Desmortos

Desmortos conta a história de Lorena, uma garota que sempre desejou ser invisível e que não gosta do que acontece quando o seu desejo é brevemente atendido: ao ser atropelada e morrer. Aquilo que supostamente seria o fim de sua vida acaba se tornando o começo de uma jornada muito mais complicada do que poderia imaginar: ela se tornou um zumbi e acorda numa gaveta de necrotério.

Contudo, ela não estará sozinha nessa jornada, Lucas, um garoto fantasma irá guiá-la através desse admirável mundo novo onde os restaurantes possuem um cardápio especial para os sem vida, vampiros gostam de pantufas e uma república abriga aqueles perdidos entre o mundo e o Mais-Além.

Lorena será jogada numa arena no Limbo, obrigada a enfrentar criaturas de todos os planos de existência e ainda encontrar um jeito de fugir. E como se isso não fosse o suficiente ela irá descobrir que existe um pouco de vida após a morte.

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3. Sobre a parte boa de ser um fantasma

Nem fazia ideia de onde tirara a habilidade para abrir fechaduras, mas ser um fantasma tinha vantagens óbvias. Aprendeu rapidamente a interagir com objetos físicos e podia abrir trancas facilmente com essa faculdade. Não que precisasse abrir as portas ou janelas, já que podia simplesmente atravessá-las, mas precisava fazer isso para tirar a garota dali.

 

Ouvia-a gritando na sala seguinte enquanto checava o alarme. Havia um guarda, dormindo, mas com o escândalo ele provavelmente não seguraria o sono por muito tempo. Entrou no que gostava de chamar de frigorífico de presuntos. Perdera um pouco da graça agora que era um fantasma, mas o apelido ainda agradava. Já o visitara quando seus pais morreram, quando a esposa do irmão morrera, quando o melhor amigo morrera. Praticamente morava no necrotério. E não era má ideia, afinal, precisava de um lugar para ficar e assombrar.

 

A garota estava quieta agora. O local cheirava a ferro e estava impecavelmente limpo. Abriu as gavetas enfileiradas pela parede, tentando adivinhar em qual delas a menina estaria. Flávia, o anjo da morte que lhe dera a informação, poderia ter sido mais direta e simplesmente lhe dito qual das gavetas, pensou Lucas.

 

Cada uma delas exigia concentração para conseguir tocá-la e cada erro lhe presenteava com uma visão pior que a outra. Costuras grosseiras, membros perdidos, olhos vidrados. Nunca gostara de ver sangue ou coisas mortas e o cheiro daquele lugar começou a deixá-lo enjoado. Talvez assombrar o necrotério não fosse uma boa opção no final das contas.

 

Foi quando escutou um grito esganiçado ao abrir uma das gavetas que soube ter acertado. Isso e o fato de o lençol não cobrir todo o corpo da garota, que estava sentada e olhando-o diretamente nos olhos. Eles se encararam por vários segundos e caso tivessem fôlego para segurar, o teriam feito. A verdade é que Lucas mal reparou que ela estava seminua, só ficou momentaneamente paralisado pelo fato de ter sido visto por alguém.

 

E dando-se conta da indelicadeza, cobriu o rosto com as mãos.

 

— Me desculpe, juro que não foi intencional — balbuciou ele, olhando para trás. Deu uma espiada para garantir que ela havia se coberto decentemente antes de virar.

 

Da última vez em que havia visto uma menina nua, tinha cinco anos de idade e levara um tapa no rosto. Sem contar que a menina era sua prima.

 

A garota se encolheu e cobriu o corpo, olhando em volta com os olhos apertados e parecendo muito confusa.

 

— O que diabos está acontecendo? — perguntou ela com os olhos molhados e a voz fraca.

 

Teve pena dela, mas sentia-se extremamente constrangido quando alguém o fitava, mesmo naquela situação — e o fato de ela estar praticamente pelada também tinha sua parcela de culpa. Nunca conseguia tirar da cabeça que o estariam julgando ou que o achavam esquisito quando o encaravam daquele jeito. Nunca tivera um pingo de autoestima e nem sequer tinha uma mãe para lhe mentir e dizer que era bonito.

     

Lucas desviou o olhar pensando na própria aparência. Absurdamente magro e ainda por cima alto, o que lhe dava uma aparência de desengonçado.  O cabelo preto que ficava desgrenhado não importando o que fizesse. Uma argola no canto esquerdo da boca e os alargadores pretos. Lembrou-se imediatamente da menina que estudara com ele que sempre dizia que Lucas morava eternamente em 2006 com suas roupas de adolescente alternativo.

 

Sua cara de fantasma era ainda mais pálida do que fora quando ainda tinha um corpo. Gostava do fato de não ser transparente, pois achava aquilo idiota — estúpido e clichê de cinema barato. Queria ter escolhido outra roupa no dia fatídico em que resolvera desencarnar. A blusa de manga comprida e listrada de preto estava desbotada. Começou a enjoar do cinto de taxas e da calça apertada com All Stars.

 

Ele voltou a olhar para a garota que ainda aguardava resposta.

  

— Não sei bem — disse ele, apressando-se. — Mas sei alguém que pode ajudar, me ajudou.

 

— E o que é você? Isso é o inferno ou algo assim?

 

De todos os insultos que Lucas podia imaginar, ser comparado a um demônio, mesmo que sem querer, era definitivamente o pior deles.

 

— Não, tá louca? É só o necrotério.

  

— O quê?

 

Lucas conseguiu dar uma boa olhada na etiqueta presa no pé dela antes que ela se levantasse com o lençol enrolado em volta do corpo e começasse a andar pela sala. Lorena Carvalho. Achou que ela estava em ótimas condições para um zumbi que morrera atropelado.

 

— Você está morta — disse Lucas, apenas para se certificar de que ela já havia percebido isso.

 

Ela o encarou e revirou os olhos.

 

— Não tenho sinais vitais e acordei em uma gaveta de metal. É, acho que percebi que estou morta. Mas quando acordei eu ainda estava respirando.

 

Tentou ignorar a agressividade na voz dela e lembrou-se que ela estava apenas acordando agora. Não era fácil descobrir que você não tem mais nada pela frente.

 

— Me disseram que você é um tipo de zumbi — disse ele. —Ainda tem o seu corpo. As pessoas podem te ver como se estivesse viva e tudo o mais.

 

— Você está me dizendo que sou um zumbi? E o que é você por acaso? Eu também estou te vendo.

 

— Eu sou só um fantasma, igual a qualquer outra pessoa que morre e continua na Terra. Nada muito emocionante.

 

Lorena começou a rir. Perguntou-se se era um dos estágios do luto. As risadas provavelmente eram sinais de que estava saindo do estágio da negação para o de raiva.

   

— Então você está me dizendo que eu sou um zumbi e você é um fantasma? — ela soltou um misto de bufada com riso — Você só pode estar tirando com a minha cara. Essa é a coisa mais imbecil que já me disseram. Se você dissesse que estamos, sei lá, na recepção do Céu, eu teria até pensado em acreditar. Até parece! Zumbis e fantasmas! O que vem depois? Fadinhas?

 

— Lorena... — disse ele bem baixo — Acho que você deveria parar de gritar. Tem um—

 

— Eu vou parar de berrar quando eu quiser parar de berrar, moleque besta!

 

Lucas estacou onde estava, apontando para a porta. Moleque besta era muito melhor do que metade das coisas das quais tinha sido chamado na escola. Mas naquele momento em particular estava mais preocupado com os sons de passos apressados se aproximando.

 

A porta se abriu com violência e teve poucos segundos para registrar o guarda de arma em punho, disparando involuntariamente com o susto.

 

A bala atravessou o corpo de Lucas e foi se alojar exatamente na testa de Lorena. Ela cambaleou vários passos para trás, levando a mão à cabeça com horror.

 

— O que diabos você está fazendo? – gritou ela para o homem.

 

Não houve resposta alguma do guarda. Estava em choque. Lucas não sabia se pelo fato de ter atirado em alguém  ou se era por esse alguém ainda estar de pé.

 

Ele olhava fixamente para Lorena que o olhava de volta com uma expressão de quem iria começar a gritar novamente.

 

— Acho que ele está em choque – observou Lucas, poucos segundos antes do homem desabar no chão, desmaiado.

 

— Porque ainda estou viva? — perguntou ela, com o dedo no furo da bala, passando a ignorar o guarda e se olhando no reflexo de uma das gavetas. Um filete de sangue escorrendo pelo furo.

 

— Mas você não está viva – respondeu Lucas.

 

— Oi, eu sou um zumbi! Tiros na cabeça me matam!

 

— Você não é um personagem de The Walking Dead, Lorena. É só uma coisa que não está nem viva nem morta.

 

— E como você sabe meu nome?

 

— A etiqueta enorme no seu pé responde a pergunta?

 

Lucas se aproximou do guarda que continuava com o braço esticado segurando a pistola. As pernas dele tremiam.

 

— Deveríamos sair daqui antes que ele volte a si.

 

Lorena o ignorou e se agachou, arrancando a etiqueta do pé e rasgando em milhares de pedaços. Lucas deu de ombros, segurou o braço dela e a arrastou para fora do dali. Ela murmurou e praguejou durante todo o trajeto.

 

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