Eva Maldita

Eva é a personagem principal desta história. Esta jovem sempre se sentiu diferente. Desde pequena que estranhos e enigmáticos sonhos a aterrorizavam noites a fio. Na adolescência apresentava características que a afastavam do resto da sociedade: é que Eva por vezes tinha momentos em que ficava em stand-by, não falava, não ouvia, ficava simplesmente desligada. Agora está prestes a descobrir quem realmente é, mais uma vez sozinha. Como irá ela lidar com a sua nova situação?

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1. Sonhos ou Pesadelos?

 

 

- O sonho é sempre o mesmo, doutora. Estou numa sala vermelha, com 10 portas, todas iguais, brancas, e alguém me diz que tenho de escolher uma delas, e entrar. Depois eu escolho e…

- E?

-E acordo assim que a abro.

- Não consegue ver o que está para além das portas?

-Não

-E faz alguma ideia do que seja?

-Não.

- Eva, não tem de dar tanta importância a esses sonhos. Eles podem até ser uma recordação, e por isso não tem de se preocupar tanto com esse facto.

- Mas estes sonhos acontecem todas as semanas! E se não forem uma recordação? Se forem algo importante?

- O que quer dizer com isso?

- Não sei, podem ser um aviso ou uma missão para mim…

- Eva, o máximo que esses sonhos podem ser é um desejo seu e, essas portas, pense no que elas podem representar!

- Um desejo? Com portas? O quê, acha que eu quero ser arquitecta?

- Eva, vá para casa e aproveite essas férias para fazer uma viagem. Vá para um sítio calmo, tranquilo, com sol todos os dias. Descanse e aproveite para reflectir sobre tudo o que lhe tem acontecido nos últimos tempos.

*

- Foi só isso que ela disse? Para descobrires o que representam as portas?- Perguntou Rita interessada.

- Sim. E para ir viajar, descansar para um sitio calmo. Como se eu pudesse viajar numa altura destas!

-Bem, lá nisso, a psicóloga tem razão. Já faz bastante tempo que não tiras umas férias para ti…

- Eu tive férias pelo Natal!-Respostou Eva.

-Claro, mas que grandes férias. Ir para a terrinha fazer rabanadas e essas tretas todas do Natal, com a tua avozinha a dar-te conselhos emocionais! Isso acaba com qualquer pessoa!

- Sim. A quem o dizes… Mas também, que destino posso eu escolher, calmo e tranquilo, para duas semanas de férias?

- Oh, qualquer sítio é bom para lavar a alma!- Disse Rita cantarolando inspirada.

- Que profunda! Vou-me embora!- E saiu ainda indecisa quanto ao que iria fazer. Por um lado, umas férias agradavam-lhe mas Eva não queria sair da sua casa, o único sitio de facto calmo e tranquilo para ela. A insistência dos malditos sonhos que ocorriam cada vez mais frequentemente, eram também uma boa razão para Eva se manter em casa, sossegada e segura.

Eva não se lembrava de quando tinham realmente começado aqueles sonhos. Sempre se lembrava de os ter. Em criança não lhes ligava muito, até porque não eram pesadelos. Em que é que uma sala vermelha com dez portas pode assustar? Mas depois na adolescência, Eva começou a dar mais importância ao assunto. Não por preocupação ou medo, mas achava interessante. E gostava de ter aqueles sonhos porque faziam-na sentir-se especial. Como  se a sua vida fosse um filme de aventura e ela tivesse de facto uma missão.

Quando Eva contou à mãe acerca dos sonhos, esta reagiu muito mal. Ficou preocupada mas disse que os devia esquecer. Não lhes dar importância. Uns meses depois, Eva começou a ir ao psicólogo por demonstrar atitudes estranhas. Naquela altura, Eva tinha como que uns ataques e começava a encarnar outras pessoas. Às vezes tornava-se violenta, outras vezes desata a chorar. Quem estivesse ao pé dela naquele momento dizia que era loucura. E foi assim que se desenrolou a adolescência de Eva, a miúda louca.

Pouco antes de entrar para a faculdade, os sonhos acabaram. Em Setembro, quando entrou no curso de Direito em Coimbra, Eva já nem se lembrava desses momentos misteriosos que a faziam ficar temporariamente louca, até há cerca de dois anos e meio quando a sua mãe chegou de uma longa viagem a Itália e tiveram uma conversa séria.

- Eu devia ter-te falado disto logo quando o teu pai morreu, mas… Pensei que se não soubesses de nada, isto não teria impacto na tua vida. Oh, mas eu devia ter percebido logo, quando começaste com aqueles pesadelos e é claro que tu serias afectada, afinal de contas tu és igualzinha ao teu pai…- Disse a mãe com uma expressão triste no rosto.

- Eu não estou a perceber Mãe. O que é que sabe dos meus sonhos? E o que é que isso tem a ver com o Pai?- Eva estava já confusa como se adivinhasse que estava prestes a receber uma noticia que mudaria a sua vida.

- Quem me dera ter tido um marido normal, uma filha normal, oh uma vida normal… Eu não me arrependo porque a verdade é que o amava pelo que ele era, sabes que sempre gostei da extravagância…

- Mãe, fala de uma vez! Estás a deixar-me preocupada! O que é que tinha o pai afinal? Era alguma doença?

- Não, meu amor, não era uma doença. Era um dom. Pelo menos era o que ele lhe chamava, eu via-o como uma maldição enviada por Deus. Oh, mas ele gostava realmente do que fazia, eu por outro lado ficava aterrorizada quando aquilo acontecia…

-Aquilo o quê? E que dom era esse afinal? Eu tenho-o?- Perguntou Eva curiosa e ao mesmo tempo confusa.

- Eu não to posso contar, minha querida, não posso. O teu pai deixou bem claro que o descobrisses por ti própria.

- O quê? Espera, tu vieste de Itália para me dizeres que tenho um dom, mas que não podes dizer qual é?- Eva estava agora enraivecida com a mãe. Primeiro largava-lhe a bomba assim da história da sua vida e recusava-se depois a contar-lhe o resto.

- Foram ordens do teu pai desde que tu nasceste, meu amor. Se um dia lhe acontecesse alguma coisa, que nunca te falasse acerca do teu dom antes de tu o descobrires. Ele próprio teve uma dura luta até perceber realmente que tinha aquelas capacidades, mas tu minha querida, eu tenho medo do que possa acontecer contigo…

- Então porque não me dizes de uma vez por todas o que se passa comigo? Acabava-se a luta e tudo em mim voltava ao normal!

- Oh filha, normalidade é coisa que tu nunca vais ter, e muito menos quando descobrires o teu dom! Daqui a três semanas fazes anos e eu voltei para estar contigo nesse dia. Nesta nova etapa da tua vida, meu amor!

- Pois mas foi uma viagem falhada. Qualquer que seja o meu dom, ele vai ter que esperar porque eu vou tirar umas férias. E parto já amanhã!

- O quê? Mas tu não ouviste o que eu te disse? Não podes ficar sozinha numa altura destas! Tu não fazes ideia daquilo por que vais passar, meu amor, não fazes! Eu não to vou dizer porque sinceramente ainda me resta uma pontinha de esperança que não o herdes do teu pai! Apesar de todos os pesadelos e…

- Não eram pesadelos, mãe. Eram apenas…

- Portas brancas numa enorme sala vermelha, eu sei. E quando conseguires ver o que está para além delas, aí serão pesadelos.

- Mas eu nunca te falei deles, tu nunca quiseste saber, como é que…

- Está tudo a repetir-se, meu amor. Eu já te disse, tudo pelo que estás a passar, o teu pai já passou pelas mesmas coisas. E eu passei com ele, e é tudo tão igual que nem parece realidade.

- A psicóloga disse-me para tentar descobrir o que está para além das portas mas eu nunca chego a ver.

- Ela sabe bem o que está para além das portas, a Dra. Varela, o teu pai contava-lhe o que via. Foi ela que o acompanhou nos primeiros anos dele nesta aventura.

- A Dra. Varela sabe de tudo? Ela sempre desprezou os meus sonhos, ainda hoje me disse para não lhes dar tanta importância! Como é que é possível, todas as pessoas em quem eu confiava mentirem-me desta maneira?

Eva estava perdida e revoltada. A psicóloga havia sido a sua maior confidente desde a sua adolescência, contara-lhe até coisas que não havia confiado a Rita. E a sua própria mãe, embora nunca tivessem sido assim tão próximas, não esperava de maneira alguma que lhe tivesse escondido um segredo destes durante toda a sua vida.

- Ninguém te mentiu, Eva. Estávamos a proteger-te, não podias saber da verdade tão novinha. Nós queríamos que tivesses uma vida o mais normal possível…

- Então é isso a que chamam protecção? Deixarem-me falar dos meus sonhos como uma maluquinha incompreendida sem sequer me darem importância? É o que eu vejo quando relembro a minha adolescência: uma miúda cheia de olheiras com ataques esquizofrénicos!

- Não eram ataques esquizofrénicos, meu amor…

- Obrigada por mo esclareceres agora! Mas já tinha chegado a essa conclusão há uns minutos atrás.

Eva foi a correr para o quarto. Pegou na sua mala de viagem, abriu o armário e tirou toda a roupa que via, amachucando-a na mala. A mãe de Eva foi atrás dela preocupada. Estava já a chorar e temia agora as decisões que a filha poderia tomar.

- O que é que estás a fazer, Eva? Não te podes ir embora numa altura destas, já te disse. Eu sei que estás chateada, mas tens de ficar comigo para que eu te possa ajudar. E a Dra. Varela, ela…

- A psicóloga disse-me para fazer uma viagem! Provavelmente vocês têm opiniões diferentes sobre tudo isto, não? – Eva tentava fechar a sua pequena mala que lhe oferecia resistência depois de tanta roupa apinhada.

- Ela acha que tu deves passar por tudo isto sozinha, mas eu não penso assim, meu amor! Eu vi o sofrimento do teu pai, tu precisas de alguém ao pé de ti. Não a ouças mais, Eva, o teu pai deixou de a consultar porque…

- Seja como for não vou ouvir nenhuma das duas! Não quero saber o que vocês pensam! Ela queria que eu fosse para um sítio calmo… Pois bem, vou hoje mesmo para Barcelona. Quero barulho, pessoas, tudo menos tranquilidade!

- Tudo bem Eva, se queres sair daqui, eu vou contigo. Vamos as duas viajar, estaremos longe daqui quando tudo acontecer, meu amor.

- Mãe, desculpa, mas a ultima pessoa com quem eu quero estar neste momento, és tu. Nunca ninguém quis saber disto durante os últimos dez anos, não foi? Pois agora, sou eu que não preciso de ninguém. Vou para Barcelona divertir-me, e quando o tal dom vier ter comigo, eu estarei à espera dele, sozinha. Como sempre estive.

E dito isto, Eva saiu com a sua mala prestes a rebentar. Chamou um táxi para a levar ao aeroporto onde escolheria o seu destino. É claro que não iria para Barcelona, não depois de o ter dito à sua mãe. Conhecia-a o suficiente para saber que iria logo ter com ela. E no meio de tanto drama no seu discurso, havia também alguma verdade. Ela queria realmente estar sozinha.

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