Dama de Sangue

Livia acaba de receber uma estranha visita em sua casa. Um mensageiro vem anunciar sua morte. Livia poderia escapar desse destino trágico? Seria possível se livrar da morte? Por que recebera essa anúncio? Algo a espera depois da morte?

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7. Durante a noite,

A casa pequena mostrava os ríspidos traços de verdadeiros maus tratos. As paredes quase caiam nas manchas escuras de umidade e fungos. A tintura branca descacava, sem pressa, de encontro ao piso de mármore mal colocado. O ambiente, em alguns poucos anos, perdera o cheiro e o aspecto de novo.

Livia observava o local distraída, perguntando-se como fora ficar naquelas condições. Lembrava-se de uma casa bela e cheia de vida, em sua última visita. Querendo ou não, estava mais que justificada a vontade de Heitor em não receber visitas da companheira. A falta de manutenção da casa era uma calamidade.

– Não repare na bagunça... - falou o homem, abrindo um pequeno sorriso envergonhado ao rosto.

– Imagina... Eu nunca iria reparar nessas coisas. Você me conhece - disse Livia, enquanto procurava algum lugar limpo e seguro onde pudesse se sentar.

O silêncio voltou a dominar o local. O barulho voltou à mente de ambos. Heitor fechou as janelas da casa, trancou as portas e meteu em tudo um bom e firme cadeado. Fez seu lar impermeável para tentar tranquilizar a moça. Mas a tranquilidade não lhe vinha.

– Vem, vamos dormir...

Deitaram-se juntos naquela pequena cama de solteiro. Heitor apoiou os ombros da moça sobre os próprios braços, tentando conforta-la em um abraço.

– Não consigo. Não consigo dormir. - repetia enfermamente.

– Shiiiu... Está tudo bem... Fique calma.

Livia fechava lentamente os olhos, enquanto estava envolta pela voz calorosa de Heitor. Quase que com uma proteção maternal, o homem a tinha sobre o colo, acariciando e ninando a pequena, que se limitava a aproveitar o momento e deixar que, lentamente, seu medo se fosse.

A luz do corredor ficara acessa para que a menina não tivesse medo. Os olhos cheios de lágrimas assustadas se escondiam junto ao peito do rapaz. As carícias a confortavam. A vontade de fugir, pouco a pouco, se ia. A noite já não parecia tão longa. As estrelas infestavam o céu lá fora... Os sonhos deveriam vir em breve.

E foi na inconsciência dos sonhos que seus medos retornaram com mais força do que nunca. Olhos gigantescos a perseguiam e a observavam. A moça corria depressa, entre a densa névoa branca que impedia a visão de tudo o que estava a mais de um palmo de distância. Corria em caminho ao desconhecido, fugindo dos olhos maldosos, avermelhados, meio irritados pela cortina de fumaça cor de sangue que brotava do solo.

O caminho de terra, delimitado por pequenas pedras escarlates, conforme os passos de Livia, levantava uma poeira fina que, só por sair do chão, mudava de cor passando do mórbito cinza ao vívido vermelho. A visão escassa fazia com a moça desejasse correr cada vez mais depressa. Mas não importava o quão rápidas suas pernas podiam ser. Não importava o quanto tentava se esconder. Continuava a ser perseguida.

A paisagem mudava aos poucos. A neblina, aos poucos, deixava de ser tão evidente. O local era mais nítido do que nunca. O que via ao seu redor eram ossos que montavam esqueletos humanos perfeitos. Naquele instante, notava o quanto havia sido tola. Percebia, enfim, que fora guiada, feito um animal que foge de chicoteadas de seu dono, em direção à morte. A morte, certamente, era o local onde estava... Se é que a morte é deveras um local.

O forte cheiro de podridão vinha de uma imensa cachoeira de sangue. Bastou observa-la, por pouco tempo, e seu corpo era invadido por um calor infernal e uma vontade, consecutiva, de se deliciar em um refrescante banho nas "águas" avermelhadas daquele rio. A mulher se aproximava, lentamente. Tirava os seus delicados sapatos de boneca e, só então, percebia estar trajando um pesado vestido rodado cor-de-rosa. Tocava os pés no sangue e buscava seu reflexo. Mas era incapaz de ver-se refletida em um líquido tão opaco. Enquanto tentava, em vão, enxergar-se ali, via emergir um par de perfeitos olhos. Os mesmos olhos...

Livia deu um pulo assustada. Fechou os próprios olhos, com força. Quando tornou a abri-los, toda a escuridão de seu sonho havia passado. Nenhuma nuvem atrapalhava o belo nascimento do sol através da janela fechada. O único par de olhos que via estava fechado. Heitor dormia, tranquilamente. Livia respirava ofegante, nos braços do amado.

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