Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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5. Culpa e Perdão

Culpa e Perdão

 Imediatamente, o acidente de Mike vem à minha mente. Como Black Jack pinoteou antes de derrubá-lo ao chão, quebrando seu pescoço. Meu grito na arena, agora se fundindo com os gritos de Eleanora e Dean. Ao voltar pra minha realidade, surpreendi-me de me ver montada no último cavalo que poderia imaginar. Black Jack era firme e não demonstrou austeridade em me ter como amazona. Saímos a galopes na direção de Dylan e a sensação de montá-lo foi extremamente nova pra mim. Como se por um poder inexplicável, nos pertencêssemos um ao outro. Não demorou para que eu alcançasse o cavalo de Dylan e o parasse. Dean e Eleanora vinham logo atrás de carro. Desço o menino do cavalo e me certifico imediatamente se há algum tipo de lesão em seu franzino corpo.

- Você se machucou Dylan? Você está bem? – eu estou apavorada, quase às lágrimas.

- Dylan montou no cavalo grande. – ele disse sereno num sorriso. Após os primeiros segundos de apreensão, aperto-o contra o meu corpo num aconchegante abraço. Nem percebo a presença de Eleanora até ouvir a responsabilidade jogada sobre minhas costas com histeria.

- O que estava fazendo Mandy? Ele podia ter se machucado. – ela falava desordenadamente, mal examinando o garoto. Parecia mais preocupada em me pendurar no tronco, do que saber realmente se o filho estava bem.

- Eu sinto muito – foi tudo o que consegui dizer, embora Eleanora transformasse sua histeria em revolta. Pensei em retrucar algo, mas Dean se apressou em fazê-lo por mim.

- A culpa foi minha Sra. Davis. Estava distraído, e quando dei por mim, o cavalo já tinha saído. – Dean mirou meus olhos como quem tenta aliviar a travessura de uma criança, mas nada surtiria efeito naquela situação. Não poderia culpá-la.

- Mas você não é o monitor dele não é? – ela rosnou baixinho, puxando o menino pela mão. A situação em si me abalou. Minhas pernas tremiam compulsivamente e Dean teve que me segurar pela cintura para que eu não tombasse. Exausta. Frustrada. Irritada e principalmente frágil. Todos esses sentimentos me consumiam por dentro e parecia que nada seria capaz de me abalar mais. Estava errada outra vez.

Salto do carro de Dean e pavor sobe pela minha espinha ao saber que terei que enfrentar meus pais.  As notícias sempre correm em cidades pequenas e em Cedarfalls, não seria diferente.  Ao entrar em casa, minha mãe apressa-se em me confortar num amistoso abraço. Daqueles que ela me dá quando os pesadelos me visitam à noite.

- Soube o que houve no haras. Como você está? – meu pai pergunta com um semblante fechado, diante da expressão de inocência de minha mãe, enquanto se serve de um copo de uísque.

- O que aconteceu Mandy? Por que sou sempre a última a saber das coisas? – ela retrucou chateada.

- Frustrada. – deslizo pelo sofá macio num suspiro, enquanto minha mãe me acompanha.

- Achei que dessa vez você ficaria longe dos problemas Mandy, mas você não aprende. – o impacto de suas palavras me atinge como um raio e sinto eletricidade correndo pelas minhas veias agora. Seu tom crítico me faz pular do sofá num rompante ficando de frente pra ele pronta para uma batalha verbal.

- Continue pai. Pode me culpar. Vá em frente como sempre fez a vida toda, eu não me importo mais com nada que você fale. – eu despejei com os dentes cerrados não me preocupando com o desespero de minha mãe sem saber o que fazer.

- Você não sabe do que está falando menina. Tem que aprender a ter responsabilidades Amanda – ele alterou o tom, enquanto minha mãe se plantava entre nós a fim de evitar um possível contato físico.

- Querem parar com isso e me dizer o que está acontecendo? – a sala ficou em silêncio por alguns instantes e minha mãe me fitou apreensiva.

 – Mandy por favor? - Suas palavras soaram como súplica, que não tinha por quê não atendê-la.

- Eu me distraí um pouco e o cavalo em que Dylan estava montado saiu em disparada. – eu bufei num estalo.

- Oh meu Deus! Ele está bem, se machucou?

- Não mãe. Ele está bem. – meu tom foi tranqüilizador, mas não o suficiente para meu pai parar de criticar. O álcool já estava tão instalado em seu organismo que ele já não conseguia manter o equilibrio emocional para o qual a conversa estava indo. Ele estava completamente alterado.

- Por pouco não é Mandy? Me pergunto o que pode ter feito você se distrair...- o sarcasmo em seu rosto foi tão gritante, que incitou minha mãe a repreendê-lo.

- Jake pare com isso! – ela foi firme, mas nada surtiu efeito e ele continuou. Estava desordenado, andando de um lado para o outro.

- É que eu estou curioso Emily. Deve ter sido algo muito importante... – ele continuou a falar, esperando por uma desculpa minha. Ao invés de dizer o que ele espera eu o interrompo com veemência.

- Eu me distraí com aquele maldito cavalo que derrubou o Mike. – eu explodi com fúria e choro em cima dele. Ele analisou minhas palavras e levou um momento para compreender a frase. A sala voltou em silêncio e minha mãe tapou a boca com desespero fitando meu pai num lamento. A dor estava escrita em seus lindos olhos verdes, vermelhos de tanto chorar. Quantas lágrimas ela ainda tem para derramar? Não pude evitar o pensamento ao fitá-la tão frágil.

- O quê? – ele indagou confuso, sem entender o que acabara de ouvir. De repente, seu olhar exprime compreensão e as palavras fogem de sua boca.

- Ele estava sendo maltratado e fiquei com pena. Teria sido mais fácil o deixar morrer lá. Talvez assim você ficasse feliz e tivesse mais orgulho de mim não é pai? – eu despejei transtornada, correndo num impulso porta afora. Ouvi longemente os chamados de minha mãe, mas já estava no meio do caminho até o celeiro e não tinha a menor vontade de voltar pra casa. Não agora.

- Eu não agüento mais isso Jake. Já perdi um filho e não vou suportar perder outro ouviu? Não vou. – a carapaça de mulher forte de minha mãe desmontou e trouxe à tona, uma mulher frágil e sensibilizada por tudo que já havia passado com a morte de meu irmão. Nessa história toda, ela foi quem mais sofreu. Teve de suportar o enterro do filho, o descaso afetivo de meu pai e minha total indiferença após o ocorrido. Embora tivesse todos os motivos para cair, percebo que minha mãe sempre foi o pilar de nossa família. Meu pai percebeu isso no exato momento em que suas palavras se tornaram um ultimato.

- Conserte isso agora Jake. Ou vamos perdê-la para sempre. – ela soou serena, enquanto ele se aproximou e a beijou na testa. Implacável ela não reagiu e permaneceu com um olhar baixo, até que ele saiu pela porta. Após a morte de Mike meu pai se fechou. Enquanto eu tentava desesperadamente fazer o que eu queria fazer, meu pai se tornou exigente de si mesmo, e se afastou emocionalmente de minha mãe. Os dois estavam sempre em lados opostos. Se ela chorava por saudade, ele bebia por saudade. Ou fraqueza, sei lá. Não era raro os momentos em que eu chegava em casa e o via caído pelo sofá e minha mãe choramingando no quarto de Mike. A verdade é que cada um reagiu de uma forma diferente. Se eu não queria ouvir, quem seria eu a criticar? Me deitei por alguns minutos no feno do celeiro e não conseguia mais ordenar os meus pensamentos. Tudo parecia muito injusto e muito certo ao mesmo tempo. Levei alguns segundos pra perceber meu pai parado na minha frente, a me observar. Forcei meu corpo a se endireitar e quebrei o silêncio num tom ameno.

- Eu não quero mais brigar pai. Estou muito cansada. – me retive de fitá-lo e ele deu os primeiros passos lentamente em minha direção.

- Também estou Mandy, e acredite; também não quero mais brigar. – seu tom foi suave e pude sentir a distância entre nós se estreitar, como não acontecia há muito tempo.

- Me desculpe por ainda há pouco. Não queria ter dito aquelas coisas. – ele procurou um lugar para se sentar ao meu lado no bloco de feno.

- Tudo bem pai. Você tem razão. Nos últimos tempos só dei trabalho pra você e a mamãe. Não tem motivo nenhum pra ter orgulho de mim. – meu tom foi de auto piedade, logo retrucada por ele.

- Está enganada querida. Sempre tive muito orgulho de você. Mandy, você nunca baixou a cabeça pra nada. Mesmo que isso me custasse uma multa por destruído o bar do Reynolds quando o filho dele te beijou a força. – sorrimos amarelo um pro outro por um breve momento. Meu pai estava abrindo o coração pela primeira vez e percebi o quanto estava equivocada quanto aos seus sentimentos. O quanto havia sido injusta. Ele também já tinha sofrido muito, como todos nós.

 – Mandy você é muito corajosa, mas nunca consegui demonstrar o quanto te amo filha e passei tanto tempo brigando com você ao invés de te apoiar. Filha eu prometo que de agora em diante isso vai mudar ok? – sua voz embargada mostrou o quanto ele pretendia ser honesto comigo e cheguei a conclusão que estava na hora de ser honesta com ele também. Tomei a dianteira nas palavras seguintes.

- Lembra quando eu tinha cinco anos e tinha medo de montar? O Mike fez um cavalo de madeira e forrou com algodão pra que eu não tivesse mais medo. – eu sorri com a lembrança enquanto suaves lágrimas rolavam pelo meu rosto, agora encostado no ombro do meu pai.

- Depois disso você nunca mais parou de montar. – ele também sorriu, e notei que devia deixar as palavras saírem sem me preocupar com o que meu pai entenderia. Então continuei.

- Antes do torneio anual eu selei o Black Jack pro Mike como de costume e quando tudo aquilo aconteceu eu fiquei pensando o que eu tinha feito de errado. Revisei várias vezes as lembranças na minha cabeça, tentando encontrar uma falha, qualquer coisa que explicasse o que aconteceu, mas só o que eu tinha certeza é que eu deveria ter checado a sela dele mais uma vez pai. Se eu tivesse checado de novo talvez nada daquilo tivesse acontecido e Mike ainda estaria aqui. – a culpa nas minhas palavras ficou evidente, mas o peso delas se tornou mais leve ao passo que meu pai me acalentava.

- Mandy preste atenção! Não pode se sentir culpada desse jeito. Nós nunca te culpamos querida. Tudo foi um terrível acidente, ninguém tinha como evitar. – ele tentou aliviar a pressão, embora eu começasse a chorar compulsivamente em soluços espaçados.

- Mas se eu tivesse olhado mais uma vez...- o choro sufocou as palavras e antes que eu concluísse, meu pai segurou o meu rosto choroso e enxugou as lágrimas. Ele me fitou nos olhos com carinho e dirigiu o resto da conversa, quando eu mesma já não podia.

- Não teria feito diferença filha. O Mike trocou a sela do Black Jack porque a bota não estava prendendo no estribo. Não sabia que se sentia assim querida, eu sinto muito.   

- Sinto falta dele pai. – eu sussurrei chorosa como uma criança que quer um brinquedo novo. Meu pai me abraçou como não fazia desde que eu era realmente uma criança.

- Eu também filha. Está tudo bem agora.

- Eu te amo. – eu soltei abafadamente com o rosto em seu peito, sua camisa encharcada das minhas lágrimas.

- Eu sei querida. Eu também te amo. Está tudo bem. Tudo bem. 

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