Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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1. Consequências

 

Era o último dia de Inverno. A neve se acumulava pela estrada na fronteira com o Colorado, mas começava a dar sinais de que logo se dispersaria. Cedarfalls era uma cidade amena. Não mudava muita coisa com as estações, a exceção da neve que deixava a cidade vazia e quase insuportável de se transitar na rua. A cidade cresceu ao longo dos anos. Pulou de pequenas famílias vindas do sul do Colorado, para um aramado de imigrantes em busca de tranqüilidade. A criação de cavalos iniciada por Henry Mcdowell, foi a maior fonte de prosperidade da cidade. Se acentuou ainda mais após a criação do Campeonato Anual, em comemoração a fundação ´do Centro de Criações instalado na cidade. Muitos criadores incentivados pela nova oportunidade de lucros investiram pesado no Centro de Criações e aguardavam ansiosos que seus cavalos pudessem não só participar do Campeonato em alguns anos, como ser reprodutor de uma linhagem vencedora no futuro. Cedarfalls ganhou um Centro de Convenções para exposições anuais e embora aparecesse em várias capas de revistas voltadas para a criação de cavalos, seus moradores podiam voltar para a rotina que mantinha a cidade viva pelos meses restantes do ano após os eventos no início do verão. As casas mantinham um ar aconchegante, embora fossem modestas para os padrões de outras cidades que tinham a criação de cavalos como recurso de prosperidade comercial. Todos se conheciam ou possuíam algum amigo em comum. Não se precisava ir longe para saber das últimas notícias locais. Bastava dar alguns passos fora de casa e em poucos segundos, alguém era capaz de atualizá-lo em poucas frases. Nada ficava escondido por muito tempo. Inclusive um episódio envolvendo meu nome no último verão.

Eu passava a maioria das noites sem dormir direito, e quando acontecia; não raro os pesadelos se acomodavam na minha mente, fazendo com que eu acordasse aos prantos, inclusive meus pais. Havia se tornado um hábito. Um hábito horroroso adquirido nos últimos oito meses. Minha família já estava ficando cansada tanto quanto eu de acordar com meus gritos durante a madrugada. Mas eu não podia evitar. Não é algo que se liga e desliga quando se quer. É uma força que toma conta de seu corpo e pensamento, que você realmente deseja morrer a estar vivo para passar mais uma noite por isso. No entanto eu não morri, ainda que tivesse desejado isso muitas vezes no último ano. E novamente ao abrir os olhos do meu terror particular, agradeço mais uma vez ter os braços firmes e a voz reconfortante de minha mãe a me acalmar. É incrível como ela tem esse poder sobre mim quando ninguém mais.

- Está tudo bem querida, eu estou aqui. Vai ficar tudo bem... - ela dizia suavemente, enquanto eu não parava de soluçar. A maioria das noites era assim. Eu tinha pesadelos e minha mãe estava lá para fazer os monstros sumirem da minha mente. Ela permanecia ali até que eu adormecesse de novo. Eu e minha mãe sempre nos demos bem, mas após a morte de meu irmão Mike, quase viramos estranhas dentro da própria casa. É impressionante como não nos damos conta de certas coisas e de repente as circunstâncias podem ser opressivas e passamos a ver a vida somente através dos nossos próprios problemas e sentimentos. Era isso o que eu acabava por fazer com minha mãe. Egoísta, eu não me incomodava de deixá-la sem informações minhas quando saía pela cidade, mas não me imaginava sem tê-la ao meu lado todas as noites para acalmar o meu tormento. O resto do dia era previsível. Meu pai estava pelos arredores do rancho conduzindo os cavalos e vistoriando os estábulos. Minha mãe preparando o jantar.  Meu pai sempre foi o cowboy que minha mãe sempre sonhou. Conhecido e respeitado em toda a cidade de Cedarfalls, era quase impossível fazer algo na cidade sem que ele ficasse sabendo. Quanto a mim, estava sempre tentando viver a vida o mais desesperadamente possível achando talvez que eu não tivesse tempo para fazê-lo se esperasse demais. Naquela manhã, meu maior pesadelo dos últimos três meses estava prestes a se tornar realidade. Meu pai acompanhou do alto da colina o carro esportivo que cruzava com rapidez pelo nosso portão de entrada.  Tal manobra o fez descer o vale para se certificar do que estava acontecendo. Ao adentrar pela sala, encontrou um rapaz franzino sentado em seu sofá, esfregando seus óculos embaçados com desconforto.

- Em que posso ajudá-lo senhor... - ele estendeu a mão para cumprimentá-lo esperando por sua apresentação.

- Zemeckis. David Zemeckis. Oficial do Estado do Colorado. Preciso que o senhor e sua filha assinem este documento senhor Melbrook. – ele olhou atentamente para o papel e fitou minha mãe com um ar cansado.

- Onde ela está? – perguntou com uma sombra no olhar

- Onde você acha Jake. - ela soltou com apreensão na voz e um olhar vazio

A realidade é que nunca dei muita importância se eu ia acertar ou errar na vida. Agora mais do que nunca eu iria fazer o que eu quisesse fazer. Sem regras impostas, a não ser as minhas próprias. Eu estava enganada de muitas coisas e essa era uma delas. Achei ter quebrado ao menos uma costela, após levar quase três minutos para levantar do chão ao tombar do skate. Mal percebi Julie próxima a mim falando sem parar.

- Você está bem Mandy? Por que continua querendo se matar? Ainda não percebeu que não dá pra coisa? Acho melhor você voltar a montar. – de longe ela era a melhor companhia que eu tinha no início do colegial. Não nos demos bem no início, mas ela acabou por se mostrar uma amiga leal nos momentos em que mais precisei contar com alguém. Julie mal terminou de falar e eu mirei seus olhos como se pudesse aniquilá-la ali mesmo só para ela parar de falar. No entanto, me vi transtornada e despejando minha frustração não só da realidade de que não dava mesmo pra coisa, mas da ínfima sugestão.

- Não repita isso de novo ok? Ou vamos nos estressar de verdade. Sei que quer ajudar, mas esse não é o melhor jeito. - vomitei com o dedo em riste para minha melhor amiga desde o colegial, andando o mais rápido que podia sendo seguida por ela.

- Me desculpe Mandy. - a voz de Julie era suave como a da minha mãe nas noites em que ela me conforta dos pesadelos. Eu sabia que ela não tinha culpa de nada e que estava tentando me ajudar. Após a morte de meu irmão, Julie passava horas comigo isolada no meu quarto tentando acalmar meu pranto quando a saudade era muito grande. Paro por alguns segundos, enquanto ela toma a minha frente me deixando totalmente desarmada. Seus olhos miram os meus com súplicas, que não posso evitar desculpá-la.

- Ok! Preciso voltar pra casa já está entardecendo. Eu ligo depois está bem? - meu tom foi ameno fazendo Julie ter certeza num iluminado sorriso de que minha raiva havia ficado pra trás. Segui na direção de casa sem imaginar o que estava à minha espera. Embora eu não esperasse nada além dos habituais sermões de minha mãe quando eu passava muitas horas fora. O oficial finalmente cansou de esperar por mim e se mancou de que tinha que ir embora. Meu pai já estava aos nervos com minha demora e despejou toda sua amargura sem se preocupar com o que sairia de sua boca, ou se eu pudesse chegar a qualquer momento. O que de fato, aconteceu.

- Até quando vamos viver nesse inferno Emily? Cada hora surge algo diferente. Sem falar nos pesadelos de toda noite, eu não agüento mais! – ele andava de um lado para outro sem direção.

- Ela só precisa de mais um tempo Jake. Passar pelo o que ela passou não é fácil. - minha mãe tentava em vão remediar uma situação que explodiria a qualquer momento. Pobre da minha mãe. Às vezes eu me perguntava se essa era a vida que ela realmente havia planejado. Anos e anos sem sair do mesmo lugar, convivendo com as mesmas pessoas e sustentando a mesma rotina. Nunca tive coragem de perguntar como ela suportava isso, e com todos esses acontecimentos percebi que o momento de fazer essa pergunta já havia passado.

- Não venha me dizer o que não é fácil Emily. Que droga, já se passou um ano e não foi fácil pra ninguém. - ele alterou a voz e ao fitar minha mãe às lágrimas percebeu o quão fundo havia ido. Ele amenizou o tom, mas não deixou de falar o que estava engasgado pra sair.

 - Ela não é a única que sofreu com aquilo tudo querida. Que ainda sofre... - ele pausou um pouco sem perceber minha presença na porta, enquanto ainda justificava sua decepção num tom ameno, como quem repreendia a uma criança de cinco anos.

 - Ela já vai fazer 18 anos Emily, e precisa aprender que o que fazemos tem conseqüências e que o resultado do que ela fez está ali naqueles papéis. - embora eu soubesse da veracidade em suas palavras, fiz questão de me fazer presente e demonstrar que não estava satisfeita com a situação instaurada ali. Meu semblante era puro mármore. Gelado e bruto. Minha mãe abraçou-me como se puxasse para si a responsabilidade de cada palavra dita, enquanto eu observava meu pai se mover lentamente na minha direção com os papéis entre as mãos. Seu olhar preso ao meu. Minha mãe afastou-se cautelosamente visando uma má reação da minha parte, aconchegando-se perto do meu pai. Enquanto terminava de ler, tentei ignorar por um momento a seriedade do que estava ali e arrogantemente desdenhei da situação.

- Eu não vou assinar isso. Quero falar com meu advogado. - cuspi indiferente pro meu pai que mantinha um sorriso sarcástico e já não sabia mais o que dizer. Passou a mão por entre seus cabelos já um pouco grisalhos e afastou seus olhos de mim num semblante cansado.

- Querida você precisa assinar. Isso é muito sério... - antes que minha mãe terminasse meu pai perdeu o controle e a paciência comigo.

- Ela sabe o quanto isso é sério Emily. Quer assinar logo essa droga Mandy! – ele aumentou o tom e impulsivamente estendeu uma caneta na minha direção. Poucas vezes vi meu pai irado daquele jeito e podia jurar que se eu fosse um homem já teria sido nocauteado por ele. Apoiei o documento entre a palma da mão e assinei num garrancho quase inelegível, numa respiração ofegante de raiva e remorso. Raiva por que sabia que meu pai falava a verdade e remorso por que sabia que nenhum deles merecia passar pelo o que estavam passando. Ainda assim era mais fácil manter a rebeldia do que enfrentar os meus medos.

- Feliz? Eu vou tomar um banho! - soltei jogando os papéis sobre a mesa, subindo as escadas como quem corresse uma maratona. Senti um gelo na espinha percorrer todo o meu corpo ao me deparar com a porta no fim do corredor. Nunca mais tive a coragem de entrar no quarto de Mike, e mesmo que minha mãe não comentasse; quase sempre a via saindo dele no início de cada manhã. Acho que amenizava a saudade dele, sei lá. Nunca perguntei e sinceramente não me interessava saber. A realidade é que só me preocupava com minha própria dor. O banho aliviou a tensão que pesou sobre meus ombros e resolvi não descer para o jantar, embora estivesse faminta. Não queria estar sob os olhares atentos de meu pai e não ter nenhuma resposta para os possíveis questionamentos de minha mãe. O dia seguinte já traria muitas dúvidas a serem solucionadas. Após colocar uma sedosa camisola, deslizei para a cama e me fechei debaixo do cobertor, como se nada mais pudesse me atingir. Como se fosse impossível chegarem até mim e me privarem da minha liberdade. Lentamente minha mente foi se desconectando de tudo e antes que começasse a ter consciência de que meus músculos estavam relaxando, fui tomada pelo sono. Vozes com frases desconexas cruzavam a minha mente e logo depois a batida e o corpo de alguém ao chão. O impacto pareceu tão real que a dor se fundiu no meu peito junto com grito sufocado no meio da noite. Dez? Vinte? Eu já havia perdido a conta de quantas vezes minha mãe corria para me acalmar nas noites em que meus fantasmas vinham me assombrar. Não eram poucas. Eu podia levar apenas alguns minutos para me acalmar e cair no sono novamente ou levar o resto da madrugada para conseguir tirar um cochilo. Dependia da intensidade de cada pesadelo. Nesses momentos, uma onda de vergonha sempre percorria meu corpo. Como eu não era justa com minha mãe. Como ela também tinha momentos em que não tinha ninguém para acalmá-la de seus próprios tormentos. Me sentia doente e covarde. Realmente eu me odiava por isso. Estupidamente eu necessitava de algo por que brigar. Na minha cabeça oca, a morte de Mike era a ideal.

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