Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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2. Punição

 Punição

Fazia um calor terrível naquela manhã e minhas mãos suavam mesmo tendo um lenço por perto. Eu vestia um vestido azul claro de seda; curiosamente o mesmo que pensei em usar no funeral de Mike. Acho que era o que realmente sentia naquele momento, como se eu fosse ser enterrada para todo o mais a qualquer minuto. A corte do condado do Colorado mais parecia uma prisão, de onde eu planejava fugir desesperadamente caso houvesse alguma brecha. Mas simplesmente não tinha.  Olhei ao meu redor e percebi que todas as cadeiras estavam praticamente ocupadas. Era como se toda a cidade de Cedarfalls estivesse presente. Toda a região ficou comovida com o que havia acontecido com nossa família, e o fato de a maioria acompanhar tão de perto o meu caso, me fez sentir julgada antes mesmo de um veredicto. Minha agonia aumentava com o passar dos minutos em que a juíza Lena Taylor não chegava para a sessão que delimitaria o futuro da minha vida pelos próximos anos. Minha mãe acariciava uma das minhas mãos como se preparasse para uma triste despedida e mirando meu pai de relance, podia ver toda a sua dor num semblante abatido e decepcionado. “Que droga estou fazendo com a minha vida e a vida dos meus pais?”, eu me perguntei desapontada comigo mesma, enquanto acordava para a realidade com o tilintar do martelo da juíza Taylor. Eu nem havia percebido sua presença ali. A sessão se iniciou com a juíza relatando que não tive culpa no acidente de carro que deixou um ferido e um morto há três meses. Olhei rapidamente ao meu redor e me surpreendi ao observar a mãe de Jamie me cumprimentar num sorriso quase inexpressivo. A juíza pediu que todos ficassem de pé e após quase uma hora, que mais parecia a eternidade pra mim, ela proferiu as regras que eu teria que cumprir como punição pela minha infantilidade.

- Esse tribunal entendeu de acordo com os autos que a ré Amanda Melbrook não teve culpa no acidente que vitimou Andrew Shaw e que deixou Jamie Vanderbilt ferida, já que não se encontrava ao volante. Porém, este tribunal não será complacente com o fato de que a imprudência foi o principal fator para o ocorrido. Desta forma sentencio a ré Amanda Melbrook a prestar serviço comunitário por um ano em Cedarfalls. Tal trabalho será estipulado pelo assistente social local e terá início imediato, podendo ser revogado e substituído por outra sentença caso aja violação do que foi recomendado aqui. O caso está encerrado. - desde que ouvi a frase “serviço comunitário”, não prestei atenção a mais nada do que a juíza proferia, embora ela continuasse a falar. O mesmo deve ter se dado com os meus pais, pois em segundos me vi rodeada de tantos braços e afagos, respiração de alívio e um peso de uma tonelada saindo de minhas costas. A mãe de Jamie acenou com a cabeça ao passar por mim. Parecia satisfeita com o resultado. Não mais do que minha família. Na saída do tribunal outra realidade me aguardava com um semblante pouco amigável.

David Zemecks estava como sempre limpando seus óculos, que não combinam muito bem com o formato do seu rosto, pelo ao menos é o que eu acho; recostado no carro da família. Desajeitadamente, ele abriu espaço para que eu entrasse no veículo, enquanto meus pais faziam o mesmo sem parecer dar muita importância para a presença dele ali. Visando que precisava ser rápido, David se adiantou antes de meu pai sentar ao volante.

- Preciso que assine esse documento senhor Melbrook. É sobre o local que Amanda prestará o seu serviço. - ele falou enquanto meu pai lia o seu conteúdo, me fitando apreensivo por alguns segundos. Eu conhecia seu olhar. Algo estava errado e meu pai sabia que eu não iria gostar. Instintivamente saltei do carro e peguei o papel de suas mãos antes que ele rabiscasse algo nele.

- Deve haver algum engano senhor. Eu não posso cumprir o que está escrito aqui. - minha voz enfraqueceu devido à minha surpresa.  A essa altura minha mãe já estava prontamente ao meu lado com apreensão no olhar.

- De acordo com seu histórico, você foi campeã de equitação, não foi? – ele soltou como se fosse uma situação habitual. E costumava ser. Até tudo aquilo acontecer.

- Sim, mas já faz muito tempo e... - eu não conseguia ordenar as palavras, então meu pai tratou de completá-las por mim.

- Filha não tem nada de errado aqui. Você vai ter que cumprir o que está escrito. - a voz dele foi o mais suave possível, tentando me manter no controle. Tudo parece girar ao meu redor e por um instante penso que vou desmaiar. Apoio as mãos sob o capô do carro e meu sangue parece que foi drenado do meu corpo de tão pálida que me encontro. Doente. Esgotada. Com medo. Tudo se misturou ao mesmo tempo e respirar já não era tão fácil como deveria.

- Eu não vou conseguir fazer isso pai, não vou. – eu estou muito abalada agora e sinto um grande pânico tomar conta do meu corpo, o que só melhora quando meu pai segura meu rosto abatido e choroso em suas mãos e me olha nos olhos com confiança.

- Você vai sim. Você é capaz de fazer qualquer coisa ok? – ele me deu um beijo na testa e me abraçou, enquanto minha mãe tentava em vão algum diálogo.

- O senhor não consegue trocar, fazer outro tipo de serviço? – ela quase suplicou

- Os serviços são passados para que outras pessoas possam ser beneficiadas Sra. Melbrook. Mas se Amanda não estiver satisfeita, ela poderá ir pro reformatório de Dawnson´s Ville – ele cuspiu enxugando o suor que escorria em bica pelo seu rosto.

- Não. Isso não! – meu pai replicou com pulso firme, quando eu mesma já tinha desistido da minha guerra particular. Me dei conta de quantas vezes enfrentei meus pais, e outras pessoas, mas naquele momento não tinha forças para me defender. Eu não podia fazer mais nada. Era inútil lutar.

- Ok. Está tudo bem pai. Pode assinar. – eu soltei indiferente, enquanto retornava em passos lentos para o carro sendo acompanhada pela minha mãe.

- Você começa na segunda Amanda. Avaliarei seu desempenho de mês a mês e espero que me deixe feliz. Uma boa tarde a todos. – ele saiu e sinceramente não registrei uma palavra do que ele acabara de dizer. Foi preciso minha mãe me relembrar novamente após chegarmos em casa. O dia havia sido exaustivo e tudo o que eu precisava era tentar clarear os meus pensamentos e sentimentos. Só tinha uma maneira de fazer isso. Segui até o estábulo do nosso rancho e sentada na cerca, fiquei observando Dean dar de comida aos animais, sem deixar que ele percebesse a minha presença ali. Dean cresceu conosco, e estudamos juntos  o colegial. Seus pais morreram quando tinha dez anos, então meus pais meio que resolveram adotar ele. Confesso que nunca imaginei Dean além de um amigo em quem sempre pude confiar. Mas vê-lo sem camisa, suado e com um corpo definido devido às horas de trabalho pesado com os cavalos, me vi surpreendida por uma sensação diferente. E não era de quem estava vendo um amigo ou um irmão. Dean havia se transformado num belo homem loiro de 1,80m, com o sorriso mais encantador do mundo.  Deixo-me notar numa gargalhada após um dos cavalos puxar sua camisa a ponto de fazer um rombo nela. Ele está completamente desconcertado.

- Oi Amanda. Está aí há muito tempo? – ele sorriu amarelo

- Tempo suficiente. Há quanto tempo trabalha pra minha família Dean? – eu cruzo os braços e dou um sorriso malicioso, enquanto o observo sentar-se ao meu lado na cerca.

- Desde que sou garoto. Por quê? – ele franziu a testa como se realmente achasse que eu me incomodava com isso. Então dei uma cutucada em sua costela pra quebrar o clima de interrogatório.

- E nesse meio tempo, quantas vezes já te pedi pra me chamar de Mandy?

- Eu não acho legal...acho que é falta de respeito, sei lá...- ele retirou o chapéu e enxugou o suor com a manga da camisa e ao olhar para ele, percebi o quanto ele havia ficado vermelho com a história.

- Como falta de respeito? Você é quase um irmão pra mim. Sério. Gosto de conversar com você mais do que com qualquer pessoa. – nós nos fitamos seriamente por alguns segundos e eu completo.

 – Afasto um pouco a saudade do Mike quando estou com você. – minhas palavras são o suficiente pra deixá-lo encabulado e se afastar um pouco de mim, saltando da cerca.

- Também adoro conversar com você Amanda, mas ultimamente você tem tido outros interesses. – seu tom foi de ironia, enquanto amarrava algumas cordas. Sua atitude ganha minha atenção e me coloco na frente de batalha.

- Dá pra ser mais claro? – eu pulo da cerca e me planto bem próxima dele com um tom firme.

- Estou falando do seu amiguinho do carro vermelho. – ele soou tão infantil que não pude evitar dar uma gargalhada ao perceber uma ponta de ciúme.

- Bryan? Você não faz a mínima idéia Dean! – eu estava surpresa com a possibilidade do pensamento. Bryan também costumava andar com Andrew, mas uma vez me deu uma carona até em casa. Imaginei por um momento se foi de fato isso que fez Dean reagir dessa forma. Dean não tinha contato com a turma que eu andava na cidade. Na realidade, ele só conhece a Julie. Eles saíram juntos uma vez, mas Julie dormiu metade da noite, enquanto Dean falava dos cavalos pra ela.

- Está rindo do quê Amanda? O cara é um fracassado e só te mete em roubada como há três meses. – as palavras dele tiveram o efeito desejado na minha culpa ressentida e fechei o semblante como quem enfrenta a mais dura das guerras. Ele tentou recuperar suas palavras, mas o estrago já estava feito. Ele percebeu isso ao me ver dar meia volta na direção de casa.

- Desculpe Amanda! – ele rebateu embora eu continuasse em passos firmes. Ele não se deu por vencido e se plantou na minha frente, impedindo a minha passagem.

- Olha Dean eu adoro você, mas não te dei o direito de se meter assim na minha vida entendeu? – eu bufei e atropelei mais meia dúzia de desaforos, enquanto ele me observava arfar e a diminuir o ritmo do meu tom alterado gradativamente. Quando estava no limite da fragilidade, lágrimas quase escorrendo, ele soou calmo e compreensivo.

- Desculpe Amanda! Eu só quero o seu bem. – ele uivou baixinho como quem fala com um cavalo arredio.

- Esse é o grande problema Dean. Todos querem o meu bem: meus pais, você...Mike. Mas ninguém nunca me perguntou o que eu queria pra minha vida. Nunca me deram escolha. – eu aparentava uma falsa calma, mas ainda estava transtornada.

- E o que você quer da sua vida Amanda Melbrook? – Dean indagou suavemente, quase num sussurro. Em vez de expor meus sentimentos eu volto a cuspir marimbondos pra ele.

- Eu quero que todos me deixem em paz. Inclusive você Dean. – forço meus passos numa ação apressada e de repente me vejo correndo, como se isso pudesse mudar meu destino na semana seguinte.

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