Desmortos

Desmortos conta a história de Lorena, uma garota que sempre desejou ser invisível e que não gosta do que acontece quando o seu desejo é brevemente atendido: ao ser atropelada e morrer. Aquilo que supostamente seria o fim de sua vida acaba se tornando o começo de uma jornada muito mais complicada do que poderia imaginar: ela se tornou um zumbi e acorda numa gaveta de necrotério. Contudo, ela não estará sozinha nessa jornada, Lucas, um garoto fantasma irá guiá-la através desse admirável mundo novo onde os restaurantes possuem um cardápio especial para os sem vida, vampiros gostam de pantufas e uma república abriga aqueles perdidos entre o mundo e o Mais-Além. Lorena será jogada numa arena no Limbo, obrigada a enfrentar criaturas de todos os planos de existência e ainda encontrar um jeito de fugir. E como se isso não fosse o suficiente ela irá descobrir que existe um pouco de vida após a morte. Curta a fanpage! Facebook.com/livrodesmortos

4Likes
6Comentários
617Views
AA

2. sobre como acordar de repente não se parece com suco de framboesa

Nunca se considerara uma pessoa claustrofóbica, mas acordar naquele local minúsculo, escuro e gelado foi uma das piores sensações que já tivera. Ficou tão desesperada ao ver-se ali dentro que começou a hiperventilar. Seu coração disparou. Olhou em volta, tentando entender onde estava. Tateou, ofegante, e quando se deu conta de que se encontrava completamente fechada, começou a socar as paredes de metal. Uma caixa comprida e gelada onde Lorena cabia perfeitamente. Estava nua, coberta apenas por um fino pano branco. Imaginou estar vivendo uma daquelas lendas urbanas e tateou sua barriga atrás de marcas de cortes ou costuras. Nada. Aparentemente os rins permaneciam onde deveriam estar.

 

Os olhos arderam com as lágrimas que ameaçaram vir. Socou e chutou as paredes, sentia como se elas se apertassem em volta do seu corpo e todo o oxigênio do lugar houvesse acabado. Começou a tremeu e suar gelado. A mente tentava buscar uma explicação para o que acontecia ou onde estava, mas nada vinha em sua memória. Não se lembrava do acidente ou de nada do que aconteceu quando fora atropelada. Continuou socando e gritou com toda a força de seus pulmões. E então, em meio ao desespero e com medo de sufocar, se levantou e bateu a cabeça com força no teto. Lorena perdeu a consciência e seus sinais vitais cessaram.

 

Alguns minutos depois, acordou novamente.

 

A cabeça girava e sentia-se nauseada. Um pensamento bobo de que talvez pudesse estar morta e enfiada em uma gaveta de necrotério povoou sua imaginação por um breve momento de loucura. Eu apenas desmaiei, repetia ela para si mesma. Desmaiei, desmaiei, desmaiei.

 

Moveu-se lentamente para evitar mais uma onda de náuseas. A cabeça doía onde havia batido. Esfregou a testa checando se havia ficado com algum galo no local, mas não havia nada. Tentou se acomodar o máximo que pode naquela caixa. Precisava pensar direito se quisesse sair dali. Olhou em volta mais uma vez, reparando que não havia nenhuma fresta de luz, desistiu de esperar os olhos se acostumarem com a escuridão. Afinal, o que haveria para ver? Era apenas uma grande caixa. Nada mais do que isso.

 

Esfregou os olhos. Pense, Lorena, pense, murmurou. E então apoiou as mãos no tórax. Foi neste momento que se deu conta do silêncio. Não havia nada. Absolutamente nada. Não havia o som de sua respiração e, pasma, apertou o peito em busca das batidas que também não estavam lá. Nem mesmo agora, em desespero, ofegava. O fato é que não precisava respirar, e, por mais que seu coração não pudesse disparar no momento, nada a impediu de sentir uma pontada no peito, acompanhada de um vazio total. Uma angustia que devorava cada pedacinho de pele. 

 

Não podia ser, não era possível, não fazia sentido e milhares de outras indagações tomaram conta de Lorena. Mas lá estava seu coração imóvel, jogando-lhe na cara que estava indiscutivelmente morta. E aquela pequena palavra de apenas duas sílabas fez com que desmoronasse. Começou com um soluço dolorido, e então, as lágrimas precipitaram de seus olhos.

 

Agarrou a raiz dos cabelos chorando com força e em poucos segundos seu rosto estava encharcado. Balançou a cabeça, incrédula e confusa. Não queria morrer. Não queria ir embora nem dizer adeus. Não agora, nem tão cedo.

Aos poucos foi se lembrando do acidente. Não precisou pensar muito para adivinhar que o carro havia lhe matado.

 

De todos os absurdos que já vira na vida, aquela situação era de longe a mais estupidamente irreal de todas. Já ouvira falar de fantasmas e almas penadas, mas ela estava ali, em carne e osso. Ou seria apenas uma sensação tátil e não estava mais no plano terreno? Era estranho, já que lembrava-se de estar respirando da primeira vez que acordou. Ofegara, sentira falta de ar e tudo o mais. Acordar e morrer novamente era simplesmente inacreditável e não fazia sentido suficiente para que aceitasse. Talvez, pensou ela, não tivesse morrido no acidente de carro. Talvez fosse tão burra que batera a cabeça no teto e só então perdera a vida. E se tivesse morrido no acidente? Imaginou que provavelmente estaria em um limbo, destinada a sofrer por centenas de anos, lidando com aquilo, indo e voltando, vivendo e morrendo de novo e de novo. Para ela, a mais plausível das possibilidades.

 

Não fora a melhor pessoa do mundo e não era religiosa, mas nunca fora má. O que fizera para merecer esse tipo de fim? Pensou nos pais e em como eles estariam se sentido. O que a mãe acharia se soubesse que havia ido para o limbo? Não tinha muitos amigos, mas se perguntava o que as pessoas a sua volta estariam sentindo naquele momento. Será que deixariam recados no seu mural na internet? Ou levariam flores e ouviriam músicas que as faziam lembrar-se dela?

 

Será que estavam tristes? Ou será que não se importavam, achando que não faria diferença alguma? Imaginou se os colegas de classe repapariam na sua ausência.

 

Talvez nem estivesse morta, pensou ela, com um sorriso louco perpassando em seu rosto.  Aquilo poderia ser apenas um daqueles sonhos estranhos em que você não consegue se mexer. Voltou a chorar e balançar a cabeça em recusa. Aquilo simplesmente não podia ser verdade. Deveria existir alguma explicação plausível.

Por mais que seu coração estivesse imóvel, nada a impedia de sentir uma dor perfurante nele. A garganta e o peito ardiam enquanto soluçava, mas ainda assim, respirar surtia tanto efeito quanto pílulas de farinha e açúcar.

 

Começou a pensar nas coisas que nunca faria caso realmente estivesse morta. Nunca iria para a universidade ou viajaria para outro país. Nunca teria uma família ou veria a sua novamente. Nem andaria de mãos dadas com algum garoto bonito de calça xadrez. Sentiu-se estúpida ao pensar que também nunca iria a um show do Weezer. A não ser que virasse uma alma-penada, passeando por aí. Se fosse assim assistiria ao show que quisesse, e de graça.

 

O som dos passos a tirou de seus devaneios. Apurou os ouvidos para tentar escutar melhor.  O que deveria fazer? Chamar atenção para que a tirassem dali? Mas estava morta e provavelmente aquele nem era o mundo em que vivera. Não tinha como imaginar a reação de alguém se a vissem.

 

Não precisou tomar nenhuma atitude, pois o som das gavetas se abrindo de uma em uma foi se aproximando. Pof, pof, pof, faziam elas com força. Imaginou os corpos dos mortos balançando dentro delas ou caindo no chão. Apertou os punhos e esperou pelo momento que sua própria porta abriria. O barulho estava cada vez mais perto agora. Lorena soltou um grito quando a gaveta abriu e seus olhos cegaram com a forte luz que a atingiu.

 

Esfregou os olhos tentando enxergar. A primeira coisa que viu quando a visão se focou, foi uma cabeleira escura a encarando. Depois de tudo o que passara, só conseguia pensar no lençol branco que cobria seu corpo nu contra a visão do garoto. Única proteção existente. “Obrigada lençol, não preciso de mais vergonha agora que estou morta.”

 

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...