Submundo

Narra a estória de um rapaz morador do subúrbio carioca que trabalha com informática e precisa realizar uma série de alterações nos sistemas de sua nova empresa. Em pesquisas via internet, ele descobre que os melhores especialistas nas áreas em que ele necessita de ajuda, pertencem ao submundo hacker e essas pessoas são praticamente inacessíveis. Ele consegue fazer contato mas A Polícia Federal está no encalço de todos e nosso protagonista "dança junto". Eles começam a trabalhar para um grupo secreto do submundo do governo brasileiro, recuperando dinheiro desviado por políticos desonestos através de infiltração nas instituições bancárias. A PF oficialmente não sabe de nada e coloca toda sua equipe de peritos no encalço dos mesmos. O banco lesado contrata consultorias externas para procurá-los. Os políticos e seus asseclas os caçam para eliminá-los. O submundo cria um grupo especial de agentes extremamente letais para protegê-los. Em pouco tempo, cria-se um caos.

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6. A seleção

Dentro da base

 

Smoke pegou no canto da sala a caixa de papelão com o resto do material que estava a seu dispor. Logo acima da primeira caixa, havia um envelope com o seu nome do lado de fora. Era a costumeira organização militar da base. Ali continha o cartão de acesso a seu alojamento e uma lista de locais onde ele já estava com acesso para entrar livremente. Havia também uma curta lista de ramais, os horários determinados para refeições, uma breve lista das atividades dos dias seguintes e a data marcada para a saída da base.

Smoke só pensava em comer algo. Resolveu deixar todas as coisas no seu quarto, trocar de roupa e seguir para o alojamento. O problema é que seu quarto era bem distante daquele local e em outro nível. As caixas estavam pesadas mas ele não tinha alternativa.

— Esse Havoc é um bom de um filho-da-puta, poderia ter deixado tudo isso já no meu quarto. Duvido que não tenha feito de propósito.

 

Entre caminhadas e elevadores, já haviam se passado quase 10 minutos até que finalmente conseguiu chegar em frente ao seu quarto. Repousou as caixas no chão, abriu o envelope e sacou o cartão magnético para abrir a porta. O quarto estava escuro. Era pequeno e apertado. Possuía uma cama de solteiro com lençol branco esticadíssimo, uma coberta também branca dobrada embaixo do travesseiro e um edredom amarelo enrolado em forma de charuto. Em frente um computador repousava em uma pequena bancada com pouco menos de dois metros de largura. Smoke voltou, pegou as caixas e as colocou na bancada. Afastou a cadeira, sentou-se, ligou o micro e viu o diminuto banheiro com uma privada, uma pia e um chuveiro. A idéia de tomar um bom banho ficou atraente.

Na parede acima do computador, havia uma estante vazia com apenas algumas garrafas de agua mineral. A estante também poderia ser preenchida com os livros emprestados da biblioteca local. Smoke se recordou dos seus tempos de aluno ali. Foram anos difíceis mas que o libertaram.

Abriu o armário e lá contavam algumas poucas roupas do enxoval da base. Desde as destinadas a práticas de esporte, até as do dia-a-dia e as de dormir. Smoke se lembrou que ao estar na base, que deveria seguir os horários do lugar. Todas as atividades eram controladas e a presença em cada uma delas era obrigatória. Seu nome estava bordado nas roupas ao lado do termo HC4, que determinava que ele era um Hacker de Campo Nível 4. Os níveis começavam com vinte e decaiam até o nível zero. Smoke nunca tinha conhecido ninguém menor que o nível três, embora soubesse que eles existiam e estavam ali na base.

Ele pendurou sua roupa em um cabide e aproveitou para tomar um banho e fazer a barba. Colocou a roupa padrão, que consistia em uma calça jeans clara com vários bolsos e uma camiseta branca. O cinto era preto e o tênis preto do tipo de corrida. Tudo bem prático como ele já sabia. A calça tinha um bolso específico na perna para colocação do cartão magnético.

Fechou sua porta e foi em direção ao refeitório. Queria não somente comer algo quente mas também levar alguns biscoitos para seu quarto, teria um longo trabalho pela frente e gostaria de ganhar tempo.

Chegando lá, parou na porta e passou seu cartão de acesso. Um catraca foi liberada enquanto um segurança olhava para seu nome no peito e o nível. Embora o local estivesse bastante movimentado, haviam pessoas de todos os níveis mas nenhum HC4. Isso fez com que Smoke acabasse por chamar a atenção de muitos dos que estavam ali. Quanto menor o nível, maior o conhecimento daquela pessoa. Nesse ponto a base não brincava. Não existiam favorecimentos. Não existiam apadrinhados. Alcançar aquele nível era sinal de que havia estudado muito e trabalhado bastante em campo. Muitos do que ali estavam nunca tinham ido a campo. Ele era visto como um veterano de guerra em um acampamento de escoteiros.

Smoke pegou a bandeja de alumínio e foi para a fila. Pegou quatro fatias de pão, uma bela porção de ovos mexidos, alguns pedaços de bacon frito e uma garrafa de seiscentos mililitros de coca-cola. Ela já havia se esquecido de como a comida na base era boa e liberada. Podia-se comer a vontade e ele aproveitava.

Sentou-se em um canto vazio do restaurante e começou a montar seu sanduíche quando alguém sentou a sua frente. Ele levantou a cabeça e viu um grande homem negro com uma macha branca no lado esquerdo do rosto mostrando sinais de Vitiligo. A roupa dele era diferente. Sua camiseta era preta e era a única do refeitório. Ele pertencia aos grupos de segurança de campo, os carcaças, que pela doutrina da base, não deveria estar na área dos HC´s. Eles possuíam suas próprias instalações, rotinas e treinamentos específicos. Estava um silêncio total no local. Se já não era estranho ter um HC4 ali sentado, na sua frente estava um carcaça. Até o segurança da entrada estava atento a mesa.

O homem nada falou mas o olhar sério de um para o outro foi aos poucos se transformando em um leve sorrido ate que Smoke engoliu seu primeiro pedaço de comida e falou:

— Cavalo-de-índio, seu filho-da-puta, quanto tempo?

— Porra brother o que é que você está fazendo nessa merda? - Ambos apertaram a mão com um estalo, quase derrubando o refrigerante do Smoke.

— Me chamaram de volta.

— Eu te vi passando no corredor e não acreditei. Eu pensei que você nunca mais fosse voltar depois do tempo que ficou fora.

Na outra ponta da mesa, quatro lugares ao lado um HC 8, observava fixo o que conversavam. Cavalo-de-índio não pode deixar de perceber. Olhou para o garoto e disse:

— Vaza!

Ele não precisou falar de novo, o menino pegou sua bandeja e saiu para outra mesa.

— Fiquei sabendo que deu merda geral e perdemos toda uma equipe. - Falou Smoke.

— Pois é bicho, eu não conhecia nenhum deles mas ficaram completamente cercados e sabe como é, tem inimigo que você não pode se deixar pegar vivo, senão o sofrimento é muito maior, eles te torturam por causa de dinheiro até o fim. Mês passado resgatamos um assim. Estragado. Ele está no hospital até hoje. Está em coma. Não vale a pena. É melhor você levar um monte contigo e acabar com tudo. Só sei que os comandos lá estão muito putos. Eles falaram que o nível na arena vai subir porque a última leva não saiu boa.

— Vai ver é por isso que me chamaram. Espero que eu participe da seleção e depois me mande pra rua. Eu não tenho mais saco de ficar dando aula. Essa molecada é boa mas estou ficando velho pra isso.

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