Dama de Sangue

Livia acaba de receber uma estranha visita em sua casa. Um mensageiro vem anunciar sua morte. Livia poderia escapar desse destino trágico? Seria possível se livrar da morte? Por que recebera essa anúncio? Algo a espera depois da morte?

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16. Evangeline

Depois de ter as portas fechadas, uma única luz brilhava naquele imenso cemitério. Vinha de uma vela branca cuja cera derretia sem pressa no pequeno candelabro cor-de-rosa junto às duas mãos de uma pequena criança de pouco mais de seus seis anos de idade. Os olhos azuis cobertors pela escuridão da noite, tornavam mais vivo o sorriso maldoso que visível através da luz da vela.

Aqueles lábios refletiam uma alegria descompensada pela simples quebra das regras tão severamente impostas. Buscava naquela pequena caminhada os malefícios ditos pelos mais velhos com a intenção única de assusta-la. O efeito do discurso do dia anterior fora o oposto do esperado. Os olhos da pequena brilhavam ao imaginar como conseguiria romper a paz das almas que por ali descansavam. Seus pés lentos buscavam o túmulo mais belo para poder perturbar.

O ranger do vento entre as árvores fazia com que seu coração disparasse e com que subisse ainda mais a magnífica adrenalina que tanto a empolgava. Tinha vontade de correr, mas andava lentamente, como se pudesse contrariar até a si mesma.

Tentava acreditar que não havia nada para temer. Ninguém poderia encontra-la por ali, nem mesmo as tias chatas do orfanato de onde fugira. A capa negra escondia perfeitamente seu uniforme, seus cabelos e ainda parte de seu rosto de feições angelicais. E se aquele fosse deveras um dia normal, realmente não haveria nada com que se preocupar.

Passos ritmados vinham de alguma direção aleatória. Eram fortes e impactantes. Ecoavam junto ao vazio morto do cemitério... Ganhavam força a cada vez que pulsavam contra o chão e marcavam sua respiração já acelerada. Alguém estava se aproximando. Talvez a procurassem...

Evangeline apagou a vela e correu em direção oposta. Pisou sobre a terra recém-revirada e abaixou-se atrás de um túmulo qualquer. Fechou os olhos cintilantes, com força... Já que acreditava que se ela não poderia ver alguém, certamente esse alguém também não poderia vê-la. Enganava-se. Um homem de cerca de vinte anos a vira e se aproximara. Tinha meia dúzia de velas nas mãos e olhos vermelhos... Uma voz suave capaz de tranquilizar qualquer mortal saia de sua boca assim que ele se ajoelhara ao lado dela.

– Não acha que é pequena demais para andar sozinha? - Heitor segurava as lágrimas que o guiaram até o local e tentava ser simpático. Afinal de contas, era só uma garotinha perdida que precisava de mais ajuda do que ele, certamente.

A menina abriu os olhos e suspirou aliviada ao ver que não se tratava de nenhum de seus conhecidos.

– Não. Claro que não. Já estou grande, muito grande. Não sei quem você pensa que é para dizer que sou pequena. Cresci muito. Sou grande, é. Gran-de! - respondia tentando ser intimidadora, levantando-se e mostrando todo o seu tamanho.

– Tudo bem, você é grande, então. - respondeu a ela, sem muita paciência – Pode-me dizer qual é o seu nome? Acho que eu posso te levar para casa depois...

– Se me levar, estará encrencado, mocinho. O cemitério está fechado. Você pulou o muro, assim como eu... Me falaram que as punições para adultos desobedientes é mais... mais... - olhava para o céu, estalando os dedos, enquanto buscava a palavra certa para isso - mais... pior! - concluíra.

– Quantos anos você tem? - respirava fundo, tentando não se alterar. Já estava alterado desde a morte de Livia, não havia como evitar sair de si, de alguma forma.

– Oito! - mentiu.

– Então, uma menina de oito... - Heitor olhou desconfiado para a menina, que não se aguentou e começou a rir. - Você não tem oito anos, não é?

– Tenho seis. - confessou, abaixando a cabeça e esperando receber uma punição de alguma forma.

– E como é o seu nome?

– Evangeline - disse a pequena, levantando a cabeça e deixando visíveis os olhos claros. - Por que você estava chorando?

– Eu... - sentiu como se fosse voltar às lágrimas, mas se conteve - perdi alguém especial.

– Isso não faz com que você possa agir feito um bebê. Só bebês choram. A última vez que eu chorei foi ... faz muito, muito, muito tempo.

– Olha, isso não me interessa agora. - subia a voz - Vem, me diz onde você mora e eu vou te levar pros seus pais. Sabe o telefone deles?

– Você poderia virar meu pai se não fosse tão chorão assim...

– Vamos tentar de outro jeito, qual é o seu sobrenome?

– Olha, isso não me interessa agora. - Evangeline engrossava propositalmente a voz e fazia umas caretas engraçadas, tentando imitar o mais velho e irritá-lo para que se cansasse dela e a deixasse em paz logo.

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