepiando meus cabelos da nuca com seu hálito quente – Agora que eu realmente te tenho... Não vou conseguir te tirar da cabeça." A fanfic mostra como é fina a linha entre o ódio, a atração e o amor, te deixando tão 'envolvida' quanto a personagem.

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23. Capítulo 23

(Niall Horan’s POV)
NIALL NARRANDO!!!!!!!
As paredes frias de meu imenso apartamento pareciam amplificar o som de meus sapatos chocando-se contra o piso de mármore. A fraca iluminação, fornecida pela tímida luz da lua, manchava de cinza as formas duras de meus móveis, talvez se unindo ao barulho de meus passos numa singela tentativa de me fazer sentir ainda mais solitário. Fora os sons que eu produzia, o silêncio dominava por completo o ambiente; não havia sequer uma outra respiração, um outro coração batendo por perto. Somente eu, somente meu próprio silêncio. 
E é exatamente nessas horas que me pergunto: pra que mais do que isso? Qual é a vantagem de se ter mais alguém? Qual é a vantagem se estar acompanhado, quando não existe nada melhor que ficar sozinho? Não existe nada como a liberdade que se tem ao estar completamente só, totalmente livre dos olhares dos outros, sempre como urubus sobrevoando a carniça que são as desgraças das vidas alheias. Para mim, a solidão era nada mais que uma dádiva, da qual eu sabia fazer uso como poucos. 
Parei em frente à enorme janela de meu apartamento, que consistia numa parede inteira feita de vidro, e de lá observei a cidade. Não havia muito mais do que luzes, prédios, carros e pessoas andando nas ruas iluminadas, a típica imagem de uma sexta-feira à noite. Para mim, observar o movimento das ruas era mais interessante do que ligar a televisão e assistir a todo o lixo de sempre; a espontaneidade era absurdamente contrastante. Sentindo a baixa temperatura do copo de uísque entre meus dedos espalhar-se por minha pele, soltei um suspiro baixo e bebi todo o seu conteúdo sem pressa. Um sorriso mórbido fez uma pequena curva surgir no canto de meus lábios, e eu esqueci meu olhar num ponto qualquer da rua. Ele não tinha importância naquele momento; não havia nada relevante para se ver. 
Eu realmente gostava de ficar sozinho. Mas naquela noite em especial, eu preferia ter algo para por minhas mãos, ou quem sabe também meus lábios ainda umedecidos pelo álcool. Algo que não fosse duro como o vidro do copo, ou frio como a bebida que descia queimando por minha garganta. Algo que pudesse satisfazer meus sentidos e despertar o exigente interesse de minha virilidade. 
Algo como uma mulher. 
Uma única mulher. 
Dei as costas à monotonia londrina que minha janela me permitia ver e caminhei até a mesinha de centro. Coloquei o copo preenchido apenas por gelo sobre a superfície transparente e continuei meu caminho até o quarto. Pelo trajeto, comecei a desabotoar os primeiros botões da camisa preta que vestia. Não havia mais sentido em continuar com aquela roupa agora que eu havia optado por ficar em casa... Mais uma vez. 
Ainda sorrindo daquele jeito medíocre, entrei em meu quarto com uma curva ágil. Aquela era a terceira vez na semana que eu simplesmente preferia ficar em casa a ir a um pub encher a cara, por pura falta de motivação. Não havia mais sentido nisso, já que a única droga que parecia anestesiar a agonia pulsante de minhas vias sanguíneas provavelmente repousava em seu quarto àquela hora, trancafiada e segura. A salvo de mim. 
- (S/N)... – esbravejei baixo, terminando de desabotoar minha camiseta e atirando-a longe – Maldição de garota. 
Cheguei ao quarto e encarei minha cama, mordendo o interior de minha boca em tom de desgosto. Como se a visão morta do cômodo já não surtisse um efeito negativo em meu humor, minha mente tinha o prazer de divagar por entre as costuras da colcha azul marinho, desenhando com elas a forma de um corpo feminino. O corpo feminino que me atormentava desde que meus olhos cismaram em decorar seu contorno, e que assombrava meus lençóis a partir de então. 
- Maldição de garota – repeti, desafivelando meu cinto e deixando que a calça social preta caísse aos meus pés. Chutei-a para qualquer lugar, assim como meus sapatos e meias, atirando meu corpo sobre o colchão logo em seguida. Abri meus braços, quase tocando as extremidades da cama com a ponta de meus dedos, e respirei fundo, sentindo o ar gélido me acalmar ao resfriar meus pulmões. Fechei os olhos, sentindo meu corpo se arrepiar levemente pela temperatura inadequada para minha única vestimenta: as boxers. Fiquei imóvel por alguns segundos, apenas deixando meus sentidos se apurarem em meio ao silêncio denso e à brisa gelada que vinha da janela, e inevitavelmente minha mente intensificou seu raciocínio, contrariando propositalmente minhas ordens para que seguisse o caminho oposto. 
Há menos de uma semana atrás, eu a tinha em meus braços. Sua respiração batia calmamente contra meu tórax, seu corpo jovem e adormecido depositava um peso confortável sobre mim, o perfume cítrico de seus cabelos confundia-se com minha respiração como uma bênção... Ela era minha. 
Hoje, ali estava eu novamente. Sem nada mais do que algumas lembranças, muitos desejos e uma quantidade considerável de seu ódio para chamar de meu. 
O que mais me intrigava nisso tudo era que as coisas pareciam ter efeito contrário quando se tratava dela. Quanto mais eu demonstrasse meu interesse e corresse atrás, mais ela parecia se afastar de mim, como ímãs que se repelem. Justo eu, que nunca havia perdido uma chance de me aproximar. Justo eu, que sempre lutei pelas coisas que quis. Está certo, concordo que dinheiro e mulheres nunca foram problema para mim, mas há um certo momento na vida de um homem no qual não se tira mais vantagem de detalhes como esses. Pessoas como eu amadurecem de fora para dentro: primeiro, os desejos carnais, a luxúria, a ambição, o materialismo incontroláveis; depois, conforme o tempo passa e a experiência começa a pesar sobre nossos ombros, boa parte desse encanto se esvai, e apenas uma fraca e temporária névoa permanece, deixando-nos nada mais que o vazio. Um vazio que dói, lateja, pulsa e sangra cada vez mais, implorando por algo que o preencha. 
E esse momento parecia enfim estar chegando para mim. Já era hora de reconhecer que eu estava ficando velho demais para brincadeiras. Agir como gente grande parecia uma tarefa bastante interessante aos olhos do bom apreciador de desafios que eu era. Prêmios fáceis não aguçavam minha competitividade; nunca fui adepto de prendas baratas e sem valor algum, a não ser para preencher o tédio. Mesmo tendo a criação farta que tive, o bom senso nunca me faltou. Sempre soube investir em tarefas árduas, pois sabia que a conquista me recompensaria de maneira equivalente a todo o tempo e suor gastos para obtê-la. 
Sempre soube que após algum esforço, ela seria minha. E dessa vez não seria diferente. Se ela pensava que finalmente havia me feito desistir, não conhecia o tamanho de minha obstinação. Se ela achava que eu me daria por vencido tão cedo, não conhecia nem metade da determinação que havia dentro de mim. 
Virei-me de lado na cama, deparando-me com o relógio de cabeceira: meia-noite e dez. Meus olhos começaram a dar leves sinais de sonolência, e eu atribuí tal feito aos copos de uísque que havia bebido há pouco. Obrigado, álcool, meu fiel companheiro, por mais uma noite de sono. Sem demora, minhas pálpebras se fecharam confortavelmente, e eu soltei um suspiro relaxado. A sensação de decisão tomada se disseminava por meu corpo, provocando um torpor delicioso e um leve sorriso em meu rosto. 
Eu a veria naquele maldito baile. E mesmo que ela tentasse me recusar de todas as formas, eu a teria novamente em minhas mãos e em minha boca, como sempre deveria tê-la. 
Já disse que realmente gosto de desafios? 

Uma música ensurdecedora enchia meus ouvidos, fazendo com que minhas entranhas parecessem vibrar conforme o ritmo da batida eletrônica. A iluminação era irregular e colorida, acompanhada de uma leve névoa, e a grande quantidade de pessoas fazia com que a temperatura aumentasse dentro daquele ambiente. 
Olhei brevemente ao redor, tentando me localizar, e não demorei muito tempo para reconhecer o lugar: estava no ginásio do colégio onde trabalhava, e uma enorme pista de dança havia sido injetada nele. Vultos passavam rapidamente por mim, e somente algum tempo depois, me dei conta de que eram alunos e professores rodopiando ao meu redor, envoltos em suas próprias coreografias improvisadas e empolgados demais com a música para me notarem. 
Um sorriso esperto se alojou em meus lábios quando finalmente a ficha caiu dentro de meu cérebro. Eu estava no baile de primavera. Ou seja, faltava pouco para que (S/N) entrasse em meu campo de visão, e não muito tempo depois, em algum banheiro ou sala vazia. Comigo. 
Vasculhei discretamente a multidão de gente que dançava, mas não encontrei sinal algum da única pessoa que desejava ver. Caminhei rapidamente até o bar, que para minha surpresa, estava vazio, e pedi o drinque mais forte que o barman pudesse me dar. Eu não planejava ficar bêbado naquela noite, mas se eu ainda teria que esperar mais por ela, que fosse com uma boa dose de álcool correndo em minhas veias. Virei o corpo de frente para a pista, sentindo uma leve adrenalina formigar em meus músculos e delatar a imensidão de minha ansiedade. Se durante a espera eu já me sentia prestes a implodir, não sei se gostaria de estar na pele dela quando finalmente a tivesse em minhas mãos. 
E então, foi como uma alucinação. Meus olhos se chocaram contra a imagem inesperada, e tiveram que fazer o caminho de volta ao distanciarem-se distraidamente dela. Os cabelos volumosos, os olhos vorazes, os lábios sensuais, o colo sedutor, o busto delicioso... A cintura definida, os quadris sinuosos, as coxas fartas... Sim, era ela. 
(S/N). 
O desejo transbordava em meu olhar. Aquela só podia ser a visão do paraíso. Como se o simples fato de ela estar ali já não me bastasse, (S/N) estava absolutamente deslumbrante. Nunca, nem sequer em meus delírios mais profundos, imaginei que a veria linda como ela estava naquele momento, aproximando-se cada vez mais de mim e tornando a possibilidade de tocá-la cada vez mais válida. 
Seus cabelos estavam caídos sobre os ombros, formando perfeitas e charmosas ondas em seus fios. Seus olhos eram felinamente delineados por linhas pretas ao seu redor, deixando suas íris faiscantes e fixas nas minhas ainda mais hipnotizantes. O corpo era coberto apenas por um justo e curto vestido tomara-que-caia vermelho, que destacava toda a região de seus ombros, colo e pernas. Uma delas, inclusive, estava quase totalmente nua devido ao corte vertical que abrangia desde a barra do vestido, que ficava na metade de sua coxa, até perto de seus quadris. Os sapatos pretos de salto tornavam os contornos de seu corpo ainda mais sensuais, fazendo com que minhas mãos subitamente começassem a suar frio e meu coração parasse por alguns segundos, antes de recomeçar a bater com velocidade alucinante. 
E antes que eu pudesse me conter e pensar em alguma coisa que não fosse sua beleza, seu perfume envolveu a atmosfera que me rondava, anunciando sua aproximação. Meus olhos ainda encaravam os dela, provocantes, e sua sensualidade começava a surtir efeitos físicos em mim: gradativamente, a calça social me parecia extremamente desconfortável, assim como todo o resto de minhas roupas, e a necessidade de sentir sua pele quente contra a minha chegava a me arrepiar por inteiro. Era possível sentir o suor gelado brotar de minha testa, o sangue ser violentamente bombeado para o resto do corpo, a garganta secar em poucos segundos, as extremidades formigarem de tesão. Como ela podia ser tão maravilhosa? 
(S/N) me olhou de cima a baixo, assim como eu havia feito com ela há poucos segundos, e seus lábios avermelhados se retorceram num sorriso malicioso. Ou ela havia desistido de se afastar de mim, ou ela estava tirando uma com a minha cara. Não consegui me decidir, havia outros milhares de pensamentos colidindo em minha mente para que eu pudesse concluir alguma coisa. Para mim, não fazia muita diferença, eu sabia que a teria naquela noite e nenhuma dessas opções representava um obstáculo para mim. Ela virou lentamente o corpo, indicando que se afastaria, e me lançou um último olhar significativo antes de caminhar até a pista, rebolando de um jeito enlouquecedor. Deus do céu, o que ela estava planejando para mim? 
Apenas a observei se distanciar, totalmente nocauteado, até que ela parou praticamente no meio da pista de dança e voltou a me encarar. Havia menos gente ao seu redor agora, por algum motivo que eu não estava interessado em saber, tornando minha visibilidade plena. Ela voltou a sorrir, safada, e como se cada parte de seu corpo tivesse vida própria, começou a dançar de um jeito extremamente sensual, como se fosse apenas para pisar no que ainda restava de meu autocontrole fragilizado. A música parecia tocar conforme seus movimentos, e não o contrário; seus olhos mantinham-se presos aos meus, como se analisassem o efeito que sua movimentação provocava em mim. Meu corpo gritava, cada pedacinho de mim urrava, em um uníssono perfeitamente audível e impossível de ser reprimido, a minha sentença. 
Eu precisava tê-la. Não havia mais forças para esperar. 
Engoli em seco, sentindo dificuldade para respirar, e retomei parte do controle de minha mente. Ignorei tudo e todos ao meu redor e caminhei determinadamente em direção a ela, sentindo os joelhos tremerem e a calça apertar meu corpo. Nossos olhares estavam tão conectados que eu mal podia enxergar outra coisa em minha frente a não ser o brilho de seus olhos. A cada passo, meu coração parecia acelerar ainda mais seus batimentos, ansiando pelo momento em que ela estaria grudada em mim e nossos corpos, prestes a se fundirem num só. 
Mas esse momento parecia não chegar nunca. Na verdade, eu já estava andando há tempo demais para não a ter alcançado ainda. Franzi levemente a testa, confuso, e só então me dei conta de que ainda estava no mesmo lugar. Ela, porém, pareceu não perceber isso, porque não houve mudança alguma em seu comportamento. Angustiado, apenas apertei o passo, tentando inutilmente sair dali, mas nada mudou. Minha visão já estava um tanto turva pela falta de oxigênio, mas eu não me importava com aquilo. Tudo que eu queria era chegar até (S/N) antes que alguém o fizesse. Antes, talvez, que Hazza o fizesse, se é que ele estava ali. 
E não precisei de muito tempo para descobrir. 
Dois segundos depois, ele surgiu de algum lugar perto de mim e simplesmente passou reto, com os olhos fixos na pista. Acompanhei seu trajeto com o olhar, e para meu pânico, ele se aproximava cada vez mais dela, que agora retribuía seu olhar com um sorriso cheio de segundas intenções. O meu sorriso – sim, ele era só meu, e nada mudaria minha opinião. Hazza chegou até ela com facilidade, e envolveu sua cintura com as mãos, deixando que as dela se apossassem de seu pescoço. Um nó apertado surgiu em minha garganta, gerando uma dor lancinante; olhei ao meu redor, procurando por alguém que pudesse me ajudar a me mover, mas subitamente, todos que estavam próximos a mim pareceram sumir, deixando-me completamente a sós com minha agonia. Ou pelo menos quase, até uma voz familiar sussurrar bem ao pé de meu ouvido. 
- Ah, aí está você. 
Virei-me de um pulo na direção do som, e fui dominado por um horrível enjôo assim que reconheci a dona do sussurro. 
- Estava te procurando há horas! – Kelly Smithers disse, com um sorriso presunçoso no rosto e, antes que eu pudesse sequer abrir a boca para dizer algo, senti sua mão agarrar minha gravata e me puxar na direção oposta à de (S/N). E, como num passe de mágica, meu corpo obedeceu a seu comando e se moveu para longe da pista. Minha respiração, que já era praticamente nula, tornou-se ainda mais entrecortada conforme a imagem de (S/N) e Hazza ficava cada vez mais inatingível. 
E então meu celular tocou. 
Espera aí. Meu celular tocou? 
A visão mal iluminada do ginásio deu lugar à claridade do sol, esparramando-se quarto adentro pela janela e sendo refletida nas paredes brancas. Minha respiração era ruidosa e minha boca estava seca, ao contrário de meu corpo, que parecia ter ensopado os lençóis de suor. Olhei em desespero ao meu redor, sem nem me lembrar de como havia ido parar sentado na cama, e tudo que vi foi meu quarto, exatamente como deveria estar. Nenhum móvel a menos, nenhum corpo a mais. 
Soltei um suspiro aliviado, fechando pesadamente os olhos em seguida e sentindo meu corpo se acalmar gradativamente. Tudo aquilo havia sido um sonho, ou melhor, um pesadelo. Apenas, somente, nada mais do que isso. Voltei a encarar meus lençóis revirados, normalizando meus sinais vitais, e só então o barulho estridente que me despertara voltou a se apoderar de meus tímpanos. Franzi minha testa umedecida de suor e virei-me na direção da mesinha de cabeceira, fonte do som: meu celular tocava e vibrava energicamente sobre a superfície, implorando por atenção. 
Revirei os olhos, irritado com a perturbação matinal, e joguei meu tronco violentamente de volta ao conforto do colchão. E somente por um único motivo, decidi atender à chamada, sem nem olhar de quem ela era para não desistir de meu ato de gratidão. 
A maldita ligação havia me tirado daquele pesadelo horripilante. E isso era uma boa ação num sábado de manhã. Obrigado, estranho... Eu acho. 
- Alô? – rosnei, sem fazer a menor questão de ser simpático. Fosse quem fosse, já estava com sorte demais por ter sido atendido àquela hora. 
- Horan? – uma voz melada emanou do celular, e por um segundo, me arrependi de ter sido tão piedoso. O enjôo pelo qual fui atingido em sonho retornou com força total assim que ouvi Kelly pronunciar meu nome daquele jeito vulgar de sempre, me fazendo pensar que vomitaria a qualquer momento. 
- Queria poder dizer que não – grunhi, respirando fundo logo em seguida para conter a movimentação suspeita do conteúdo de meu estômago. 
- Ih, pelo jeito acordou de mau humor – ela notou, com a voz levemente ofendida, o que me causou uma súbita vontade de rir – O que houve? Andou tendo sonhos ruins? 
Ah, foi macumba sua eu ter sonhado aquelas coisas, não foi, sua piranha? Eu já devia saber que estar prestes a conviver algumas horas com você fora do calendário escolar semanal seria traumático o suficiente para me causar noites ruins. 
- Meus sonhos não são da sua conta – falei, com a voz encharcada de tédio – Já a maneira como você os interrompe desnecessariamente devia lhe render pena de morte. 
A hipótese de ver Kelly recebendo uma injeção letal ou numa das câmaras de gás famosas na época de Hitler me fez divagar por técnicas de tortura bastante interessantes, distraindo-me por tempo suficiente para que eu quase perdesse sua resposta. 
- Como você é estúpido às vezes, Niall – sua voz afetada reclamou, provocando um sorriso maldoso e satisfeito em meu rosto por ter conseguido demonstrar o efeito péssimo que ela tinha em meu humor – E, pra sua informação, eu não liguei para falar baboseiras, tá? Só queria saber que horas você vai passar aqui hoje, pra poder estar pronta a tempo. 
Ergui uma sobrancelha, adotando uma expressão horrorizada, e olhei rapidamente para o relógio: nove e cinco da manhã. Meu rosto se contorceu ainda mais, num reflexo chocado por sua atitude idiota. Quem em sã consciência acorda às nove da manhã num sábado para acordar outra pessoa e falar sobre um baile de primavera idiota? 
Pois é. Kelly Smithers parecia ser exatamente esse tipo de pessoa. E eu era o tipo de babaca que se deixava acordar por gente como ela. Você pode até tentar me consolar dizendo que eu provavelmente não era o único cara a ser acordado por sua acompanhante naquele dia, e eu te respondo que tal fato não me consola nem um pouco. 
Aposto que (S/N) ainda estava dormindo, mal se preocupando com futilidades como bailes de primavera. Pra que programar o dia todo ao redor de uma festa idiota, sendo que em pouco mais de meia hora ela já poderia estar magnífica dentro de qualquer roupa? 
Soltei um suspiro levemente irritado comigo mesmo por minha capacidade de desviar meus pensamentos para ela com tamanha facilidade. Calma, Horan, desse jeito não vai sobreviver até a noite. Seu coração de trinta anos não resiste ao mesmo ritmo frenético de dez anos atrás, apesar de ser perfeitamente saudável e acostumado a situações como essa. 
- Ahn... Sei lá, Smithers, se vira – respondi, retornando ao assunto com certa dificuldade de concentração e sentindo os últimos vestígios de minha bondade se esvaírem rapidamente – Agora se me der licença, vou voltar a dormir. 
- Mas Niall... – ouvi Kelly protestar, com sua típica voz de biscate revoltada, mas não a dei chance de continuar. 
- E não corra o risco de quebrar suas unhas tentando me ligar de novo, porque eu vou desligar o celular. Siga meu exemplo e volte a dormir também, pelo bem da humanidade. 
Com um sorriso sacana no rosto e sem ouvir mais uma palavra sequer, encerrei a ligação, colocando o aparelho no modo silencioso logo em seguida. Um homem sempre precisava de um pouco de paz após um diálogo tão desgastante com Kelly Smithers, e eu estava prestes a ter o meu. 
Ou pelo menos tentar tê-lo. 
Mesmo voltando a me acomodar confortavelmente entre meus lençóis, o sono já me parecia distante. Meus olhos se recusavam a fechar, e uma leve agitação havia se alojado em meu estômago, arrancando suspiros tensos de meus pulmões vez ou outra. Abracei um de meus travesseiros, com a intenção de descarregar um pouco de minha inquietação repentina na força de meu aperto. Em vão.
- Merda – sussurrei baixo e entre dentes, quando finalmente desisti de dormir. Levantei-me de um pulo, espreguiçando-me assim que fiquei de pé, e respirei fundo antes de me dirigir ao banheiro para fazer minha higiene matinal. Dez minutos depois, saí de lá uma nova pessoa, com barba feita, rosto lavado, dentes escovados e hálito fresco. Deus salve a Rainha, e a higiene. 
Ainda esticando-me, caminhei preguiçosamente pelo corredor frio até chegar à cozinha. Revirei os armários abarrotados de besteiras e preparei um café-da-manhã quase adolescente: torradas com geléia e um copo enorme de achocolatado. Se a manhã não havia começado tão bem quanto eu previra, nada me impedia de tentar consertá-la, certo? 
Atirei-me sobre o sofá após colocar a bandeja com minha refeição sobre a mesinha de centro, e liguei a enorme TV de plasma. Noticiários matinais, programas para crianças, e toda aquela chatice de sempre. Bufei diante daquele tédio, deixando alguns pedaços da torrada que eu mastigava escaparem de minha boca, e não pude deixar de rir de meu momento infantil. Eu costumava ser sempre tão metódico, sempre tão objetivo, que às vezes minha criancice diante de alguns detalhes bobos me surpreendia, permitindo-me pensar que ainda havia algo valoroso dentro de mim. 
Minha nossa... Isso foi profundo. Eu bem que devia anotar pensamentos filosóficos como esse. 
Tsc, quer saber? Que se foda. 
Tamanha ocupação mental às nove e meia da manhã me deu uma suave dor de cabeça, e eu resolvi desligar meu modo Platão e parasitar um pouco diante da televisão. Após alguns segundos trocando furiosamente de canal, encontrei um programa agradável: Hell’s Kitchen. Você deve estar pensando que eu sou algum tipo de homossexual enrustido por assistir programas de culinária, mas tenho dois excelentes motivos que explicam a relação entre minha heterossexualidade (sólida como granito, diga-se de passagem, que isso fique bastante claro, obrigado) e a gastronomia. Primeiro, a arte da culinária é algo a ser muito apreciado, principalmente quando se mora sozinho e se aprende o quão difícil é preparar um almoço digno após uma manhã de trabalho árduo; segundo, Gordon Ramsay era o cara. Essa frase pode ter soado meio estranha, mas é que para mim, Hell’s Kitchen era não só um programa sobre comida, mas também sobre como ser um filho da puta de primeira categoria. E ambas as opções me atraíam de certa forma. 
Fiquei assistindo, em meio a gargalhadas e lágrimas de tanto rir, aos esculachos de Gordon durante boa parte da manhã, graças à pequena maratona de Hell’s Kitchen, e assim continuei, estirado em meu sofá absurdamente confortável, pulando de canal em canal até ficar sem opções de programação. Quando enfim desisti da TV, meu estômago já estava implorando por comida, e obviamente não o contrariei. 
Liguei para um restaurante chinês e pedi um yakissoba tamanho família, com tudo que minha forma atlética tinha direito. Enquanto meu almoço não chegava, tomei um banho rápido, tentando espantar os últimos rastros de preguiça. Não que eu realmente acreditasse que uma ducha gelada me daria o ânimo que eu precisava, mas não custava nada tentar. Confesso que durante o banho eu andei me lembrando da parte boa de meu sonho/pesadelo, o que estendeu minha estadia debaixo do chuveiro por alguns minutos. Ser homem tinha suas desvantagens, como a fraqueza mental diante das mulheres (e conseqüentemente, a física que se seguia a ela). 
Exatamente quando terminei de me vestir, o interfone tocou, anunciando a chegada de minha refeição. Poucos minutos depois, já estava sentado novamente em meu sofá, saboreando as delícias da culinária chinesa (ou japonesa, pra mim é tudo igual). Devorei tudo em tempo recorde, sendo atingido em cheio pelo arrebatador sono pós-almoço. Lavei rapidamente a louça que havia usado, tentando me manter acordado, mas parecia que o sono de uma manhã desagradavelmente interrompida também começara a se manifestar. Tudo que me lembro após essa constatação foi que assim que terminei a louça, cambaleei até minha cama ainda desarrumada, e me deixei cair sobre ela, sentindo as pálpebras pesarem e a mente entrar em hibernação. 
E, como se tivesse acabado de fechar os olhos, voltei a abri-los, subitamente assustado. Ao invés da claridade amena da tarde, minhas pupilas dilataram-se ao encontrarem a escuridão da noite dominar meu quarto. Eu odiava aquela sensação, fazia com que minha cabeça parecesse pesar toneladas. Instintivamente, olhei para o relógio de cabeceira, ainda um pouco zonzo: oito e quinze. 
- Merda! – exclamei, quase caindo da cama ao querer me levantar depressa, embolando-me nas cobertas e levando o triplo do tempo que levaria para ficar de pé normalmente. O baile já havia começado há quinze minutos e eu mal havia separado um terno decente! Jamais me perdoaria se (S/N) chegasse e eu não estivesse lá para vê-la... Seriam quinze minutos desperdiçados de uma noite com ela, e eu me amaldiçoaria para sempre por perdê-los. 
Ajeitei a cama com toda a rapidez que pude e tomei uma rápida ducha fria, somente para afastar os últimos vestígios de sono e deixar que a água gelada me trouxesse a concentração da qual eu precisaria naquela noite (não, não estava com humor nem tempo para lembrar novamente do sonho, tá legal?). Enxuguei-me depressa e enrolei a toalha em meus quadris, deixando o banheiro feito um raio e pegando a primeira combinação de paletó, gravata, camisa, calça e sapatos sociais que encontrei. Meu figurino aleatório até que não ficou tão mal: uma camisa roxa, uma gravata cinza clara e o resto das roupas de cor preta, assim como as boxers que vesti correndo (e quase caindo ao fazê-lo). Odiava estar atrasado, odiava me arrumar correndo, sempre deixava os outros esperando e que se danem os horários, mas hoje era uma rara e necessária exceção. 
Vesti o resto das roupas na mesma velocidade, e em menos de cinco minutos, já estava praticamente pronto. Me olhei rapidamente no grande espelho do banheiro para me certificar de que estava tudo certo, e ajeitei a gravata que ainda estava frouxa em meu pescoço. Eu odiava usar aquela droga (e passei a odiar ainda mais depois de meu pesadelo), parecia uma coleira me enforcando, mas para as mulheres, era uma espécie de charme a mais. Vai entender a mente feminina... Acho mesmo é que elas sabem que essa porcaria nos incomoda e fingem gostar só pra nos ver sofrer. 
Voltando ao assunto, escovei os dentes com todo o cuidado que alguns minutos me permitiram, e dei uma rápida bagunçada em meu cabelo, o suficiente para que ele ficasse do jeito que eu gostava. Pelo menos ele parecia estar contribuindo para o sucesso de minha noite. Peguei o vidro de perfume que aguardava sobre a pia do banheiro e borrifei nos lugares de sempre: nos pulsos e no pescoço. Saí do banheiro e fui até o quarto para pegar meu celular e minha carteira, únicos itens que me faltavam, sentindo aqueles sapatos sociais me incomodarem um pouco. Nada que fosse conquistar minha atenção quando meus olhos estivessem ocupando espaço demais em minha mente, como eu sabia que estariam assim que (S/N) entrasse em meu campo de visão. Após (quase) um dia inteiro sem pensar nela, o que era um tanto raro, já que a via cinco dias na semana, não pude deixar de sorrir sozinho ao visualizar o momento em que estaríamos próximos novamente. 
Mas logo voltei à realidade, e revirei os olhos ao guardar o celular no bolso. Pra que eu ia precisar daquele pedaço de tecnologia irritante? Aquilo só servia pra me estressar, afinal, sempre tem aquele energúmeno que me liga justo nos momentos mais impróprios só para torrar minha paciência. Tipo o Styles. Fiz uma careta ao me lembrar dele e de todo aquele triângulo amoroso no qual estávamos metidos; com certeza, ele era o mais desavisado do perigo que corria estando em meio ao fogo cruzado no qual se resumia minha interferência em sua relação com (S/N).
Não que eu tivesse orgulho de ser o responsável pelos chifres do meu melhor amigo. Como eu acabei de dizer, ele é meu melhor amigo - bom, pelo menos por enquanto ele é, não sei se continuará sendo por muito tempo -, mas as coisas se tornam um pouco mais complicadas quando esse amigo está com a única garota que você quer em todo o universo, entende? Se ele estivesse pegando a Smithers ou qualquer outra garota oferecida da escola, eu mal estaria ligando pra isso. Mas não. Ele foi escolher a (S/N). Justo a (S/N). Eu vi primeiro, eu tinha mais direito do que ele, ainda mais agora que ela me correspondia, mesmo que não quisesse admitir. Certo? 
Larguei o celular sobre a mesinha de cabeceira e voei até a porta, rodando a chave da Ferrari no dedo indicador de uma mão e guardando minha carteira no bolso da calça social com a outra. Peguei o elevador e rapidamente cheguei à garagem, onde meu brinquedinho vermelho reluzia, me esperando, pronto pra me levar o mais depressa possível para aquele baile. E, conseqüentemente, pra (S/N). Porque, com toda a certeza do mundo, ela seria minha hoje. Toda minha. 
Enquanto manobrava com facilidade e acelerava rumo à saída da garagem, me peguei pensando em como ela estaria vestida. Será que estaria de vermelho, como em meu sonho/pesadelo, só pra me provocar ainda mais antes mesmo de encostar em mim? Ou talvez estivesse de preto, escondendo por debaixo de seu vestido todas aquelas curvas que faziam meu sangue borbulhar em certas regiões e me deixavam com aquele sorriso tarado no rosto só de pensar nelas? É... Pensando assim, eu prefiro que ela esteja de preto. 
Dirigi o mais depressa que pude até a escola, sentindo meu coração acelerar a cada semáforo ultrapassado. Estacionei bem na frente do colégio, abençoando quem teve a brilhante idéia de reservar as vagas privilegiadas para o corpo docente, e saí da Ferrari, respirando fundo e me preparando pra finalmente vê-la. Não seria difícil encontrá-la, era só procurar a garota mais perfeita no meio daquele monte de alunos sem graça. Contive um sorriso ao imaginá-la, quase irradiando luz própria de tão linda em meio àquele bando de gente idiota, e atravessei a rua, me esgueirando por entre a multidão que entupia a entrada da escola. 
Com passos largos e rápidos, logo cheguei ao local onde havia mais gente: a pista de dança, que era basicamente a mesma que eu havia visualizado em sonho (talvez porque todo ano, a mesma decoração se repetia, a ponto de todos os professores já a saberem de cor). Uma música qualquer tocava, fazendo as pessoas se moverem conforme seu ritmo, mas nenhuma dessas pessoas era quem eu procurava. Bufei, lançando olhares impacientes para todas as direções, e em poucos minutos, já tinha percorrido todos os ambientes disponíveis, sem encontrá-la em lugar nenhum. Não havia motivo para estar naquele de baile se não fosse para vê-la, então a leve irritação que começava a me dominar fazia um certo sentido. Sem contar os arrepios que se manifestavam por debaixo do tecido da roupa ao passar pelo bar praticamente idêntico ao que visualizei em sonho. 
- Cadê ela? – rosnei, baixo o suficiente para ninguém escutar, e quando estava prestes a começar uma segunda ronda, ouvi uma voz pronunciar meu nome. 
- Ei, Horan! – algumas meninas do terceiro ano chamaram, e quando me virei em sua direção, vi que elas carregavam expressões confusas – Você viu a Kelly por aí? 
Meus olhos se arregalaram após aquela pergunta, demonstrando meu pânico. 
Eu tinha me esquecido completamente de buscar Kelly. 
Merda! Merda, merda, merda! 
- Não – respondi, tentando manter a calma, e graças a Deus consegui recuperar minha concentração antes que as garotas percebessem minha falha – Ela... Ela deve estar... Por aí. 
- Nós a procuramos por toda parte, e nada – uma delas disse, agravando sua expressão desconfiada – Bom, se a vir, peça a ela para nos procurar, pode ser? 
- Pode deixar – assenti, disfarçando minha afobação para que elas fossem embora, e assim que se distanciaram, caminhei avidamente até a saída do colégio. Àquela hora, Kelly deveria estar me xingando de todos os nomes feios que conhecia, e eu aposto que conhecia muitos. Não que eu ligasse para isso, pelo contrário, enfurecê-la era algo que eu gostava de fazer, mas do jeito que era vingativa, seria capaz de qualquer coisa para me ver pagar pela gafe de tê-la esquecido em pleno baile de primavera, ainda mais em seu último ano no colegial. E me ver metido em escândalos era a última coisa que eu queria no momento, já havia coisas demais em minha cabeça requerendo minha preocupação. 
Entrei apressadamente na Ferrari, e acelerei sem demora, a caminho da casa de Kelly. Estava com a cabeça tão perdida em mil pensamentos diferentes que mal me lembrei de que, incluída no caminho da escola para a mansão dos Smithers, havia uma rua que me despertava muita curiosidade depois que descobri um interessante fato sobre ela. 
Era ali que ficava a casa de (S/N). 
Fazia tanto tempo que eu não dirigia por aquele trajeto que mal me recordei desse fato tão relevante. Só me dei conta desse detalhe quando meus olhos se depararam com a casa familiar, poucos metros à minha frente. Quando estive ali pela primeira e até então única vez, após a última festa de Kelly à qual tinha ido, terminei num poste, com minha BMW amassada feito sucata. Senti meus pulmões se contraírem de tensão devido às sensações que aquele lugar me trazia, e não consegui conter a vontade de frear bem em frente à casa, tentando não chamar muita atenção, é claro. 
Observei atentamente as janelas, buscando por alguma luz acesa, mas não encontrei nada, a não ser por um detalhe no mínimo curioso: os vidros de uma janela próxima à porta estavam abertos. Perigoso descuido, sem dúvida, apesar de aquele ser um bairro bastante famoso por seu baixo índice de criminalidade. Provavelmente, sua mãe ainda estava em algum cômodo e logo notaria a discreta abertura, por isso nem me preocupei em tomar qualquer atitude. 
- Como eu sou idiota – murmurei para mim mesmo após mais alguns segundos na espreita, relaxando meus ombros e balançando negativamente a cabeça, porém sem tirar os olhos da casa – Ela deve estar chegando ao baile enquanto você a espera aqui, feito uma mula. 
Suspirei profundamente, sentindo o peso da ignorância me desanimar, e após mais alguns segundos de tola esperança, voltei a girar a chave na ignição, rindo de minha própria burrice. Lancei um último e ansioso olhar à casa escura, contendo minha curiosidade em saber como ela era por dentro, e assim que meus olhos voltaram a se afastar dela, vi algo que me pareceu uma miragem a princípio, mas depois se tornou fato. 
Uma das luzes havia sido acesa no andar de cima. 
Voltei a fixar meu olhar no cômodo agora iluminado, sentindo meu coração palpitar ansiosamente, e não precisei esperar muito para que o responsável por ativar aquela iluminação passasse bem em frente à janela, perto o suficiente para que eu o reconhecesse. 
Perto o suficiente para que eu recebesse a melhor notícia de minha noite. 
Aquele só podia ser o quarto de (S/N). 
Porque era justamente ela quem estava lá dentro. 
- Eu não acredito nisso – sussurrei para mim mesmo, ouvindo os batimentos eufóricos de meu coração ao constatar tais fatos, e como num piscar de olhos, todas as peças se uniram em minha mente, formando uma imagem muito mais do que clara, apesar dos riscos que me oferecia – Então... Ela não vai ao baile? 
Meus olhos foram da janela de (S/N) até os vidros abertos no andar de baixo, e continuaram fazendo esse percurso vicioso por alguns segundos, buscando por possíveis falhas. Encontrei algumas, como a possibilidade de sua mãe estar em casa, mas eu estava tão boquiaberto diante daquela situação tão favorecedora que hipóteses como essa me pareceram meros detalhes. 
Está tão fácil!, uma voz ecoou em minha cabeça, e eu não pude fazer nada a não ser concordar com ela. Após mais alguns poucos segundos de indecisão, respirei fundo e me desfiz da gravata, sentindo que precisaria de mais ar do que o normal. Minha escolha estava feita; estimulada pela exorbitante recompensa que sua presença poderia me trazer, a coragem necessária para lidar com as piores derrotas agora zunia em minhas veias. 
Porque para a doce vitória, eu já estava mais do que preparado. 
- Hm... – pensei alto, cerrando meus olhos agora fixos na janela do andar de baixo, e um sorriso criminoso surgiu em meu rosto – Por que não? 

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