Fúria Escarlate

Lyra é uma adolescente normal que vive com seu tio nos Estados Unidos. Até então ela nunca soubera o que era ter uma experiência sobrenatural, até que seu tio some por uma semana com o casaco banhado em sangue e uma única ideia na cabeça a de que eles tinham que se mudar. E como combinado para sua própria segurança Lyra vai viver com um amigo de seu tio até que o mesmo esteja pronto para se juntar a eles. Até que o inesperado acontece e por ironia do destino o único homem que Magnus julgava ser bom o suficiente para proteger a sua sobrinha está morto... O que Lyra fará diante a essa situação? Descubra na trama intrigante que é Fúria Escarlate.

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2. Capítulo 2

 

 

Galhos secos arranhavam freneticamente a janela em um barulho ensurdecedor, tirando-me do meu devaneio, acordei aos poucos tentei reunir informações de onde estava, mas não consegui nada, apenas um quarto com uma cama na qual estava deitada, um guarda-roupa e alguns móveis, o quarto estava pintado com uma cor fria um branco encardido, havia muitas infiltrações no teto e nas paredes, tentei me mover, mas sentia muita dor e vi que algo prendia-me na cama, não era nenhuma corrente, nem camisa de força, era apenas o lençol no qual estava embrulhada como Magnus fazia nas noites frias de inverno.

 

Queria explicações, onde estou? Porque estou?  Eu queria gritar chamar por ajuda, mas a quem chamaria quem atenderia o meu chamado? Era isso que eu mais temia, eu poderia estar em qualquer casa de Louisville ou pior fora dela.

 

Ouvi uma voz do lado de fora e logo depois passos precisos que acabavam na porta do quarto, do jeito com que falava parecia estar ao telefone, à maçaneta girou abrindo a porta e revelando uma única pessoa que ostentava nos braços uma bandeja, enxerguei lá fora o que me parecia ser uma floresta, não aquela na qual me refugiei, uma bem maior e mais perigosa, a visão ainda não estava muito boa, então semicerrei os olhos, a fim de melhorar e como feito funcionou agora o borrão turvo se transformara em uma mulher não a conheci de primeira mão ela tinha traços delicados, cabelos loiros e olhos azuis, podia-se dizer que seus olhos eram tão transparentes que dava para enxergar sua alma, ela abriu um sorriso de dar inveja em qualquer top model. E caminhou até a cabeceira da cama. A única coisa que eu sabia era que ela era o inimigo.

 

Seus olhos atentos percorreram o meu corpo deitado que desenhava curvas por baixo do lençol, tentei apoiar-me nos cotovelos mais estava fraca e voltei a cair na cama, normalmente aquilo não traria dor alguma, mas senti tal dor que uma lagrima brotou no canto do meu olho, levantei o lençol queria vê o que me fazia sentir dor tão forte, foi quando eu me surpreendi a minha pele estava intangível, parecia uma peneira cheia de cortes e esfoliações, coloquei de leve a mão em minhas costas e pude sentir um curativo acima do meu ombro direito, inspecionei o meu corpo estava em uma situação deplorável.

 

 - Isso é o que acontece com quem foge da gente. – Ela disse adivinhando o meu pensamento. – Está se sentindo melhor? - Eu balancei a cabeça para os dois lados dizendo que não.

 

Ela continuou, eu não sabia o que “melhor” significava para ela, mas se fosse a termos físicos eu estava arruinada. Ao tentar me mexer mais um pouco senti um liquido defluir pela minha pele o liquido vermelho escorreu do meu pescoço até a altura do meu ombro, e a mulher logo se pôs a limpar tudo muito rápido com um algodão. O movimento circular em meu pescoço me fazia sentir vontade de gritar, mas Conti o grito e apenas soltei um murmúrio de dor. A verdade era que eu queria pega-la pelo pescoço e estrangula-la porque eu podia enxergar o prazer nos olhos dela enquanto me causava dor.

- Quem é você? – Indaguei entre dentes.

- Alguém que você deve respeitar se quiser viver! – Anunciou com sua voz de gralha.

-Porque mataram o Senhor B? – perguntei novamente e ela não me respondeu. – Porque me sequestraram?

-Você tem algo que nos pertence. – Ela pegou novamente a bandeja e pôs sobre o meu colo. – Agora coma, essa pode ser a sua ultima refeição. E não queremos que você morra de fome, não antes de conhecer o Chefe.

- Porque você não me mata logo? Não faz a mínima diferença para mim! –Eu gritei derrubando a bandeja no chão. Eu vi os olhos dela se encherem de fúria e sua mão trêmula de raiva alcançou o meu rosto fazendo o meu nariz sangrar. Ela tinha uma força descomunal para alguém que aparentava ser tão frágil.

 

A dor lancinante ainda rompia a minha pele, mas não tanto quanto antes o ódio havia me consumido, e eu só queria bater nela até a morte, ameacei ficar de pé, mas fui tomada por uma vertigem que de repente fez o mundo rodar a minha volta como se estivesse saindo de um carrossel me fazendo cambalear, derrapei pelo piso de cimento e cai ao chão sem fazer nenhum barulho, ela estava ali diante de mim com um sorriso idiota no rosto, só mais um passo e eu a faria conhecer a minha ira, instantaneamente ergui a mão a fim de alcançar a cabeceira da cama houve um estalo e uma dor correu sob o meu seio direito percorrendo as minhas costas em uma reviravolta ensandecida, eu sufoquei um grito de dor no fundo da minha garganta. Foi então que percebi a grande faixa que envolvia o meu tórax, será que o impacto fora tão forte que eu fraturara uma costela?

 

Ainda no chão me ergui lentamente sobre o piso me colocando de pé, estava quase despida se não fosse pelo hobbie de hospital que eu trajava, deixando as minhas costas praticamente nuas. Ela me golpeou novamente desta vez rente ao curativo fazendo-me encurvar, eu queria revidar, mas não sabia onde buscar força, e acabei desfalecendo ao chão. Ela chutava a minha barriga e me chamava de nomes que nunca pensara em dizer durante toda a minha vida, ela desferiu um chute contra o meu rosto e naquele momento eu já nem sentia mais dor alguma, parecia que havia sido injetada em mim uma grande dose de morfina. Eu não enxergava mais, só ouvia longinquamente, de repente ela parou, ouve um ranger da porta se abrindo e logo depois a mesma foi batida, as portas de carros bateram três vezes, escutei o motor de um conversível, e eu estava sozinha novamente.

 

Deitada no chão eu gritava para mim mesma “Não se deixe morrer, não deixe que aquela vadia tenha o prazer de tirar a sua vida”. E o meu corpo não respondia, eu chorava involuntariamente porque eu nem ao menos entendia o porquê de tudo isso e eu só conseguia pensar em como tudo começara...

 

 

A vida sempre fora o meu único bem precioso, mesmo que, às vezes algo saia errado, ou que a mesma pareça escapar por entre os meus dedos, eu não me deixo esmorecer. É como atirar pedras em um rio, quando se atira, a primeira pedra nem sempre é aquela que desliza sobre água, ela cai na água em um pulo convencional, e quando tudo parece dar certo, ela traça seu percurso ao fundo do rio, e sabemos que ela não ira voltar. É ai que devemos erguer a cabeça e ir em busca de uma nova pedra.

As pedras são como os sonhos... Nem sempre quando desejamos muito algo, significa que isso ira se realizar, não devemos nos flagelar por algo que talvez não nos caiba , devemos apenas tentar a sorte com outro sonho. E a única coisa em que devemos nos apegar é na lei de que, toda ação tem uma reação, assim como isso, uma pedra não pode pular para sempre, há uma hora que ela de qualquer forma acabará por afundar. Pois nada dura para sempre, mas se de fato a vida é como um rio, o rio que designaria a minha vida seria o Roxeny.

O Roxeny é um rio cuja origem é desconhecida, suas águas são claras e turbulentas e da margem enxergasse uma variedade de pedras que brilham tocadas pelo sol de Waver Ville. Do outro lado há uma frondosa floresta, muitos tentaram adentra-la, poucos foram o que conseguiram e os que saíram ficaram loucos.  Da beira do rio tive várias tentativas frustrantes de enxergar o seu interior, mas nada enxerguei além da névoa densa que cobria até o pico dos colossais pinheiros. E o mais incrível disso tudo é que o Roxeny corta o meu quintal.

Waver Ville é uma pequena cidade situada ao leste de Boston, cercada por bosques e vales, quase não aparece nos mapas. E alguns animais como ursos e grandes felinos são tão frequentes quanto às chuvas que inundam as ruas.

-Lyra. –Gritou uma voz um tanto familiar.

Cuidadosamente levantei-me da grande pedra a beira do rio e caminhei lentamente pela grama opaca banhada de sereno. Abri a porta de vidro que dava para a cozinha e adentrei o cômodo. O mesmo estava vazio.

Coloquei a mão sobre o balcão e debrucei-me sobre ele, certificando-me de que ele não me surpreenderia. Voltei ao chão e tirei os chinelos dos pés colocando-os junto à porta. O corredor estava escuro, pois caíra à noite, nada se ouvia além do barulho das corredeiras. Tateei pela parede o interruptor, mas a lâmpada não se acendera, um frio calamidoso, envolveu-me me fazendo arrepiar dos pés à cabeça. Meu coração disparava repetidamente com o espaço de tempo de uma inspiração, meu corpo estava congelado, porque eu sabia que ele não estava ali, porque tio Magnus havia sumido há uma semana.

Passos ecoaram do lado de fora da casa, fazendo o meu coração da volta dentro do peito e consequentemente todo o meu corpo se estremecer. Encolhi-me no sofá e abracei os joelhos junto ao queixo, na tentativa de me sentir mais segura. Repeti para mim mesma que eu era corajosa e que não havia nada lá fora a que eu devesse temer, mas isso não era nada além do meu subconsciente tentando me acalmar.

A maçaneta da porta começou a girar loucamente em um barulho irritantemente amedrontador. Nesse momento eu fechei os olhos e me apeguei a todo tipo de crença que eu já tinha visto em minha vida e de repente o barulho parou. Isso certamente deveria me acalmar, mas só me deu mais medo porque significava que quem quer que estivesse fazendo aquilo estava dentro de casa agora. Abri os olhos na expectativa de dá de cara com alguma criatura macabra como aquelas saídas de filmes de terror, mas para o meu alívio só havia tio Magnus e ele me olhava incredulamente.

- Porque você não abriu a porta quando eu chamei? – Ele perguntou ligando a luz da sala. Parecia-me mais nervoso do que o normal. E isso fez meus neurônios fritarem atrás de uma resposta que não o alarmasse mais ainda.

- Eu peguei no sono. – Respondi olhando para o chão afim de que ele não lesse a mentira no meu olhar.

Eu ia pergunta-lo onde esteve, mas o seu casaco havia chamado muito a minha atenção, sim o seu casaco ao qual ele estava vestido e que por um motivo estranho tinha uma mancha enorme de sangue.

Endireitei-me no sofá deixando espaço suficiente para que ele se juntasse a mim, mas apenas se sentou na poltrona a minha frente. Havia algo de errado com ele, pois nunca fora tão frio como agora. Eu poderia está errada, mas ele nem se quer me cumprimentou.

- O que aconteceu com você? – Interroguei apontando-lhe o casaco. Eu estava preocupada porque eu não queria de jeito algum que ele estivesse machucado, mas ele ignorou a minha pergunta.

Ele cruzou as mãos sobre os joelhos, e assumiu um ar pensativo, ficamos assim por alguns minutos quando ele finalmente quebrou o silêncio.

- Nós precisamos ter uma conversa séria! – Anunciou. Com uma expressão de “Lyra, o que eu posso te contar pode acabar com a sua vida, mas, por favor, espere eu terminar de falar para você ter um ataque do coração.”.

 Acenei com a cabeça para que ele prosseguisse e ele continuou:
- Eu sei que você odeia que eu faça rodeios então eu vou direto ao ponto. – Comentou temeroso. – Vamos nos mudar! – Confessou.

Aquelas palavras atingiram os meus ouvidos como balas ao coração. Tio Magnus estava à minha frente esperando uma resposta e eu simplesmente estava ali com os olhos arregalados tentando associar o que ele me disse a uma ideia concreta. Na maioria das vezes eu não o entendia, mas hoje era como se eu não o conhecesse, como se algum alienígena houvesse roubado o seu corpo. Nem de longe ele estava bem e eu só queria que ele esquecesse essa ideia insana. Eu não me mudaria de jeito nenhum, mas ele não me deixaria vencer tão fácil.

- Nos mudar? – Repeti em voz alta na esperança dele me dizer que era só mais uma de suas brincadeiras, mas ele se manteve sério. – Assim do nada? No meio do ano letivo? – Argumentei.

Eu vivi com ele por toda a minha vida, e ele nunca tomara uma decisão quanto a mim sem saber a minha opinião primeiro, mas agora ele simplesmente ignorava ela, como se de uma hora para outra eu houvesse deixado de existir Normalmente ele era robusto e muito claro, tinha olhos azuis e cabelos loiro, mas hoje ele estava estranhamente magro, como se não houvesse comido a dias, seu cabelo e sua pele estavam envolvidos por uma crosta de sujeira e tinha os olhos de quem havia perdido muitas noites. Me perguntava onde ele havia estado, mas nem nas minhas fantasias mais loucas encontrei a resposta.

- Waver Ville não é tão segura como antes!- Explicou. – E além do mais vamos para casa do B.

-Eu não vou a lugar algum. – Esbravejei cruzando os braços sobre o peito, mas diferente das outras vezes ele não se manteve passivo. –E os meus amigos Tio Magnus?

- Não serão tão importantes se você estiver morta! – Ele berrou me pegando com força pelos ombros e me balançando. Havia um misto de fúria e medo em seus olhos que eu nunca havia visto. Ele estava agressivo e ofegante, era confuso ligar uma coisa a outra mais no fundo eu sentia o medo em cada frase que saia da sua boca.

- Moramos aqui a tanto tempo e veja nada nos aconteceu até agora! – Eu falei girando para que ele visse que eu estava bem.

- Nós vamos e ponto final! –Sentenciou, deixando o corpo cair novamente sobree a poltrona de couro.

Eu estava aflita. Havia um bolo na minha garganta, eu só queria subir para o meu quarto naquele momento e chorar até morrer, não por está me mudando, mas por ele não confiar em mim o bastante para me dizer o que estava acontecendo. Ele nem se aproximara de mim, era com se estivesse me evitando a todo custo. Eu me sentia confusa e profundamente magoada, porque ele era tudo o que eu tinha.

Metade de mim, já sabia que argumentar não valia para nada, pois tudo já estava decidido, mas tentar não custava caro. Era a minha ultima chance. E eu a gastei com a ideia mais desvairada que eu tive.

Ele tinha afundado na poltrona e se esquecido completamente de que eu estava ali, quando ouviu a minha voz foi como se eu houvesse puxado-o de um mundo secreto ao qual havia se refugiado.

- Você some por uma semana sem mais nem menos e volta com essa ideia maluca de que vamos nos mudar..- Ele ergueu os olhos afim de me encarar. – Você matou alguém tio Magnus?

Eu pude vê-lo comprimindo um riso no canto da boca, e fiquei me perguntando o que aquilo significava.

-Largue de besteiras! – Contestou. – Vá! Você já deveria estar na cama. – Completou. – Você vai amanhã bem cedo.

-Então quer dizer que você está querendo se livrar de mim? – Eu disse já podia sentir os meus olhos molhados de lágrimas.

-Eu tenho que resolver algumas coisas por aqui antes de partir. –Declarou.

Não disse nada. Virei-me e me arrastei pelas escadas de madeira, ele nem me deu um tempo para me acostumar. Passei tão rápido pelo corredor que as fotografias que estavam penduradas na parede não passaram de um vulto. Girei a maçaneta da porta do meu quarto e entrei no cômodo me jogando sobre a cama. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo, ele tinha o dom de complicar tudo. Eu não sei como uma pessoa pode mudar tanto em pouco tempo, mas esse tempo fora havia mexido muito com ele.

                                                                               

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