Desmortos

Desmortos conta a história de Lorena, uma garota que sempre desejou ser invisível e que não gosta do que acontece quando o seu desejo é brevemente atendido: ao ser atropelada e morrer. Aquilo que supostamente seria o fim de sua vida acaba se tornando o começo de uma jornada muito mais complicada do que poderia imaginar: ela se tornou um zumbi e acorda numa gaveta de necrotério. Contudo, ela não estará sozinha nessa jornada, Lucas, um garoto fantasma irá guiá-la através desse admirável mundo novo onde os restaurantes possuem um cardápio especial para os sem vida, vampiros gostam de pantufas e uma república abriga aqueles perdidos entre o mundo e o Mais-Além. Lorena será jogada numa arena no Limbo, obrigada a enfrentar criaturas de todos os planos de existência e ainda encontrar um jeito de fugir. E como se isso não fosse o suficiente ela irá descobrir que existe um pouco de vida após a morte. Curta a fanpage! Facebook.com/livrodesmortos

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4. Onde Lorena descobre que não precisa ter medo de armas de fogo

Onde Lorena descobre que não precisa ter medo de armas de fogo

 

 

Foi arrastada pelo garoto de cabelos negros e piercing no lábio por toda a pequena construção que era o necrotério. Reconheceu onde estavam quando chegaram à rua. O necrotério ficava em uma casa pequena em uma área mais afastada do centro de Balneário Camboriú. Lembrou-se de que a universidade ficava por perto. Universidade esta em que nunca entraria.

Era noite e não havia ninguém em volta. Aquela área era um abandono nas madrugadas e os carros só passavam por ali para chegar à rodovia. Ou a algum dos inúmeros motéis baratos. Lorena parou na calçada e ajeitou o lençol para ter certeza que ele cobria todo seu corpo. Nessas horas gostaria de ter sido um pouco mais feminina e de ter ido mais à praia. Provavelmente teria aprendido a amarrar um pano em volta dela como se fosse um vestido. Algumas pessoas podiam pegar retalhos e os transformar em bolsas, saias chiques ou lenços. Para ela, que nem fazia ideia para que servia blush, os panos multiuso eram um grande mistério. 

            — Deveríamos achar algum lugar para você ficar e algo que possa vestir. Depois vamos até a Flávia — disse ele, olhando de esguelha para a porta do necrotério.

            — Onde você mora? — perguntou ela.

            O garoto deu de ombros.

            — Não faz diferença, ninguém pode me ver ou ouvir. Mas você, além de poder ser vista, tem a mesma aparência, podem te reconhecer.

            Ele tinha razão. Caso ficasse naquela situação por mais tempo, precisaria se disfarçar, não que conhecesse pessoas suficientes para que isso acontecesse rápido. Ela sabia o lugar perfeito para se esconder.

            — Sei onde podemos ir. É a casa da minha tia, ela trabalha na Europa, vai ficar lá o mês inteiro. — “A não ser que ela venha para meu funeral, e se ela não vir eu vou ficar muito revoltada”, pensou ela.

            Lucas simplesmente virou o rosto para a rua sem dizer nada. Teve que admitir que ele era bonito. Afinal, estava morta, não velha. E o fato de ele ser tão quieto era uma vantagem. Pelo menos não precisaria ficar interagindo socialmente.

            — Qual o seu nome? — perguntou ela. — Por que você veio até aqui me ajudar?

            Ele tentou chutar uma pedra no chão e o pé simplesmente atravessou a rocha. Colocou as mãos nos bolsos, ainda olhando para o chão.

            — Lucas — respondeu simplesmente.

            — Quem é essa Flávia?

            — Um anjo da morte — respondeu ele. — Mas, deveríamos sair daqui. Explico mais depois.

            Ela concordou e começou a andar. Não estavam muito longe, em vinte minutos de caminhada deveriam chegar. Pegaria um caminho mais escuro e abandonado para evitar ser vista daquela forma, passando pelas diversas ruazinhas entre os blocos. A cidade estava calma naquela noite. Nenhuma festa em volta, nenhum grupo de amigos, nenhum carro com música alta. Era outono e aquela época do ano era agradável, apesar do frio que começava a fazer. Desviou de algumas poças e andou pelo asfalto durante parte do trajeto. A calçada ali estava totalmente quebrada e não queria sujar os pés na lama. Em determinado ponto atravessou a rua para não passar em frente ao motel, sempre apinhado de prostitutas na frente.

Foi só depois de dez minutos de caminhada que se lembrou de que não tinha as chaves e estacou no local. Lucas, que andava atrás dela, atravessou-a. A sensação foi idêntica a passar por baixo de uma queda de água, porém ele não era frio como imaginou que seria. Lucas se virou para fitá-la.

— O que foi? — perguntou ele.

            — Não tenho as chaves.

            — Você não precisa de chaves. Tem alarme na casa?

            — É um apartamento. Tem sim, mas eu sei o código.

            — Não tem problema. Eu consigo abrir a porta. Aí você corre e digita o código do alarme.

Lorena não se moveu. Acabara de levar o dedo até a ponte do nariz para ajustar os óculos, que por acaso não estavam ali. Deu de ombros, resmungou uma resposta e voltou a andar. Mesmo com seis graus de astigmatismo, estava enxergando perfeitamente. Pensou em milhares de perguntas que poderia fazer, mas ficou calada. Não sabia até onde ele estava disposto a conversar. Lembrou-se de que ele não respondera quando perguntou por que ele a havia ajudado. Queria saber o motivo de ter virado um zumbi e o que aconteceria agora que seu corpo sumira do necrotério. Procurariam pelo corpo dela? Certamente não iriam acreditar no guarda quando ele dissesse que a vira andando e sobrevivendo a um tiro. Levou a mão na testa e tateou em busca do furo da bala. Não encontrou nada. Apenas um pouco de sangue já coagulado.

            Lucas, reparando nela, comentou:

            — Você vai regenerar sempre que se machucar. Mesmo que queimem o seu corpo, você vai voltar. Estilo Jason.

            Lorena abriu a boca para fazer um comentário, mas ele a interrompeu continuando sua linha de pensamento:

            — E antes que você faça algum comentário idiota, não, você não é um vampiro.

            — Precisava ser tão babaca?

            — Eu fui babaca? — perguntou ele. — Desculpa, eu nem reparei.

            Achou que ele estava sendo sarcástico, mas a expressão de inocência no rosto dele indicava que ele realmente não percebera a forma como falara. Talvez fosse a falta de interação com pessoas, e até agora não a fitara nos olhos nenhuma vez.

            Andaram em silêncio até chegarem ao prédio. Lorena agradeceu que não havia portaria ali. Lucas abriu a porta do hall de entrada com um pouco de dificuldade. Subiram pelo elevador e entraram no apartamento da tia.

            Depois de digitar o código do alarme, Lorena se deixou cair no sofá da sala. O apartamento era pequeno, mas aconchegante e muito bem decorado. Uma das paredes era roxa e as almofadas do sofá eram de patchwork, cada uma de uma cor. Havia um grande aparelho de som ao lado de um vaso de bambu da sorte de mentira, já que a tia nunca estava em casa para cuidar das plantas. A parede oposta estava repleta de quadros e havia um velho pôster amassado do The Strokes, quase caindo.

            Lucas se sentou no tapete em silêncio, fitando a estante de livros que ficava acima da televisão e correndo os olhos por tudo. Talvez, pensou Lorena, ele estivesse pensando no tempo que tinha para ler todos os livros que quisesse. Foi com esse pensamento na cabeça que adormeceu.

 

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