Sombras do Destino

Garota rebelde tem que enfrentar os erros e os acertos da vida com sua família após a morte de seu irmão mais velho

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7. Acerto de Contas

Acerto de Contas

 Passava do meado da tarde quando a pick-up de Dean estacionou em frente à casa de Jamie Vanderbilt. Havia se passado quase um ano do incidente com Mike e eu passava a maioria das noites com a galera de Andrew Shaw. Meu pai tentou me manter de castigo no quarto algumas vezes, mas era ineficaz, uma vez que eu sempre encontrava uma forma de sair. É estranho, mas naquela noite eu não queria ir a nenhum lugar. Queria ficar no meu quarto, com minha tristeza e dormir até que os pesadelos cessassem. Mas mudei de idéia ao ouvir a discussão entre meus pais no cômodo de baixo. Outra novidade que veio junto da morte de meu irmão. As brigas começaram a se tornar uma rotina. Eu não queria saber se o motivo era eu ou não. Eu só queria sair dali o mais rápido possível. Nunca tive estômago para discutir. Era algo que eu me recusava a presenciar ou participar. Embora no último ano, as discussões com meus pais começaram a se tornar presentes pra mim também. A buzina do carro de Andrew soou no exato momento em que eu me encontrava quase no limite da sanidade. Peguei minha jaqueta de couro e desci a escada de incêndio rapidamente numa manobra digna de um malabarista. Meu silêncio constante foi alvo fácil para que Andrew se distraísse com a estrada. Ainda não consigo entender como tudo aconteceu. Foi tão rápido. Em um momento Andrew mexia nas estações de rádio a fim de me animar e no outro...Bang!

Andrew perdeu a direção em uma curva e bateu de frente em uma árvore na saída da cidade. Isso aconteceu dez segundos depois dele ter atropelado Jamie, que fazia sua caminhada noturna de todo dia. Acordei três dias depois no hospital da cidade com seis pontos na testa e um braço quebrado. Eu não estava em coma, mas a medicação devido às conseqüências do acidente eram tão fortes; que me deixavam apagada por várias horas. Em um desses intervalos observei minha mãe com a Bíblia na mão, lendo alguns trechos em voz alta. Era impossível ouvir o que ela dizia e rapidamente eu era arrastada de novo pro sono. Quando estava totalmente consciente do que acontecia ao meu redor, entrei em histeria ao saber sobre Jamie e sobre o que havia acontecido com Andrew. Desejei dormir por uns dez anos ou hibernar em alguma cápsula do tempo, mas recebi alta do hospital naquela mesma tarde. Foi daí em diante que meus pesadelos começaram. E eu não sabia quando eles iriam ter um fim.

Mirei a casa com receio, enquanto observava pequenos movimentos lá dentro. Eu não tinha intimidade com Jamie. Ela era uma líder de torcida popular e que teve seu sonho de ser rainha do baile interrompido ao ser atingida pelo carro que tirou a vida de Andrew Shaw e que me manteve até agora no serviço comunitário. Jamie era morena natural e dona de um belo par de olhos verdes. Sua pele era como o frescor da primavera e sempre foi a mais cobiçada pelos garotos da escola. Quem poderia culpá-los? Até quem não tinha muita simpatia ou tinha  inveja dela , o que não era o meu caso, não podia negar como ela era encantadora. Levei mais de um mês para sair à rua novamente. Quando finalmente aconteceu, fui tomada por uma onda de pânico e vergonha. Não vergonha do que havia acontecido, embora me sentisse culpada, eu sabia no íntimo que tudo tinha sido um infeliz acidente. O problema era me convencer disso. Eu não tinha preocupação com o que outros achavam de mim, mas do que as pessoas poderiam falar sobre meu pai. Fiquei com vergonha de ele estar envergonhado por mim, e isso realmente doeu. As pessoas tinham reações diferentes quando me viam passar. Algumas me sorriam desconfiadamente, com nada mais além de pena. Outras mantinham uma carranca de acusação, me lançando olhares como se eu fosse uma ameaça iminente e que deveria estar em algum tipo de reformatório isolada de todos. Eu podia ouvir cochichos secretos algumas vezes, embora nenhum deles chegasse diretamente aos meus ouvidos. Muita consideração pelo meu pai, eu acho. Uma vez, participei de uma atividade em conjunto com Jamie no colegial. Poucas palavras no período de meia hora. Eu deveria ter consolidado uma amizade com ela naquele momento quando tive a oportunidade. Arrependimento tardio no meu caso.

- Tem certeza que quer fazer isso? – Dean me pergunta, acompanhando a linha de tensão no meu rosto, marcado pela apreensão.

- Eu preciso Dean. Devo isso a ela. – eu respondi com uma voz fraca.

- Ok! Boa sorte então. – ele sussurrou, enquanto eu saltei do carro e suspirei fundo seguindo passos incertos na direção da casa. Fiquei indecisa por alguns segundos parada frente à porta. Toquei a campainha e ensaiei uma dança desajeitada com meus pés em sinal de nervosismo. Pude sentir meu rosto queimar ao observar a senhora que abria a porta a me fitar com tamanha desconfiança. Ela não disse nada e gentilmente esquivou o corpo convidando-me a entrar.

Posso observar na estante da sala as várias fotos de Jamie. Capitã do time de futebol, Presidente do Grêmio Escolar. Remorso afetou minha mente e já não tinha mais certeza do que diria a ela. Será que ela iria querer me ver? Será que me atacaria verbalmente por todo o sofrimento que a fiz passar? As perguntas penetravam em minha mente me deixando doente. Cruzei os braços ao redor do meu peito e tentei desanuaviar as nuvens na minha cabeça balançando o corpo levemente de um lado para o outro.

- Jamie você tem visita. – sua mãe disse num tom audível, embora eu só registrasse o barulho vindo da cadeira de rodas que agora Jamie se encontrava. Está certo que eu não estava ao volante, mas talvez nada daquilo tivesse acontecido se eu não estivesse no carro. Afinal, só passamos pela rua de Jamie porque Andrew foi me buscar em casa. Não pude evitar me sentir envergonhada e pequena diante dela. Embora estivesse totalmente desconcertada, seu sorriso radiante me aliviou o coração. Tive a certeza que ela também estava esperando por aquele momento.

- Olá Mandy! Como está? – ela demonstrou simpatia, apesar do olhar incerto de sua mãe.

- Vou levando. E você? – parecia estúpido perguntar, mas eu não sabia muito bem como lidar com aquela situação. Jamie tentou me deixar à vontade ao perceber meu constrangimento.

- Não muito diferente do que está vendo. Porque não senta um pouco?

- Você aceita alguma coisa Mandy? – a mãe de Jamie argumentou fitando a filha. Tentava se certificar de que ela não estava diante de uma ameaça.

- Não senhora. Estou bem. Obrigada. – eu soltei sem fitá-la, totalmente sem jeito.

- Estarei na cozinha. Se precisar de algo é só chamar. – ela mediou seu tom ao passar por mim na direção do outro cômodo.

- Não se preocupe mãe. Estarei bem. – Jamie sorriu novamente, aproximando sua cadeira de mim no sofá.

- Sempre pensei nesta cena. Na realidade, tinha terríveis pesadelos todas as noites. Cheguei a decorar várias vezes o que eu diria e agora que estou aqui eu...simplesmente não sei o que dizer Jamie. – comecei a atropelar as palavras então eu evitei fitá-la, mantendo minha cabeça baixa; mexendo com as mãos trêmulas.

- Mike estaria orgulhoso de você Mandy. E eu também estou. – a percepção dela sobre meus sentimentos me surpreendeu. Vacilantemente, ergui meus olhos, lágrimas já caindo, enquanto uma compreensiva Jamie segurava uma de minhas mãos.

- Sinto muito pelo o que aconteceu Jamie. Nunca foi minha intenção.

- Sei disso Mandy. Sempre soube. – diz me confortando.

- Você pode me perdoar? – eu funguei tentando enxugar as lágrimas timidamente.

- Eu te perdoei desde o momento em que você passou por aquela porta. O médico disse que após mais alguns meses de fisioterapia eu vou poder voltar a andar normalmente. Quem sabe não podemos ser grandes amigas? – ela me sorriu amarelo, e agora era eu quem apertava suas mãos gélidas com força.

- Obrigada Jamie. – eu havia acabado de enterrar de vez um capítulo tenso de minha vida. Jamie demonstrou não só humildade como generosidade por mim. Isso é algo que não se esquece com o tempo. Desejei realmente que suas palavras sobre sermos grandes amigas se tornasse realidade um dia. Ao menos metade da minha preocupação havia ido embora no mesmo instante em que deixei a casa de Jamie. Agora só me restava voltar para casa. No entanto, lá só encontraria outra batalha pela frente. Ao encontrar meus pais sentados lado a lado no sofá, percebi que algo não andava bem. Meu pai esticou a intimação pra mim num semblante desolado, enquanto minha mãe se levanta e me abraça. Suspiro cansadamente após a leitura e retribuo o aconchego de minha mãe com força.

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