The Lanfred's Horror

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  • Publicado: 5 jan 2014
  • Últimas Atualizações: 5 abr 2014
  • Status: Movella acabada
Charlie, após uma tentativa de suicídio, é mandada para um internato. A escola é bem fechada, quase que trancafiada, como um reformatório. Mas algo não cheira bem. E não é culpa do repolho refogado na cantina.

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5. Capítulo 4

 

   Me levantei, cansada. A luz estava fraca, o que me era estranho. Eu a havia visto bem acesa quando entrei no quarto na noite passada... Bom, deveria ter caído a energia, porque naquele local horrível, acho bem fácil que a luz caia. Na verdade, me surpreendo que tenha luz.

   Caminhei até o banheiro, com minha cara maravilhosa de múmia. Estranho... Eu tinha fechado a porta do banheiro, por causa do cheiro insuportável, só que ela estava aberta. Eu, hein... Deveria ter aberto sozinha com o vento da noite, já que eu deixaria a janela do banheiro aberta para o ar ventilar um pouco ali.

    As paredes de lá estavam bem amarelas e mais escuras em certas partes, como se alguém tivesse pego o pincel cheio de tinta e o atirado na parede. Acendi a luz e fui me olhar no espelho, com muito sono. Espera um pouco... Aquilo não era tinta. Não, não pode ser.

    Sangue? Espera, calma, respira... Parece um daqueles filmes de terror barato. Se eu virasse, talvez eu fosse me deparar com um assassino em série ou com o nada, pela lógica dos filmes de terror. Mas aquilo era a realidade. Se eu virasse para olhar para os lados... Nossa, que burra eu sou, tenho um espelho, posso usar isso. Sorte a minha que esse espelho é daqueles que você abre e guarda seus remédios e pastas de dente dentro dele, sabe?

    Abri o espelho e olhei por ele. Do lado esquerdo não tinha nada, mas não dava para olhar o lado direito pelo espelho, já que ele abria apenas de um lado. Droga, eu teria que ver por mim mesma. Virei bem devagar para a direita e vi a cortina florida cobrindo o chuveiro. É, eu teria que abrir aquilo.

    Abri bem devagar, com muito medo. Ver alguém fazer isso em um filme é uma coisa, agora fazer isso na vida real... É outra história, que te deixa com vontade de fazer xixi nas calças. Olhei para baixo enquanto abria a cortina, assim, se houvesse algum assassino, eu olharia para os pés dele, e não para seu rosto.

    Então eu os vi. Os pés mais estranhos e mais deformados que alguém pode ver em sua vida. Estavam sujos, meio roxos e quebrados, cada um apontando na direção da parede diferente. Mas não se mexiam, e nem davam sinal de dar vida.

    Ergui o olhar e vi uma menina com os olhos bem abertos. Na verdade, não havia olhos ali. Apenas duas órbitas vazias. Sua boca se abria em um ângulo aparentemente impossível, como se ela tivesse tentando gritar em desespero. Mas pelo jeito ninguém havia ido até lá socorrê-la. Suas roupas estavam rasgadas, em fiapos e seu corpo mostrava hematomas sérios, alguns roxos, outros verdes. Suas unhas estavam com sangue, como se ela tentasse arranhar seu assassino.

    Mas havia algo em seu pescoço. Uma correntinha de ouro... Com algo pendurado, um bilhete enrolado. Me agachei a estendi a mão, tentando pegar o bilhete. Droga, eu não alcançava. Tive que me aproximar do corpo para poder pegar o bilhete. Deus, o odor que aquilo exalava era horrível... Peguei o bilhete.

    E a menina veio para cima de mim. Ela gritava, esperneava, me batia, me arranhava e logo me derrubou no chão. Eu tentava mantê-la bem longe de mim, e quando coloquei minhas mãos no pescoço dela, o som que emitiu era estranho.

   "PII PIII PIIII!!!" Ela gritava. Fechei os olhos, com medo.

    E quando os abri estava na cama, deitada, com o barulho do despertador tocando estridentemente. Me sentei imediatamente, arfando. Olhei para mim. Não havia sinal de que uma menina morta havia me batido, me arranhado ou me derrubado no chão. Ergui o olhar para a porta do banheiro. Estava fechada, sem nenhum indício de ter sido aberta. Olhei o despertador. Cinco e trinta e sete. Era melhor eu começar a me arrumar se não quisesse chegar atrasada.

    Abri a porta do banheiro bem lentamente, e logo acendi a luz. As paredes estavam naquele tom amarelo enjoado, com a cortina do banheiro aberta e o cheiro havia sumido quase que por completo. Que sonho estúpido. Como conseguira me assustar tanto? Mas também... Quem não sentiria medo com um sonho daqueles? Respirei fundo e fui me arrumar.

    Saí do banho dez minutos depois. Não costumo ser tão rápida no banho, mas o fato era que eu sentia que já estava atrasada, embora estivesse bem adiantada. Coloquei o uniforme da escola. Nossa, estava bem frio lá fora. Mas aqui podia ser daqueles lugares que faz frio de dia e calor à tarde. Peguei um cachecol vermelho e coloquei, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo e descendo as escadas.

    A lista de livros para pegar na biblioteca e o horário das aulas estava comigo, dentro de minha mala. Eram tantos livros... Realmente, aquela bolsinha que comprei na lojinha do aeroporto não teria muita utilidade aqui. Droga, odeio ter que gastar dinheiro à toa.

    Realmente, lá fora estava bem frio. Quando eu respirava, saía uma fumacinha branca da minha boca. Sinceramente, achei aquilo a coisa mais legal do mundo. Tipo, eu morei minha vida inteira numa cidade castigada pelo sol, nunca havia visto coisa assim, exceto em filmes. E sempre me parecia tão legal...

    Fiquei respirando que nem louca apenas para ver aquela fumacinha sair de minha boca. Foi bem idiota. Mas legal.

    "Mas o que diabos você está fazendo, Charlie?"

     Diego gostava de me dar sustos. Mesmo que ele não tivesse me dito isso na noite passada, tenho certeza de que eu acabaria adivinhando mais cedo ou mais tarde. Fiquei envergonhada por ele ter me visto fazer aquilo. Droga, por que não fui mais discreta?

    "Fala aí, Freddy Krueger!" Sorri para ele.

    "Freddy Krueger?" Diego me olhou um cara estranha.

    "Sim, porque ele é assustador. Sabe, ele curte dar sustos. Que nem você." Sério, eu sou péssima em piadas. Se houvesse um prêmio por dizer piadas ruins, eu o ganharia. Mas o que mais me surpreendeu foi que, ao invés de Diego me xingar pela piada ruim, ele riu. E eu ri junto.

    "Essa foi boa. E criativa. Mas me diga aí, senhorita... Curte filmes de terror?"

    "Meu gênero favorito. Já viu Sobrenatural? Não a série, o filme."

    "Aquele que tem um menino sinistro na capa? Sim. Me deu medo."

    Nossa, é realmente difícil eu achar alguém que conheça este filme. Ele não é antigo, mas dá muito medo. Sério, depois que eu vi esse filme eu consegui confundir uma bexiga rolando no chão com uma cabeça humana, tamanho o meu medo. Mas o medo me fascina. É uma das poucas coisas que me desperta emoções.

     Conversamos sobre filmes de terror durante todo o caminho até o refeitório. Fiquei feliz ao saber que ele concorda comigo sobre o fato de "Carrie" ser refilmado tantas vezes é ridículo. Sério, eu já vi todas as refilmagens e o filme original. Nenhum deles me deu medo.

     O refeitório estava quase que vazio. Pelo que Diego me contou, as pessoas chegavam apenas trinta minutos antes do início das aulas e se aglomeravam na cantina. Me senti idiota por ter que acordar tão cedo, mas pelo jeito, havia uma vantagem. Na verdade, duas. A primeira, era que não pegaríamos fila. A segunda, era que eu não teria que ficar sendo encarada por ser a novata. Uhul.

      "Vou pegar algumas comidas boas para nós, enquanto isso você procura uma mesa, ok?" Diego passou a mão no meu queixo, saindo logo depois. Ele era sedutor, isso eu tinha que admitir. Não. Não estou a fim dele. Só que às vezes tenho que baixar meu orgulho e dizer a verdade: o cara é sedutor. Fazer o quê?

      Andei até uma mesa vazia bem no fundo, a pouca distância da janela. Não gosto de comer perto da janela porque tenho a impressão de estar sendo observada enquanto como, e odeio essa sensação. Não porque faço algo de errado ou como demais, mas é como as pessoas te julgassem pelo modo como você come ou a quantidade de alimento que existe em seu prato. É bem incômodo.

     "Aqui estão as melhores comidas do cardápio de hoje: olhos de boi com intestino de vaca." Diego colocou uma caixinha plástica com um garfo em minha frente. Não tinha nada de olho boi ou intestino de vaca, talvez fosse só um modo de se referir à comida ruim daqui. A comida parecia ser uma salada com algo duvidoso entre ela. Uau, salada no café da manhã.

     "Vocês comem salada no café da manhã?"

     "Na verdade, isso não é salada. É um complexo de vegetais com azeite e sal." Ele riu baixinho.

     "Mais conhecido como salada?" Eu sorri, abrindo a caixinha plástica e começando a comer.

     "Ah, vocês novatos não tem classe, mesmo. Mas para falar o vocabular chulo de vocês... Sim, isso é uma salada. E comemos isso porque a diretora Gorf acha que os adolescentes estão muito viciados em porcarias. Ou seja: você vai comer salada no café da manhã, no almoço, no lanche da tarde e na janta. Por isso que todo mundo contrabandeia comida decente pra cá." Ele começou a comer, entediado.

     "Contrabandeiam?" Eu já ouvi falar de contrabando de drogas, agora contrabando de comidas de alta caloria? Esse lugar me surpreendia mais a cada minuto.

     "Sim. Qualquer dia eu te mostro, Charlie. Cara, preciso arrumar um apelido para você."

     "Que tal... Aberração? Bichinho? Emo?"

     "Por que eu te chamaria disso? Sério, você é uma das meninas mais legais que já conheci até agora. As outras duas são presidiárias."

     Eu não sabia se ficava feliz ou preocupada com o que ele acabara de me dizer. Eu poderia ficar feliz porque um cara legal disse que sou uma das meninas mais legais que ele já conhecera. Ou ficava preocupada com o fato das outras duas garotas serem presidiárias. Resolvi ficar feliz.

      "Obrigado. Você também é bem legal." Não, eu não sei reagir a elogios. Geralmente, quando alguém me elogia, ou essa pessoa está mentindo ou é uma das minhas tias. E as minhas tias s encaixam na primeira opção. "Bom, Diego... Eu tenho que pegar uns livros na biblioteca. Preciso ir, sabe... Não posso chegar na aula de física de mãos vazias."

      Ele assentiu. "Qualquer coisa, me ligue."

      "Ligar? Mas meu celular foi apreendido, e eu..." Foi então que ele me abraçou. Seu corpo havia se inclinado por toda a mesa para me abraçar, e eu fiquei sem reação. De repente, senti ele colocando algo no bolso do meu casaco. "Meu número está aí. O sinal não é muito bom, mas... Dá pra se comunicar. Espere estar longe da vista de todos para se comunicar." Ele se afastou, voltando a se sentar como se nada tivesse acontecido. Devo dizer que fiquei paralisada por mais alguns segundos, mas depois saí andando em direção à biblioteca.

      Não havia ninguém por perto, então pude pegar o que ele havia colocado em meu bolso. Um celular. Não muito grande, era um nokia antigo, mas funcionava muito bem. Cheguei na biblioteca algum tempo depois, já que as estruturas eram bem afastadas umas das outras. Havia uma mulher de cabelos brancos, óculos pequeninhos e xale azul atrás de uma bancada. Ela anotava coisas freneticamente, com vários livros empilhados ao seu lado.

       "Com licença? Eu sou Charlie Parkers, a aluna nova. Eu tenho uma lista de livros que preciso pegar aqui..." Eu parei timidamente em frente à bancada. Sério, eu detesto incomodar as pessoas quando elas estão fazendo algo sério. Mas eu precisava fazer isso. A senhorinha ergueu os olhos, e sorriu.

       "Olá, querida. Eu estava preparando isso para os novatos. Charlie Parkers, não é? Aqui está sua sacola." Ela colocou uma sacola em cima da bancada. "Quer fazer um cartãozinho da biblioteca? Sabe, se fizer, poderá pegar mais livros, temos muitos. Mas infelizmente muitos alunos não se interessam..."

       Eu amava ler. Os livros eram a minha porta de "escape" do mundo real. Sempre gostei de mergulhar no mundo dos livros, onde tudo pode ser real, onde você não se apaixona pelo personagem pela aparência dele, mas pelo seu caráter. Seria bem legal se o mundo fosse que nem um livro. Todos vendo caráter, e não aparência.

      "Eu adoraria. Preciso preencher algo?" Isso pareceu fazer o dia da boa velhinha ficar ensolarado. Nunca imaginei que fazer um cartão da biblioteca fosse deixar alguém tão feliz.

      "Sim, meu doce. Aqui estão algumas coisinhas que precisa preencher." Ela colocou algumas cartelas cor de rosa em cima da bancada. "Pode se sentar naquela mesa perto da janela, é bem iluminado."

      "Obrigado." Dei uma olhada nas cartelas. Eram coisas bem simples: qual o meu nome, número do dormitório, meus estilos de livros preferidos... Poderia preencher aquilo e segundos, mas preferi sentar na mesa perto da janela.

     Comecei a preencher, mas me distraí com a visão. Aquele lugar poderia ser feio, mas se fosse visto de cima... Era maravilhoso. Havia montanhas ao longe, com muitas árvores. Havia um belo jardim mais a frente, com um belo lago do lago. Tive vontade de pular naquele lago, mesmo estando frio. A água sempre me atraiu. Quando eu precisava relaxar, era para o mar que eu ia.

      BUM! Houve um baque surdo na janela. Havia alguém com o pé pendurado em uma corda com uniforme de zelador.

Isso tudo já seria assustador por si só.

Mas tudo ficou ainda pior porque, além dele estar pendurado, estava sem cabeça.

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