Contos da Meia Noite

"A única certeza da vida é que iremos morrer." -Desconhecido

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7. Conto 5 - Pique - Esconde

 

Há coisas com a qual você não deve mexer... É perigoso brincar com o que não existe... – Another, 2012

 

     Eu realmente detesto de voltar para casa de metrô. Além da superlotação durante os horários de pico, não haver uma estação próxima ao prédio da empresa onde trabalho, também não há uma perto da minha casa. Bom, não há o que fazer; É um mal irremediável.

     Entro em um vagão menos lotado. A viagem irá durar cerca de uma hora e meia. Até lá já estará escuro. Ótimo! Mais uma chance de ser assaltado nessa cidade infernal. A viagem seguia tranquila, aos poucos o vagão se esvaziava. Uma sensação ruim crescia em meu peito, tal como se pressentisse algo.

     Desembarquei na estação habitual. Haviam apenas algumas pessoas nas plataformas, que se dispersavam lentamente. Subi as escadarias e me deparei com a rua demasiadamente sombria. As luzes dos postes piscavam fracas em sua tarefa. As sombras dos fios elétricos, assim como as das árvores e outros objetos transformavam-se em contornos ao mínimo perturbadores.

     Segui meu caminho diário pelas ruas mal iluminadas. Aquele mesmo sentimento de antes se manifestava mais intenso. Os meus passos eram o som mais alto ali, porém por um segundo juro ter ouvido algo mais. Talvez outros passos ou até mesmo qualquer outro ruído normal, entretanto, soou-me demasiado alarmante. Virei-me sobe meus pés e voltei-me em direção à fonte do ruído.

     Não havia nada em meu campo de visão. Voltei-me á posição original e continuei a andar.  De repente o mesmo barulho se fez ouvir, todavia, dessa vez parecia mais próximo. Me virei novamente e dessa vez fui rápido o suficiente para conseguir enxergar uma sombra pelo canto dos olhos. Uma gota de suor escorreu pela minha testa. O aperto no peito aumenta mais. Voltei-me novamente e comecei a andar mais rápido. A sombra que enxerguei pelo canto do olho parecia me seguir.

     Tudo bem que a má iluminação poderia apenas estar criando uma ilusão de ótica ou eu poderia estar tendo uma alucinação, mas tudo aquilo parecia real demais para mim.  Eu já estava quase a correr. Já ofegava. Gotas de suor corriam pela minha face, mas, mesmo assim, a sombra continuava a me perseguir.

     Parei por um segundo. Respirei profundamente e com os pulmões cheios, tomei coragem e me virei bruscamente. A rua má iluminada à minha frente foi palco para uma visão que me aterrorizou.

     Parado no meio da rua uma silhueta me observava, estática. A maioria do corpo, emersa nas sombras, parecia se fundir as mesmas. O rosto, suas feições pálidas, seus olhos vazios, os ferimentos espalhados pelo corpo assim como o sangue coagulado sobre as feridas se misturavam e materializavam aquela “coisa”.

     Uma pontada no peito, a respiração ofegante, o suor, as mão trêmulas. Todas evidenciavam o medo iminente. Comecei a correr desesperadamente pelo resto dos metros que me separavam da segurança da minha casa. Via de relance a sombra também se movendo em minha direção. Dobrei a esquina da rua de casa a uma velocidade da qual eu nunca saberia que alcançaria. Pulei o muro baixo de casa e entrei pela porta da frente que, para alguma sorte, estava aberta.

     Corri em direção à cozinha e fiz questão de me agarrar a maior faca disponível ali.  Vi pelo vidro da porta lateral da sala a “coisa” andando lentamente até os fundos de casa.

     “Droga!” - Pensei comigo mesmo – “Por que eu?” – Não conseguia pensar em um motivo. Alias, não havia motivo concreto.

     Passos abafados e pesados vinham da varanda.  Segurei a faca o mais firme que podia. Um cheiro estranho dominou o ambiente. Comecei a me locomover lentamente pelos cômodos.

     - Para que se esconder? Sei que no fundo sabe que vou lhe encontrar... – Uma voz rouca soou próxima a mim.

     - Quem é você? O que quer de mim? Isso não tem graça! – Gritei para o escuro a minha volta.

     Acendi as luzes a procura da segurança que chegava junto à claridade.

     - Acha que na luz não será encontrado? Você realmente acredita nisso? – A voz soava mais desafiadora a cada palavra. – Estamos brincando... Eu quero te encontrar... Não será tão fácil escapar de mim... Vamos... Se esconda. Eu irei lhe encontrar aonde quer que esteja

     Ele realmente estava brincando com minha mente. Voltei-me em direção a escada e comecei a subir os degraus cautelosamente. O vulto começava a aparecer em minha visão panorâmica e desaparecia tão rápido quanto. Quando cheguei ao topo da escada o corredor frio e escuro me esperava, assim como a “coisa”, que agora, novamente, se mostrava por completo.

     Dei um passo atrás, rezando para que aquilo não me tivesse notado. Em vão. Ele começou a se locomover em minha direção. Primeiro lentamente e depois cada milésimo de segundo mais rápido. Eu, paralisado de medo, estava entre ele e os degraus. Uma queda dali poderia me matar. “Aquilo” também.

     Não houve muito tempo para que eu pensasse e quando percebi já era arremessado pela “coisa” escada abaixo. Pude sentir os ossos estalando quando meu corpo se chocou contra o chão. A dor foi horrenda, não conseguia me mexer. A “coisa” já se encontrava aos meus pés poucos segundos depois. Minha respiração ofegante se misturavam as lágrimas de desespero.

     A criatura se debruçou sobre o meu corpo e pude sentir sua respiração, seu cheiro pútrido e sua temperatura corporal gélida sobre mim.

     - Te encontrei! – Exclamou sorrindo – Eu disse que não conseguiria escapar. O jogo acabou!

Mal terminou de falar e levou suas mãos até meu pescoço. Eu, entre soluços, me debatia, em busca da faca que havia se perdido no chão um pouco mais a frente, sem êxito. A força que ele utilizava enquanto apertava meu pescoço e obstruía minhas vias respiratórias era tremenda. Suas mãos gélidas sobre minha pele me causavam mais agonia e ver sua cara de satisfação enquanto o fazia me atormentava mais ainda.

     “Aquilo” empregava cada vez mais força em minha garganta e eu já sentia os últimos suspiros de vida se esvaindo, até que, em um piscar de olhos, me vi novamente na mesma cela imunda na qual fui preso a certo tempo.

     Respirei fundo por diversas vezes visando me recuperar do susto. Esse pesadelo vem se tornando mais recorrente a cada dia. Olhei para todos os lados da cela. Vi minha cama molhada de suor, vi os outros que estava na mesma cela que eu dormindo, vi os cantos escuros da cela. Assim como vi meu filho, o mesmo que eu matei estrangulado depois de beber em demasia, agarrado as grades da cela a me fitar. Em um fio de voz e com um sorriso estampado no rosto ele me diz:

     - Oi papai... Gostou da brincadeira de hoje?

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