Primadonna Girl

Você ainda não consegue acreditar que conquistou o seu lugar na competição. Até agora não caiu a ficha que você pode ser a primeira vencedora da versão brasileira do X Factor. Você consegue o seu prêmio, não o que você imaginava, algo muito melhor e mais duradouro. Há realmente males que vem para o bem?

(You still can not believe you won your place in the competition. So far not sunk in that you can be the first winner of the Brazilian version of the X Factor. You get your reward, not what you imagined something much better and more enduring. There are evils that really comes to the well? Is it a blessing in disguise?)

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3. 02 –

Não sei exatamente o que queriam dizer quando criaram a expressão “no topo do mundo”, mas deve ser uma sensação muito próxima do que estou sentindo agora. Só que com menos pessoas mal educadas, mal amadas e mal cheirosas a minha volta.

Sempre tive um talento nato na arte de ignorar, mas até eu me surpreendi com minha própria paciência durante aquele fim de tarde, dentre reclamações constantes e aparente falta de educação geral. Havia passado cinquenta minutos dentro de um ônibus lotado ao lado de uma senhora, que insistia em me contar a história de vida do neto adevogado dela; perdido o primeiro metrô, porque alguém havia me parado para pedir informações; e agora estava no segundo metrô sendo obrigada a ouvir “usa a boca, usa a boca toda” de um celular qualquer... E, ainda assim, nada era capaz de tirar aquela régua da minha boca.

Eu consegui. Nunca um simples “sim” havia parecido tão bonito aos meus ouvidos, bom, até os outros dois que seguiram o primeiro, eles com certeza foram tão bonitos quanto. Eu havia conseguido três dos quatro jurados e isso foi suficiente para me deixar sem reação no palco há poucas horas atrás. E o melhor, para me levar ao bootcamp em pouco mais de uma semana, o que me dava exatamente nove dias para deixar tudo em ordem antes da viagem.

Quanto mais eu pensava, maior ficava a minha lista de coisas a se fazer. Teria que conseguir uma folga nos meus dois empregos pelo tempo que estivesse fora – não poderia simplesmente me jogar no plano A e abrir mão do meu plano C, certo? E se tudo desse errado?! –, estocar uma quantidade suficiente de comida para um batalhão por cinco meses e convencer e ensinar meu pai a cuidar de si mesmo sem morrer de fome ou vender a casa por um engradado.

Acho que as pessoas estavam começando a duvidar se eu era mentalmente competente para estar andando sozinha pela cidade, além do sorriso retardado que não consegui tirar do meu rosto, havia ficado tanto tempo imaginando como seria perfeito e maravilhoso estar no programa que parei de prestar atenção ao meu redor e quase perdi minha estação. Quando me dei conta, as portas estavam quase se fechando.  Levantei-me de supetão e corri para fora, conseguindo passar por um triz entre as portas.

Quando disse que nada poderia tirar aquela régua da minha boca, eu não imaginei que o universo tomaria como um desafio. Minha bolsa ficara presa entre as portas e, quando o veículo saiu em um solavanco, a alça arrebentou, espalhando todos os meus pertences pelos trilhos e destruindo parte deles em seu caminho.

Fiquei ali. Estática. Apenas olhando. Olhando as duas notas de vinte reais, antes em minha carteira, serem transformadas em quinhentos pedacinhos amarelados e voadores por conta do vento provocado pela velocidade do metrô, olhando minha bolsa virar uma massa disforme de tiras de couro falso e verniz e, por fim, olhando meu celular se desmanchar nos trilhos – ao mesmo tempo em que eu fazia uma nota mental de desmentir todo mundo que algum dia disse que aquele nokia era indestrutível (aparentemente essas pessoas não tentaram jogá-lo embaixo de um trem). Caramba, como sou sortuda.

Com uma última olhada nos trilhos para me certificar de que nada poderia ser salvo, dei meia volta, ignorando os olhares alheios e caminhando like a lady até os degraus de saída da estação. É, acho que teria que adicionar “arranjar novos pertences e um banho de sal grosso” à minha lista.

 

 

– Cala a boca! – ela dizia pela enésima vez na última meia hora – Você falou e cantou para eles?

– Não Jess, ela ficou lá, calada, por 15 minutos e eles resolveram passar ela para a próxima fase porque ela esbanja simpatia – David rolou os olhos.

Eu já havia contado várias e várias vezes os acontecimentos daquela tarde para os três, mas parecia ser impossível para Jess absorver mais do que quatro palavras na mesma frase. A única coisa que ela ouvia é que eu “havia conhecido a Sandy” e, segundo ela, por mesquinhez eu havia me recusado a tirar uma foto e trazer um autógrafo para ela.

– Tudo bem, até eu percebi o sarcasmo nisso, amor – ela riu olhando para mim – O dia que a Gia for simpática, eu caso com o Johnny Depp.

– Parem de zoar a menina – Alan apareceu do outro lado do balcão, com um pano de prato em uma das mãos e três copos encaixados nos dedos da outra, interrompendo o discurso de David de que só aceitaria ser trocado por um cara mais pintoso que ele, o que na mente psicótica dele, não era o caso do Depp... Ok, claro – Só porque ela não é muito... Aberta com as pessoas, não quer dizer que seja antipática – ele posicionou os copos em nossa frente e virou-se para o freezer atrás de si.

– É verdade pai, quando ela está interessada em algo ela pode até sorrir – Jess disse a última palavra com os olhos arregalados em uma falsa descrença.

– Ah, calem a boca vocês – peguei o copo assim que Alan terminou de servir – Alan, preciso te fazer um pedido.

– Gia, ele já é casado com a minha mãe, desiste – Jess disse e apenas David riu da piada infame. Esses dois realmente se merecem. Nunca soube como Jess aguentava aquela criança por quase três anos, mas pensando bem, o contrário também se aplicava.

– Então, Alan – comecei.

Alan foi um dos melhores amigos do meu pai em seu período sóbrio e uma rocha para mim nos últimos anos, não só porque ele abriu sua casa e sua vida, oferecendo-me seu palco durante os fins de semana e um emprego nas outras noites, e sim porque quando eu mais precisei, lá estava ele e Jess, a qual eu considerava mais que uma irmã. Além de termos crescido juntas, ela era uma das melhores pessoas que eu já conheci. Imagino que isso seja alguma característica presente no gene daquela família, a mãe de Jess também era ótima quando você conseguia ignorar suas tentativas de conversão religiosa – além de cozinhar divinamente, diga-se de passagem. É, não são só os homens que são conquistados pelo estômago, eu aceito suborno comestível sempre.

Eu tinha certeza de que ele não teria nenhum problema em arrumar outra pessoa durante o tempo que eu estivesse fora, principalmente porque comigo ele não conseguia quase nenhum lucro já que se recusava a receber mais de 10% do couvert artístico dos fins de semana. E não é como se não existisse milhões de outros músicos naquela cidade. Mas não era bem com aquilo que eu estava preocupada.

– Não precisa nem falar, Gia – ele apoiou os cotovelos no balcão – seu emprego vai continuar aqui caso você precise dele... Apesar de que, com seu talento, tenho certeza que vai se esquecer de nós rapidinho quando estiver toda rica e famosa, gravando discos e fazendo shows no Brasil inteiro.

Curvei os lábios em um sorriso sem dentes.

– Obrigada, Alan – me ergui um pouco no banco para lhe dar um abraço – Mas eu preciso de outro favor... E, se não quiser, não tem problema, eu consigo dar um jeito! – ele fez sinal para que eu continuasse – Sabe como é lá em casa... E eu estou com um pouco de receio de deixa-lo sozinho e—

– Ah, pelo amor de Deus, Gia – Jess interrompeu – Você sabe que pode contar conosco! Não iríamos deixar seu pai atrapalhar esse seu momento. Vamos cuidar dele. Até o David pode ajudar nos fins de semana, não é amor? – David concordou com a cabeça e um sorriso.

– Fique tranquila, ganhe aquele negócio e pode nos agradecer com uma mansão nas Bahamas, quando estiver famosa – seu sorriso se transformou em uma risada.

– Vocês sabem que mesmo que eu ganhe o programa, ele não vai me transformar em um Eike Batista, não é?

Jess se soltou de David e me puxou pelos ombros para um abraço.

– Faremos isso porque acreditamos em você, Gia – ela disse no meu cabelo – Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém enxergaria o que nós vemos em você!

Após um bom tempo abraçadas, ela me soltou com a feição séria.

– E como você vai fazer com o Wesley? Vai pedir demissão?

Esse era um problema que eu não queria ter que lidar. Wesley era o dono e chef do Nonno Mio, o restaurante italiano que me empregava nos outros dias da semana, e um grande filho da... Tudo bem, não culpemos sua mãe, seria covardia, a coitada provavelmente também sofre com isso. Wesley é um projeto piorado e tupiniquim de Miranda Priestly e faz o meu trabalho parecer muito mais importante do que realmente é, não porque sou altamente valorizado – ah, isso definitivamente não –, mas sim porque não tenho um minuto de paz, nem durante meus intervalos, nem em meus pensamentos. E, vou te contar, é muito difícil reprimir meus instintos assassinos quando passo tanto tempo dentro de uma cozinha com aquela criatura nefasta, porque é lá onde ficam as facas. Várias. Ao meu alcance.

Quero deixar claro que não o odeio, porém se ele estivesse em chamas e eu tivesse um copo d’água, eu beberia.

“Ele é um pé no saco, e daí?”. Na verdade, são vários pés no tal saco, porém o problema disso tudo é o fato de eu não conseguir enfrentá-lo. Não sei o que acontece comigo ou qual é a dele para conseguir fazer eu me sentir tão inútil – talvez seja a quantidade de vezes que ele grita isso para mim –, mas ainda assim, todas as vezes que ele berra comigo sobre como a folha de manjericão estava no ângulo errado no prato ou algo do gênero, em minha mente estou gritando: “É um enfeite imbecil, ninguém liga para o ângulo em que ela está contanto que a comida esteja no prato! E o único ângulo em que eu queria que o manjericão estivesse agora, seria um pé inteiro dele 90 graus para dentro da sua—”. Maaas... Isso tudo se externa com um: “desculpe, chef”.

Sério, por essas e outras eu até entendo porque ele me acha inútil apesar de eu fazer o meu trabalho de assistente – do assistente do assistente do assistente – do sous-chef perfeitamente. Quantas e quantas vezes ele havia me feito ficar no restaurante mais de uma hora além do meu horário ou me responsabilizado por algo na cozinha que eu não tinha nada a ver... Sei qual é a pergunta que não quer calar: Por que eu não peço demissão? Porque eu não conseguiria esse salário em lugar algum sem sequer um diploma de ensino médio. Bom, a menos que eu apelasse para a prostituição, afinal, eu já havia perdido toda e qualquer dignidade no meu primeiro mês de trabalho no Nonno Mio então qual seria a diferença? É, só que não.

Eu não queria perder aquele emprego, caso toda essa história do X Factor se saísse um tiro pela culatra. Mas também não queria ter que ouvir suas merdas quando eu pedisse uma folga de quatro meses, ele negasse e eu acabasse pedindo demissão de qualquer jeito. Porque era exatamente isso que iria acontecer. Como eu disse, esse era um problema que eu não queria ter que lidar.

E eu não lidaria.

– Acho que ele vai perceber a dica quando eu parar de aparecer para trabalhar – dei de ombros tomando outro gole do refrigerante.

– Isso não vai te trazer problemas, Gia? – Alan perguntou com a feição preocupada.

– Nah – abanei o ar – Trabalho sem carteira assinada, por conta da idade e a periculosidade então isso traria mais problemas pra ele do que pra mim se viesse à tona.

– Espero que esteja certa.

– Ah – estalei o dedo ao lembrar – Você pode procurar a minha identidade, Jess? Está em uma daquelas caixas que deixei com você.

– Sua primeira via? – ela gargalhou, provavelmente lembrando-se da foto do meu primeiro RG – pra que precisa dela? Vai assustar alguém?

– Idiota – cerrei os olhos – Perdi a outra e não dá tempo de fazer uma até a competição. É uma longa história.

– Como conseguiu perder de novo, Gia? – já ia começar a repetir o meu argumento eu-só-achei-que-tinha-perdido-a-primeira quando ela me interrompeu com um gesto – Eu te ligo amanhã e você pega ela lá na faculdade, pode ser?

– Hm, sobre isso... – cocei a nuca – Você pode até ligar, mas não vai adiantar muito, então... Eu passo na sua casa a noite.

– Como assim não vai adiantar? Gia, o que aconteceu com seu celular?

– Como eu disse – ri sem humor – é uma longa história.

 

 

Rumo à rodoviária no Uno amarelo – ela diz cítrico e eu digo pintinho – de Jess, eu já tentava me preparar mentalmente para, provavelmente, os cinco dias mais estressantes dos últimos anos – só não digo “de toda a minha vida”, porque teria muito com o que comparar. Eu estava a caminho da capital para o que poderia definir a minha vida de agora em diante, sem múltiplos empregos, sem preocupação com hipotecas, fazendo o que eu gosto e dominando o mundo com minha música. Ok, talvez não a última parte, mas uma garota pode sonhar... Certo?

Ao meu lado, Jess ocasionalmente dava gritinhos estranhos e batucava o volante com os dedos no ritmo da música que tocava na rádio, algo sobre infartos e superação ou algo assim. Minha mente estava divagando longe o suficiente para nem aquela batida pop irritante ou os gritinhos igualmente irritantes de Jess me tirarem do sério.

Noites após minha conversa com Jess e Alan, esperei meu pai em casa por várias horas antes de desistir e ir dormir, já pela madrugada. No começo, eu ainda acordava assustada quando ele chegava fazendo barulho, porém, é como dormir com ventilador, no começo te impede e te mantém acordada por horas até você desmaiar de cansaço, mas depois que você se acostuma, é muito difícil dormir sem. Então, algumas horas depois, acordei estranhando o silêncio, a falta de portas batendo e coisas sendo derrubadas pela casa. Mesmo já estando habituada a essa situação, ainda não sou capaz de deixar de sentir um fiozinho de preocupação com o que pode ou não ter acontecido com ele.

Como se fosse um ritual, coloquei um moletom por cima do pijama, fiz uma xícara de chá de camomila e fui até o telefone público a poucos metros da minha casa. No interior do orelhão, há uma infinidade de besteiras rabiscadas, desde declarações de amor até desenhos de partes do corpo – é, bem essas partes mesmo –, porém eram aqueles três números de telefone escritos em marca texto azul bem acima do telefone que eu olhava. Depois de inserir o cartão telefônico, apoiei o aparelho no ombro e, com a mão livre, disquei aleatoriamente um dos três números.

– Ligia? É a Georgia – fui atendida depois de quatro toques – Não? Tudo bem, vou tentar com o Edgar, obrigada. Ah, pois é – tomei outro gole do chá enquanto Ligia tagarelava sobre o quanto ela estava feliz pela minha aprovação no X Factor – Obrigada Li, mas ainda não estou no programa, você sabe né? – Ligia era uma ótima pessoa, mas podia falar demais nos momentos mais inapropriados – É – dei uma risadinha educada – Bom, tenho que ir. Sim, aham, pode deixar. Vou sim, obrigada. Tchau, tchau.

Puxei o gancho, já discando outro número, dessa vez sendo atendida no primeiro toque. “Georgia, estou tentando falar com você há horas, mas seu celular está dando fora de área”, Edgar cuspiu antes mesmo que eu abrisse a boca. “Estou enganando ele com cerveja com água há um bom tempo, mas já está quase na hora e eu preciso fechar, querida”.

– Obrigada Edgar, pode segurá-lo mais um pouco? Tudo bem. Aham. Já estou indo busca-lo.

Bebi o restante do chá, que não estava mais quente, de uma só vez antes de rumar para a casa de Jess, que ficava a poucas quadras de onde estava e eu sabia estar acordada, pois sempre passava os finais de semana com David até altas horas com a desculpa de querer “aproveita-lo ao máximo” antes de ele voltar para a faculdade no interiorrr e “passar uma vida longe” dela. Exagerada? Imagina.

Busquei discretamente a chave reserva entre os arbustos próximos ao muro, encontrando-a no lugar de sempre, em uma fenda logo atrás do duende esquisito. Porém minha tentativa de não fazer barulho foi falha quando tropecei na Wal, a siamês maldita e escandalosa de Jess, e cai batendo estrondosamente o portão.

– Já que era pra acordar todo mundo, não era melhor ter usado a campainha? – Jess apareceu na sacada rindo com David – Não se preocupe, os pais de Jess estão fora em uma noite romântica – ele juntou as mãos e piscou os olhos repetidas vezes de forma sonhadora.

Eu, já em pé, ainda encarava com as mãos na cintura os estilhaços no chão a minha frente.

– O que aconteceu?

– Meu pai está tonto demais pra voltar sozinho pra casa – olhei pra trás e pra cima, onde eles estavam – Então estou aqui querendo o carro emprestado.

– Isso eu já imaginava, idiota – Jess rolou os olhos – Quis dizer: o que você tanto encara aí?

– Ela está morta, tadinha... Toda despedaçada.

Em um milésimo de segundo, Jess já estava histérica atrás de mim, perguntando o que eu tinha feito com sua Wal e porque eu odiava tanto o pobre animal.

– Que gata o que, Jess? – franzi as sobrancelhas pra ela – Estou falando da minha xícara! Sua gata me fez derrubá-la e olha só o que aconteceu com a coitada... Eu gostava dela, sabe?

– Por que você trouxe uma xícara, Georgia? – David fez careta – Você é muito estranha, cara.

– Conte-me algo que não sei, David. Toma – Jess jogou um molho de chaves com uma cenoura fluorescente – Pode me devolver amanhã, se eu precisar sair, o David me leva.

– Amanhã? Você quer dizer hoje? – perguntei.

– O dia só começa depois que eu acordo, dá licença – ela jogou os cabelos e saiu rebolando de forma forçada – Não quer que a gente vá com você? – ela perguntou segurando a porta. Neguei – Tudo certo então, boa noite. Ah, e tenha paciência com ele, viu? – ela piscou e eu agradeci.

Com muita ajuda, meu pai estava bem acomodado no banco traseiro e, por insistência de Edgar, com um balde perto do rosto. Eu havia deixado claro que era desnecessário, visto que ele já tinha passado da fase de vomitar ao encher a cara a algumas trezentas ressacas atrás, mas admito que cuidado nunca é demais e o carro de Jess ainda tinha aquele cheirinho de novo. Agradeci Edgar e lhe entreguei alguns trocados, suficientes apenas para pagar a primeira de muitas rodadas do Sr. Lopes naquela noite. Sai de lá com a promessa de que Jess passaria na próxima semana com o restante.

– Estamos indo pra casa – respondi com mau humor a crise existencial de “onde estou?” no banco traseiro.

Geogiazinha – ele se pôs entre os bancos – como você está, querida?

– Sóbria – fuzilei-o pelo retrovisor – Ao contrário de certas pessoas.

Ele estalou os lábios.

– Sabe o que me contaram hoje? – ignorei a pergunta. O que não o impediu de prosseguir – Que minha filha vai estar na TV – ele gargalhou debilmente até soluçar.

Não queria ter aquela conversa com ele sóbrio. E definitivamente não queria ter aquela conversa com ele bêbado como um gambá.

Meu pai não é a mesma pessoa desde que começou a beber dessa maneira, mas quando embriagado se tornava uma versão ainda pior de si mesmo. Uma versão mais estúpida, grosseira e desagradável. Yep, uma companhia agradabilíssima, pode crer.

– Então eu disse “até parece” e ele disse “to dizendo, eu vi ela na televisão” – balbuciou algumas coisas incoerentes e continuou – aí eu falei – deu risada – eu disse “ah é? E ela vai servir mesas na televisão?” – e gargalhou ainda mais, como se tivesse acabado de fazer a piada mais engraçada do mundo.

Respirei fundo, tentando ao máximo prestar atenção apenas no trânsito.

– O cara continuou insistindo e insistindo – fez careta – Tem gente que consegue ser tão chata, não é? Minha filha fazendo algo importante o suficiente para estar na TV – ele riu ainda mais, jogando-se contra o banco e segurando a barriga.

“E esses foram a On--”

– Ok, Georgia – ela desligou o rádio – O que há nessa sua mente conturbada?

– Por que a pergunta? – encostei a bochecha no apoio de cabeça do carro olhando em sua direção.

– Bom, estamos dentro desse carro há mais de quinze minutos e você não disse uma palavra... Por que está nesse silêncio todo?

– Talvez eu só esteja mostrando respeito à morte do bom gosto musical – sorri com sarcasmo.

– Ah, cale a boca – ela rolou os olhos rindo – Meu gosto musical é jovem, alegre e vivo, ao contrário do seu, Srta. Eu-vejo-e-ouço-gente-morta!

– Nos sonhos e acordada, querida – ri com nosso momento “O Sexto Sentido”.

– Chegamos – ela desligou o motor do carro, virando-se pra mim – Você tem noção de que amanhã, nessa mesma hora, você estará em um hotel chiquérrimo na capital, esperando para cantar para quatro famosos e depois para o mundo? – ela começou a fazer barulhinhos estranhos de animação enquanto descíamos do carro – Espero que não se esqueça dos seus amiguinhos brasileiros quando estiver cantando no Madison Square Garden depois da Beyoncé abrir seu show!

Gargalhei.

– Já é sonho demais eu abrir pra Beyoncé, mas isso aí que você falou parece saído de uma mente com distúrbios causados por uso excessivo de drogas ilícitas, Jess – a abracei – Mas obrigada... Por ser uma das únicas pessoas que acreditam em mim! – olhei para cima para evitar qualquer lacrimejo e funguei, Jess apertou ainda mais o abraço – Eu não vou esquecer vocês, sem chance disso...

– Agora vá lá e arrase! – ela me soltou, dando-me um empurrãozinho – Não se esqueça do que disse Queen Bey: “nothing is perfect but it’s worth it” – ela sorriu largamente.

Concordei com a cabeça indo em direção ao ônibus que já se encontrava estacionado, entreguei minhas malas, recebendo um papelzinho de retorno e coloquei um pé dentro do ônibus, dando uma última olhada para Jess, que acenava loucamente com os olhos vermelhos e um pedaço de papel rabiscado com “GIA HAS THE X FACTOR” em letras garrafais.

Lacrimejei por segundos antes de sorrir abertamente e entrar no ônibus. Percebi que não importa quantas pessoas te digam que você não consegue ou não pode fazer algo, basta uma que acredite verdadeiramente em você e o mundo fica maior e o céu passa a ser o limite. E Jess tinha aquela confiança cega em mim quando nem eu mesma acreditava, era o tipo de pessoa que, o que quer que aconteça, você sabe que estará lá quando você precisar de uma mão. Com ela, nunca precisei fingir, eu podia ser a chata insegura e ela podia ser aquela preguiçosa de gosto musical duvidoso.

Na vida, você percebe que há um propósito para todos que você conhece. Alguns vão te testar, uns te usar e outros te ensinar. Mas, mais importante, alguns trarão a tona o melhor em você, te incentivarão a fazer o melhor que você pode e a ser o melhor que você pode. E não há nada melhor do que fazer o que as pessoas dizem que você não consegue.

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