The Lanfred's Horror

  • por
  • Classificação:
  • Publicado: 5 jan 2014
  • Últimas Atualizações: 5 abr 2014
  • Status: Movella acabada
Charlie, após uma tentativa de suicídio, é mandada para um internato. A escola é bem fechada, quase que trancafiada, como um reformatório. Mas algo não cheira bem. E não é culpa do repolho refogado na cantina.

24Likes
68Comentários
1839Views
AA

18. Capítulo 17

   O tempo havia fechado. Nuvens negras se acumulavam no céu, como se esperassem uma ordem para começar o temporal. Aquele deus estava me esperando para lutar. Mas ele não podia estar sozinho naquilo. Digo, ele deve ter tido a ajuda de um humano. 
   Sim, claro!!! Um humano disponibilizou seu corpo para o deus maligno usá-lo. Mas quem poderia ser? Ah, como eu queria acabar com aquilo logo... Porém, para acabar com isso, eu teria que enfrentá-lo em Lanfred. Terminar onde tudo começou... Isso soa bem poético. 
   Levantei-me, procurando por um mapa. Droga, aquele havia sido perdido... Bem, eu não podia ficar parada. Comecei a andar, meio sem rumo. 
   Tentei me concentrar no caminho, mas meus pensamentos vagaram para longe. Quem seria o humano? Por que ele fez isso? O que ele ou ela ganharia doando seu corpo para algo tão horrível?
   Je ne sais pá, como diria a mademoiselle Regine, minha antiga professora se francês. Uma parte de mim queria sair dali, daquela cidade, daquele país e deixar tudo para trás. Mas outra parte de mim sabia que tinha de enfrentar o assassino a qualquer custo. E eu seguiria a parte certa. 
   "Charlie por onde andou? Onde estava? Você sumiu do nada, achei que tivesse mais respeito e consideração pelos falecidos!!!"
   Ergui o olhar, meus pensamentos rapidamente sendo substituídos pelo olhar reprovador de Charlotte. Eu havia andado justamente até o local onde todos os alunos do colégio estavam? Sério? 
   "Oi, Charlotte..." Droga, eu precisava arranjar uma desculpa, e rápido. "Então... Eu sumi, né... Desculpe-me, passei mal e, enfim, não me sinto bem em ocasiões como esta..." 
   Nossa, que mentira deslavada... Mas eu não tinha outra solução, certo? Quem acreditaria em mim se eu contasse que fui enfrentar um deus e acabei descobrindo que sou uma bruxa?
   "Ah, foi isso, Charlie? Nossa, me desculpe... É que no velório da escola você me pareceu tão bem que eu nunca imaginei..."
   "Sem problemas, Char. Eu apenas...    Disfarcei melhor naquela vez, mas sou muito sentimental, sabe?" Mais uma mentira. 
   Ela me abraçou e começou a chorar.
   "Ah, amiga, sei como se sente... Eu tive que me segurar para não chorar na frente de todas aquelas pessoas, fingir que sou forte... Mas a perda de minha avó doeu muito dentro de mim, sabe? E ainda dói..."
   Aquelas lágrimas eram reais. Aquela dor era real. Não eram como as mentiras que contei, deslavadas e péssimas. Charlotte era minha amiga, e passava por momentos de dor no qual eu, Charlie, deveria ajudá-la. Só que eu jamais contaria mentiras para deixá-la melhor. Uma amiga como Char merecia palavras verdadeiras da boca de uma mentirosa.
   "Char, eu... Sinto muito por sua perda. Mas a vida é assim, não é?  Nós perdemos pessoas o tempo todo, seja com ações erradas que levam à inimizade, seja com a morte.  Não adianta nada chorar pelo leite derretido, derramado, sei lá. O que temos de fazer é levantar a cabeça e seguir em frente. Hoje o dia pode ter sido escuro, mas quem sabe o sol nasce no dia de amanhã? Sabe, coisas ruins acontecem para que possamos valorizar as coisas boas. Sou sua amiga, pode contar comigo para o que der e vier."
   Nosso abraço foi sincero. Um abraço cheio de lágrimas, amor, amizade... Isso fazia realmente falta em minha vida. Às vezes, tudo o que precisamos é um pouco de amor e carinho. O coração e a alma se enchem de alegria, nos sentimos leves, felizes, vivos... Acho que não existem sentimentos melhores.
   Continuamos abraçadas por algum tempo, em silêncio. Um trovão forte se fez ouvir, bem ao longe. Um choque para a realidade, como um despertador que te acorda na melhor parte do sonho. Droga, eu precisava ir o mais rápido possível.
   "Charlotte... Preciso que faça um favor para mim. Tenho certeza que irá estranhar, mas... Por favor. Prometo que será recompensada o mais breve possível."
Ela me olhou, curiosa.
   "Claro, mas o que seria tão importante assim?"
   "Preciso que mantenha os alunos aqui. Impeça-os de voltar para a escola, custe o que custar. Não deixe-os voltar até que a chuva pare. Quando a chuva cessar, podem voltar. Se ela não o fizer... Mande todos para bem longe daqui."
   "Chuva? Charlie, que chuva? Eu sei que ameaça chover, mas ainda nem começou... Você está bem?"
   "Char, estou ótima. Eu acho. Mas, por favor, confie em mim..."
   Ela suspirou.
   "Está certo, mas vá rápido, não sei por quanto tempo poderei segurá-los." Ela se virou, indo na direção dos outros alunos. Fiquei feliz por ela não ter insistido em saber o motivo daquele pedido louco. 
Muito bem, dos alunos eu já havia me livrado. Agora... Como eu voltaria para a escola? Eu não sabia como dirigir ônibus e duvido que algum motorista iria querer me levar até lá. 
   Foi então que me lembrei de uma coisa: a professora de português, senhorita Marina, se recusara a ir de ônibus e seguira os ônibus de carro. Como eu faria o carro ligar sem a chave? Eu já havia visto em vários filmes como se ligava um carro assim que o roubavam... Ideia idiota, mas ainda assim era uma ideia, e eu estava aceitando qualquer coisa naquele momento. 
   Corri até o estacionamento. Embora todo o local fosse muito confuso, o estacionamento era o maior espaço dali. Mesmo se você estivesse do outro lado do parque, conseguiria ver o estacionamento com facilidade. 
    Havia realmente muitas vagas para poucos veículos. Acho que era para ser um local grande e movimentado, mas ouvi dizer que as pessoas deixaram de ir ali por causa de um exorcismo que deu errado, uma história louca que fez o local ganhar fama de assombrado. 
   Avistei o carro da professora. Na verdade, ele não era algo muito difícil de se ver... Como posso dizer? Ele era... Bem... Excêntrico. A senhorita Marina tinha o conversível amarelo mais brega de todos os tempos. Além de ser amarelo, tinha adesivos de flores pink colados em suas laterais. Olhei em volta, ninguém à vista. Pulei para dentro do carro, tempo era uma coisa que eu não tinha. 
   Não havia local para colocar a chave, mas sim um botão "press to start". Uau, isso foi bem mais fácil do que imaginei e, sinceramente, fiquei aliviada. Liguei o carro, dei ré e acelerei em direção à escola. Meu pai me ensinara a dirigir, porém eu não me recordava muito de como se fazia isso. Felizmente, o carro era automático, o que facilitava minha vida.
   Começava a garoar, o que significava que meu tempo estava acabando. É, eu teria que enfrentá-lo, mas como eu faria isso? Podia até ser verdade o fato de eu ser uma bruxa, mas, por enquanto, eu era apenas uma humana normal que poderia ter sérios problemas mentais. 
   Ai, que droga!! Alguém poderia me ajudar, sabe? Poxa, lutar contra um deus de nome esquisito não devia ser nem um pouco fácil!!! Mas é claro que eu não iria apenas lutar, eu iria pedir explicações. Ele poderia ter matado todas aquelas pessoas apenas por diversão ou para me botar medo. Algo me dizia que não foi por um mero acaso... Aquelas pessoas deviam ter algum significado especial para o assassino, eu sei que deveriam!!
   Quando dei por mim, o conversível estava no estacionamento da escola. É... Era agora ou nunca. Saí do carro, verificando se a pulseirinha dourada estava bem colocada. Ele não podia me atingir se eu usasse aquilo, por isso era essencial a presença dela ali.
    Uma nuvem negra se formava no pátio central da escola. Havia apenas uma figura mascarada ali. Olhava em minha direção, quase que zombando de minha pessoa. Me aproximei, bem devagar, porém nervosa.
   "Ora, ora... Vejam se não é nossa bruxinha..." O deus zombou.
   "Sim, sou eu. Mas duvido que possa ver algo com essa máscara horrível cobrindo seu rosto."
   "Duvidas nada, pois sabe que eu posso ver muito bem. Estás curiosa para ver meu rosto? Cuidado para não se decepcionar, a curiosidade matou o gato, jovem tola..." Ele começou a desamarrar a parte de trás da máscara. Aquilo não me cheirava bem... O deus jogou a máscara para o lado, sorrindo.              Depois ergueu a cabeça, olhando-me, vitorioso.
   Dei um passo para trás.
   Não.
   Não podia ser.
   Como?
   Impossível.
   "Com medo, meu amor?"
   O sorriso do deus era perverso. Um sorriso que jamais pude imaginar no rosto angelical de Diego. 

 

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...