Contos da Meia Noite

"A única certeza da vida é que iremos morrer." -Desconhecido

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1. Conto 1 - Desespero (parte 1)

                             "O desespero é o suicídio do coração." Jean Paul

   

     O som do rádio estava nas alturas. Love you so much, it makes me sick... Aneurysm, da banda Nirvana, tocava. Paul, Mary, James e Lilly estavam no carro, cantando. Estava um calor infernal dentro do carro, e para piorar, nada de ar condicionado, tinham que economizar gasolina até chegar em um posto mais próximo.

     Paul e Mary estavam noivos, e o destino da viagem era a casa de praia da sogra de Mary, onde se casariam e passariam a tão esperada lua de mel. Havia uma mala apenas para os brinquedos que iriam usar para se divertir na cama, e outras três malas para roupas. James e Lilly se conheceram graças à festa de noivado do outro casal e, desde então, não se desgrudaram mais.

     A estrada era de asfalto, mas podiam ver várias fazendas ao longe. As fazendas estavam bem longe mesmo, porque a estrada era toda rodeada de uma grama alta. A estrada parecia há muito abandonada, o que dava um cenário meio triste para ela. James e Lilly se atracavam no banco de trás, enquanto os noivos conversavam animadamente. Falavam sobre o casamento à beira mar, sobre a vida que levariam depois que se casassem, sobre seus sonhos.

"Hey, gente, precisamos de gasolina urgente... Se não reabastecermos, teremos que ir empurrando essa coisa até Hangley Beach, e não estou nem um pouco a fim de fazer isso..." Paul olhou pelo retrovisor, tentando chamar a atenção do casal no banco de trás.

"Sim, sim..." James pareceu olhar pela janela. "Olha aquele ali." Apontou para a esquerda. "Parece velho, mas deve funcionar."

Mary olhou para o posto e fez uma careta. "Ai que horror... Será que não podemos ir para outro posto, amor? Este me dá calafrios..."

"Mary, não sei se a gasolina vai dar, meu doce. Vamos apenas encher o tanque e depois voltamos para a estrada, está certo? Pode até ficar no carro, não tem problemas..."

Mary se encolheu, brava. Não gostara nem um pouco daquele local, mas que escolha tinham? Era parar ali ou nada de casamento.

"Está bem, mas vou ficar no carro."

Paul sorriu. Sua noiva não era uma pessoa difícil de lidar, apenas não gostava de ser contrariada... Mas possuía uma intuição bem aguçada, então é melhor ficar atento.

Estacionou no posto de gasolina e desceu do carro, procurando alguém que pudesse atendê-los. Viu uma placa de "aberto" na lojinha de conveniência e foi até lá, seguido de James.

"Com licença? Nós viemos pagar pela gasolina..." Paul disse, timidamente.

O local tinha um aspecto bem abandonado, com tábuas se despregando das paredes e os vidros sujos. Uma senhora idosa apareceu atrás do balcão, olhando-os.

"São cinquenta pratas, mocinho. É difícil jovens virem aqui, sabia? Pretendem ficar hospedados na estrada?" A velha os olhava. Aqueles olhos verdes davam medo em Paul, parecia que ela o atravessava com o olhar...

"Ah, não, apenas estávamos de passagem quando tivemos a necessidade de abastecer." Ele passou a mão pelos cabelos e olhou para a janela, querendo evitar aquele olhar.

"Mas uma tempestade se aproxima, meus jovens... Não gostariam de se hospedar aqui? Temos quartos no andar de cima, e é o único local onde podem passar a noite em seiscentos quilômetros..." A velha segurava o dinheiro, não desviando o olhar deles.

Paul olhou para a velha, e depois para o lado de fora. Apesar dos vidros sujos, era possível ver nuvens negras ao longe, trazidas na direção deles pelo vento.

Será que era legal arriscar? Ir na estrada com chuva era difícil, e aquela estrada tinha terra nas laterais, e se aquilo inundasse... O carro não era novo, não iria aguentar uma chuva forte. Era apenas uma noite, o casamento poderia atrasar algumas horas...

"Preciso apenas de dois quartos. Quanto fica? Pretendo passar só esta noite aqui."

A velha sorriu. Seus dentes eram negros e podres, e seu hálito não era um dos melhores.

"Claro, meu docinho... Me acompanhem..."

"Ah, espere só um minuto. Vou buscar as outras pessoas e nossa bagagem..." Paul andou na direção da porta.

"Ah, meu jovem, não precisará de bagagem..." A velha riu, um riso seco seguido de tosse.

Paul estranhou a velha, mas saiu e foi na direção do carro.

"Amor... Passaremos a noite aqui..."

A reação de Mary foi totalmente previsível.

"Eu não vou ficar aqui!! Você já olhou para esse lugar? Até o porão da casa dos meus pais é mais limpo!! Não durmo aí de jeito nenhum!!!" Cruzou os braços, virando a cara.

"Por favor, meu amor... Eu sei que não é o melhor local do mundo para se ficar, mas... Tem uma tempestade vindo e precisamos de um lugar para passar a noite." Paul apontou para as nuvens negras que se aproximavam com velocidade. O vento agora estava forte, era preciso ter cuidado para nada entrar no olho de algum deles.

Mary olhou, relutante, na direção da tempestade. Nossa, iria chover muito de noite, e o carro não aguentaria... Bom, seu casamento poderia esperar mais um pouco.

"Está bem, Paul. Mas só essa noite. Esse local me dá calafrios." Ela saiu do carro, envolvendo o corpo com os braços.

Paul abraçou sua noiva e ambos caminharam na direção da loja de conveniências do posto. James e Lilly estavam olhando algumas comidas estragadas, e a velha havia desaparecido.

"Onde ela está?" Perguntou Paul.

"Ela foi buscar as chaves dos quartos. Aquela mulher me assusta. Não vejo a hora de irmos embora." James cruzou os braços, colocando a embalagem de batatas fritas na prateleira. Mary se perguntou quando haviam reabastecido as mercadorias.

"Aqui, meus jovens. Me sigam, por favor." A velha apareceu do nada, com duas chaves na mão. Abriu uma porta e entrou por ela, começando a subir as escadas.

Lilly indicou para James subir na frente, indo logo atrás dele e seguida pelo outro casal. As escadas eram de madeira desgastada, e cada passo fazia um rangido altíssimo.

A velha indicou um quarto e deu a chave para James, que olhou assustado para Lilly e ambos entraram no quarto, fechando a porta depois. Paul seguiu a velha por mais alguns quartos, e Mary segurava sua mão com força, como se estivesse com medo.

Apesar do andar de cima parecer pequeno para quem visse do lado de fora, havia vários quartos do lado de dentro. Paul estranhou. Por que um local tão vazio teria vários quartos? Mas então balançou a cabeça, se lembrando.

Um dia aquela estrada havia sido muito movimentada. Motoqueiros iam e vinham com muita frequência, e deveriam parar ali para dormir. As portas estavam velhas e desgastadas, e o chão precisava de uma boa limpeza, mas era melhor do que dirigir um carro velho na chuva.

A velha abriu a porta do último quarto e lhes entregou a chave, saindo logo depois. Parecia apressada, como se estivesse atrasada para algo.

O casal entrou e olhou para o quarto, trancando a porta logo depois. Era fechado, havia uma cama de casal e as paredes pareciam velhas. O banheiro era pequeno e sujo, dava nojo só de olhar.

Cansados, deitaram na cama e ligaram a televisão. Prometeram não fazer nada além de beijos até depois do casamento, afinal, quanto mais desejo, melhor seria.

A televisão pegava apenas um canal, e pegava mal, com imagens ruins e "chuvisco". Paul tentou arrumar a imagem mas foi impossível, a televisão era velha e o sinal fraco. Resolveram dormir, quanto mais cedo dormissem e a estadia ali terminasse, melhor seria.

No meio da noite, alguém bateu furiosa e insistentemente na porta deles. Paul, nervoso e com sono, abriu a porta e Lilly entrou no quarto e trancou a porta, nervosa e chorando.

"Ele... Ele... James..." Chorava muito, se agarrando à Mary que havia acordado.

"Lilly, acalme-se... O que aconteceu?" Mary limpou as lágrimas da amiga.

"James.... Ele está morto."

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