Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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4. Distração

 Distração

O ar tranqüilo do haras brindava seus convidados com uma suave brisa de primavera. Flores começavam a desabrochar e os pulmões de quem passava mais da metade do dia ali, agradecia por rejuvenescer a cada dia. Meu primeiro contato com Dylan parecia ter sido indiferente para ele. Eu sabia que se quisesse ter a sua confiança, deveria me fazer confiável. Não só nas palavras, mas nas ações. Procurei ser o mais amigável possível, enquanto o menino me fitava desconfiadamente.

- Oi Dylan! Meu nome é Mandy e esse é o meu amigo Dean. – falei quase num sussurro bem próxima dele, embora parecesse fitar o nada. Não dava para saber se ele realmente estava ouvindo ou se estava alheio a tudo ao seu redor.

- Ei amiguinho! Soube que gosta de cavalos. Quer conhecê-los? – a mão de Dean permaneceu esticada, enquanto o garoto esperou por alguns segundos para segurá-la. Eu sorri num alívio, enquanto os seguia até a baía mais próxima. Cuidadosamente, Dean moveu-se para colocá-lo em cima do animal, mas instintivamente Dylan começou a se debater. Seus gritos começaram a soar mais alto e antes que resolvessem me denunciar por maus tratos, pedi que Dean o colocasse novamente no chão. Imediatamente o moleque se acalmou e parei pensativa por alguns minutos. Enxuguei o suor do rosto e Dean me fitou com negatividade pela reação dele. Voltei a ficar com meu rosto bem próximo do dele e o forcei a mirar meus olhos pela primeira vez. Segurei seu rosto delicadamente e tentei soar suave, mas com firmeza.

- Está tudo bem Dylan. Olhe pra mim. Eu não vou te machucar está bem? Confie em mim. – ergui o corpo e observei alguns cavalos no pasto com seus filhotes.

- Vamos tentar mais uma vez. Só que de outro jeito. – meu sorriso denunciou o que eu estava pensando. É incrível como Dean me conhece melhor do que eu mesma. Ele consegue entender o que quero apenas num olhar, antes de ser necessário ouvir minhas palavras. Após alguns minutos, Dean trouxe um mini,uma raça de cavalo que é menor do que um cavalo normal; se assemelha muito com um pônei, mas não é. Novamente assim como Dean havia tentado, me movi para colocá-lo no lombo do bicho; mas desisti quando Dylan ameaçou se debater outra vez. Minha voz soou mais firme do que da primeira vez, mas ainda assim suave.

- Dylan precisa me ouvir está bem? Não vou te machucar, mas se quiser montar no cavalo, precisa me ajudar tudo bem? – minhas palavras surtem efeito imediato. Sem demonstrar resistência ele amolece o corpo franzino para que eu o acomode em cima do animal.

- Bom garoto! – eu passo a mão sobre seu cabelo castanho e dou uma piscadela para Dean, retribuído num belo sorriso. Ao avistar Eleanora na cocheira, imaginei o que ela teria de contar a meu favor no relatório mensal de Zemeckis. Não importava muito pra mim. Na realidade eu já estava satisfeita por essa primeira investida com o menino. Enquanto eu guio o cavalo, Dean nos acompanha a pé. Foi assim durante os primeiros três meses. Dylan montado no mini. Eleonora a nos observar e as aparições de David Zemeckis acompanhado de seu inseparável bloquinho de anotações. Em uma de suas visitas mensais podia jurar que ele me lançara um sorriso de satisfação após acompanhar as sessões de cavalgada de Dylan. Entre um intervalo e outro comecei a ter interesse pelo assunto. Passei a levar livros sobre o autismo para o rancho e tentava ainda que leigamente entender os mistérios que guardavam aqueles brilhantes olhos cinzentos. Tudo estava indo muito bem. Estava...

Aquela não parecia ser uma boa manhã. Cortei o dedo ao tentar pegar os cacos de vidro do copo que quebrara na minha mão minutos antes de sair para o haras.  Cheguei meia hora atrasada por causa do vendaval ocorrido na madrugada que deixou um rastro de sujeira e destroços pelo caminho. Encontrei Dylan e Dean no estábulo com os cavalos. O garoto parecia fixo em algo. Estava com um semblante diferente, mas não consegui distinguir o que era. A sensação de que algo estava para acontecer adoeceu minha mente por um momento e instintivamente girei minha cabeça de um lado para outro na intenção de limpá-la. Poderia ser só outro dia como tantos que já havia passado com Dylan no haras. Mas não era.

- Será que ele está pronto? – Dean indagou inseguro, enquanto eu me aproximava do garoto quase em transe.

- E aí garotão? Pronto pra montar num cavalo de verdade? – disse com um sorriso, próxima dele. Lentamente ele mexeu no bolso da calça e retirou um pequeno cordão. Estendeu na minha direção, me deixando totalmente desconcertada.

- Minha amiga. Ajuda o Dylan a melhorar. – ele quase sussurrou, pendurando-o no meu pescoço. Era de aço e com um cavalo no meio. Não imaginava que algo desse tipo pudesse acontecer. Após a morte de Mike me fechei pra tudo, até mesmo para os amigos e minha família. Agora eu estava ali de frente para aquele menino, que em apenas um simples gesto fez com que toda a fragilidade escondida nos últimos meses ganhasse vida.

- Você também me ajuda a melhorar viu? – eu sorri desajeitadamente dando-lhe um beijo na testa, enquanto acompanhava Dean posicioná-lo no cavalo. Embora um risco de lágrima corresse pelo meu rosto, um relincho familiar chama minha atenção e mantenho os olhos fixos no cavalo árabe na outra arena. Quase puxada por um campo magnético me movo na sua direção ao observar um dos capatazes lhe açoitar o lombo com um forte chicote. 

- O que pensa que está fazendo? Está irritando ele! – eu grito parada diante da cerca, enquanto o animal não parava de pinotear. Por mais que eu estivesse magoada por tudo o que aconteceu, não podia permitir que judiassem de um animal. Mesmo que o animal em questão tivesse causado a morte do meu irmão mais velho.

- Porquê não volta pro seu trabalho Mandy? – o velho rabugento foi indiferente a minha presença ali e continuou a lançar o chicote em Black Jack. Chega a me dar um arrepio ao imaginar o que ele não deve fazer com os outros animais do rancho. Ignoro a sugestão e permaneço de braços cruzados fitando-o incessantemente.

- É melhor largar esse chicote agora, ou vai precisar procurar outro emprego. – cuspi pra ele com tanta raiva, que por um momento o velho decidiu avaliar a situação.

- Por que o defende? Sabe o que ele fez ao seu irmão. – as palavras dele cravaram na minha mente como se fosse um prego sendo martelado com o peso de uma tonelada. Todos na cidade sabiam quem eu era e de quem eu era irmã. Mike só tinha 23 anos, mas parecia um veterano em cima de um cavalo. Foi três vezes campeão estadual e havia ganhado o último torneio anual do rancho Mcdowell. Muitos vinham de fora para vê-lo montar, o que lhe rendeu um pequeno fã clube. Não era de se admirar que outras pessoas não estivessem interessadas no bem estar de Black Jack.  De certa forma, ele estava certo. Eu não deveria me importar tanto. Mas me importava. Não sabia o por quê, mas me importava.

- Isso não é problema seu, e ele é só um animal. Eu estou falando sério. – meu tom parece mais eficaz dessa vez.  Ele larga o chicote no chão e se afasta em direção à saída da arena, resmungando algo inaudível. Eu fito a escuridão de Black Jack fixamente e por alguns segundos, acreditei que ele me fitava também quase em gratidão, trotando em passadas largas.

- Nem mesmo você merece isso. – eu uivei baixinho fitando-o com certa indecisão. Eu me encontrava quase que presa em algum transe, quando ouvi os gritos abafados de vozes que se confundiam com o relincho dos cavalos ao redor. A cena que eu acompanhava me deixou sem ação por alguns segundos. O cavalo em que Dylan estava montado saiu em disparada e Dean não conseguiu alcançá-lo.

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