Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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9. Seguindo em frente

 

Seguindo em frente

Meus pais acompanhavam meus lentos passos em direção ao túmulo de Mike, recostados na porta do carro. Eu segui o caminho que minha mãe havia indicado e meu corpo todo enfraqueceu ao ficar frente à sua lápide. Estava limpa e conservada. Uma foto de Mike montado em Black Jack, e algumas flores enfeitavam o local que mais parecia um pequeno altar. O frescor das rosas indicava que haviam sido depositadas ali recentemente. Talvez no dia anterior. Sem controle dos meus movimentos, meu corpo inclinou para frente e pude sentir a terra entre meus dedos; agora fincados ao chão.

- Sinto tanto a sua falta. – de joelhos eu ergui o rosto choroso guardando na mente cada traço do semblante feliz dele. Eu esboço um leve sorriso e passeio a mão por um instante sobre a foto. Enxugo as lágrimas e respiro fundo calmamente. Alívio. É sem dúvida a palavra correta para descrever o que senti naquele momento. Eu estava livre de toda a mágoa, de toda a culpa e percebi que dali em diante eu manteria as boas lembranças de meu irmão comigo. Sem remorso. Sem arrependimentos. Estava pronta para recomeçar um novo capítulo.

- Um dia agente vai se encontrar de novo. Mas não agora. Não agora. – eu deposito um pequeno cavalo de madeira ao lado das flores. Forço meu corpo a se erguer num movimento rápido e sinto um reconforto ao sendo enlaçada por minha mãe pela cintura. Meu pai se juntou a nós num abraço triplo.

O tempo passou rápido em Cedarfalls e antes que piscássemos já estávamos no verão novamente. Dean mantinha sua rotina de ir comigo para o haras ficar com Dylan. Minha mãe conseguiu um trabalho de meio período numa creche local. Meu pai parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Nunca o tinha visto tão disposto em todos esses anos. Meus pais estavam mais próximos também. A realidade com a qual tanto ansiávamos estava presente em cada palavra dita, em cada ato de carinho. Dean e eu estávamos sempre juntos. Íamos à cachoeira, fazíamos piqueniques e nos beijávamos ao pôr do sol. Num desses momentos após outra sessão com Dylan, percebi que um dos capatazes de Sean Mcdowell tentava num esforço inútil colocar Black Jack na caçamba de uma pick-up. O animal havia empacado e a cena me deixou confusa por alguns minutos. Senti algo estranho no peito. Um aperto inexplicável tomou conta do meu corpo e senti como se alguém me estrangulasse lentamente. Tentei puxar o ar com força, mas só me sentia mais fraca a cada tentativa. A sensação piorava ao observar o manga-larga lutar com as cordas para não sair do lugar.

- Para onde ele vai? – as palavras saltaram da minha boca num ímpeto desesperado.

- Ele vai a leilão. O Sr. Mcdowell não quer ter mais despesas com ele e ninguém se atreve a montá-lo. Só deu prejuízo e o patrão não está nada feliz.

- Pode esperar por um minuto? – eu indaguei indecisa do que fazer. Mas sabia que tinha que fazer algo. Sean Mcdowell estava entretido com promissórias do haras quando permitiu que eu adentrasse em seu escritório após bater à porta. Ele não parou seus trabalhos para me dar atenção então eu comecei um discurso sem muita objetividade.

- Com licença Sr. Mcdowell. Posso falar com o senhor por um instante? – eu estava sem jeito, e Sean fez um gesto com a mão para que eu sentasse. Ele ainda não me fitava e mesmo assim continuei.

- Soube que o Black Jack vai a leilão...- ele me interrompeu antes que eu tivesse tempo de terminar a frase.

- Mandy eu não estou com tempo e paciência para dar conta de um cavalo que só dá prejuízo.

- Eu gostaria de fazer uma oferta por ele. – minhas palavras saem num ímpeto e ganham sua atenção. Sean Mcdowell para seus afazeres e me fita com uma grande surpresa em seus olhos.

- Pode comprá-lo no leilão Mandy. Prometo lhe dar preferência. – ele sorriu amarelo e continuou a assinar os papéis mecanicamente. Por alguns segundos me perguntei se ele se importava em ler o que assinava, embora a minha resposta parecesse um tanto óbvia. Não era de se admirar por que o haras estava afundado em dívidas.

- Não posso cobrir qualquer oferta que o senhor receba em um leilão. Não em um leilão. – ele parou novamente e se levantou de sua cadeira pausadamente. Recostou as costas no apoio da mesa e cruzou os braços me fitando com curiosidade. Parecia pesar as palavras que eu acabara de dizer com cautela. Ele quebrou o silêncio instaurado com uma simples pergunta, que fez o aperto em meu coração começar a se dissipar.

- Por que quer este cavalo Mandy? Justo esse que quase acabou com a sua família? – ele me analisou por um momento, embora eu não tivesse nada certo a dizer.

 – Conheço a história da sua família Amanda. Eu acreditava muito na carreira do seu irmão. – ele completou.

- Eu não tenho muito que dizer Sr. Mcdowell. Mas sinto que preciso tê-lo comigo. Ele faz parte da minha história, faz parte de mim. Eu acho que ainda temos muito oque conversar. – ele esfrega os olhos e torna a analisar minha resposta por um momento.

- Vamos fazer um acordo. Você vence a corrida anual do haras e eu o dou de presente pra você. O que acha? – sua sugestão faz meu estômago doer e sinto outra vez pânico se apoderando de mim.

- Uma corrida? – eu reajo com espanto, enquanto ele pondera sobre o que estava sendo falado ali.

- Gastei muito dinheiro tentando deixá-lo inteiro para a Corrida Anual e só tive prejuízo. Se você ganhar a corrida eu consigo recuperar o dinheiro gasto e um pouco mais. Do contrário ele vai a leilão de qualquer jeito. Há seis meses ninguém consegue montá-lo. Soube do incidente com o garoto. Acha que consegue montar nele novamente? – a possibilidade correu como um flash pela minha mente. Black Jack não foi áustero comigo. Mike demorou três meses pra conseguir domá-lo e permanecer montado nele mais de meia hora. Se eu aceitasse sua oferta, teria menos de três semanas para o início da Corrida Anual. No entanto, a idéia se tornou plausível pra mim. Eu precisava tomar uma decisão. E tinha que ser já.

- Posso tentar. – eu me surpreendi com a resposta que acabava de proferir e minhas palavras fizeram o semblante de Sean Mcdowell formar um largo sorriso em sinal de satisfação.

- Boa sorte então. Tem carta branca para o que precisar. – ele me cumprimentou num aperto de mão voltando para trás da mesa cheia de documentos.

- Obrigada pela confiança senhor. – eu respondi me movendo lentamente em direção da porta.  Ao sair, recostei o corpo na parede do escritório e suspirei com cansaço por um momento. Ainda não estava certa se tinha tomado a melhor decisão, mas agora já era tarde. Não havia mais como voltar atrás.

Acordei na manhã seguinte com uma disposição jamais vista. Nem mesmo nos bons tempos. Desci rapidamente a escada e subtraí uma torrada do prato do meu pai e sorvi ligeiramente um gole do café da minha mãe. Ambos não conseguiam entender a razão de tanta correria, mas não havia mais aquela preocupação de que algo errado estava para acontecer como antes. A confiança deles em mim havia retornado.

- Porquê tanta pressa? – meu pai indagou num sorriso malicioso, enquanto me observava colocar o par de tênis.

- Logo vai saber pai. Confie em mim e tudo vai ficar bem. – eu dei uma piscadela marota e sorri com cumplicidade pra minha mãe.

- Segunda semana sem pesadelos. – ela lembrou o que eu mesma nem havia me dado conta. Era uma verdade. Desde que visitei o túmulo de Mike, eles subitamente desapareceram. Suas palavras ganharam gratidão em meus olhos e a abracei fortemente.

- Obrigada por tudo mãe. Eu te amo. – sussurrei baixinho em seu ouvido. Acho que eu não estaria completamente sã hoje se não fosse por seu amor incondicional.

- Também te amo criança. – ela me beijou na testa, observando eu sair em seguida porta afora.

Uma brisa forte tocou a minha face no instante em que Black Jack começou a trotar. Estar montada nele me deixava confiante. Poderosa. E por que não dizer feliz? Em muito tempo eu estava realmente feliz. Em poucos minutos minha autoconfiança deu lugar a preocupação quando achei ter quebrado a perna ao ser lançada pelo manga larga ao chão. Dean correu na minha direção com preocupação.

- Mandy, você está bem? – diz assustado me ajudando a levantar. O cavalo não para de pinotear. Arredio, furioso e instável.

- Sim. Está tudo bem. O quê está acontecendo com ele? – eu digo sacudindo a poeira do corpo.

- Eu não sei. Acho que ele é um caso perdido Mandy.

- Eu preciso tirar ele daqui. – eu concluí, enquanto Black Jack trotava em passadas irregulares.

Passava das dez da noite, quando minha mãe observou da janela a pick-up com o logo do haras Mcdowell parar em frente a entrada de nossa casa. Atônita, ela chamou meu pai que logo apareceu na varanda.

- Mas o que está acontecendo aqui? – ele indagou confuso, me observando sair do carro e tirar Black Jack da caçamba.

- Pai preciso que arranje um lugar pra ele. – meu pedido foi prontamente atendido por ele sem mais perguntas adicionais. Fitei minha mãe da varanda e seu semblante era pura apreensão. Ela sabia no seu íntimo o que eu estava pensando em fazer. Ninguém me conhecia melhor que ela. Mas ela também sabia que eu já havia me decidido. Nadaria me faria mudar de idéia. Meu pai arranjou um lugar confortável pra Black Jack no estábulo. Coincidentemente ele coube como uma luva na baía. Eu o observei por um momento e acariciei seu focinho rapidamente.

- Amanhã vai ser diferente. Se quiser ficar comigo, vai precisar colaborar ok? – ele deu um relincho como se concordasse com tudo o que eu havia dito.

- Dean me falou do seu acordo com Mcdowell. Foi uma atitude muito madura e estou orgulhoso de você filha. Mas tem certeza de que está preparada para essa corrida? – meu pai demonstrou uma indecisão atípica da sua parte se aproximando de mim. Uma névoa tomou conta de seu semblante e o aconcheguei num caloroso abraço.

- Eu vou ficar bem pai. – eu procurei manter a confiança nas minhas palavras para convencê-lo de que tudo daria certo. A verdade era que eu estava com tanto medo quanto ele acabava de transparecer. Ele me tascou um beijo suave na cabeça, enquanto observava o cavalo inquieto dentro da baía.

- Vai precisar de ajuda. – ele completou sabendo que a tarefa não seria nada fácil.

 Eu tinha pouco tempo para treinar com Black Jack e ficava pior esperar que seu temperamento se mantivesse estável para que eu conseguisse permanecer montada nele por mais de dez minutos. Era a décima vez que eu ia ao chão, quando uma moto ultrapassou o portão de entrada e se plantou diante de nós na arena. Bill Cosby foi o melhor cavalariço do haras Mcdowell. Fraturou o ombro esquerdo quando disputava o bicampeonato da corrida anual e nunca mais pôde montar. Mas se tornou o melhor tratador de cavalos da região. Um especialista em cavalos de raça e o melhor amigo de meu pai. Se alguém podia dar um jeito no temperamento de Black Jack era ele. Após uma hora, minha paciência já havia se esgotado. Bill não fez nada a não ser observar o cavalo trotar, pinotear e se cansar.

- Isso não está dando certo pai. Vai ver, ele perdeu o jeito. – eu uivei baixinho, enquanto meu pai tentava me tranqüilizar.

- Tenha paciência Mandy. Bill é o melhor tratador dessa região. Não temos tempo de procurar por outro. A corrida é na semana que vem. Vamos deixar que eles se acostumem.  – ele sorriu, enquanto minha mãe trazia um suco para todos. Deixou a bandeja sob uma bancada e se aproximou de nós num sorriso.

- Então! Como vão as coisas querida?

- Eu não estou tão confiante mãe. – eu suspirei, enquanto observava seu semblante mudar pra nada mais além de surpresa.

- Acho que está enganada. – suas palavras ganham minha atenção e meus olhos se surpreendem de ver o velho Bill montado em Black Jack. O semblante de todos é de satisfação e em menos de um minuto; sou eu quem está montada no puro sangue árabe.  

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