Contos da Meia Noite

"A única certeza da vida é que iremos morrer." -Desconhecido

22Likes
15Comentários
795Views
AA

4. Conto 2 - Carta de Suicídio

"Deus não está mais aqui, padre." - O Exorcista

 

Folheando meu jornal hoje pela manhã deparei-me com uma notícia que me pareceu no mínimo peculiar. Não havia nada de extraordinário e nem mesmo era uma tragédia. Tratava-se de um suicídio. E o que mais me chamou a atenção não foi o suicídio em si, e sim a carta que foi encontrada na cena do crime.

A carta continha detalhes de uma tragédia ocorrida há exatamente 23 anos atrás em uma pequena cidade no interior. O conteúdo lhe descrevo abaixo:

“Antes de acabar com minha insignificante existência quero lhes apresentar qual o verdadeiro fato para tal ato.

Se perguntarem aos mais velhos de nossa cidade pode comprovar minha versão dessa história. Há um motivo para tudo isso. Um motivo do qual eu nunca me esqueci. Que ficou marcado em mim por toda a vida. Hoje tenho 32 anos e durante longos 23 anos venho carregando marcas de um fato avassalador que me ocorreu. Chega, estou dramatizando demais. Vou direto ao ponto,

Nossa cidade sempre foi pequena e por isso nunca dispúnhamos de um entretenimento tal como cinema, teatro entre outros. Tamanho foi o alvoroço e empolgação da cidade toda quando descobrimos que um circo faria uma temporada de shows na cidade. E durante toda a sua estadia, o circo foi o assunto mais falado da escola, do bar, da igreja e de toda a população.

Minha família nunca foi muito afortunada e com seis filhos era ‘impensável pagar tantos bilhetes por uma diversão que durava apenas por pouco tempo’, assim dizia meu pai. Porém, quando o ultimo show foi anunciado houve uma surpresa: a entrada seria franca a todos. Sim, poderíamos ir de graça. Pode-se imaginar tamanha alegria que eu e meus irmãos sentíamos com esse fato e apenas poucos argumentos foram necessários para convencer nossos pais a nos levar.

Não era uma surpresa que muitos iriam comparecer, entretanto acho que nunca tinha visto tantas pessoas se apertando por um lugar na minha vida antes. O circo estava lotado. Todos se espremiam por um lugar na improvisada arquibancada.

Apesar de todo o aperto e falatório seria uma experiência nova para todos nós. Nunca havíamos estado em um circo antes. Quando a luz do picadeiro acendeu e em meio a uma leve fumaça surgiu um homem, provavelmente o dono do circo, avisando que o show começaria logo, fomos envolvidos em uma atmosfera quase surreal. Era lindo ver os malabaristas com seus voos rasantes sobre nossas cabeças, ou o mágico com seus truques de cartas e ilusões de ótica, e até mesmo os palhaços com seus números tão toscos e que mesmo assim nos faziam rir.

Quando achamos que o espetáculo havia chegado ao fim, novamente o mesmo homem aparece no palco anunciando apenas mais um número que ele garantiu ser único, novo e completamente impressionante. Queria eu que suas palavras fossem apenas um anúncio de um show completamente normal, mas o que se seguiu foi uma completa demonstração de sadismo.

Todas as luzes do circo se apagaram e apenas as luzes de emergência foram acessas fazendo com que a tenda abandonasse completamente seu humor circense e adquirisse um tom completamente macabro e deprimente. Acompanhada de um palhaço, que agora trajava uma fantasia toda rasgada e uma maquiagem completamente borrada (como se tivesse sido atacado por feras selvagens), uma garotinha foi chamada para fazer parte do truque.

Colocaram-na em uma caixa e iniciaram o famoso truque de serragem ao meio. O problema é que ela realmente estava sendo serrada ao meio. Seus gritos de dor assustavam aqueles que estavam presente no local. Todos, atônitos olhavam para a grande mancha de sangue que corria da caixa manchando o chão. Quando o mágico e sua assistente abriram a caixa, deixando cair no meio da poça de sangue as partes cortadas da garota, que ainda agonizava em seus últimos segundos de vida, alguns corriam desesperadamente, tropeçando sobre si mesmos em uma tentativa nula de se salvar. Alguns outros poucos, em completo estado de choque, nem saiam do lugar, petrificadas pela terrível cena que acabaram de presenciar.

Enquanto isso outra pessoa foi levada ao picadeiro. Dessa vez quem conduziu o truque foi o suposto dono do circo. Com uma grande e comprida agulha na mão, a qual fincou com força na nuca de um ‘voluntário’. De imediato a pessoa desmoronou no chão. Não que tenha se desfeito e sim porque seu ligamento da coluna foi rompido, deixando-o quase com uma aparência 'molenga' no exato momento. A partir daí se iniciou um número macabro de ventriloquismo. Com a mão dentro da nuca da vítima o apresentador fazia movimentos para que sua cabeça se movimentasse e ao mesmo tempo dialogava com o ‘boneco’ sobre o que aconteceria a seguir.

Enquanto isso era feito, não havia uma pessoa que prestasse atenção. Estavam todos a se desesperar e correr pelas suas vidas. Ninguém havia conseguido sair, pois palhaços bloqueavam a passagem. E foi durante todo esse tumulto que se ouviram ecoar gritos horrendos por toda a tenda. Eu com meus poucos 10 anos de idade estava completamente perdido em meio tamanha confusão, virei-me para o local de onde provinham os gritos. Poderia ter apenas ignorado e tentado fugir. Preferiria que não o tivesse feito.

Com um galão de gasolina em uma mão e segurando o braço fino da minha irmã mais nova na outra, um palhaço preparava-se para atear fogo a ela. Fiquei paralisado. Não tinha coragem de abandoná-la ali e menos ainda de ir lá e tentar protegê-la. Lágrimas rolavam pelas minhas bochechas enquanto via o frágil corpo de minha irmãzinha ardendo em chamas, enquanto ela corria tentando se salvar. Passei os olhos por todos os lados da tenda. Para qualquer lado que olhava podia ver um mundo que conhecia se partindo. Várias pessoas em chamas, algumas outras sendo arrastadas pelos atores circenses, outras que continuavam tropeçando sobre si mesmas em busca da salvação. Quando fechei meus olhos e os abri novamente, percebi que alguém me fitava.

Com seus olhos faiscando alegria, tal como a de uma criança que acaba de receber um presente, um sorriso de ponta a ponta em seus lábios, um palhaço mantinha o olhar fixo em mim. Ainda consigo ver esse sorriso em qualquer parte a qual eu olhe.

Eu também o fitava. Seu olhar era tão amedrontador. Sentia a adrenalina correndo pelas minhas veias. Virei-me novamente e dessa vez não pensei se devia proteger ou zelar por alguém. Não me importei em esbarrar ou empurrar qualquer um que estivesse na minha frente. Eu queria viver. E viveria a qualquer custo. Foi um sentimento um tanto quanto egoísta. Porém, tempos de desespero pedem medidas desesperadas.

Não sei como e nem quanto eu consegui correr, mas só parei quando me vi longe daquela maldita sorte. A ponta da tenda ainda aparecia no meu campo de visão, entretanto bem ao longe. Estava livre daquilo. Não me importava com quem havia deixado para trás. Não queria voltar e ter o mesmo destino que muitos tinham sofrido.

Uma negra e espessa fumaça se erguia ao longe. O cheiro forte de queimado me consumia as narinas mesmo na distância tão grande que eu estava daquele maldito destino. Mesmo ofegante e cansado me virei na direção à tenda. Não sei se no momento eu sorri. Estava feliz por ter conseguido escapar. Estava feliz por estar vivo. Eu queria voltar lá e tentar ajudar minha família e amigos, mas tinha receio do que encontraria. Continuei andando. Não olhei mais pra trás. Não parei. Fui até minha casa e esperei por notícias. A essa altura, os policiais da cidade ou de cidades vizinhas deveriam estar chegando para prestar assistência ou prender os culpados.

Não sei por quanto tempo esperei. Horas, minutos ou dias. O tempo parecia petrificado. Eu, sentado no surrado sofá de casa, chorava como uma criança. Afinal eu era uma criança. Uma criança sozinha. Sem colo ou carinho.

Não sei se demorei pra dormir, ou se caí no sono rapidamente, mas sei que quando acordei já haviam se passado dois dias do incidente. O jornal que encontrei voando na rua descrevia o caso. Havia um total de 69 mortos e mais 45 feridos que foram levados ao hospital da capital para tratamento intensivo, além de mais 25 pessoas que continuavam desaparecidas.  Não queria acreditar, mas meus irmãos e meus pais faziam parte de algum grupo dessa estatística. Não queria estar sozinho no mundo. Estava. Ou ao menos quis isso depois.

Durante esses longos e duros 23 anos eu venho ouvindo seus gritos de dor. Venho vendo todas as cenas que eu jurei ter de esquecer. Durante todos esses anos as lembranças de quem eu abandonei e deixei pra trás vem me perseguindo e me fazendo sentir culpado. Seus fantasmas passeiam por minha mente me fazendo enlouquecer. Durante todos esses anos eu decidi que conviveria com isso. Não posso mais. Não aguento o ecoar sinistro de seus gritos de dor em minha cabeça.

Peço sinceras desculpas a aqueles que deixei pra trás. A todos aqueles de quem prometi me esquecer e a todos que eu realmente esqueci.

Adeus, Antoine Hilder”

 

A carta de suicídio acabava aqui. Por um momento senti toda a dor do suicida. Alguém que teve tudo o que mais prezava e amava arrancado com tamanha crueldade era nada mais que um coitado. Digno de pena. Fechei meus olhos por um segundo e uma reação nostálgica me veio à lembrança.

Antes de ser preso e trazido a esse hospício eu era um palhaço de circo. E lembro-me muito bem de que durante uma apresentação bem peculiar na qual explorávamos o terror ao extremo, um pequeno garoto me fitava enquanto eu fazia a minha parte na apresentação. Seus olhos faiscavam ódio e indignação.  E esse olhar me acompanha durante toda a minha vida. Foi delicioso enquanto durou. Uma pena que ele tenha virado e corrido. Não me dei ao trabalho de ir atrás dele. Apenas deixei-o ir. Seu sentimento culpa seria mais fatal que qualquer coisa que eu poderia fazer á ele.

Por: MsJhenny ^^

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...