Primadonna Girl

Você ainda não consegue acreditar que conquistou o seu lugar na competição. Até agora não caiu a ficha que você pode ser a primeira vencedora da versão brasileira do X Factor. Você consegue o seu prêmio, não o que você imaginava, algo muito melhor e mais duradouro. Há realmente males que vem para o bem?

(You still can not believe you won your place in the competition. So far not sunk in that you can be the first winner of the Brazilian version of the X Factor. You get your reward, not what you imagined something much better and more enduring. There are evils that really comes to the well? Is it a blessing in disguise?)

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2. 01 –

É cômico e até um pouco trágico como passamos a vida ouvindo que a “felicidade está nas pequenas coisas” e, muitas das vezes, não paramos pra pensar no quanto essa frase contém uma verdade universal. Quando tinha seis anos, em um dia de inverno qualquer, a tensão era como um cobertor na sala de casa, grossa e nos mantendo quentes. Minha mãe estava apoiada no balcão, que dividia nossa pequena sala da cozinha ainda menor, com o corpo afastado e as costas arqueadas, sinal de que ela estava respirando fundo. Apesar de estar de costas para mim, eu sabia exatamente como ela estava. De olhos fechados e sobrancelhas franzidas de aborrecimento, sibilando frases que pra mim não faziam sentido algum a não ser “não pergunte” e “mantenha-se afastada”.

Uma série de barulhos e risadas altas do outro lado da porta me alertou de que meu pai havia chegado, porém minha mãe não moveu um músculo na direção dos sons. Fui até a porta e a destranquei, virando a maçaneta e sendo empurrada para o lado pelo peso que meu pai havia feito contra a porta. Ele estava na minha frente, deitado com meio corpo para dentro de casa e levantava uma garrafa. “Opa, opa, quase me fez derrubar”, ele disse rindo pra mim. O som da risada dele, com o passar dos anos, foi se transformando em um gatilho, mas naquela época, apenas me fez rir com a cena.

“Vá para o seu quarto”. Olhei em sua direção, mas minha mãe continuava na mesma posição, eu poderia até jurar que tinha imaginado, até ela repetir a ordem com mais rispidez.

Mesmo dentro do meu quarto, ainda era claro o que se passava no outro cômodo. Eu não aguentava o som da minha mãe chorando, aquilo me machucava mais do que qualquer coisa. Abafei o som das ofensas e objetos se quebrando com um travesseiro, depois de me enrolar em um casulo de vários cobertores por conta do tremor, mesmo sabendo que eles nada tinham a ver com o frio.

Não soube dizer em que momento adormeci, mas acordei com minhas cobertas sendo desenroladas a minha volta. “Vim dar boa noite, baixinha” recebi um beijo na testa. “Shh, não precisa chorar... Já acabou, acabou”, ele passou a mão pela minha bochecha, limpando minhas lágrimas. “Papai, a mamãe não quis dizer todas aquelas coisas. Ela te ama, não importa o que ela diga... E eu também te amo, desculpa se eu fiz alguma coisa e—”. Ele me abraçou e eu pude sentir que ele havia tomado banho, o cheiro de álcool tinha ido embora, deixando apenas um resquício misturado com sabão. “Está tudo bem” ele disse com os olhos vermelhos e um sorriso. Todas as coisas que ele havia dito naquela noite, nada me fez acreditar realmente que tudo iria ficar bem. Exceto aquele sorriso. Aquele sorriso foi o que me fez dormir naquela noite. Aquele sorriso que encobria uma promessa.

Na coxia do palco, depois de corredores e mais corredores, meu estômago ameaçou me trair, dançando de cima pra baixo e de um lado para o outro como uma cólica forte no lugar errado enquanto um cara de cabelo moderninho, o qual parecia familiar, tentava me deixar à vontade durante a entrevista. Respondi as perguntas com a maior simpatia que consegui e tentei editar as partes mais interessantes da minha vida nas respostas, porque obviamente as pessoas preferem ouvir falar sobre como você decidiu ser uma artista desde que seu pai te deu seu primeiro violão do que dizer que veio porque um dos bêbados do bar onde estava tocando te disse que você deveria ir para o Raul Gil.

– Você veio fazer o teste sozinha e deixar seu pai orgulhoso? – como resposta, apenas concordei, tentando esconder meu nervosismo. Foi um daqueles momentos como quando o dentista resolve bater um papo enquanto mexe nos seus dentes, sabe? Não importa o que você diga ou tente dizer, soará estúpido; então tentei manter a conversa mínima possível – Olhe – ele fez um sinal para o câmera, que abaixou o objeto e saiu de perto. Segurou meus ombros, abaixando os olhos ao nível dos meus e diminuindo o tom de voz – Sei que é chato falar baboseiras para a câmera minutos antes de entrar lá, mas vou te dar uma dica, tudo bem? – ele sorriu – Isso é um reality show – franzi o cenho, confusa com onde ele estava indo com aquela conversa – Eles querem entreter o público e uma garota que parece indiferente a tudo não chama a atenção.

A verdade é que eu sabia que, do ponto de vista do produtor desse programa, eu deveria ser a última pessoa a ser aprovada, visto que não iria usar nenhuma história triste ou uma personalidade falsa como plano de fundo para conseguir, eu teria que contar só e unicamente com meu talento. Sei também que eles dizem que só isso é necessário, mas seria estupidez acreditar; é de conhecimento geral que talento é ótimo, mas juntar isso com aparência, personalidade e uma comovente biografia é o que eles procuram e é o que faz as pessoas pegarem o telefone para votar em você.

– Precisamos de alguma emoção – terminou.

– Estou muito nervosa – respondi depois de alguns segundos. Ele levantou as sobrancelhas, dizendo que não parecia – Mas eu estou, veja – mostrei minha mão que praticamente dava tchau de tanto que tremia.

– Essa é a única parte do seu corpo que está mostrando alguma coisa... – deu uma risada – Você parece um robô que controla seus sentimentos muito bem, visto que respondeu a todas as perguntas com uma cara de poker – continuei calada – Ok, façamos o seguinte. Demonstre esse nervosismo, tudo bem? Eu vou fazer mais algumas perguntas, você vai respirar fundo quantas vezes quiser e responder o mínimo. Gagueje se possível – a parte do mínimo não seria difícil, era minha estratégia inicial.

Eu não entendi o sentido de tudo aquilo, mas fiz o que ele pediu, porque sinceramente não teria nada a perder... Além da minha dignidade por deixar um estranho me controlar. O câmera parou de filmar outra garota e voltou a lente para mim. Senti-me ridícula fingindo, eu era perceptivelmente uma péssima atriz, toda vez que tentava gaguejar, acabava desistindo no meio da frase e parava de falar, fechando os olhos e respirando fundo, como ele tinha dito pra fazer. Por último, ele me perguntou se eu estava pronta para subir ao palco, o câmera focou em mim e eu neguei com a cabeça. Ele deu uma risada e, discretamente, fez um sinal com a mão, dizendo para acompanhá-lo. Dei uma risadinha nervosa e o câmera disse ter terminado, saindo de perto.

– Muito bom! Pareceu que estava realmente nervosa ao falar – me parabenizou – Agora suba lá e arrase! – ele me ajudou a subir alguns degraus que levavam até o palco e fez menção de sair de perto.

– Ei – ele me olhou – Qual seu nome? – ele pareceu surpreso pela pergunta e sorriu ao dizer “Chay”.

 

 

Andei até o meio do palco, onde havia uma pequena marca no chão indicando onde eu deveria parar. Fiquei de costas para o tão conhecido X feito por painéis de luzes coloridas, dessa vez de maioria verde e amarela. Sei que soa batido, mas tenho um certo medo de palco, que é facilmente administrado com um pouco de concentração, mas se somado com 3000 pessoas te assistindo e, pior, quatro delas estando ali especialmente para te avaliar, é certamente uma receita para o desastre. Então você não pode me culpar por esperar – na verdade desejar é a palavra – que fosse como em um filme, que eu chegasse lá e as luzes fossem tão fortes que me cegassem dos olhares arbitrários e então eu desse um show de performance.

Parece patético, mas esse é meu modo de lidar com as coisas. Sempre fui muito sonhadora – e John Lennon um dia me disse que eu não era a única, –, mas não sonhadora do tipo unicórnios e fadas, meus sonhos eram mais uma realidade paralela, uma forma de escapar do que não me agradava. Fico ocupada, criando cenários em minha mente que eu sei que nunca irão se realizar e me esqueço das coisas ruins que acontecem comigo ou a minha volta. É quase uma covardia, fugir da realidade para se esconder na fantasia, contudo foi a única coisa que me manteve inteira em algumas ocasiões.

Os livros e os filmes foram grandes aliados, porém acredito que o maior deles foi a música. Identificar-se com uma canção em um momento ruim é como não estar sozinha, você quase sente o apoio e o abraço invisível. Então, sempre que algo ruim acontece, arranco de dentro de mim em versos e busco abrigo na minha própria mente. Meu pai costumava rir dos momentos em que eu parecia estar prestando atenção na conversa, porém minha mente vagava bem longe, algo que só ele percebia. Isto é, até ele parar de perceber as coisas a sua volta. E então parar de rir por completo.

Porém, apesar do que desejava, a luz só fez coçar meus olhos e o que eu mais parecia enxergar era o julgamento nos deles. Cada expressão, cada tique, tudo era visível daquele palco, o que tinha tanto um lado positivo quanto negativo, só faltava-me descobrir qual era o maior.

Pelo que eu tinha assistido do programa até agora – as outras três audições –, apenas o Dinho Ouro Preto, o Nando Reis e a Daniela Mercury eram recorrentes, o quarto jurado era um convidado diferente em cada cidade. Focalizei a bancada quando alguém – que logo reconheci como minha diva de quando criança: Sandy – perguntou meu nome e idade. Limpei a garganta antes de levantar o microfone e responder.

– Meu nome é Georgia e eu tenho 17 anos – finalizei com um sorriso.

– E por que você acha que tem o fator x? – ao mesmo tempo que respondia, dava graças por não terem mudado o nome do programa para aquilo, soava como algo relacionado às Meninas Poderosas.

– Tudo bem – Dinho tomou a palavra quando eu terminei – E o que vai cantar para nós?

A escolha da música. Está aí o motivo para as últimas noites mal dormidas. Pode parecer idiotice, afinal parece ser só escolher qualquer uma e cantar bem, mas não é bem assim. Ela pode ser a diferença entre você avançar ou não. Sou acostumada a tocar nos bares com meu violão, porém pra um programa como o X Factor, cantar uma versão acústica de qualquer música na audição não iria bem ao meu favor... Não dava para fazer muita coisa, vocalmente falando, e não era bem o que o programa procurava. Então resolvi me arriscar com uma música pop que eu achava adequada o suficiente para minha voz e que ia chamar atenção.

Assim que respondi, os primeiros acordes de Laserlight soaram no auditório.

Nando levantou a palma da mão, parando a música no momento em que eu iria atingir o refrão. Não posso mentir e dizer que aquilo não me deixou com o fundilho nas mãos. Eu havia escolhido a música errada no final das contas, ela não tinha nada a ver com o tipo de artista que eu era ou queria ser.

– Está tudo bem? Você parece desconfortável – ele perguntou.

– Hm – cocei o pescoço – Eu costumo sempre me apresentar com um violão, então não sei bem o que fazer com isso – brinquei mexendo meus braços.

Algumas pessoas na plateia e dois jurados riram.

– Quer começar de novo? Mudar de música, talvez?

Pisquei algumas vezes antes de decidir o que iria fazer. Aquela talvez fosse minha última chance e eu não tinha pego dois ônibus e um metrô para tudo terminar antes mesmo de começar.

– Eu acho que prefiro fazer acapella.

– Tem certeza? – concordei com a cabeça, sorrindo – Tudo bem! Tome seu tempo – Nando disse com aquela voz calma e pacata que já havia me feito cantar diversas vezes – e relaxe. Comece quando estiver pronta.

Respirei fundo e fechei os olhos por segundos antes de levantar o microfone.

In the blink of an eye, I was falling from the sky – a música continuava a mesma, eu só havia mudado a melodia, que agora estava muito mais lenta. Na minha cabeça, ela não soava mais como eletrônica, ou até mesmo acústica, havia apenas um piano ao fundo – You and me, face to face and there's so much I could say – não era difícil me relacionar com aquela música, quando ela dizia tanto.

Há tantos momentos na nossa vida em que deveríamos dizer o que está em nossas mentes e em nossos corações, porém nos limitamos ao silêncio, guardando tanto nossas palavras como rancor. Dentro de mim, havia um baú de discursos pré-formados os quais eu guardava desde criança, principalmente para os meus pais, tudo o que eu sempre quis dizer, mas havia me faltado coragem. E embora, depois de tantos anos e decepções, eu houvesse empurrado aquele baú tão forte e tão fundo que nem me lembrava de onde estava, eu ainda esperava pelo dia e pela coragem de abri-lo.

Abri os olhos e mirei os jurados, Dinho estava com os cotovelos apoiados na mesa e me olhava com expectativa, Sandy me mandava sorrisos de incentivo e Daniela e Nando me encaravam blasés, o segundo com os braços cruzados no peito e recostado na cadeira. Ao que parecia, eu os havia dividido.

Cantei outros dois versos e Nando agradeceu e passou a fala para Sandy.

– Gostei da sua versão para essa música – agradeci com um sorriso – Você teve um pequeno deslize na afinação, logo no segundo verso, mas não foi muito perceptível – balancei a cabeça, para mostrar que estava ouvindo – Apesar de não possuir o alcance vocal da Jessie, sua voz se encaixou bem nessa versão da música.

Sorri e agradeci como se fosse uma coisa boa, mas para falar a verdade, pelos meus ouvidos só havia passado as críticas e aquele sonho parecia cada vez mais longe de ser tocado. Eu sabia que não era boa demais, mas achava ser, pelo menos, o suficiente.

– Georgia – levantei os olhos para Daniela – Eu simplesmente adorei o modo como você fez parecer que estava conectada mesmo com a música. Parecia que você tinha algo a dizer...

– O que eu não esperaria vindo dessa música em particular – Nando concordou sério.

– Justamente – Daniela olhou para Nando e de volta para mim – A primeira vez que você cantou, foi até bom, mas nada de especial, você parecia robótica. Na segunda, pudemos realmente nos relacionar – ela terminou e eu agradeci com um sorriso.

– Talvez você devesse escolher músicas vocalmente menos desafiadoras – Nando disse. Isso é que é ser direto – Vamos votar, tudo bem?

Concordei com a cabeça.

– Sinceramente, acho que você poderia ter escolhido uma música melhor – Dinho comentou – É um não pra mim.

Aquilo foi um pouco como um choque, visto que eu achava que pelo menos Dinho votaria a favor. Senti aquela chance escapando por entre meus dedos.

– Precisa de melhoras, mas é um sim – Sandy disse dando um sorriso encorajador.

– Acredito que você ainda tem muito que nos mostrar, sim – ao mesmo tempo em que aquilo me deu um fiozinho de esperança, arrancou toda a que restava. Daniela podia até ter votado sim, mas o próximo a votar não parecia nem um pouco meu fã – Nando?

 

 

Desci aqueles poucos degraus que separavam o palco da coxia em transe. Não acreditava que, depois de tudo, aquilo estava acontecendo. É incrível como quando achamos que estamos indo em tal direção, a vida dá um jeito de nos surpreender e cria uma bifurcação. Talvez seja o jeito do universo rir da nossa cara enquanto nos mostra quem é que está no controle.

– Como foi? – Chay chegou com o câmera e toda sua “simpatia”.

Olhei pra ele ainda meio atônita e sai de perto, não estava com graça pra manipulação. Ainda não havia entendido o que ele tinha feito antes da audição e o que ele ganhava com aquilo, mas não me parecia uma boa ideia confiar.

Não, eu não tenho problemas com confiança. Apenas penso bastante antes de confiar em alguém, coisa que acho que todo mundo deveria fazer, evitaria muita decepção ao longo da vida. Você pensa milhões de vezes no que fazer, em como agir, em quem confiar, mas do que adianta? Você não conhece as pessoas, você não conhece a si mesma. Você faz escolhas que te surpreendem, então as pessoas podem tomar decisões que te decepcionam. Confiar nunca deu certo pra mim até hoje, por isso, quanto mais velha eu fico, em menos pessoas eu confio.

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