Contos da Meia Noite

"A única certeza da vida é que iremos morrer." -Desconhecido

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3. Conto 1 - Desespero (final)

 

     O grito de Lilly foi ensurdecedor. Todos queriam correr, mas as feições horrorosas do assassino lhes prendia a atenção. Na verdade, não era seu rosto que estava à mostra, e sim uma máscara de porco horrivelmente misturada com a de James. "Provavelmente era isso que ele costurava", pensou Paul. A coisa era alta e forte, porém notava-se uma deformação em sua perna direita e em suas costas, o que explicava o fato d'ele mancar um pouco.

     A coisa rugiu, fazendo com que todos voltassem à realidade. Paul e Mary começaram a correr que nem loucos, sentindo a forte tempestade encharca-los da cabeça aos pés. Lilly hesitou por um instante antes de segui-los, porém este instante de hesitação significou muito naquela situação. Aquele instante foi o que a coisa precisou para alcançar e matar a menina que corria desajeitada e desesperadamente. Lilly nunca iria entender o que aconteceu bem naquele momento, já que em um instante olhava para trás e no outro era cortada ao meio, espalhando seus órgãos na chuva.

     O grito emitido pela garota fez o casal que corria olhar para trás, mas sem cometer o erro de parar de correr. Mary quase vomitara com o que vira, o medo tomando conta de cada parte de seu corpo. Sua amiga de infância fora cortada ao meio por um monstro que veio não se sabe de onde e que agora corria atrás deles. Sim, eles eram os próximos, não havia como escapar desse fato, e correr sem rumo não ajudava nem um pouco.

      Não conseguiam ver um palmo à sua frente devido à chuva, poças de água e lama eram cada vez mais frequentes e correr se tornava um grande desafio a cada passo.

      "Mary, ali!!" Paul apontou para um milharal, e bem lá atrás havia uma casa com algumas luzes acesas. Um local onde poderiam se abrigar, onde poderiam chamar ajuda...

       Mary assentiu, e o casal mudou de direção bruscamente, indo para a direita e entrando no milharal escuro. A coisa os seguia de longe, correndo como podia. A deformação em sua perna o impedia de correr mais rápido para alcança-los. Mas não iria desistir, sua mãe disse que seria um menino bonito se matasse todos os humanos impuros que passassem por ali...

       Neste momento, viu o casal entrar no milharal. Nossa, que golpe de sorte! Perdera a conta de quantas vezes entrou ali para brincar de esconde-esconde com seu falecido pai. Lembrar do pai o fez ficar com mais raiva, e decidiu que capturaria aqueles humanos a qualquer custo.

       O casal seguia correndo de mãos dadas. Apesar de irem ligeiramente mais devagar, não podiam arriscar se perder ali no meio. Nenhuma deles queria morrer cedo, nenhum deles queria morrer como Lilly e James...

        O chão, antes de terra, havia virado barro e a chuva continuava forte, dificultando-lhes a corrida. Não, não iriam parar, tinham de chegar naquela casa, era a única esperança de ambos...

        Eles estavam exaustos pouco tempo depois. Várias coisas lhe dificultavam a visão e vários outros sentidos, fazendo-os desejar até mesmo a morte. O assassino estava perto, era possível ouvir seus passos mesmo com o barulho da chuva. Eram pesados, ritmados, como se estivesse fazendo aquilo pela milésima vez. Paul puxou Mary para andar mais rápido, e isso exigia esforço redobrado de ambos, já que Paul tinha que puxá-la e Mary tirava forças de onde não tinha para acompanha-lo.

         Os passos foram diminuindo, diminuindo, até que se tornaram inaudíveis. Oras, haveria a coisa desistido de persegui-los? Deveria ter se cansado e provavelmente lhes preparava uma armadilha para quando saíssem do milharal...

          Mary diminuiu o passo, apesar de Paul ainda puxá-la.

          "Amor, estou cansada... Aquela casa não chega nunca..."

         Paul olhou para a noiva. Não podia culpa-la. Também estava cansado, seu rosto estava vermelho e, apesar da chuva, suava muito. Estava bem claro que tudo aquilo exigia um grande esforço da parte dele.

         "Mary, por favor... Estamos tão perto... Eu prometo, se continuarmos nesse ritmo, estaremos lá em..." Infelizmente, Paul não pôde completar essa frase. A coisa apareceu do nada e arrancou metade do braço esquerdo de Paul, e só não arrancou metade de seu corpo porque Mary o puxou para longe do monstro por instinto.

        A criatura rosnou de raiva, atacando-os novamente. Paul, apesar do braço seriamente ferido, conseguiu desviar, porém soltou a mão de Mary e a olhou. Mary entendeu aquele olhar perfeitamente. Um olhar que significava 'vá sem mim'. Queria chorar, não podia deixa-lo... Mas tinha de fazer isso ou os dois morreriam. Alguém tinha que sobreviver para chamar a polícia e acabar com aquele terror... Com um último beijo de despedida, saiu correndo em direção à casa.

    Não queria ter feito isso. Não, não, se sentia tão culpada... Ele era seu noivo, havia abandonando-o... Mas tinha de ser forte. Não podia chorar, não podia permitir que as lágrimas turvassem-lhe a visão e a deixasse ainda mais cega naquela chuva. Tapou os ouvidos, mas o grito de dor de seu noivo ainda foi bastante audível. Aquilo fora de partir o coração...

      Entrou na casa, trancando a porta e correndo para os quartos de cima. Aquilo não o impediria de entrar, mas pelo menos lhe daria tempo para fazer uma ligação e pedir socorro. Havia três portas no andar de cima, e Mary entrou na porta que levava ao quarto de casal. Uma escolha óbvia, porém tinha que fazer isso, pelo menos havia um telefone sem fio ali. Nervosa, discou o número da polícia.

       “Delegacia, em que posso ajudar?”

       “Ah, graças a Deus alguém atendeu”... Preciso de ajuda, por favor, tem um assassino enorme atrás de mim, ele já matou meu noivo, meus dois amigos... Preciso que mande policiais para este local, estou na estrada...”

    “Você vai me desculpar, moça, mas nessas condições climáticas, apenas atendemos a pedidos de socorro reais.” Desligou.

         Mary entrou em pânico. Como sairia dali sem a ajuda da polícia? Poderia pular da janela do quarto, mas torceria o tornozelo, assinando sua sentença de morte. Não havia jeito de escapar da coisa. Seu noivo, seus amigos, todos mortos pelo monstro que agora arrombava a porta.

         Não, tinha que ter um jeito de sair. Paul se sacrificara por ela, não ficaria encolhida em um canto, chorando. Iria sair dali com vida, chamar a polícia e se vingar pelo que a coisa fizera. Mas para isso tinha que escapar. Uma súbita disposição atingiu-lhe o corpo, fazendo Mary se levantar, decidida a escapar.

           Passos na escada, o ranger delas denunciava a coisa subindo lentamente na direção das portas. Mary sabia que se pulasse pela janela do quarto, não sobreviveria. Talvez o banheiro tivesse uma janela menos perigosa... Pouco provável, mas suas escolhas estavam bem reduzidas.

       Correu para o banheiro, avistando uma janela média. Sim, era perfeitamente do seu tamanho, aquele regime finalmente teria uma função!!! Subiu na privada e, se apoiando no parapeito da janela, conseguiu atravessá-la com facilidade. Estava quase saindo, sentia o cheiro de chuva e seus cabelos voltarem a ficar encharcados, quando a porta do quarto abriu.

           Precisava sair dali agora mesmo. Puxou o pé esquerdo, mas este ficou preso por causa do sapato. Se conseguisse retirar o sapato, talvez conseguisse sair. Puxou o pé com força, fazendo um baque surdo na janela. Isso claramente chamou a atenção da coisa, que foi direto para o banheiro. Mary puxou o pé, desesperada.

             O assassino a alcançou, puxando seu pé pelo sapato. Mary aproveitou isso para arrancar o pé fora e sair da janela.  Conseguiu sair, meio desequilibrada. Escorregou e acabou caindo, porém a altura não era tanta, talvez apenas uns três metros, mas, comparada à altura que teria que pular se saltasse da janela do quarto, salvou sua vida.

              Correu para o milharal, querendo apenas sair de perto da casa. O chão estava lamacento e seu pé descalço sofria com isso, porém precisa correr. Corria sem parar, agora nada a impediria de continuar até chegar à estrada. Quando estava quase saindo do milharal, viu uma luz vinda do final da estrada. Sim, era ajuda, sua esperança!!

             Saiu do milharal com alguma dificuldade. Nenhum sinal do assassino, nada que indicasse que a coisa estava vindo em sua direção. Acenou para o caminhão que vinha, pedindo ajuda e suplicando para que ele a visse. O caminhão parou, e Mary finalmente pôde subir nele. O caminhoneiro era jovem a saudou, pedindo para que deitasse e lhe entregando uma pequena manta com a qual Mary se cobriu e deitou.

      Nem podia acreditar, finalmente estava em paz. Fechou os olhos e pegou no sono rapidamente, se sentindo segura dentro do caminhão.

          Mal acabara de dormir, sentiu ser chacoalhada de leve. O caminhoneiro havia aberto a porta de “seu lado” do caminhão e a olhava.

          “Desculpe, moça... Mas é que está chovendo muito, então achei melhor ficarmos em um local mais quente e seguro...” Ele saiu da frente da porta, apontando para onde passariam a noite. Mary nem prestara atenção, apenas desceu e bocejou.

              Ergueu o olhar, resolvendo ver onde passariam a noite.

              Não. Não, de novo não. Não, não, não, não, não.

             Ali estava Mary, no posto de gasolina, em frente à loja de conveniência imunda, onde uma velhinha sorria e acenava para ela.

 

 

 

 

 

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