TRILOGIA DEUSES VINGADORES I - A RELÍQUIA DE MORFEU

Primeiros trechos da trilogia DEUSES VINGADORES. A RELÍQUIA DE MORFEU conta a história de Audri, menina que vive presa em seus pesadelos e só irá libertar-se quando cumprir uma missão imposta pelos deuses. Neste primeiro episódio, Morfeu impõe que ela resgate uma relíquia perdida há tempos...

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2. CAPÍTULO 1

I

Dizem, quando não conseguimos dormir é porque estamos acordados no sonho de alguém. Comigo sempre foi assim: Chorava sem parar por madrugadas a fio quando ainda era um bebê e interrompia o sono de meus pais. Com o passar dos anos, criança, perambulava pela casa e aprontava as mais inesperadas traquinices que alguém poderia imaginar. Pelo menos foi o que meus pais disseram há um tempo, um dia antes de eu completar meus quinze anos de idade, em uma tarde de chuva forte enquanto comíamos bolo de cenoura com cobertura de chocolate na casa de meus avós maternos em Santos.

Na noite anterior tinha conseguido dormir, mas por volta das três horas da manhã acordei assustada após um pesadelo e não consegui mais descansar.

Um gigante nos perseguia. Eu estava descendo a serra em um Jeep Willys 1963 amarelo. Estavam comigo minha amiga Sara e Bernardo, seu namorado, que nos conduzia ao volante. Apesar de o carro não conseguir desenvolver uma velocidade muito alta, o gigante não nos alcançava. Estava a pé, mas corria em uma velocidade invejável para qualquer humano comum. Entre sessenta e oitenta quilômetros por hora. Desistiu quando chegamos ao topo da serra e começamos a descer. Enquanto descíamos, conseguíamos enxerga-lo pelos vãos entre as montanhas. Ele continuava sempre no mesmo lugar, inerte, apenas nos observando. O perdemos de vista por uns vinte minutos, quando ao pé da serra ao olharmos para o alto, percebemos que não estava mais ali. Para a nossa surpresa, lá do outro lado da montanha o vimos descer por um abismo, pendurado em tecidos, como se fossem lençóis enormes amarrados um ao outro. Parecia mais um número circense em um picadeiro de proporção gigantesca. Provavelmente não havia desistido de nós e antes de chegarmos perto do mar ele certamente nos alcançaria. Não sabíamos o porquê de aquele gigante estar atrás de nós, mas tínhamos a certeza de que éramos sua caça. Foi quando acordei. O pesadelo era recorrente e costumava contar o enredo para todas as pessoas que encontrava durante o dia seguinte. Algumas riam, outras queriam atribuir algum significado àquelas experiências.

Minha vontade era de procurar um especialista e perguntar se aquilo era normal. Ter sonhos recorrentes não era coisa que ouvia diariamente  da boca de todo mundo. Para mim o normal era ter sonhos diferentes todas as noites.

Meu pai era professor universitário, especialista em meteorologia e precisou mudar com a família para a pequena e antiga vila ferroviária inglesa que ficava situada no topo da serra. Um lugar fantástico. De lá dava até para ver o mar. Era uma visão ímpar e as condições climáticas variavam com bastante frequência naquele local, isso o tornava ideal para montar uma estação meteorológica. Foi o que fez meu pai que tinha o objetivo de concluir suas pesquisas. A vila havia sido criada para servir de residência aos funcionários de uma companhia ferroviária inglesa que transportava cargas e passageiros para o interior do estado e para o porto. Há tempos estava desativada e ficava distante da capital, mas o trem de passageiros, mais moderno que o daquela época, ainda chegava lá e possibilitava que meu pai partisse para a universidade três vezes por semana onde ministrava suas aulas. A estação era a última de muitas que o trem cortava. Saía da capital e passava por várias cidades antes de chegar à vila.

Tinha ainda cinco anos de idade quando chegamos, mas lembro como se fosse ontem. Viemos no trem. Desembarcamos na plataforma. Meu pai com duas malas, uma em cada mão, um chapéu na cabeça e o terno marrom que minha mãe odiava. Ela, com vestido longo e bolsa no ombro esquerdo, segurava meu irmão no colo. Eu ajudava a levar uma sacola com objetos leves. Parecia que estávamos no cenário de um filme antigo. Subimos a rua de paralelepípedo até chegar àquela casa onde íamos morar. Era uma casa de madeira coberta com folhas de zinco geminada a outra igual. Parecia abandonada.

A vila era composta por estas casas, todas muito semelhantes. As que tinham o maior número de cômodos, como a nossa, serviam antes para abrigar os ferroviários que possuíam mulheres e filhos. Os que não moravam com a família, ficavam em casas menores. Antes de chegarmos, passamos pelo antigo mercado que depois de muito tempo desativado servia às atrações culturais do local. Os ferroviários que ainda moravam ali eram poucos. Alguns aposentados com suas respectivas famílias, também os filhos e netos daqueles que trabalharam ali em outros tempos e já haviam falecido ou ido embora.

A atividade principal da vila passou a ser o comércio e o turismo aos finais de semana depois que a São Paulo Railway foi desativada. Muitos artistas da capital apresentavam-se ali em eventos patrocinados por grandes empresas e pela prefeitura e era o que atraía gente de todos os lugares para movimentar a economia local. Nestes dias os comerciantes aproveitavam para vender o artesanato produzido durante o ano. O clima de misticismo também era um atrativo e aos finais de semana famílias inteiras, hippies e pessoas interessadas em ambientes naturais e místicos visitavam a vila.

Na parte alta havia uma capela e um pequeno cemitério cujo tamanho era suficiente para o descanso eterno dos poucos que ainda viviam no lugar. De lá dava para ter uma visão panorâmica impressionante do local.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II

 

Ríamos, eu e Sara, enquanto tomávamos café expresso no shopping. Ela falava das coisas que gostava de aprontar com Bernardo antes de engatarem o namoro. De repente fez um gesto brusco com as mãos e tombou a xícara sobre a mesa. Peguei o papel toalha imediatamente e comecei a ajudar na limpeza quando começou uma correria intensa de pessoas que frequentavam o lugar. Não sabíamos o que de fato acontecia, mas começamos a correr também. Segurei na mão de Sara e corremos de mãos dadas até a saída mais próxima. Havia um aglomerado de gente querendo sair, mas a porta estava travada. Olhei para a livraria que estava a nossa direita e pude observar um mezanino e uma escada de madeira por onde várias pessoas desciam desesperadas. Em seguida, vi também muita fumaça naquela área. Disse para Sara:

-Precisamos sair daqui imediatamente.

Sara concordou e assim que balançou a cabeça corremos na direção contrária. Entramos em um corredor. Estávamos apenas nós duas quando levamos outro susto. Um bombeiro com roupa antichamas segurava um extintor de incêncio e apareceu do nada na nossa frente. Acionou o aparelho contra uma labareda que escapava entre o gesso do teto e nos alertou:

-Por aqui, não! Voltem!Voltem!

Voltamos a correr, desta vez na direção da escada rolante. Havia algumas pessoas e a escada funcionava normalmente. Mas não tínhamos chegado ainda ao piso superior quando ela parou de funcionar. Continuamos a subida a pé e percebemos que a fumaça já ocupava boa parte do local onde estávamos. Chegamos enfim ao estacionamento e tivemos a certeza que se tratava de um incêndio de grandes proporções. Vimos o fogo destruir alguns automóveis e mais pessoas desesperadas. Tentamos voltar, mas não conseguimos. Havia muita gente impedindo a passagem e a cortina de fumaça ficava cada vez mais densa. A fumaça era escura, porém uma nuvem branca começou a surgir. Começou a tomar forma. Primeiro, a forma de uma mão bem grande que nos envolveu rapidamente. E desfez-se. Depois formou um busto com a cabeça de um homem rústico de traços fortes, como os heróis da era antiga. Ele nos olhava ameaçador. Sara me abraçou aterrorizada, quando o homem esboçava a primeira palavra que expressaria sua ira, e acordou. Ligou-me imediatamente para contar o pesadelo. Eu tomava um chá de camomila na esperança de que o sono pudesse chegar logo. Passava das duas horas e na manhã seguinte eu teria uma prova importante na escola.

Mesmo após a ligação de Sara eu não consegui dormir. Fiquei pensando na ligação que tinha aquele meu pesadelo recorrente desde a infância e o de Sara. Bernardo também já havia tido pesadelos com gigantes. Eu sempre estava presente no sono dos meus amigos quando ele aparecia. Havia alguma mensagem implícita ou, embora eu não acreditasse nestas coisas, alguma entidade tentava comunicar comigo por meio dos sonhos.

Mesmo não conseguindo dormir, fui bem na prova. Na saída da escola, Sara me acompanhou até a estação do trem. Conversamos sobre o assunto e decidimos anotar os sonhos a partir daquele dia para tentar descobrir se havia alguma mensagem implícita, algum mistério a desvendar por trás dos acontecimentos.

 

Bernardo encostou o carro na entrada da estação e Sara entrou.

No caminho Bernardo parou no sinal vermelho e desviou a atenção de Sara para algo que acontecia no céu. O azul era tomado por caminhos de nuvens vermelhas que aos poucos começaram a aglomerar até formar um redemoinho rubro no céu. No horizonte, avistaram muita fumaça. O sinal ficou verde e Bernardo acelerou. A curiosidade fez com que os jovens desviassem do caminho original. Deu tempo de Sara contar sobre a conversa que teve comigo. Quando chegaram, perceberam o shopping center em chamas. Os carros dos bombeiros chegaram junto. Os homens desceram e prepararam com muita rapidez os equipamentos para combater o fogo. Bernardo olhou para Sara e ambos ficaram dentro do carro congelados na mesma posição por alguns minutos. Pelo menos foi assim que Sara narrou para mim. Depois, Bernardo abriu a porta e desceu. Deu uns cinco passos na calçada e ficou observando o incêndio. Sara ligou o rádio para ficar informada sobre os detalhes. As nuvens vermelhas dissipavam sobre o shopping. Pareciam ser sugadas pelo prédio. Bernardo voltou ao carro e comentou o último pesadelo que teve. Sentia como estivesse em um dejavú. Ali na calçada via o shopping em chamas enquanto o gigante abraçava o prédio como se quisesse destruí-lo.

Bernardo e Sara ouviram pelo rádio que a situação, apesar de tensa no shopping, estava praticamente controlada. Bernardo deu partida no Jeep e enquanto levava Sara para casa, conversava com ela sobre o assunto, tentava descobrir que tipo de mensagem havia por trás de tantas coincidências. E o que significava a figura do gigante nos pesadelos? Quem ele representava? Não chegaram a nenhuma conclusão.

 

Já no trem ouvi algumas pessoas que comentavam sobre o incêndio no shopping. Meu estômago gelou na hora.

Estava sentada e dois homens que voltavam do trabalho, ainda com os uniformes da empresa metalúrgica, disseram que havia poucas vítimas, a maioria intoxicadas pela fumaça. Olhei pela janela e tinha começado a chover. Pensei que a natureza nunca tinha sido tão pontual como naquele momento. Certamente ajudou no trabalho de rescaldo. Mas o que não saía da minha cabeça era a coincidência com o pesadelo de Sara. Lembrei que o gigante era decorrente em meus pesadelos e aquele pesadelo em que descíamos a serra e erámos perseguidos por ele nunca havia atravessado para as fronteiras da realidade. Havia sido o primeiro pesadelo de Sara com ele e foi premonitório. Precisávamos nos reunir e conversar mais sobre o assunto.

A chuva parou. A neblina intensa indicava que o trem já estava perto da vila. Não via nada pela janela além do branco. O fog, assim os ingleses chamavam a névoa intensa daquela região, não permitia que víssemos um palmo a frente. O vagão estava vazio. Ali eram apenas eu, o som dos trilhos e o frio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

III

 

Combinaram de encontrar comigo no fim de semana. No sábado foram pela primeira vez de carro até a vila.

Algum tempo depois de deixarem a capital, o Jeep que trazia Sara e Bernardo chegou ao final da estrada de mão dupla asfaltada. Bernardo foi obrigado a estacionar o carro ali mesmo em frente ao cemitério. Teriam que descer a pé, pois eu morava na parte baixa da vila. Sara ainda não tinha visto um cemitério tão pequeno, com tão poucos túmulos e convidou o namorado a entrar com ela. Bernardo também estava curioso e aceitou. Sara gostava de observar nas lápides o ano de nascimento e o de falecimento dos defuntos. Perceberam que alguns túmulos eram bem antigos e que a muitos estavam abandonados, inclusive. Dois ou três deles estavam bem cuidados e um tinha até flores colocadas ali recentemente, provavelmente ainda naquela semana. Sara olhou para a entrada e percebeu que uma senhora bem velha, por volta dos setenta e cinco anos, com lenço amarrado na cabeça entrava. Segurava uma vassoura de palha e uma pá de latão. Ela passou pelo portão e foi na direção do casal.

-Vocês não são daqui, não é mesmo?

Sara olhou para Bernardo e respondeu:

-Não. Viemos da capital para visitar uma amiga.

-Logo percebi. – disse a velha – a primeira coisa que os forasteiros fazem quando chegam é visitar nosso sementério.

-Cemitério. – corrigiu Bernardo.

-É sementério mesmo. – insistiu. – Ouvi que quando a gente morre, vira semente. Então é sementério. – e riu quase sem força com a própria piada.

Bernardo e Sara acharam graça de sua risada e também riram com a velha senhora que se virou e começou a limpar alguns túmulos.

O casal voltou a observar com curiosidade as poucas histórias que haviam terminado ali. Depois, despediram-se da velha e saíram.

Começaram então a descer pelo paralelepípedo que cobria as vielas estreitas da vila. Pararam para pedir referências a um bêbado que usava óculos escuros redondos, tinha um lenço amarrado em torno do crânio, usava um colete de couro bem ao estilo hippie e cantarolava Mercedes Benz da Janis Joplin com uma alegria difícil de encontrar nos dias de hoje. Conhecia meu pai, então conseguiu indicar aos meus amigos o endereço que ficava do outro lado da passarela que cruzava por cima dos trilhos. Assim Bernardo e Sara conseguiram chegar até minha casa. Levaria os dois naquela tarde até a casa de uma esotérica conhecida por ‘cigana’ para investigarmos se o que estava acontecendo entre nós era algum sinal ou nos

traria algum risco. Falaríamos sobre os pesadelos recorrentes desde a minha infância e sobre o gigante que invade os pesadelos meus, de Sara e Bernardo.

Andamos umas três quadras e chegamos. Na frente da casa havia um gato e um jardim descuidado cheio de mato. A porta estava aberta e uma moto estacionada. Entramos na casa da cigana e logo de cara senti um frio percorrer a espinha. Não por causa do ambiente místico que ela apresentava, mas porque ele estava lá: Moreno, forte e aqueles olhos claros puxados da mãe. A tatuagem de dragão que coloria o braço direito chamou minha atenção. Victor também percebeu minha presença e sorriu.

-É nova. - disse.

Retribui o sorriso e baixei os olhos. Fiquei cabisbaixa por uns dois minutos. Minha timidez sempre impedia a aproximação com os garotos. E o Victor havia sido um rapaz especial desde o início. Estudávamos junto, mas nunca tínhamos nos falado. Ele estava no oitavo ano e eu no quinto. Em um dia frio, era intervalo das aulas e duas garotas começaram a brigar por causa de um trabalho escolar. Começou um empurra-empurra e não sei como eu fui empurrada indo parar dentro de um latão de lixo. O Victor foi o único garoto que me ajudou a levantar e perguntou se eu estava bem. Limpou minha blusa com as próprias mãos e depois que a diretora liberou, acompanhou-me até minha casa. Um gentleman. Foi paixão à primeira vista.

Fazia tempo que não o via. E ele estava ali bem na minha frente, com a Harley Davidson tinha ganhado do pai no último aniversário, quando completou dezoito anos.

Durante o dia, fazia entregas para uma empresa que servia comida oriental - delivery. À noite ia para a faculdade de engenharia e aos finais de semana saia com um grupo de motoqueiros, os “Corvos do Asfalto”, pelas estradas do interior. Victor morava perto do centro da cidade, que era um pouco distante da vila.

A cigana apareceu com o dinheiro para pagar a entrega. Já estava com um wok plástico cheio de yakisoba e os hashis na outra mão prontos para entrar em ação.

Após receber o dinheiro, Victor me entregou um cartão com seu telefone e me beijou no rosto antes de ir embora.

-Foi um prazer revê-la. – disse ao subir na moto. – Prazer igual em conhecer seus amigos, também. – ligou a moto e saiu em disparada de volta à cidade.

Fomos convidados a sentar nos puffs e almofadas espalhadas pela sala.

-Quero que sintam-se à vontade. – disse a “cigana”.

Enquanto ela comia, contávamos nossas histórias. As reais e as originadas nos pesadelos. E fiquei tão perdida meio a tantas narrativas que em nenhum momento pensei em me apresentar. Talvez porque não gostasse muito do meu nome. Não que fosse um nome feio, porém mais porque achava diferente e nunca havia tido a curiosidade de perguntar para os meus pais porque haviam colocado este nome em mim. De onde ele tinha vindo? Depois, por educação, apresentei a mim e a meus amigos.

-Desculpe! Meu nome é Audri. Audri Smith. E estes são meus amigos Sara e Bernardo. Moro a três quadras daqui.

-Bem. – começou a cigana depois de colocar o wok vazio e os hashis manchados de shoyu sobre uma mesinha de centro para acender um incenso de jasmim em uma vela que já se encontrava acesa e pela metade – Primeiro quero esclarecer que, apesar de ser conhecida como “cigana”, eu não sou exatamente uma cigana. Minha origem é outra. Sou apenas uma pessoa comum bastante interessada nos estudos do misticismo, esoterismo e ocultismo. Meu trabalho não tem uma denominação correta, talvez por isso me chamam de cigana. Meu nome é Carmem. Podem me chamar assim caso tenham alguma dúvida de como dirigir-se a mim. Quanto aos pesadelos, eles me parecem premonitórios, como haviam dito. O que intriga é a constante presença deste tal de “gigante”, como denominam.

-A senhora acha que pode ser um anjo ou uma entidade maligna? – arrisquei.

-É certamente uma entidade. Mas não é possível afirmar por hora se é do bem ou do mal. Provavelmente quer ajuda ou retornou de outro mundo para fazer uma cobrança, quem sabe. Pode até ser algo de outras vidas.

-Outras vidas? – estranhou Sara.

-Isso mesmo. Vocês não acreditam em reencarnação? Não creem que somos produto de vidas passadas? Que o universo é feito de pura energia e que esta energia se renova a cada visita nossa a este planeta?

-Mais ou menos. – apenas o cético do Bernardo que respondeu.

Eu balancei a cabeça timidamente para cima e para baixo no intuito de dizer que acreditava em vidas passadas. Sara ficou com os olhos arregalados e nada respondeu.

-Mas precisamos investigar. – continuou a cigana. – O que eu recomendo neste momento é que tentem dominar seus sonhos, ou pesadelos caso prefiram assim. Tentem falar com este gigante. Quem sabe a resposta aparece. – concluiu levantando e abaixando os ombros.

-Mas será difícil aproximar e conversar com ele. O cara mete medo. – disse Bernardo.

Não aguentei e comecei a rir baixinho. Sara riu comigo. Carmem também não segurou. Logo, Bernardo percebeu o que havia dito e estávamos todos extasiados em gargalhadas. 

-Mas é verdade, Carmem. O gigante mete medo. – confirmei após conseguir retomar o fôlego.

-Quanto a isso, não devem temer. Tudo não passa de uma viagem que a alma faz e nada há de acontecer caso tentem uma aproximação. Basta ter coragem e manter a consciência que conseguirão. –levantou-se. Levantamos junto e ela continuou - Caso haja alguma novidade, peço que retornem.

-Pode deixar. – disse enquanto levantávamos.

Saímos de lá determinados a enfrentar o medo e o gigante caso voltássemos a ter aqueles pesadelos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV

 

Os preparativos para a formatura do colégio estavam avançados. Pensei em convidar o Victor para dançar a valsa comigo, mas fiquei com receio que ele recusasse. Era sim apaixonada por ele, porém tinha o sentimento de que ele não correspondia. Ele já estava na faculdade, conhecia outras garotas e tinha outros compromissos.

Revelei meu desejo e Sara me incentivou a convidá-lo.

-O que custa tentar? O não você já tem, Audri. Basta buscar o sim. – Sara já havia me convencido com poucas palavras. Aliás, era sempre assim. Quando surgia uma dúvida ela era a primeira a ser consultada e a primeira a me convencer. Na verdade, eu sempre tinha uma resposta comigo. Precisava apenas da cumplicidade dela.

Foi o que decidi fazer. Parti para buscar um sim. Peguei o cartão no meio da agenda e liguei. Victor atendeu e quando me identifiquei pareceu contente. Expliquei que havia ficado feliz em reencontrá-lo e fiz o convite. Ele aceitou na hora. Disse que seria uma ótima oportunidade para rever alguns amigos do colégio. Mas tudo dependia da data que ainda não estava confirmada. Estava em busca de estágio e tudo ia depender de como as coisas aconteceriam dali para frente. Compreendi e prometi ligar assim que tivesse uma confirmação da comissão de formatura.

Sara parecia mais feliz que eu com a notícia.

Paramos para ler os anúncios do mural no pátio do colégio:

 

‘VENDO UMA GUITARRA COR DE ROSA’

‘AULAS PARTICULARES DE LÍNGUA PORTUGUESA’

‘INGRESSOS PARA O ROCK IN RIO’

 

Mas o que mais nos chamou a atenção não foi nenhum anúncio. Foi o trecho de um poema anônimo que alguém resolveu pregar com o percevejo no tecido verde:

 

‘Desci ao porão dos sonhos

e acordei muitos monstros adormecidos

Depois corri escada acima

e cheguei ao sótão

: os Deuses aconselharam voltar

Não me permitiram descobrir

o lado enigmático da vida.’

 

Olhei para Sara e ela balançou a cabeça.

Bernardo apareceu do nada e de repente por trás e nos assustou.

-Morfeu!

Ficamos sem entender.

-Vamos! No caminho eu explico. – disse.

Peguei uma carona até a Biblioteca Municipal. Precisava realizar algumas pesquisas para o trabalho do último bimestre.

Já estávamos no Jeep amarelo quando cobrei:

-O que você quis dizer com aquilo, Bernardo? Morfeu.

-Ainda bem que lembrou, Audri. É sobre os pesadelos.

-Você disse ‘Morfeu’?–lembrou Sara.

-Sim. – Bernardo confirmou – O ‘gigante’ que nos assombra nos pesadelos é Morfeu.

Lembrei das histórias da mitologia grega que meu pai contava.

-Morfeu é um Deus da mitologia grega. Filho do sono e da noite. Encarregado de produzir o sonho nos homens.

-Exatamente. – concordou Bernardo. Eu continuei:

-Era representado com asas de borboleta. Segurava nas mãos um punhado de papoulas.

-Faz sentido. – foi a vez de Sara concordar.

-Meu pai conta várias histórias. Ele costuma dizer que os deuses da mitologia grega estão entre nós e que voltarão um dia para vingar-se dos humanos. Segundo ele é o que justifica, em nossa era, os desastres naturais e da confusão mental do homem moderno. É o despertar dos deuses.

-Eu não acredito nisso. A mitologia não passa de um simbolismo. – Sara insistiu. E continuou – Como uma entidade simbólica vai invadir os nossos sonhos e participar de nossas vidas?

-Existem muitas maneiras, Sara. Já ouviu falar em inconsciente coletivo? – desafiou o namorado.

- Claro que ouvi falar. Isso sim explicaria os pesadelos premonitórios que tivemos.

- Sara tem razão. – concordei parcialmente – Mas na primeira história que ouvi meu pai contar, Morfeu precisava resgatar uma relíquia subtraída pelos ingleses no início do século passado. Pode ser que o nosso inconsciente coletivo queira nos alertar para algo de alguma importância.

-Ou não. – Sara voltou a renegar toda aquela história.

Bernardo estacionou na frente da Biblioteca. Desci do carro.

-Continuamos a conversa amanhã, então. – disse – Até breve! – e me despedi.

 

 

 

 

 

 

 

 

V

 

-A tempestade desestabilizou o anemômetro. Talvez precise subir lá na estação para consertá-lo no final de semana. – disse papai enquanto minha mãe servia um pedaço de bolo de chocolate e uma xícara com chá de hortelã.

-Mas você não ia para o Congresso em Goiânia? – ela perguntou.

-Foi adiado. Sábado vou dar uma palestra no Hilton, mas no Domingo bem cedo subirei à estação. Minhas pesquisas e o repasse dos dados para os meus alunos não podem ser interrompidos.

Entrei e deixei o fichário da escola sobre a poltrona. Beijei-lhes o rosto e sentei à mesa para o café da tarde. Já passava das quatro e meia.

-Por que está chegando mais tarde hoje, minha filha? – ele perguntou.

-Passei na biblioteca. E por causa do tempo ruim, o intervalo entre os trens hoje é de cinquenta minutos ou mais.

-Um rapaz esteve procurando por você. – disse mamãe.

-Disse quem era e o que queria?

-Era um rapaz alto, tatuado com uma moto.

-Meu Deus! Victor. –pensei alto.

-Disse que voltaria mais tarde. – serviu-me o chá e sentou-se também.

Enquanto comíamos e bebíamos, a tempestade voltou. Papai levava uma fatia do bolo à boca e parou ao ouvir o primeiro raio. Foi um estrondo terrível. Papai olhou bem em nossos olhos e continuou a comer. Júnior entrou na cozinha.

-Estou com medo.

Mamãe virou-se para ele e estendeu os braços.

-Não precisa ter medo. É só uma tempestade de verão. – disse enquanto trazia o caçula para sentar em seu colo.

Alguém bateu na porta. Levantei para abrir. A chuva caía com força. Parecia que derramavam a água com baldes lá do céu. Quando abri a porta não vi ninguém. Logo Victor apareceu, todo molhado.

-Menina difícil, você.

Fiquei sem jeito e o convidei para entrar. Mamãe foi até o quarto e logo apareceu com uma toalha e entregou para que ele se enxugasse. Ofereceu também roupas do papai:

-Se quiser, posso emprestar umas roupas do Smith.

-Não precisa incomodar-se. Minha roupa é feita de um tecido especial que logo estará seco. Mesmo assim, obrigado. – agradeceu Victor e devolveu a toalha.

-Quer um pedaço de bolo? – ofereci.

-Acho que vou aceitar. O cheiro está ótimo.

Preferiu o café ao chá. Quando terminamos ele disse a que veio:

-Deu tudo certo. Eu aceito o seu convite.

No início fiquei sem entender o que ele queria dizer, mas logo as sinapses me alertaram.

-Que bom! Fico feliz de verdade.

-Consegui um estágio e já falei com o diretor da empresa. Ele disse que era para eu ficar sossegado que quando chegasse o dia ele me liberaria se necessário.

-A comissão de formatura ainda não confirmou a data.

Assim que terminei de falar, ouvi o barulho de um carro. Olhei pela janela e eram Bernardo e Sara. Estranhei. Por que não disseram que viriam para a vila? Eu adiaria a ida à biblioteca para a segunda-feira e pegava uma carona. Levantei para abrir a porta. A chuva já havia parado.

-Só não esquece a cabeça porque está colada no pescoço. – disparou Sara ao descer do carro.

Bernardo desceu e riu. Tirou do bolso o meu celular e balançou no alto. Coloquei a mão na cabeça. Não havia dado falta do aparelho ainda.

-Bom que proporcionou uma pequena viagem ao casal. – emendou minha mãe.

Sara e Bernardo entraram. Ao ver Victor, Sara me olhou diferente como se dissesse: - “Vejam como as coisas caminham com rapidez por aqui!”

-Agora sua mãe vai ter que deixar você sair conosco na noite desta linda sexta-feira de lua cheia. – disparou Bernardo – E o seu amigo não vai recusar o convite para nos acompanhar – emendou referindo-se a Victor.

Jamais meus pais deixariam. Eu tinha apenas dezesseis anos e eles diziam que eu só frequentaria as baladas noturnas quando completasse dezoito. Meu pai que havia saído para a varanda logo entrou.

-Não senhor, Bernardo! Não levarão minha pequena para lugar algum. – disse, amistoso.

-Calma, senhor Smith! Foi só uma brincadeira. –justificou Bernardo.

Meu pai aproveitou a mão de obra disponível ali naquele momento e rebateu:

-Mas eu tenho outro convite a fazer. Preciso subir até a estação para consertar o anemômetro. Gostaria que me ajudassem, se possível.

Minha mãe mostrou preocupação:

-Mas com este tempo maluco, Joel?

-Parece que não vai mais chover. –meu pai entendia bem dessas coisas de tempo.

-E também já passa das cinco. Logo vai escurecer.

-Vai demorar um pouco para escurecer. Estamos no horário de verão. – insistiu – Em menos de uma hora estaremos de volta.

Quando Joel Smith colocava uma ideia na cabeça era difícil alguém removê-la.

-Eu subi uma vez até a estação meteorológica. A vista lá do alto é muito bacana. A trilha que leva até lá, então, é maravilhosa. – disse Victor que já estava empolgado.

Sara olhou pela janela e percebeu que o sol havia resolvido aparecer novamente. Estava tímido ainda, mas parecia que ia despontar de vez para dar adeus àquele dia.

-Eu vou com vocês. Sempre quis ver o pôr do sol lá do alto. –disse.

-Não, Sara. Melhor ficar aqui. É uma tarefa para meninos. – repreendeu Bernardo.

-Machista! –disparou Sara.

Eu também resolvi acompanhar o grupo. Não podia perder a oportunidade de estreitar a relação com Victor. Só ficaram em casa Júnior e mamãe.

Papai pegou a caixa de ferramentas e saímos. Seguimos na direção oeste da vila, onde ficava a subida para a estação. Quando chegamos ao fim da estrada de terra, entramos pela trilha à direita. Fomos brindados pelas aves com uma sinfonia entoada pelas mais de duzentas espécies do lugar. A vegetação do caminho ainda estava molhada, mas o sol já brilhava com a intensidade daquele fim de tarde. Foram quase quarenta minutos até chegarmos à estação.

Sara ficou encantada com o sol no horizonte e sacou o celular para registrar em uma fotografia.

Papai percebeu que havia um  galho fino de árvore enroscado na vara do aparelho, o que o impedia de funcionar. Subiu pela escada de ferro e tirou o empecilho dali. Bastou para que o aparelho voltasse a girar.

Sara e Bernardo estavam abraçados observando o pôr-do-sol.

-A última vez que passei por esta trilha com o pessoal do ‘Corvos do Asfalto’, cruzamos com uma suçuarana. Desligamos os motores e esperamos ela passar. Ficamos todos gelados, mas o bicho foi embora. Nem deu bola para aquele bando de caras esquisitos. – disse Victor.

Eu ri. Sara pareceu ter medo e encolheu-se para mais perto de Bernardo. Meu pai desceu e pegou a caixa de ferramentas que nem chegou a usar.

-Vamos! – disse. -  Temos que descer antes que escureça.

Sara e Bernardo que estavam sentados em uma rocha, levantaram.

Nem deu tempo de darmos os primeiros passos e o fog nos surpreendeu. Era uma névoa tão intensa que naqueles anos todos em que eu morava ali nunca tinha visto. Tudo virou um branco só. Mal podia enxergar meus companheiros. A vila que podia ser observada lá de cima, também desapareceu.

-Vamos esperar! Logo passa! Aí descemos... –falou papai em voz alta.

Mas não vimos quando a neblina foi embora. Um estrondo do alto e uma forte luz, não sei se eram trovões e raios, nos jogou contra o chão. Éramos naquele momento apenas cinco corpos inconscientes sobre a montanha.

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