Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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3. Reencontro

Reencontro

O final de semana foi o mais apreensível para mim. Meus pais demonstravam mais confiança do que eu. Como voltar a montar após o que aconteceu? Como superar o trauma? Eu não tinha uma resposta para as perguntas que teimavam em martelar minha cabeça como pregos afiados. Meu pai parou o carro na entrada do rancho Mcdowell. O rancho era de propriedade de Henry Mcdowell, que transformou o lugar numa referência para a criação de cavalos de corrida, o que o manteve no topo de uma das maiores fortunas do Colorado por anos. Hoje, o rancho se impõe mais pelo nome, do que pelos milhões perdidos em apostas frustradas, que acabou por deixar dívidas e pouco prestígio pelo caminho. Com a morte de Henry há sete anos, seu legado e patrimônio foi parar nas mãos de seu único herdeiro, Sean Mcdowell. Um homem de porte atlético e de educação admirável, porém muito mais preocupado com o lucro que seus cavalos dão ao campeonato anual instaurado pelo seu falecido pai, do que manter um programa que estimule a produção de uma raça vencedora. Sean já vendeu metade dos cavalos árabes e há muito tempo não consegue patrocínio para investir numa junção que criasse campeões.

Olhei ao redor do imenso campo verde e pude ver a magia do lugar. Nunca havia estado ali antes e tudo parecia novo e familiar ao mesmo tempo. Saltei do carro e observei com certa insegurança algumas crianças que se aventuravam a montar nos cavalos em pequenas arenas. Era mais parecido com um haras de verão ou treinamento, eu ainda não tinha me decidido quanto à finalidade. Meu pai deu a volta no carro e parou em minha frente com uma pequena mochila estendida pra mim. Suspirei longamente por um segundo, enquanto tomava a mochila de suas mãos e era envolta por ele num aconchegante abraço. Fazia muito tempo que não havia esse tipo de contato entre nós e sentir os braços firmes de meu pai ao meu redor, me deu garantias de que eu não estaria só. Em seguida, ele me deu um beijo na testa e segurou meu rosto com carinho.

- Boa sorte querida! – ele soltou com apreensão, e num tímido sorriso tentava não deixar transparecer. Em vão. Sorri em resposta com menos convicção do que suas palavras acabaram de soar. Segui em direção ao estábulo, enquanto podia ouvir o carro se movimentar lentamente, embora eu não me virasse para constatar tal fato. A sensação de estar novamente numa arena era gostosa e nostálgica ao mesmo tempo. Quando comecei a treinar com Mike, estar montada em um cavalo era a maior alegria que eu tinha. Quando eu era mais jovem, decidi que não queria seguir no colégio porque queria participar do Campeonato Anual. Meu pai me convenceu de que me treinaria se eu conseguisse me formar.

 Me formei no mesmo ano que Mike morreu, mas nunca participei do Campeonato Anual. Aliás, tenho certeza que só me formei porque o Diretor da nossa escola sempre gostou muito de meu irmão, como todos na cidade. Eu faltei metade do ano e minhas notas nas provas só demonstrava minha inquestionável falta de ânimo. Se não fosse pela ajuda de Julie com os exames finais, com certeza eu não teria notas suficientes para me formar.

Entro no local e observo um dos cavalos com cautela. Não percebo a presença de Dean até que ele fala.

- Logo você reacostuma.

- O que faz aqui? – eu indaguei surpresa fitando-o com um sorriso tímido.

- Combinei com seu pai de trabalhar meio expediente lá e meio aqui. – ele selava um dos cavalos, enquanto eu o seguia curiosa.

- Dá um pouco de trabalho, mas eu gosto. Me faz bem. – ele completou satisfeito.

- E o que o senhor certinho fez para chegar até aqui. Achei que fosse um exemplo de conduta.  Eu sorri com ironia e percebi que foi uma hora ruim no exato momento em que Dean me fitou com desaprovação. Eu não deveria me sentir tão medíocre e pequena, mas perceber o desapontamento de Dean fez com que eu me sentisse exatamente assim.

- Por quê você sempre faz isso Amanda? Por quê sempre acha que tudo é uma grande farra? Nem todos agem da mesma forma que você costuma agir está bem? – ele se irritou.

- Está bem. Me desculpe sim? Não quis te ofender. – meu tom foi sincero segurando uma de suas mãos por sobre a sela do animal. Nesse momento algo maior tomou conta de mim, e poderia dizer que tomou conta dele também pois enquanto eu prendia meu olhar no seu, jurava que ele estreitava cada vez mais a distância entre nós.

- Me desculpe por ontem também. Eu não tinha o direito de me meter na sua vida daquele jeito. – suas palavras foram suficientes para que eu percebesse que era mais seguro me afastar e acabei me esquivando. Eu já tinha preocupações demais na minha vida e não poderia me ocupar com mais uma e correr o risco de quebrar os limites de minha amizade com Dean e estragar o que até agora estava perfeito. Se as coisas mudassem entre nós como ficaríamos? Nos tornaríamos dois estranhos porque uma tentativa frustrada de relacionamento não deu certo? Teríamos algum ressentimento um do outro? As dúvidas passam pela minha mente em questão de segundos e decido que não tenho o direito de cobrar nada além da amizade dele.

- Está tudo bem, esquece. Pode me ajudar com os cavalos? – eu mordi o lábio e mudei o rumo de nossa conversa, enquanto acompanhei uma elegante senhora de pouco mais de trinta anos seguir em direção a nós.

- Você deve ser Amanda Melbrook. – seu tom foi ameno, mas não impediu de me fitar de cima a baixo com desconfiança e um ar superior.

- Pode me chamar de Mandy. – tentei ficar confortável num sorriso forçado, embora estivesse apreensiva do que aquela senhora tão bonita teria para me dizer.

- Este é meu amigo Dean McCoy – eu os apresentei formalmente.

- Prazer Sra., sou voluntário aqui. – Dean me deixou surpresa com aquela revelação. O que mais eu não poderia saber do meu melhor amigo de infância?

- Sou Eleanora Davis, mãe de Dylan. Soube que será a monitora da fisioterapia dele e quis conhecê-la pessoalmente. – ela me cumprimentou num aperto de mão, enquanto o garoto franzino, de cabeça baixa se acomodava entre suas pernas. Eu me abaixei próxima a ele, mas seu mundo parecia fechado para as outras pessoas e Dylan não oferecia nenhum contato visual comigo.

- Meu filho tem autismo Mandy. Li seu histórico e fiquei muito entusiasmada quanto a interatividade dele com outras pessoas ao seu redor. – a esperança que aquela mulher na minha frente depositava em mim fez meu corpo enrijecer por um minuto e percebi estar entrando em pânico, quando senti as mãos de Dean sobre meus ombros em sinal de apoio. Eleanora Davis continuou sobre suas expectativas, enquanto observei o menino a me olhar fixamente por alguns segundos. Tive medo do rumo que a conversa estava tomando aquela altura do campeonato.

 – Eu sou como uma estranha para ele Mandy e o fato de vocês dois terem uma ligação com os cavalos, acredito que isso vá melhorar as coisas entre nós, sabe? – Eleanora bufou um pequeno sorriso, enquanto acariciava o garoto nos cabelos castanhos. Respirei fundo e procurei formular as frases com cuidado, procurando as palavras exatas, mas que expressasse confiança.

- Farei o melhor possível Sra. Davis. Tem a minha palavra. – eu tentei realmente acreditar no que acabara de dizer. Ela sorriu com confiança e moveu-se na direção de seu carro junto do menino.

- Vai dar tudo certo! – Dean encorajou-me num tom suave que fez de novo algo diferente surgir. Outra vez, me fechei. Não podia permitir mudanças drásticas na minha vida. Não agora. Mirei no campo aberto à minha frente e meu coração deu um pulo quando observei o enorme manga larga árabe na arena a poucos metros de mim. Black Jack foi o melhor cavalo de corrida do Haras Mcdowell. Preto como a escuridão, quase imponente como a morte, Black Jack era a visão de meu próprio pesadelo materializado. Paralisei por um momento e um flash do acidente com Mike passou rapidamente pela minha mente. Meu olhar fixo nele e minha respiração ofegante chama a atenção de Dean.

- Você está bem?

- Por quê não me disse que ele estava aqui? – meu tom foi amargo, quase uma acusação contra o fato de Dean ter omitido de mim tal informação. Havia se passado um ano, mas ainda não estava preparada para vê-lo. Quanto mais aceitá-lo tão perto.

- Ele chegou ontem. Derrubou um jóquei durante uma apresentação e os médicos não sabem dizer o que há com ele. Por enquanto vai ficar aqui até decidirem o que vão fazer.

- Deviam sacrificá-lo. – meu ódio foi transcrito nas palavras que acabara de dizer, mas pra minha surpresa, as palavras de Dean que se seguiram me fizeram ter uma ponta de pena no coração.

- Talvez eles o sacrifiquem. Vamos Mandy! Vamos trabalhar... – ele soltou alto, enquanto meus pensamentos ainda tentavam digerir o que havia se passado com todos aqueles sentimentos misturados. A confiança de Eleanora, algo que não consigo explicar quando estou perto de Dean, as lembranças de Mike...e a perfeição de Black Jack. Tudo correndo ao mesmo tempo me deixava mais esgotada do que tentar descobrir exatamente que tipo de trabalho eu faria com Dylan. O dia seguinte com certeza exigiria uma resposta.

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