Dama de Sangue

Livia acaba de receber uma estranha visita em sua casa. Um mensageiro vem anunciar sua morte. Livia poderia escapar desse destino trágico? Seria possível se livrar da morte? Por que recebera essa anúncio? Algo a espera depois da morte?

16Likes
12Comentários
1235Views
AA

21. Treinos

Os dias que se sucederam foram cobertos pelo treinamento das duas meninas. Aprimoravam sua agilidade, aumentavam a sua persuasão, aprendiam a arte da manipulação e da dominação. Recebiam, de alguma forma, conteúdo suficiente para que soubessem roubar de um humano seu sangue, usando para isso qualquer forma de sedução.

Evangeline fora instruída a aproveitar-se de seu aspecto infantil e sua aparência doce. Aprendera, como ninguém, a encher os olhos de lágrimas e, feito uma criança perdida, recorrer à ajuda. Recorria ao sentimentalismo instintivo das pessoas para que elas se felicitassem em ajudá-la para que, depois, na vulnerabilidade humana, pudesse atacar um adulto sozinha.

Livia, por outro lado, fora instruída à arte da sedução sexual. Teria que, supostamente, usar seu corpo para atrair homens e mulheres até que a vulnerabilidade do desejo fizesse com que eles se tornassem vítimas fácies. 

Evangeline era muito melhor que Livia no que fazia. Livia desgostava de sua atividade. Não via graça em aprender a seduzir para, em seguida, matar. Aliás, não via sequer muita graça em se tornar uma Dama de Sangue. Mas entendia que aquela era uma tarefa honrosa e que segui-la era mais do que necessário, até para não faltar respeito à Evangeline que tanto se impressionava com aquilo. Fora isso, não sabia o que mais poderia fazer depois de sua morte além de se tornar uma Dama de Sangue. 

Se tentasse ser outra coisa, não teria auxílio e não saberia a quem recorrer. Pior do que isso: talvez fosse julgada por uma população inteira e, talvez ainda, fosse castigada involuntariamente por optar não ajudar a população inteira por um egoísmo bobo. Tinha medo e poucas escolhas. Seguia o caminho que lhe era traçado sem muito questionar.

Enquanto que Evangeline questionava tudo. Interessava-se por cada detalhe do que Livia fazia. E, depois de suas atividades, imitava a mais velha. Dedicava-se religiosamente à tarefa de se tornar uma Dama de Sangue. E, em pouco tempo, já conhecia milhares de lendas e histórias fascinantes a respeito de quem elas eram e do que faziam. 

Eram elas as responsáveis por ajudar toda uma população a sobreviver. Elas que fortemente enfrentavam os humanos e buscavam alimento nas selvas de pedra. Eram elas as maiores guerreiras de todas. Eram elas as mais fortes e mais inteligentes. Elas enganavam os humanos. Elas dissimulavam. Elas tinham poder. Elas eram tudo aquilo que Evangeline queria ser. E a pequena estava disposta a, literalmente, perder a vida para se tornar uma delas.

Esforçava-se tanto quanto era capaz. Tornou-se muito veloz e muito traiçoeira. Era capaz de convencer, em pouco, qualquer um a fazer exatamente aquilo que ela gostaria que fizesse. Tinha sempre uma resposta. Tinha sempre um truque na manga. Tinha sempre uma convicção inocente e infantilizada que dava créditos de verdade a tudo que ela dizia. Uma menina daquele tamanho não enganaria ninguém, afinal...

Em pouco tempo, ganhava novas responsabilidades. Em pouco tempo, treinava como Livia e em menos tempo ainda a superava. Nem Ruan estava à salvo de suas manipulações. Ela o convencia de que já era grande o bastante para treinar feito a mais velha. Ela o convencia de que ela era boa o suficiente para se tornar uma Dama de Sangue antes da hora. E ele, simplesmente, concordava, envolto pela inteligência da pequena, admirado com a forma como ela havia aprendido tão depressa todos os truques... 

A frustração veio apenas no final do treinamento, quando Livia foi mandada para dentro do reino servir como Dama de Sangue e Evangeline não foi autorizada a fazê-lo. Livia seguiu sem questionar, como era esperado de seu feitio. Evangeline, porém, reclamou o quanto pôde e, perdendo a cabeça, esqueceu-se das manipulações e simplesmente caiu em lágrimas.

- Eu queria tanto... - soluçava Evangeline vendo Livia partir. 

- Você não nasceu para isso. Você nasceu para muito mais. Muito mais! - Ruan tentava consolá-la. - Venha cá, tenho uma história para lhe contar... 

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...