Dama de Sangue

Livia acaba de receber uma estranha visita em sua casa. Um mensageiro vem anunciar sua morte. Livia poderia escapar desse destino trágico? Seria possível se livrar da morte? Por que recebera essa anúncio? Algo a espera depois da morte?

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5. O encontro

Livia, enfim, deixara o quarto e fora recebida com olhares de desaprovação de seus pais que acabavam de voltar de viagem.

– Acho que mereço um abraço... - falava o pai brincalhão.

– Merece sim, todos os abraços do mundo! Mas, agora vai ganhar só um que eu já estou atrasada.

Deu um rápido abraço no mais velho e saiu correndo, em direção a porta de casa e, logo em seguida, ao elevador que prontamente a esperava.

Os minutos dentro do elevador foram os piores de todos. Os números que marcavam a contagem dos andares desciam lentamente. Demoravam a seguir, principalmente pela ausência de qualquer pessoa fora Livia. O balançar do velho elevador e as luzes que piscavam por mal contato eram desconcertantes. Parecia a ela muito certo que a escuridão, muito em breve, dominaria o ambiente, que seu meio de transporte cessaria seus movimentos e que o mesmo homem sombrio surgiria para assombra-la mais uma vez.

Felizmente, suas expectativas não se concretizaram. A mulher chegou muito à salvo ao térreo onde Heitor já a esperava sentado em um dos velhos estofados do hall. Livia correu em sua direção, repleta de desejos por tranquilidade. Um forte abraçou selou os corpos. O moço acariciava as longas madeixas loiras da mulher, enquanto esta apenas se mantinha no mesmo silêncio mórbido que a acompanhava há tanto tempo. Mas também nem havia mesmo a necessidade de palavras, de timbres, ou de qualquer tipo de barulho.

Vozes já balbuciavam frases discretas inaudíveis a qualquer outro ser além de Livia. A agitação de gritos já ecoava em seus pensamentos. Toda a confusão de sons já estava dentro de sua mente. Os olhos de Livia cintilavam em lágrimas que tentavam, desesperadas, fugir dessa confusão.

Para Heitor, observa-la e abraça-la naquele estado era horrível. As intrigas da amada, como que por osmose, corriam depressa para a imaginação do rapaz. Vinham-lhe aos milhares perguntas sem resposta, juntamente a um sentimento amargo de verdadeira impotência que feriam seu orgulho. Queria defendê-la, mas não sabia como. Queria livrá-la de tudo o que lhe afligia, mas nem fazia ideia do que poderia estar acontecendo. Queria perguntar-lhe, mas ela parecia tão absorta em seu próprio silêncio que tira-la dele talvez fosse até mesmo considerado uma ofensa.

– Vamos? Acho que se demorarmos muito, perderemos a reserva - tentou uma maneira amena de se livrar da ausência de sons que tanto o importunava - Você vai gostar do lugar.

– Vamos...

E seguiram. Apenas seguiram, nem mais lentos nem mais rápidos que geralmente; nem mais descuidados, nem mais atentos; nem mesmo mais tristes ou mais contentes. Seguiram na mesma ausência de sempre, na ausência de sentimentos, de reações, de conversas, de risadas. Seguiram num vazio gigantesco e preocupante. Seguiram como robôs que apenas seguem, sem qualquer razão ou motivo. O silêncio também dominava suas atitudes, deixavam-nos sem vida, mantendo-nos mortos, por aqueles minutos.

Chegaram na mesma falta de tudo. Sentaram nessa mesma solidão conjunta. Heitor fora o primeiro a ressuscitar dessa estranha condição naturalmente humana. Passou a observa-la com olhos atenciosos, acariciando-a apenas com seu olhar. Tentava confortá-la. Ela ainda não demonstrava sinais vitais significativos.

Peço que o leitor conhecedor da medicina me desculpe pelo mal uso do termo sinais vitais. Me corrijo. Ela ainda respirava e, decerto, mantinha os batimentos cardíacos. Mas afirmo que fazia apenas isso, numa real inércia e que deixar se levar por contrações involuntárias de uma mera junção de células não pode ser considerado veemente viver. Portanto, para todos os fins, nesses poucos instantes, ela estava morta; antes mesmo dos sete dias contados. Matara-se por ansiedade de morrer depressa, provavelmente.

– Meu anjo... - Heitor assumia um tom carinhoso, enquanto encostava a mão sobre as gélidas da garota.

– Meu anjo... - ele repetia, esperando alguma reação fora um rápido olhar instintivo a quem lhe chama - Estou preocupado com você, você parece tão distante... o que aconteceu?

– Um homem invadiu a minha casa... - Livia, finalmente, mostrava um sinal vital - me ameaçou de morte, disse que tenho sete dias e que...

– Sete dias? Está brincando... - ele tentou assumir um tom risonho, mas como não fora acompanhado, forçou a tosse e prosseguiu a fala - cof... cof... O que ele pediu em troca?

– A pior parte é essa, não pediu. Valentine disse, ainda, que não iria... que não iria me ajudar, que quer evitar me ver. Ela parecia saber de algo. Acho que posso ter colocado ela me perigo. O homem deve voltar para me matar e, talvez, mate-a também. Heitor, não estou conseguindo aceitar isso. Não está fazendo sentido, pra mim. Por quê alguém iria querer me matar? E o que Valentine tem a ver com isso? Me diz, o quê? - mostrava-se, finalmente, inquieta e realmente viva.

– Vamos contatar a polícia e avisar o acontecido. Devem pedir um retrato falado do homem e talvez o prendam antes dele voltar atrás de você.

– Mas ele pode se zangar... e decidir antecipar a visita.

– Te contrato um segurança, ficará 24 horas por dia sob a sua guarda. Você estará segura.

– Ele descobrirá logo e talvez se aproveite dos momentos em que estou sozinha. Pode aparecer dentro do meu banheiro, com uma faca, enquanto eu estiver tomando banho, de olhos fechados para tirar o shampoo dos cabelos e...

– Amor, isso não é um filme de terror. O homem não atravessa paredes, não entrará pela janela se você não morar nos primeiros andares do prédio.

– Boa noite, já fizeram o seu pedido? - o garçom interrompia a conversa.

– Ainda não - Heitor respondia simpático - quero um prato da casa e... talvez um vinho tinto? - olhou para Livia, esperando a aprovação que logo veio - isso, um vinho, duas taças.

Assim que o garçom saiu, Heitor, prontamente, retomou o rumo de sua conversa:

– Iremos à delegacia assim que terminarmos de jantar. Agora, trate de se divertir.

– Mas posso morrer...

– Todos nós podemos, amor. Olha, desde que nascemos estamos correndo o risco da morte, não estamos? Estamos, a todo instante. Há milhões de possibilidades de mortes em todos os lugares, mas as desprezamos na maioria das vezes... E sabe por quê?

– Por quê? - questionou desconfiada.

– Porque não vale a pena. Se morrermos, morremos e pronto. Perdemos a consciência e nada mais acontece depois. Vamos virar pó, em pouco tempo, independente de quanto pensamos ou deixamos de pensar na morte. O que tenho certeza é que não vale a pena perder tempo da vida pensando na morte. Ainda somos tão jovens, temos tanta coisa a fazer, não é mesmo? Tem muita coisa pra gente se preocupar, muita coisa que ainda temos a fazer. Vamos nos preocupar com isso, com o que vamos fazer em vida. Deixamos a morte pra depois que morrermos. Combinado?

– Combinado. - disse, já mais calma. - Só você pra me acalmar numa hora dessas...

– Agora, quero que você se divirta muito nesse jantar. Já pensei em tudo para que seja o mais especial de todos os outros, viu?

A noite seguiu em comida, bebida e muito riso. A conversa tomou um novo rumo, sem grandes problemas. Falaram sobre seus sonhos, sobre as suas vontades, sobre o que fariam no dia seguinte, trocaram as mesmas velhas juras de amor, prometeram estar juntos sempre, discutiram um possível casamento e decidiram, até mesmo, o nome dos filhos que ainda estariam por vir.

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