intrínseca

Amanda resolve fugir de sua cidade depois perder seus amigos em uma acidente de carro e ser humilhada pelo seu professor de Escrita Criativa na frente de 50 alunos.Ela coloca todas as coisas que lhe são importantes em uma mochila e pega o trem para a cidade vizinha. Há alguns minutos de chegar no seu destino o trem entra em colisão e dois passageiros somem no meio da confusão. Entre eles esta Amanda, que acorda em um castelo abandonado na Bélgica.

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2. Nascemos Para Morrer

   

      Luke estava falando há algum tempo, eu o encarava como se estivesse prestando a atenção. Sua voz era rouca assim como a de Lucas e isso me tirou mentalmente daquela sala. Essa associação me rendeu diversas lembranças, de madrugadas em que eu não conseguia dormir e ligava para que ele cantasse minhas musicas favoritas do Oasis. Se eu ligasse agora ele não atenderia e muito menos viria me buscar para dirigir de madrugada pelo centro da cidade. Eu nunca mais ouvirei sua voz, nunca mais verei seu rosto, nunca mais sentirei seu abraço. As vezes eu esqueço e me pego agindo no automático como se ele ainda estivesse aqui e pudesse me ajudar a lidar com as coisas. O que deve ser feito quando a pessoa que te ajuda a lidar com tudo morre e te deixa sozinha? Uma vez eu ouvi uma das minhas tias dizendo que quando alguém que amamos morre, uma parte de nós morre também e que precisamos aprender a viver sem essa parte. Não sinto como se duas partes do meu eu estivessem mortas. Sinto como se eu estivesse morrendo, gradativamente e dolorosamente. 

  - Amanda? 

     Quando voltei à sala Luke estava me encarando,ele parecia esperar por um resposta.

   - O que vocês sabem sobre meu pai ? -  perguntei impulsivamente. Ele mudou de posição no sofá e me encarou seriamente. Logo depois pegou um smartphone do bolso e começou a mexer. Ele estava me ignorando. Não acreditei nisso. Então ele achava que podia simplesmente me manipular com possíveis informações do meu pai? Qualquer um que acessa-se meu perfil na internet notaria a ausência dele, como eu pude ser tão idiota? 

   - Vai me ignorar também? Vocês fazem isso porque não sabem nada sobre meu pai e esperam que eu acredite que sabem para que eu fique aqui enquanto vocês pedem resgate ou seila o que para aos meus avós.

      Ele revirou os olhos e jogou o aparelho em cima do meu colo .

   - Ligue você mesma e peça o resgate Amanda. - Luke disse apontando para o smartphone - A escolha é sua, ligue e diga que o resgate é você mesma e que esta indo para casa, que foi uma escolha ruim e que vai ficar tudo bem. Faça o que quiser. 

    Peguei o smartphone do  meu colo e voltei meus olhos para o Luke. Seus olhos me fitavam intensamente, como se ele estivesse me desafiando. Permaneci quieta por um tempo, tentando avaliar os prós e contras de fazer aquela ligação para não tomar nenhuma atitude impulsiva e estragar as coisas mais ainda. Afinal, ele podia estar apenas me testando.

  - Ela não vai ligar, se fosse fazer já tinha discado o número 

    Me virei e observei o Declan entrar na sala equilibrando três sanduíches e algumas garafas nas mãos. 

  - Mesmo que ligasse, não ia sair daqui de qualquer modo. Deixei isso bem claro agora pouco - Declan disse sentando e sorrindo.

   Luke pegou um dos sanduiches e saiu sem falar nada. Seu smartphone ainda estava comigo.

  - Você devia comer - Declan disse enquanto mastigava seu sanduíche.

  - Por que você simplesmente não me mata logo? - perguntei sentindo as palavras soltarem uma por uma da minha boca.

    Declan parou de comer e me encarou de forma séria.

   - Porque seu pai me odiaria se eu fizesse isso. Mesmo que eu já tenha tido vontade de fazer duas vezes desde que você acordou. 

   - Para! Para de falar do meu pai como se você o conhecesse, para de me relacionar a ele como se você já me conhece o bastante para fazer comparações. - levantei gritando. Estava cansada, cansada das meias respostas, cansada da confusão , de não saber o que estava acontecendo, cansada. Eu só queria que aquilo acabasse. Que tudo acabasse. Senti lágrimas se formando e sai correndo na direção da porta ao lado da estante velha de livros. Corri o mais rápido que pude,corri até não ter mais ar nos meus pulmões. Dessa vez ele não veio atrás de mim. Estava correndo sozinha com os olhos fechados dentro de um corredor escuro de novo, só que dessa vez literalmente. Das outras vezes em que eu sentia vontade de correr, não sabia para onde mas naquele momento em que estava correndo o mais rápido que podia notei o que eu desejava secretamente. Queria correr até não aguentar mais, até não ter mais ar, até parar de respirar. 

     O corredor era longo e depois de algum tempo correndo meu corpo parrou automaticamente e eu cai no chão. Encostada na parede sentia lagrimas escorrem por todo meu rosto, no mesmo instante em que minha mente era invadida por lembranças daquela noite. Meses depois eu ainda sentia, ainda lembrava ainda perguntava porque. Minha mente estava me punindo, como fazia toda noite. Me fazendo lembrar cada detalhe desde o começo até a ultima vez em que os vi sendo cobertos por terra, ela  me destruía mais e mais. Conforme a intensidade do meu choro aumentava minha vontade de transferir aquela dor para outro lugar também. Levantei a manga da minha blusa e observei meu pulso direito, a cicatriz do ultimo corte já estava quase sumindo. 

     - As vezes a dor é tão grande que a gente só quer parar de sentir tudo.

    Olhei assustada para cima e puxei minha manga de volta. Ele andou até o meu lado e sentou sem falar nada. Agradeci mentalmente a ele por ter me tirado do transe que aquelas lembranças me colocaram e logo depois me lembrei do que tinha prometido aos meu avós. De alguma forma ter alguém ao meu lado me trazia de volta disso, mesmo que no fundo eu ainda quisesse pegar o caminho mais fácil e parar de sentir. 

   - Quando meus pais morreram eu também queria ter morrido com eles.Foi uma sensação horrível porque eu sabia que eles ficariam decepcionados se soubessem. - Luke disse olhando fixamente pela parede. 

   - Meus pais não morreram, eles só foram idiotas até onde eu sei. Meus amigos morreram, da forma mais banal e horrível de todas. - respondi limpando as lágrimas com a manga da blusa.

   - Eu sei, estava no enterro deles. Conheci a Elena naquele luau de fim de férias. Ela com certeza era o tipo de garota que valia a pena.

   Olhei para ele sem saber por onde começar a perguntar, eu nunca o vi dentro da escola e muito menos perto do meu circulo de amigos.

  - Como...

  - Me mudei para la junto com o Declan. - Luke explicou sem tirar os olhos da parede.

  - Sinto falta deles todos os dias. 

  - Eu sei. Também sinto falta dos meus pais todos os dias. Isso nunca passa.

  Senti meus olhos encherem de lágrimas novamente, existe um motivo pelo qual eu respondo que estou bem para as pessoas ao invés de falar sobre isso e o motivo é exposição. Naquele momento estava mais exposta do que nunca estive desde que Lucas e Elena morreram. Estava confiando meus pensamentos há um estranho que provavelmente usaria eles contra mim depois.

  - Se culpar por estar viva não vai traze-los de volta ou tornar a morte deles conformável.É um ciclo vicioso Amanda - Luke disse virando o rosto para olhar para mim. Seus olhos estavam vermelhos  e rendidos. Eu sabia do que ele estava falando, sabia o que ele sentiu porque eu estava sentindo a mesma coisa. Ele estava exposto, tão exposto como eu estava e isso me trouxe um certo alivio. 

  - Como eu saio do ciclo? - perguntei olhando diretamente seus olhos castanhos.

  - Vivendo. Não é fácil, não é um paraíso mas é o que eles iam querer que você fizesse - ele respondeu. 

  - Estou viva agora, não estou? - perguntei desviando o olhar.

  - Você ainda esta naquela noite. Eu também fiquei naquela manhã por um tempo, mas uma hora ou outra precisamos chegar no agora 

  - No agora eu estou completamente sozinha - respondi.

  - No agora você pode estar comigo se baixar a guarda e me dar um voto de confiança. 

 

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