Dark Clouds

Anna Jameson tinha uma vida. O que ela não esperava era partir tão cedo. E o pior: sua morte não era um acaso. Aos 17 anos interrompidos, Anna procura a razão de sua partida e da repetição do dia de sua morte. O que ela não esperava era descobrir o que descobriu...

7Likes
2Comentários
401Views

1. 1

Sabe aquela sensação de que tudo vai dar errado logo quando acorda? Foi exatamente isso que senti hoje quando o familiar toque do relógio me despertou no susto às seis da manhã em ponto. A preguiça fazia meu corpo ficar pesado demais para se levantar da cama, minha cabeça latejava enquanto me acostumava com a luminosidade que entrava pela janela.  

- Bom dia, querida.  

Ouvi minha mãe dizer enquanto ainda descia as escadas. Um sorriso acolhedor estampava o rosto brando de mamãe que já terminava as panquecas... Ela estava realmente fazendo panquecas? Panquecas eram raras aqui, mamãe preferia ovos e bacon. Papai adorava panquecas, segundo minha mãe. Desde que ele "passou dessa para melhor", como dizem, ela nunca mais fez o prato para ter que se lembrar dele. Eu tinha uns 5 anos quando ele faleceu, então nós não falamos muito sobre ele por aqui. E eu prometi a mim mesma que não iria chorar, ele não iria querer que eu ficasse chorando pro resto da minha vida.  

- Panquecas?  

- Eu sei que quase nunca as preparo, mas hoje senti vontade de fazê-las.   

Mamãe exibia um sorriso satisfeito, mas mesmo de longe eu podia ver os olhos inchados após o choro. Queria abraçá-la e dizer que não precisava ter feito isso, mas seria drama demais por apenas um prato de panquecas. Por maior valor sentimental que elas podiam ter.  

Sentei-me e comecei o café apressado, queria chegar mais cedo hoje na esperança de conversar um pouco mais com Vick e sua tentativa desesperada de conseguir um encontro com Connor McKinley. Francamente, não sei porque ela ainda tentava sair com ele. Ela fazia o tipo garota nerd, mas bonita e ele, garoto popular, talvez burro e bonitão. Esse é o problema de garotas incríveis como a Vick. Elas acham que precisam de um namorado lindo e popular para acharem que os outros irão notá-las. Acham que durante essa vida de colegial precisam ser perfeitas e namorarem algum dos populares para fazer parte de uma sociedade na qual a aparência e o dinheiro são as únicas coisas que importam, mas eu pergunto onde tudo isso vai dar? Eu estou além. Quero fazer algo útil da minha vida, ser alguém. Quero ter um estudo bom, uma profissão da qual eu goste e ser uma pessoa digna, não apenas uma garota que qualquer garoto se aproveita. Eu quero e sou diferente.  

- Anna, você pode voltar mais cedo para casa hoje? Eu...queria conversar com você sobre uma coisa importante sobre seu pai. Acho que já é hora de você saber.  

Isso não era bom. Amava minha mãe, e muito. Acho que crescer sem um pai fez com que eu me apegasse ainda mais à ela, mas realmente eu não era boa de conversa com pais. Sabia que pela expressão em seu rosto devia ser algo sério, mas não achava que eu estava preparada para conversar sobre o papai.  

- Eu não sei, mãe - hesitei por um segundo. - Acho que vou estudar para a prova preparatória na casa da Vick e se terminarmos tarde, ficarei por lá mesmo.   

- Filha.... por favor.  

Eu odiava quando ela insistia numa coisa que eu não queria de jeito nenhum. E não queria discutir logo de manhã, então peguei minha mochila, dei um beijo no rosto preocupado de minha mãe sai. Sentia o peso na consciência enquanto caminhava até o colégio, mas eu precisava ter feito aquilo senão não apenas ela cairia no choro, como eu também.  

*****  

Enquanto o professor de inglês falava, eu apenas imaginava o que minha mãe queria me contar mais tarde. Eu sabia que não era um assunto bom pela expressão insegura que estampava o rosto dela. Estava tão concentrada nos meus pensamentos que nem ouvi o sinal tocar. Intervalo. A pior hora do dia graças à Candice Brushwell, a senhorita perfeita que insistia em implicar comigo e como sempre Vick estaria lá para me defender. Sei que poderia muito bem rebater os insultos de Candice, mas Vick era sempre mais rápida, então deixava que ela se divertisse por mim.   

O refeitório estava tomado pelo habitual barulho dos alunos conversando e rindo misturado ao som dos copos e talheres de plástico. A mesa dos atletas estava tipicamente uma bagunça e cheio de garotas populares com seus peitões falsos e um excesso enorme de maquiagem. 

- O que você vai fazer hoje?  

Victoria Thompson finalmente apareceu. Ela já estava com a bandeja pronta ser preenchida e entrava atrás de mim na fila.   

- Você podia ir lá em casa hoje para me ajudar a decidir o que vestir no.... meu encontro com meu deus grego Connor super gato McKinley!!  

Não consegui evitar o riso diante daquela cena! Vick dava pulinhos e seu sorriso era de orelha a orelha, o que automaticamente me fez esquecer temporariamente do ocorrido essa manhã.   

- Encontro?! Explique isso detalhadamente!  

Disse empolgada. Vê-la feliz me deixava feliz, mas algo em minha cabeça insistia que aquilo não era uma coisa boa.  

- Depois. Preciso saber se você vai me ajudar ou não.  

Ela fazia aquela carinha que eu não resistia. Já tinha mentido pra minha mãe, então se fizesse daquilo verdade, tecnicamente seria como se eu não tivesse mentido. Não seria?  

- Tudo bem - disse num tom de derrotada-. Depois da aula?  

- Com certeza! O que você acha de... - eu encarava a diversidade de saladas quando Vick parou de falar e começou encarar algo atrás de mim.  

- O que foi?   Virei-me para ver o que ela tanto olhava com a expressão misto de raiva e seriedade. Candice.  

- Lá vem. Prepare-se.  

Senti calafrios. Espera, eu deixava que Vick me defendesse, mas não porque eu não tinha coragem. Eu realmente não me importava com o que garotas metidas como Candice pensavam sobre mim, mas isso nunca me intimidou.   

- Anda logo, gnomo de jardim!   

O apelido começou há uns 4 anos, eu era baixa para minha idade e super baixa em relação aos outros alunos. Eu via as outras garotas enquanto elas cochichavam algo para os garotos que começam a rir como se fosse a melhor piada do mundo. Então, num dia um deles esbarrou em mim no corredor e berrou "Olhe por onde para, gnomo de jardim!". Desde então, sou chamada de gnomo de jardim e eu faria qualquer coisa para que parassem.   

- Cala a boca, loira aguada!  

Vick rebateu e virou para a frente, na direção certa da fila. Vi Candice revirar os olhos e começar a rir com suas escravas. Eu achava essas garotas que idolatravam Candice tão burras quanto. Aposto que só bancam as escravas porque ela é rica e uma das pessoas mais populares da cidade. Bem, por sorte esse foi o único momento que Candice pegou no meu pé. O intervalo todo foi Connor McKinley pra cá, Connor McKinley pra lá e toda a animação de Vick, no entanto eu ainda pensava no que mamãe queria falar comigo. Porque sei que se ela não falasse hoje, iria falar em alguma outra hora.  

O sinal finalmente bateu novamente anunciando nossa entrada para a aula de Química. 

Pobre professor Thruman, nenhum aluno estava realmente prestava atenção durante suas aulas. Garotas encaravam suas unhas e garotos cochichavam sobre algum tema estúpido demais para meu interesse. E hoje não seria diferente. Eu costumava prestar atenção e fazer alguns exercícios, mas hoje eu observava as folhas caindo das árvores secas no final do outono. O vento estava frio lá fora, tinha certeza.   

Então me peguei pensando no que acontece depois que morremos. Sentimos alguma coisa do tipo todo o corpo se desligando? Encontraríamos alguém na "outra vida"? Como eu saberia para onde ir? O que eu...  

- Ei Jameson! A aula já acabou, hora de voltar pro seu jardim!   

A voz irritante de Candice despertou-me imediatamente de meus devaneios. Enquanto juntava meu material, conseguia ouvir as risadinhas dos garotos do time de futebol que sempre estavam com Candice. Não preciso nem comentar sobre a fama dela com os garotos do ensino médio.    Guardei as coisas em minha bolsa e corri para dar o fora dali. Andei pelo corredor até a sala de Literatura para encontrar Vick.    

Em pouco tempo estávamos virando a esquina do quarteirão do colégio. Minha certeza havia se concretizado: o vento frio batia em nossos rostos a cada passo. No fundo, eu esperava que chovesse.   

- Anna? Estou falando com você!

- Ah, desculpe. O que foi que disse?  

Vick bufou, como se dissesse "ok, desisto".   

- Aqui, vamos atravessar.   

Observei minha amiga sair correndo até o outro lado da rua. Sim, eu fiquei para trás, distraída com duas perguntas que não saíam da minha cabeça: o que mamãe queria me contar? E o que teria feito com que Connor mudasse de ideia e aceitado sair com a Vick? Ele faz parte dos populares, desconfio de tudo. O que é que estava acontecendo comigo? Eu não costumava me importar demais com as coisas. Uma buzina alta irrompeu em meus ouvidos me tirando de meus pensamentos. Só assim percebi que estava no meio da rua, olhando para baixo.   

Tome cuidado...  

Arrepiei da cabeça aos pés. Uma voz masculina. Eu escutara uma voz masculina assim que pisara na calçada do outro lado, então olhei ao redor. Nada. A rua estava vazia com exceção de alguns carros e de Vick e eu.   

- O que você tem hoje?  

Preocupação. É o que eu tenho. E agora, um certo medo de eu estar louca ou apenas obsessiva a tal ponto de estar ouvindo vozes. Mas é claro que eu não iria contar tudo o que havia acontecido e as minhas preocupações e deixá-la preocupada também. Ela estava feliz demais para que eu tirasse o sorriso de seu rosto.  

- Nada.   

Sorri esperando que ela perguntasse novamente o que havia comigo, mas ela não o fez. Apenas sorriu de volta e voltou a falar sobre o lugar secreto que Connor iria levá-la enquanto caminhava.   Viramos umas três quadras à frente. Vick morava algumas ruas após o cemitério. Horripilante, é o que algumas pessoas dizem, mas não, ela não é uma gótica ou viciada em fantasmas e coisas sobrenaturais. Enquanto passávamos em frente ao portão de ferro sujo pelos anos do cemitério, Vick parou de falar por um momento.

Então foi como um filme em câmera lenta. Ali, ao fundo do terreno onde minha vista alcançava, havia uma aglomeração de pessoas. Eu podia ver o monte de terra do lado da cova recém aberta. Todos estavam com os rostos vermelhos e fungando após um longo choro; outros não conseguiam nem respirar direito, mas apenas uma mulher, que pensei ser a mãe do falecido, estava berrando. Em meio aos gritos, ela puxava ar com dificuldade. Acho que se não fosse o homem de terno preto segurando-a pela cintura, ela teria pulado dentro da cova e feito de tudo para que quem quer que estivesse dentro do caixão acordasse e tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Um pesadelo que ninguém queria lembrar. A aglomeração negra me fez sentir um leve calafrio e a pontada de culpa por ter mentido para minha mãe voltou me atingindo com tudo. Nem havia reparado que Vick parara ao meu lado, com certeza se perguntando porque eu estava observando.  

Dizem que as pessoas usam preto em velórios e enterros porque a cor está relacionada à morte. Honestamente, mesmo sendo uma questão de "cultura", eu sempre pensava que branco seria mais adequada. Branco, cor da paz. Não seria essa a cor para transmitir paz ao que se foi?   

Vá até lá. Você sabe que quer saber...  

Então aquela voz masculina invadiu meus pensamentos novamente. Misteriosa, convidativa, porém grave. Dessa vez, talvez porque estivesse certo, não me assustei. Eu queria saber, queria poder de certa forma consolar a perda.   

- Volto num instante.  

Avisei Victoria e apressei o passo cemitério à dentro antes que Vick pudesse dizer algo.

Enquanto andava até o grupo de pessoas, um aperto no meu coração começou a querer me sufocar, parecia que não iria aguentar mais um segundo. 

Aguente firme, Anna. 

A voz que me incentivara a atravessar o portão agora estava firme, como se dissesse: estou aqui por você, siga em frente. Se papai estivesse vivo, provavelmente diria que eu estava com excesso de medo e meu corpo criou uma voz que, para meus ouvidos, seria tranquilizadora e eu a ouvia sempre que sentia medo demais para pensar em fazer alguma coisa. Era até possível que papai me arrastasse até sua sala de psiquiatria e ordenaria que eu desenhasse pessoas, objetos, qualquer coisa que retratasse essa voz que escuto ou quando a escuto. Mas agora não era o momento para pensar em meu falecido pai, eu não iria chorar agora. Não ali, no cemitério, a morte é injusta demais para arrancar lágrimas e nos derrubar como uma folha.    

Assim que cheguei a uns três metros de distância, parei e coloquei as mãos nos bolsos de minha blusa para protegê-las do frio. O que eu faria agora? Esperaria até o enterro acabar? Interromperia o último momento de familiares e amigos? Foi então que um homem de meia-idade que segurava uma pá, provavelmente a que abriu a cova, se virou para mim e assentiu tristemente antes de vir até mim.  

- O que aconteceu?   

Sussurrei tão baixo, quase inaudível. Estava pronta para repetir a pergunta, mas então o homem respondeu:  

- Desgraça - ele balançava a cabeça negativamente. - Pobre família, um garoto jovem, 17 anos eu diria, chamado Henry foi atropelado quando deixava a oficina do pai. Ele foi parar debaixo do ônibus. Disseram que o motorista estava bêbado, mas a polícia já cuidou dele. Atropelamento é tão injusto quanto...  

Ele suspirou e então abaixou a cabeça. Naquele momento eu sabia que não deveria ter mentido para minha mãe. A maioria dos jovens não estariam dando a mínima, provavelmente nem teriam parado para olhar o cemitério. Mas eu me importava. Minha mãe era minha única família e ela lutou tão forte sozinha desde que meu pai partira. E eu a deixara sozinha naquela manhã, por uma simples birra de não querer falar sobre o assunto. Ver o caixão ali e os familiares ao redor, me fez pensar se fosse eu. Se eu tivesse morrido, o que teria acontecido com a minha mãe?   

Volte. Anna, volte!   

Ouvindo o desespero na voz imaginária em minha cabeça, dei as costas rapidamente e sai correndo por onde vim. A saída estava longe, mas eu já estava ofegante antes mesmo de chegar até lá. Foi então que senti. Fria, leve e líquida. A primeira gota de chuva daquele dia atingira meu pulso em cheio. Aquilo foi o bastante para milhares de outras gotas caírem. Olhei por sobre o ombro e vi algumas pessoas se afastando, provavelmente indo embora, mas a mulher continuava lá como se não estivesse chovendo.   

Você tem que voltar, Anna. Sua mãe...  

Minha mãe. A voz estava falando da minha mãe. Continuei correndo até chegar à Vick que estava colocando o capuz da blusa para se proteger da chuva.  

- O que foi aquilo?  

O jeito que ela franziu as sobrancelhas e cerrou os olhos deu a entender que ela estava preocupada, curiosa e ao mesmo tempo com certa raiva, o que eu entendia completamente porque. Senti sua tensão por sobre a blusa encharcada.

- Desculpe! Eu tenho que voltar!  

Disse aumentando o volume de minha voz para que ela me escutasse.  

- O quê?! Você tá louca? Não dá pra voltar agora, não com essa chuva!  

Vick segurou meu braço e tentou me puxar para o caminho que teríamos feito se eu não tivesse parado no cemitério, sem nem ao menos saber porque.  

- Eu  tenho que ir! Eu te conto tudo amanhã, prometo. 

Ela soltou meu braço e eu a dei um abraço rápido. Saí correndo. Sei que ela ficaria me observando até que eu não estivesse mais ao alcance de sua vista e então bufaria e daria as costas, fazendo o caminho de casa. Sem mim.  

*****  

Meu coração batia forte, parecia que ia atravessar meu peito a qualquer momento. O vento estava muito mais frio agora do que antes. Eu o sentia bater em meu rosto e resfriava a água que havia se aquecido ao se chocar em minha pele. Sentia a adrenalina percorrer meu corpo todo, provocando um choque nas pontas de meus dedos. A bolsa pendurada no meu obro batia contra meu corpo e meus braços se movimentavam rápido. Mas não parecia rápido o suficiente. Pisquei algumas vezes. Era como dirigir um carro. A água caía e eu piscava, a água caía e as palhetas do para-brisa era postas paras funcionar.

Cheguei à rua, antes deserta e parei subitamente. Olhei para os dois lado antes de atravessar. Havia um carro com os faróis acesos vindo pela esquerda,  não sabia dizer se estava rápido ou devagar.  Tic, toc. Tic, toc. Eu não tinha tempo. O jeito era correr e atravessar.  

Não! Espere!  

Ouvi aquela voz de novo. Agora ela gritava, alta e estridente, e ecoava por toda minha cabeça.  Espere, ele repetia. Mas eu não me importei. A sensação de que se eu não chegasse a tempo, algo aconteceria com mamãe. Corri para atravessar. Passei livre pelo carro que vinha. Olhei para trás e vi a sombra masculina através do vidro carro cinza. Algo parecia-me familiar, como se eu conhecesse aquela forma há anos. Foi então que senti o impacto. Duro, invencível e concreto. O ar foi arrancado de meus pulmões, como se eu estivesse presa debaixo do água e não conseguisse mais prender a respiração. Senti minha pela queimar com isso e ouvi o quebrar do vidro. Senti partículas do vidro afundarem em minha pele, a dor no corpo era intensa e dolorosa. Ossos. Eram os ossos sendo quebrados, Minhas costelas. Fechei os olhos. Eu não aguentaria tanto tempo aquela dor. Os cantos do meu campo de visão escureceram. Senti minha cabeça latejar milhões de vezes pior do que quando se bate a cabeça, sem querer, na parede ou na quina de um armário. Então senti o chão frio e molhado sob mim. Por fim a escuridão tomou conta de tudo. Eu estava consciente. Eu ouvia gritos, passos, a chuva, o vento, toques de celular... Meu coração pulsava fraco agora. Um, dois, três. Respire. Um, dois...   

E então não senti mais meu coração bater.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...