Dama de Sangue

Livia acaba de receber uma estranha visita em sua casa. Um mensageiro vem anunciar sua morte. Livia poderia escapar desse destino trágico? Seria possível se livrar da morte? Por que recebera essa anúncio? Algo a espera depois da morte?

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9. O plano

Deitou-se no sofá. Espero uma resposta. A resposta não veio. Fechou os olhos. Os abriu. Focou-se no visor do celular. Nenhuma mensagem nova. Espreguiçou-se. Nada. Pensou um pouco. Lembrou do que um dia lhe disseram. O tempo era relativo, não? Era só relaxar e passaria depressa. Era só relaxar e, quando menos esperasse, a resposta chegaria. Acomodou-se. Relaxou. Fingiu estar desatenta. Lembrou-se que a morte estava próxima. Coçou os olhos. Assustou-se com os próprios pensamentos. Não quis mais estar distraída. Estalou os dedos. Olhou a profundidade do teto branco. Sorriu. Deu risada. Voltou ao visor. Nada. Nada. Nada.

A impaciência começava a ser incomoda. A sala parecia maior do que antes. O aspecto descuidado não mais a atrapalhava. Não havia muito para observar. Os detalhes se perdiam em sua ansiedade. E o celular não vibrava. Mantinha-se quieto, desapercebido, relaxado, sem qualquer atividade. Para ele, o tempo deveria estar passando depressa. Ah, como devia. E se estava assim tão depressa, por quê raios não acelerava o pequeno relógio?

Ah, maldita relatividade furada. 

Os minutos eram teimosos e preguiçosos. Andavam lentamente, quase não saiam do lugar. Demoravam horas para se movimentar. Maldita preguiça. Maldito tempo. Maldito celular. Maldita casa desinteressante.

Nada para observar.

Nada para fazer.

Nada para quê se concentrar.

Nada bom para pensar.

O sofá a sua frente estava quase vazio, fora um outro telefone esquecido por ali. O homem magrelo continuava na cozinha, deliciando-se da comida que não comera por anos para poder exibir os ossos. Livia escutou uma vibração. Mas a tela mostrava o mesmo de antes. Nada novo. Observou o sofá oposto. O barulho vinha de lá e do celular que ali estava. Mudou de lugar, largou o próprio telefone e pegou o alheio. O tédio, de repente, se foi. Os segundos passaram a correr depressa...

"Amor, estou morrendo de saudades.", mostrava a mensagem com assinatura de Bruno.

Os olhos de Livia saltaram. A mensagem era clara e denunciadora, principalmente, por uma palavra em especial, a primeira delas. "Amor" provava que Ryan e Bruno teriam um caso, um romance, um namoro ou algo do gênero. Provavelmente, algo do gênero.

Era esta a brecha necessária para que ela pensasse imediatamente em um plano perfeito, sem a ajuda alguma, sem a espera entediante.

Respondeu à mensagem no celular do rapaz, marcando um possível encontro em um bom restaurante da cidade, no horário do almoço. Depois, simplesmente apagou as provas e jogou o celular de volta para o sofá de onde nunca aparentaria ter saído e voltou ao seu lugar, esperando, novamente, o tempo passar.

–  A geladeira está vazia –  disse Ryan enquanto voltava da cozinha –  e estou com fome.

–  Não vou cozinhar para você não. De jeito nenhum! –  Livia deixou transparecer o bico de uma criança mimada –  Conheço um restaurante ótimo. Você paga, já que você é homem e eu sou mulher. Temos que seguir as regras de etiqueta, finamente.

– Está bem... - se rendia fácil - Só não escolha um lugar muito caro.

E o plano começou a funcionar. Caminharam juntos, ao local escolhido. Livia estava estranhamente mais falando que antes. Talvez mais animada. Tramava algo.

Antes de sair de casa rumo ao grandioso encontro planejado, usando a desculpa de que precisava ir ao banheiro, Livia passou rapidamente no quarto de Heitor e furtou um pequeno recipiente de vidro cuja tampa era nada mais que um conta-contas. Tratava-se, na verdade, de um remédio muito comum usado por pessoas que sofriam do mal da insonia. Livia ajeitou o vidrinho em sua bolsa, contou sessenta segundos e seguiu até a sala e de lá, partiu para o restaurante na companhia de Ryan.

Foram a pé. A mulher estava mais falando do que nunca. Contava de suas maluquices de infância e das armações que costumava fazer na faculdade contra alguns professores que não a suportavam e que aproveitaram a brecha para expulsa-la. Revelava segredos demais ao desconhecido, coisas que não costumava contar nem aos seus amigos mais próximos. Talvez Valentine fosse a única a saber de todas as suas histórias, mas só porque era sua maior cúmplice desde aquela época. Mas a felicidade de voltar aos planos de outrora era entorpecente, de modo que Livia nem mesmo percebia ao certo o que estava dizendo ou fazendo, só falava, sem pensar, o que lhe vinha em mente.

Chegaram ao restaurante depressa. Sentaram-se em uma mesa qualquer do lado de fora onde toda a rua era visível, por insistência de Livia. Disse ela que gostava de observar a paisagem e que isso certamente a tranquilizava. Não sei se era verdade o que ela dizia, mas posso afirmar que não era esse o real motivo de querer sentar-se ali. Queria mesmo era ter certeza de que Bruno os veriam. Deu certo. Os viu assim que o relógio marcou uma e meia da tarde.

Vinha bem arrumado, com uma camisa polo muito bem alinhada e o cabelo propositalmente bagunçado. Chegava com um sorriso bonito, daqueles sinceros que são capazes de contagiar, feito um vírus maligno, qualquer um que estivesse por perto, prestando atenção. O sorriso se desfez em pouco tempo assim que notou os sorrisos de Ryan.

Não que não gostasse de ver o companheiro sorrindo, gostava. Mas ver o moço rindo das conversas de uma mulher era um tanto quanto desconfortante. Livia logo entendeu o ciúme e, simplesmente, sorriu, aproximando um pouco mais as próprias mãos às do rapaz, puxando um assunto um pouco mais quente.

– Não acredito no que estou vendo. - falou consigo mesmo, mas, por proposital descuido, deixou-se ser ouvido por ambos.

– Ela é a namorada do meu primo... - começou Ryan.

– Pior ainda! - reclamou, descrente na situação.

Discutiram por algum tempo, em uma conversa chata que não merece ser escrita. Fora nada mais que aquele típico jogo de acusações contínuas que os casais geralmente têm quando, por acaso, acontece uma pequena crise de ciúme. O que é importante dizer é que Livia decidiu aproveitar-se da situação para pedir três copos de suco de laranja. Os homens distraídos com as suas próprias preocupações nem perceberam que ela despejara quase meio pote do remédio em cada um dos copos alheios.

– Não tenho nada com o Ryan, calma. - sorriu - Fui eu quem marquei esse encontro. Roubei o celular dele e marquei. Ele não parava de falar de você e você também estava com saudades... Achei mais do que justo poderem se encontrar. Mesmo que, bom, mesmo que Ryan tenha assumido a responsabilidade de me proteger. Vamos, tomem um pouco de suco e acalmem-se.

Empurrou os copos em direção a eles. Beberam apenas um pequeno gole, obedientes e de bico. Livia bufou. Encostou a cabeça em sua mão, enquanto apoiava o cotovelo na mesa. Os três conversaram e a mulher voltou ao silêncio habitual, de bico. Decidiram que almoçariam os três juntos. O almoço demorou a correr.

Bruno e Ryan pareciam se divertir com as falas e os olhares que trocavam. Livia se mantinha a observar os copos. Tentava calcular quantos goles eram precisos para que eles desmaiassem, enfim. Não era boa de contas, muito menos de estimativas. Nem mesmo sabia quantos goles já tinham se passado. Mas esperava atentamente. Via quando eles começaram a piscar mais demoradamente. E foi embora assim que pôde, sem saber direito para onde deveria ir.

Não precisava saber. Seguiu pela rua até que decidira ser aquele o ponto certo para se fazer uma curva. E assim que dobrou a esquina, uma surpresa. Valentine se encontrava ali, parada, encostada na parede, meio escondida, como se estivesse observando-os naquele tempo todo.

– Achei que nunca mais fosse sair de lá.

– Valentine, quando foi que você apareceu aqui?

– Há pouco tempo... Escuta, você não pode ir para lá com essas roupas. Vem, vamos às compras.

As compras demoraram muito. Seria até entediante descrevê-las e sou um ser um tanto quanto preguiçoso. De modo que pulo toda essa parte e sigo para cinco horas depois desse inesperado encontro.

Escurecia e a música, inevitavelmente, começava a tocar, como um eco, na mente de Valentine. Como caixas de som, ela simplesmente se mantinha a cantar aquele pop chiclete esperado de todas as noites. Dançaram as duas a caminho daquela boate. Pareciam loucas para quem as visse... Todos na rua a observavam, estranhando o comportamento.

Era uma sensação fantástica. Estavam quase no topo das paradas, observadas por todos os que passavam por perto, como dançarinas famosas. Riram e dançaram muito. Aos poucos, a música imaginária começava a se tornar verdadeira, aumentando seu volume lentamente, até que chegou ao ponto de parecer estourar os tímpanos. Chegaram ao local.

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