Submundo

Narra a estória de um rapaz morador do subúrbio carioca que trabalha com informática e precisa realizar uma série de alterações nos sistemas de sua nova empresa. Em pesquisas via internet, ele descobre que os melhores especialistas nas áreas em que ele necessita de ajuda, pertencem ao submundo hacker e essas pessoas são praticamente inacessíveis. Ele consegue fazer contato mas A Polícia Federal está no encalço de todos e nosso protagonista "dança junto". Eles começam a trabalhar para um grupo secreto do submundo do governo brasileiro, recuperando dinheiro desviado por políticos desonestos através de infiltração nas instituições bancárias. A PF oficialmente não sabe de nada e coloca toda sua equipe de peritos no encalço dos mesmos. O banco lesado contrata consultorias externas para procurá-los. Os políticos e seus asseclas os caçam para eliminá-los. O submundo cria um grupo especial de agentes extremamente letais para protegê-los. Em pouco tempo, cria-se um caos.

2Likes
1Comentários
819Views
AA

2. A incursão

Rio de Janeiro, 20 de maio.

Quatro anos antes do encontro no bar.

Sexta-feira. 01:43 AM.

Rua Sete de Setembro.

Centro, Rio de Janeiro.

 

A rua estava deserta como todo o centro da cidade; alguns mendigos dormiam enrolados em seus cobertores e a única coisa que se ouvia era o som distante de algumas buzinas de carro. Chuvia e vários bueiros estavam entupidos, permitindo caminhar somente pelo meio da rua ou pelas escorregadias calçadas de pedras portuguesas. Ludmila caminhava apressadamente em direção a portaria do prédio número 99. Destoava da paisagem sombria e perigosa. Era loira de cabelos na altura dos ombros, corpo esguio e bem cuidado, pêlos dos braços e pernas dourados, branca mas com pele morena revelando seu gosto pelo sol. Usava uma saia curta de um refinado taier branco e uma maleta fina da mesma cor.

Passou direto pelo prédio; andou mais quinze metros e parou sobre um bueiro; mediu com o salto do sapato o intervalo entre as grades; ficou testando até que conseguiu prendê-lo; soltou-o e prendeu novamente. Funcionava conforme fora projetado; virou cento e oitenta graus retornando para a frente do edifício alvo.

Com o rosto coberto pelo cabelo, viu com o olho esquerdo que o vulto sentado ao fundo da portaria, iluminado por sua televisão preto e branca, havia esticado o pescoço para ver aquela mulher que estava passando. Tudo estava prestes e começar. Só havia uma chance de dar certo e dependeria da previsibilidade da natureza humana.

Ela caminhou diretamente à portaria, dando a entender que gostaria de falar algo com o porteiro que prontamente havia se levantado e já se encaminhava para a destrancar o portão principal. Como não atender aquela rara visão noturna?

Assim que ele se aproximou, desatou a falar deixando-o confuso.

— Meu Deus, o que é que faço agora? Estou perdida, tenho que ir embora; saí tarde do trabalho; eu não sou daqui; só sei o nome do hotel; deveria ter ido mais cedo; a rua está cheia de vagabundos; eles falam um monte de besteiras para mim; estou apavorada; tenho que pegar um táxi; preciso de ajuda moço, me ajuda, estou com medo.

— Calma minha senhora calma!

— Estou muito nervosa, o senhor sabe onde posso pegar um táxi?

— Ali na esquina, sempre passa um - calmamente respondeu.

Ela pegou a mão dele e colocou sob seu peito, mas precisamente no seu seio esquerdo que estava sem sutiã. Sentiu que o porteiro gelou e começou a respirar diferente.

— Moço olha como o meu coração está acelerado.

— Dona, só o seu? - Respondeu o porteiro.

— É que estou muito nervosa mesmo, o senhor parece uma pessoa boa, faz um favor para mim?

— Claro, até dois!

— O senhor poderia ficar olhando aqui da calçada, enquanto eu pego um táxi ali na esquina?

— Como assim moça? Eu não posso sair da portaria.

— É só ficar aqui me olhando!

Pegou-o pelas mãos e o levou cerca de dez metros à frente do prédio. Nesse momento ela com o canto do olho, viu que haviam três mendigos deitados próximos a portaria, cobertos com um pano cinza escuro e que um deles acompanhava com curiosidade todo o movimento.

— Aqui moço, fica olhando para ver se eu consigo pegar o táxi lá na esquina.

— Então vai logo que não posso sair daqui - Ele olhou para trás e a rua estava deserta, apenas um leve chuvisco descia quase em forma de brisa, silencioso como tudo em volta. Aquilo o tranqüilizou.

Ela caminhou em direção a avenida Rio Branco, olhando para baixo em busca do bueiro que estava se aproximando e mediu o comprimento da passada de maneira que chegasse com a perna correta. Ao pisar, levou o calcanhar para trás e propositalmente prendeu o salto no bueiro. Começou a se debater tentando retirar o pé preso. Já haviam passados 40 segundos e o porteiro não se aproximava. Vendo que ele não viria, gritou:

— Moço me ajuda aqui, não estou conseguindo tirar meu pé!

— Não posso sair daqui moça, tire o sapato do pé!

— Mas não consigo, venha me ajudar!

— Não posso sair daqui moça, tire o sapato do pé - respondeu mecanicamente o porteiro.

— Me ajuda, vem aqui, e puxe a minha perna!

— Já disse que não posso.

— Puxa minha perna! Me ajude !

— Não poss... - nesse instante a idéia de colocar as mãos nas perdas começou a ficar interessante - …puxar a perna? Vou meter a mão naquelas coxas é agora - e partiu o porteiro em passo acelerado esquecendo de sua obrigação.

Chegando lá, ainda sem acreditar na situação, colocou as mãos nas pernas daquela linda mulher e puxou. Nada acontecia, continuava presa. Puxou dando trancos e cada vez mais as suas mãos subiam. Ele começou a sentir a renda de algo que deveria ser a cinta-liga e aquilo estava deixando-o ofegante, já não fazendo questão nenhuma que o salto saísse do bueiro.

Ela olhando por cima do ombro de seu herói, viu que os mendigos haviam desaparecido e uma furtiva ponta de tecido cinza apressado denunciava a veloz entrada no prédio. Seu trabalho estava terminado. Torceu o pé para a direita e retirou o salto do bueiro. Ela com a roupa desalinhada, se arrumou, agradeceu e foi andando para buscar seu táxi na avenida em frente resmungando algo sobre alguém pagar caro por essa noite.

O porteiro acompanhou a saída do veículo e lentamente retornou para seu local de trabalho com um sorriso no canto da boca e coçando a cabeça ainda sem acreditar. Trancou a porta; olhou mais uma vez para a rua; sentou em seu banquinho, soltou um longo suspiro, olhou os monitores e desligou a televisão. Ainda sentia o perfume suave em suas mãos. Sonhou com sua dama da noite e invejou a todos que um dia a tiveram.

 

Hallcox subia as escadas correndo a frente, seguido por Mr. Fat e Ponytail logo a seguir, que por conta do hábito do fumo, não conseguia o mesmo fôlego dos outros.

Procuravam não fazer barulho. Foram passando de andar em andar e aos poucos diminuindo o ritmo por causa do cansaço e do peso das mochilas. Tinham endereço certo, o nono andar. Estava tudo escuro, e eles usavam pequenas lanternas de led.

O número nove em garrafais letras brancas de uma grande e vermelha porta de incêndio, mostrava que haviam chegado. Ingressaram no andar e fecharam a porta lentamente tomando cuidado para que não fizessem barulho, pois o som oco de uma porta pesada se fechando, percorre vários andares e poderia chamar a atenção.

Logo a esquerda da saída de incêndio estava a grande porta de vidro com a inscrição “Operadora HASP & JES”. Ponytail sacou um grande mole de chaves e abriu a porta deixando os amigos passar. Entrou, e antes de trancá-la foi novamente até a escada para conferir se não tinha ninguém subindo. Escutou atentamente por alguns segundos e só ouviu o silêncio; olhou para baixo e tudo estava bastante escuro. Retornou, entrou na empresa e com dois leves tapas nos ombros de Mr. Fat disse:

— Aos conformes meu amigo. Podemos começar.

Esse retirou uma grande mochila de viagem que trazia as costas, colocou-a no chão, abriu o zíper de uns dos compartimentos menores e sacou quatro ventosas que tinham o tamanho de uma mão. Prendeu-as na parede acima da porta de entrada. Retornou a mochila e retirou um enorme lençol negro de algodão, que possuía em uma das faces um material plástico intransponível pela luz conhecido como BlackOut. Desdobrou o pano no chão e o prendeu nas ventosas acima da porta de vidro. Suspendeu o pano, abriu a porta e foi para o corredor do lado de fora para testar a eficiência do ardil. Estava perfeito. Nenhuma luz passaria para o corredor. Entrou e trancou a porta.

Já transpirando bastante, Mr.Fat correu em direção as janelas e foi fechando todas as persianas. Duas janelas no centro do andar não possuíam persianas mas para elas, ele também trazia panos pretos e suas ventosas.

A cada persiana fechada, mais escuro ia ficando o ambiente e mais difícil fechar a próxima. Mr. Fat estabanado derrubou algumas cadeiras durante a tarefa, irritando a todos, que mesmo em outros andares escutaram o barulho.

Hallcox havia subido para o décimo andar pelas escadas internas da empresa que eram independentes das do condomínio por onde eles haviam entrado. Estava fechando todas as persianas e tapando as janelas centrais da mesma maneira que Mr.Fat. Ponytail com sua baixa estatura fazia o mesmo no oitavo andar com o auxílio de uma cadeira. Os três andares da empresa estavam sendo escurecidos conforme o planejado.

Como combinado, cinco minutos após a entrada pela porta de vidro, todas as persianas estavam fechadas, janelas e portas com BlackOut. Mr.Fat e Hallcox, aguardavam imóveis pela próxima tarefa de Ponytail, ambos estavam com suas respirações alteradas e muito suados. Podiam sentir o coração pulsando na têmpora e a garganta seca. A adrenalina cobra seu preço. Eles não estavam habituados a trabalhos de campo e desde que tiveram contato com Smoke, a vida de cracker ganhou uma nova dimensão.

 

Ponytail foi diretamente no quadro de luz do andar e ligou os disjuntores do circuito elétrico dos computadores. Fez a ligação com cuidado para que não houvesse muito barulho. Hallcox ao ver que a luz de alguns estabilizadores de voltagem acenderem, pegou sua mochila e retirou três embalagens que continham aproximadamente 100 cd’s cada. Começou a ligar todas as máquinas do seu andar, colocando o cd nas unidades antes que o boot iniciasse. Não poderia ver o que elas estavam fazendo, pois assim que colocava o CD corria em direção a outro computador, ligava-o, ejetava a bandeja do cd-rom, colocava o cd, fechava e corria para próxima, tinha 310 máquinas e vinte minutos para completar a tarefa. Seu caminho agora era iluminado pelo fraco brilho das letras brancas em cada monitor. E assim o fez até o oitavo andar onde ficava o datacenter.

Mr. Fat e Ponytail já estavam lá, mais precisamente trabalhando nos poderosos servidores SUN. Eles precisariam de toda aquela rede funcionando e gerando uma capacidade de processamento adequada para quebrar uma importante chave criptográfica privada de outro projeto de invasão. Para isso, nada melhor que trezentos computadores de última geração e servidores de primeiro linha de uma empresa sem a segurança adequada.

Mr. Fat já estava debruçado sobre a máquina preparando o processo de autenticação para ser iniciado somente na hora marcada. 03:15AM, “no encontro dos ponteiros da terceira hora do crepúsculo matutino”, assim estava combinado com Mr. Smoke que da cobertura do prédio em frente, tinha como missão acompanhar o trabalho de seus meninos e ao mesmo tempo vigiar a movimentação na rua.

Mr. Fat estava com o dedo no botão Enter esperando apenas o cruzar dos ponteiros de hora e minuto, todos tinham sincronizados seus relógios com um servidor de hora atômica. Ponytail digitava freneticamente dezenas de comandos, inseria e retirava diversos cd’s do servidor. Hallcox entrou pela sala correndo, pegou outro molhe de chaves com Ponytail e perguntou:

— Qual é o I.P.?

— É 200.223.28.1 – respondeu Ponytail - Tudo certo até agora?

— Sim, tudo ok – respondeu Hallcox

— Beleza, agora é com você. Abasteça nosso amigo lá fora !

— Ok, lá vou eu.

Hallcox abriu a porta de vidro e continuou subindo até o último andar do prédio. Destrancou a porta de emergência que dava acesso ao terraço e abriu-a. Um gélido vento varou-lhe o rosto. Saiu rapidamente e fechou a porta, pois sabia que o deslocamento de ar poderia chegar no térreo e chamar a atenção do porteiro. Andou rápido pelo terraço, olhou os prédios em volta com seus letreiros luminosos; sua pele estava verde em decorrência da luz de um outdoor da Fuji Filmes. O céu estava nublado e o ar lá em cima parecia mais limpo que o normal entrando nos pulmões com um certo prazer. Olhando tudo em volta ele percebia até uma certa beleza naquele mar de prédios vazios. Todos aguardando o amanhecer e o ritual diário de ocupação humana para mais um dia de trabalho. Aquilo se repetia por décadas. Tinha um sentimento que a tecnologia não iria permitir que isso durasse para sempre.

Ao final do terraço, existia uma ponte de escape construída em aço inoxidável que dava acesso ao outro edifício; passou por ela e percorreu todo o outro terraço tomando cuidado para não tropeçar em algum fio ou qualquer outra coisa deixada a esmo. Os telhados não são os lugares mais organizados de um prédio.

Abriu o cadeado que dava passagem de emergência para o outro prédio, ou seja, o segundo prédio depois do que eles haviam invadido. Passou para o próximo prédio percorreu novamente toda a sua extensão e com outra chave abriu o cadeado que dava acesso interno às escadas. Abriu um par de tampas grandes do shaft de luz. Sacou do bolso as anotações de Ponytail e seguindo-as, ligou na caixa de luz o interruptor numero 8 - eles foram para aquela missão sem que tivesse ficado claro como passariam o endereço para Smoke e Ponytail insistia em dizer que aquilo já estava resolvido, que no momento certo ele saberia. Smoke com toda sua discrição iria odiar a surpresa mas nada poderia fazer com o espírito caótico de Ponytail.

 

O outdoor do lado de fora e acima da cabeça de Hallcox iluminou-se e começou a passar uma série de palavras que compunham a frase pré-programada; ele abriu a caixa de comando e jogou sua tampa para trás. Surgiu um pequeno teclado muito similar ao dos antigos computadores TK-85 com um pequeno porém eficiente display de cristal líquido. Entrou no menu interativo do aparelho, limpou a frase e teclou 200.223.24.1. Levantou a cabeça e viu no reflexo das janelas dos prédios em frente que o endereço já estava projetado e piscando a mil efeitos. Programou para que permanecesse apenas por um minuto, depois voltando para a frase inicial. Fechou a tampa, desceu pela escada interna de emergência por quatro andares e caminhou em direção a sala 1512. Abriu-a e deixou a chave do lado de dentro da fechadura, era menos um mole de chave para carregar. Estava preparada a rota de fuga com todo o caminho liberado.

Ao retornar, reparou um pequeno ponto de luz laranja proveniente do terraço do prédio da frente. Um homem vestido de preto, com cabelos grisalhos e desalinhados voando ao vento, estava mexendo com muito afinco em um antena. Tinha um cigarro no canto da boca. Reparou que a antena do prédio em que o estranho trabalhava agora, apontava diretamente para uma antena do edifício que eles haviam invadido. Um notebook parecia estar ligado diretamente na antena.

Aquele vulto só poderia ser o Mr. Smoke. 

 

O Celular de Ponytail vibrou. Era uma mensagem informando que a rede wifi montada por Smoke já estava disponível. Isso significava que ele havia conseguido interceptar a primeira comunicação entre a empresa e o seu provedor no exato momento em que eles trocam chaves para estabelecimento da relação de confiança. Com esse dado eles poderiam enfim, utilizar plenamente os servidores.

Ponytail preparou seu celular para receber o arquivo enquanto também ativava o bluetooth que transmitiria-o para o dispositivo criado por Artur. Como o servidor não possuía entrada usb ou similar, a única opção seria uma unidade de disco de 1.44mb, mas eles não tinham um disco nem uma unidade de gravação. Tinham uma traquitanga desenvolvido pelo Artur que simulava a presença de um disquete no drive através de alguns cabos e um Palm.

Mr. Fat pegou o Palm, e o colocou ao lado do telefone do Ponytail, um Nokia que recebia agora o pacote do Smoke e por bluetooth repassava-o para o Palm que conectado a unidade de disquete de 1.44 , deixava o computador trabalhar com seus arquivos como se fosse de um disquete normal. 

Ponytail montou o disquete e transferiu o arquivo para o terminal central do cluster. Toda essa operação de Palm e celular foi pensada, para fugir do log do firewall que era enviado via serial para outra máquina em uma sala blindada, completamente sem acesso pois o caminho serial era só de ida e não permitia que se apagassem as pistas, por isso era muito importante evitá-las não recebendo o pacote pelo próprio Firewall até que tudo fosse desmontado com o arquivo enviado por Smoke. A partir desse ponto poderiam usar o servidor livremente, pois nada seria registrado e tudo voltaria ao normal quando fosse reiniciado. O firewall estava fora do ar. O caminho estava livre. Mr. Fat, ligou a energia dos switchs. Estava na hora de tomar posse dessa pequena fazendinha de máquinas.

O Terminal Um estava com Ponytail e o DOIS com Mr. Fat. O esforço agora era para saber se todas as máquinas estavam “bootadas” como o previsto. Ponytail rodou o programa especialmente desenvolvido para a ocasião, que apontava quais computadores não estariam respondendo. Começou a falar no celular-rádio os seus respectivos números. Hallcox havia estudado toda essa codificação por dias e tinha agora tudo em mente. Ponytail falou ao telefone:

— “9ctb2” e “8ctr5”.

Hallcox de volta do terraço, correu pelo nono andar em direção a sala da contabilidade, mais precisamente, a máquina número dois(9ctb2). Viu que a BIOS não bootou pelo CD. Rapidamente pressionou CTRL+ALT+DEL, entrou na BIOS, que era uma Awards e setou–a para que usasse o CD como primeiro dispositivo de boot. Reiniciou e percebeu que o CD começara a ser lido. Correu para o oitavo andar, na sala da controladoria quando escutou no telefone Ponytail anunciar que a máquina da contabilidade já havia se integrado a rede. Outras vozes foram ouvidas, era Mr. Fat que anunciava a entrada de cinco outras máquinas. Hallcox continuou sua tarefa de colocar todas em ordem. Por fim Mr. Fat anunciou que de seu range previamente combinado, apenas uma máquina não respondera, a “10inf10”. Ponytail imediatamente entrou na linha e disse que esta máquina realmente havia pifado hoje e que não poderia contar com ela. Hallcox repetiu o processo na sala da controladoria.

Restava agora levantar o Cluster Beowulf, software capaz de faze rum número ilimitado de computadores trabalhar como um só. Isso fugia a compreensão de Hallcox, tinha pouco tempo de Linux quando comparado aos demais, no início ainda conseguiu entender o conteúdo das discussões e acompanhar os comandos mas agora todos estavam exaltados e o que digitavam era de certa forma ininteligível, comandos com parâmetros nunca antes vistos por Hallcox, estavam em um mundo novo. Ponytail e Mr. Fat pareciam estar apostando corrida no teclado, digitavam furiosamente e com pouquíssimos erros, eram mestres mesmos. Uma a uma, as representações gráficas das máquinas dentro do programa de Ponytail perdiam um circulo vermelho. Cada vez que isso acontecia ele sorria e falava:

- Menos uma gordo !

Mr Fat, fazia de conta que não escutava e continuava entretido em seu trabalho. Ponytail sabendo que ele não gostava, insistia em chama-lo de gordo, só parou quando distraído recebeu um tapão na cabeça que quase levou-o a morder o monitor.

Smoke anunciou no telefone o fim com um simples gemido:

— Acabei.

Logo a seguir Mr. Fat anunciou:

— Eu também.

E antes que ele terminasse Ponytail disse:

— Consegui. Finito !!!

Todos pararam e desligaram seus monitores.

Gritos foram ouvidos na rua. Hallcox correu para a janela e levantou apenas uma pequena parte da cortina para olhar e uma voz vinda do celular-rádio disse:

— Feche esta porcaria de cortina, foi só uma tentativa de assalto. A área está limpa. Continue - era Smoke.

Mr. Fat cuidadosamente começou a dar alguns comandos para validar o serviço. Não estava acreditando muito que aquilo estava certo. Ponytail sentindo a dúvida pediu que ele repetisse mas que ao invés de olhar para o monitor, que olhasse para o switch e suas luzes. Todas estavam apagadas. Mr. Fat levantou a cabeça e pressionou enter. As luzes saltaram de um completa escuridão para um piscar frenético. Era lindo, lembrava uma arvore de natal. 309 luzes piscavam sincronizadas. Estava ativo o Cluster com 309 nodos e 309 gigaflops trabalhando com um único equipamento e grande potência.

 

Mr. Fat desligou o roteador para que o link caísse. Não precisava de internet. Recebeu de Smoke por telefone o sinal de que estava fora do ar e que iria desfazer o gatilho feito dias antes por Arthur na antena.

Ponytail colocou o cd no servidor e copiou o arquivo criptografado para o diretório temporário. Guardou o cd no bolso esquerdo de sua jaqueta. Colocou a mão no bolso direito e sacou outro cd, um vermelho. Inseriu no drive e o copiou o mesmo diretório. Relaxou o braços e disse:

- Seja o que Deus quiser !

Digitou calmamente o comando final.

Todas as luzes de todos os switchs agora pareciam enlouquecidas, Ponytail neste instante pediu que Mr. Fat e Hallcox recolhessem os cd’s de todos os computadores dos andares de baixo para cima, desligassem os monitores e recolhessem os blackouts pois a fuga seria pelo terraço e ao final, eles desligariam a chave elétrica geral dos três andares. Tudo foi levado para a sala aberta por Hallcox dois prédios adiante.

 

Haviam passado duas horas desde que o Cluster começara a funcionar e até o momento o consumo das cpu’s beiravam os 90%. Testavam milhões de combinações de senhas por minuto na tentativa de quebrar a criptografia de um arquivo de outra missão. Com esta senha, eles teriam acesso a toda a movimentação de uma empresa estatal, assim como suas ações clandestinas pelo mundo afora. 

Pela previsão de cálculo de Ponytail faltavam 10 minutos para que a senha fosse quebrada, ou que todas as possibilidades possíveis de senha fossem utilizadas. Um leve farfalhar em uma das cortinas fez com que todos olhassem ao mesmo tempo para aquele canto. Era uma coruja cinza que pousou no parapeito encarando-os de frente, deixou a todos alertas e aos poucos foram disfarçando e virando o corpo em outra direção. Hallcox permaneceu por mais alguns instantes a observar a coruja, aquilo não caía bem no seu instinto. Corujas não eram comuns no centro da cidade e aquela pousou no único local onde não fora preciso colocar a cobertura.

Estavam imóveis sentados de frente para o único monitor ligado acompanhando sonolentamente a evolução do programa quando súbito, um som alto de frenagem e portas se fechando veio da rua. Todos instintivamente viraram em direção ao som, um segundo depois estavam olhando um para o outro. Pela distância, vinha da portaria.

Uma voz veio do Rádio:

— Vocês tem companhia e não é pouca – era Smoke avisando sobre a movimentação nos andares abaixo.

Mr. Fat correu para a janela e viu cerca de dez carros estacionados desordenadamente em frente ao prédio com dezenas de pessoas postadas olhando para os lados e para cima. Anunciou para os amigos o que estava acontecendo. Hallcox correu para a porta e verificou na escadaria que diversos vultos com lanternas estavam subindo as escadas, calculou que estivessem no segundo andar. Ponytail se recusou a sair do local enquanto não terminasse o processamento, eles teriam que desligar tudo ou um simples técnico forense descobriria tudo o que aconteceu ali.

Hallcox no escuro e com o canto de um olho acompanhava o movimento nos andares inferiores das escadas. Sussurrou no rádio que eles cruzavam agora o quarto andar e subiam cautelosamente. Estavam armados. Ponytail pensando rapidamente mandou Mr. Fat, seguir a rota de fuga em silêncio, levando todos o resto de material e mochilas. Hallcox conseguiu identificar quem estava subindo, eram policiais federais, sendo liderados por uma pessoa franzina, ágil e encapuzada que rapidamente entrou no oitavo andar saindo das escadas. Mesmo com a porta de incêndio fechando as costas do grupo, Hallcox escutou o som de dois tiros e de vidro se quebrando. Estavam dentro da empresa o mesmo andar do datacenter e de Ponytail. No quinto andar, subia agora um outro grupo bem mais lento com três pessoas sendo escoltadas por vários policiais. Deviam ser figurões ou alguém da segurança da empresa que fora informada da invasão, isso não mais interessava. Estava na hora de sumir daquele lugar.

Sabendo que existe conexão interna do oitavo andar com o nono, Hallcox correu e observou pelo alto da escada que o tal grupo havia avançado para o lado esquerdo da empresa em fila indiana iluminando tudo com suas lanternas fixas nas armas. Ele desceu em silêncio e com o coração disparado caminhando na ponta dos pés, abriu a porta do datacenter, passou direto pelo Ponytail que não tirava os olhos do monitor. Foi diretamente no quadro de luz para desligar tudo quando Ponytail gritou:

— Não… falta muito pouco.

— Cala a boca retardado, os policiais já estão no nosso andar e do outro lado da empresa. Temos que ir agora.

— Que se foda, não saio sem essa senha. Vá embora você. Vou ficar até o fim.

Todos os instintos de Hallcox mandavam ele sair dali mas ao mesmo tempo não poderia deixar o amigo. A missão era deles e se não fossem embora logo, quem retornaria para buscá-los seria Mr. Fat. Ficou estático por mais alguns segundos pensando e falou com Ponytail.

— Me dê seu isqueiro!

Pegou sua pequena mochila um punhado de bombinhas conhecidas como “cabeça-de-nego”. Colocou novamente a mochila nas costas e abriu a porta do datacenter. Viu que as luzes dos policiais já estavam em direção ao seu lado. Eles estavam fazendo uma operação de verificação em cada um das sala. Deu a volta por trás dos armários do corredor e subiu a escada rapidamente. Abriu a porta do nono andar, foi para as escadarias e acendeu uma das bombinhas. O som oco da explosão reverberou por todos os andares. Hallcox ficou com seu ouvido zumbindo. Acendeu mais duas e jogou nas escadas do oitavo andar. Depois mais duas no vão das escadas para que estourassem no térreo ou o mais próximo disso. Viu os policiais saindo do oitavo andar, se espremeu de costas para a parede torcendo para que eles não subissem. O primeiro policial colocou o pé no primeiro degrau. Eles estavam subindo a escada e Hallcox viu a luz já iluminando seu canto. Estava perdido e não sabia se seria preso ou se seria morto. Decidiu não correr, pois isso poderia ser assustá-los e seria morte certa. Se encolheu ao máximo e fechou os olhos quando uma última e fortuita bomba explodiu no térreo. Aquilo fez com que todos os policiais olhassem para baixo ouviu-se barulho de vidros estilhaçando e alguns estampidos a esmo. Os policiais começaram a descer as escadas.

Com o som das explosões muito similares ao som do calibre 12, sendo ouvidas alguns andares abaixo do oitavo, os policiais que infiltraram na empresa, imaginaram que os invasores haviam passado por eles e que estavam agora trocando tiros com o outro grupo de policiais que estavam mais abaixo. Hallcox continuou escondido acompanhando-os. Não pôde identificar se a pessoa mascarada havia descido também. Muitos tiros foram ouvidos e muitos palavrões, pois parecia que involuntariamente, Hallcox havia colocado os policiais uns contra os outros.

As luzes do oitavo andar foram desligadas. Hallcox quando entrou no corredor de acesso ao nono andar da empresa, viu que um pequeno led verde abaixo de uma mesa de secretária ainda estava acesso, isso indicava que Ponytail não tinha terminado. Acelerou o passo disposto a carregá-lo mesmo que desmaiado e a diferença de meio metro de altura entre ambos tornaria a tarefa fácil. A luz se apagou. Hallcox conteve o andar. Virou-se e trancou a porta. Viu um vulto subindo para o décimo andar, só poderia ser Ponytail. Foi atrás dele.

Devagar e com muito esforço para não fazer ruído, foi na ponta dos dedos em direção a escada, abriu a porta de incêndio e súbito, viu um vulto preto com uma pistola apontada para Ponytail que estava de costas, com os braços para o alto e iluminado pela lanterna da pistola. Hallcox por puro instinto e lembrando do papo chato de lutas e como desmaiar uma pessoa que sempre o Mr. Fat tinha, usou de toda a sua força e aplicou o maior soco de sua vida na nuca daquele vulto que rendera Ponytail. Com um fino gemido e um baque surdo o corpo foi ao chão. A luz da pistola ficou parada no chão iluminando um longo cabelo castanho. Era uma mulher e aquilo chocou Hallcox. Ponytail mais rápido que nunca, apavorado e sabendo da situação crítica subia a escada como um orangotango, aos saltos, usando mãos e pés.

Hallcox permaneceu parado, pois queria saber quem era a pessoa mascarada, agarrou com firmeza a base da touca ninja quando viu seu andar ser iluminado por um breve faixo de luz. Os policiais estavam voltando e sua curiosidade desaparecera. Em desespero jogou seu corpo para trás batendo com as costas no degrau da escada, praguejou por ter tido tão idiota idéia em momento tão delicado. Ficou sem ar, mas não era momento de parar para respirar tinha que correr; ao apoiar a mão na escada, reparou que no desespero havia ficado com mascara nas mãos e que a pessoa agora estava com o rosto descoberto, ele poderia saber quem era, bastava olhar, mas o medo de ser pego também era grande.

Correndo escada acima, Hallcox quase que parou para refletir sobre o assunto pois mesmo sem ver o rosto da pessoa algo lhe dizia que ela não lhe era estranha. Foi despertado por uma série de tiros que fez com que poeira do teto caísse por sobre sua cabeça, e isso fora muito bom pois lembrou-o que aqueles caras não estavam ali para brincadeira.

Foi subindo as escadas, e continuou pensando no assunto até o momento em que atropelou Mr. Fat indo ambos ao chão, Mr. Fat levantando primeiro agarrou Hallcox pela gola da blusa e o arremessou para fora da escada no terraço do prédio, saiu e bateu a porta logo a seguir, trancando-a. Correram em direção a mini-ponte que levava ao prédio ao lado, Ponytail aguardava-os do outro lado. Hallcox passou correndo tiros trespassaram a porta recentemente trancada.

Ponytail disse a Mr. Fat:

— Prepare o segundo cadeado rápido - e lá se foi ele correndo para a porta de escape do prédio onde eles entrariam.

Eles passaram correndo por Hallcox que agora tinha a missão de fechar o cadeado desse acesso sem que ninguém suspeitasse.

Hallcox usava outra invenção mecânica “by Arthur” que com linhas de nylon, e uma pequena caixa de madeira, ajudava-o a fechar o cadeado pelo lado de fora, dando a nítida impressão para quem quer que visse, que por ali, ninguém havia fugido, simplesmente por estar trancado com cadeado. Os próprios cadeados já haviam sido preparados para fechar com extrema facilidade, e muito treinamento ele já havia feito para aprender a manusear a invenção. Esse não era um dispositivo fácil de armar mas eles tiveram tempo fazer isso durante a noite. Bastava que fechasse a porta com os três fios de nylon sendo passados pelo vão inferior. Já dentro do prédio, o primeiro nylon era puxado para alinhar o cadeado com o portão, o segundo fechava o cadeado e o terceiro soltava o dispositivo de madeira que caia no chão desmontado e poderia ser puxado para dentro e recolhido.

Mr. Fat repetiu o mesmo procedimento na porta do prédio final. Todos correram para baixo em direção a sala de fuga. Entraram e trancaram a porta.

Da posição onde Smoke estava, assistia a tudo e até de certa maneira se divertindo. Pegou o rádio e perguntou:

— Vocês estão bem?

Hallcox tomou o rádio das mãos de Ponytail, abaixou o volume ao mínimo e respondeu:

— Sim, aqui tudo bem. Recolhemos todos os cd´s e materiais que levamos.

— Conseguiram a senha?

— Não sei, espere um instante. Ponytail conseguiu?

— Sim meu caro, tenho uma reputação a manter. Está tudo decorado e por falar nisso me dêem rápido um papel para eu anotar antes que esqueça - Smoke perguntou novamente.

— Conseguiram?

— Sim - respondeu Hallcox.

— Desligaram a energia.

— Sim.

— Tiveram algum contato?

— Alguém rendeu Ponytail mas ele estava de costas e não viram seu rosto. Eu não sei quem era mas dei um “megaton” na sua nuca e ela desabou.

— Ela? - perguntou Smoke.

— Sim, ao cair, vi pela luz da pistola que era uma mulher.

— Foi por pouco então.

— Sim. Você consegue ver o que está acontecendo.

— Sim, os policiais há pouco estavam ainda procurando vocês no telhado sem saber como haviam desaparecido. Alguns policiais fazem busca no oitavo andar. Outros no décimo. Todas as luzes foram acessas. Estão ligando os computadores. Três caras de coletes e capacetes estão teclando algo. Todos usam óculos grossos. Devem ser cegos.

Hallcox concluiu:

— Afirmaria que são peritos criminais em computação científica e que se não fizemos o serviço direitinho, estamos todos muito ferrados. Eles não deixam passar nada.

— Estão desmontando as máquinas e colocando alguma coisa dentro delas, não consigo ver direito o que é. Parecem ser discos rígidos. São peritos e vão duplicar os disco para levar com eles.

— Porque simplesmente não levam os discos embora? – perguntou Mr. Fat.

Hallcox respondeu:

— Simplesmente porque isso só seria possível com uma ordem judicial e essa operação não parece ser do tipo autorizada formalmente. Eles devem copiar o que puder e ir embora. Se bem que as máquinas grandes, eles não poderão duplicar os discos e levá-los pois são muitos. E por falar nisso, você poderiam me explicar assim de maneira bem simples como que fizeram isso?

Mr. Fat olhou para Ponytail que com um sinal de cabeça passou liberou o caminho para a explicação.

— Capturamos com a ajuda do Mr. Smoke, a transmissão inicial que o firewall deles fazia. Essa transmissão era sempre precedida com o envio da senha principal em um tipo de criptografia chamada simétrica, para logo depois entrar com um outro tipo muito mais complicado que era conhecida como assimétrica.

— Porra gordo, assim já começou a complicar! - Respondeu Hallcox.

— Cala a boca frango e escuta, depois você procure saber a diferença.

— Deixa eu continuar? - Disse Ponytail. - continuando então, com esse fragmento de tráfego, poderíamos através desse programa do Ponytail, deduzir qual seria a senha e assim obter todo acesso aos servidores. Os cd's serviam para carregar um programa mínimo que transforma cada um dos computadores dessa empresa em um escravo de processamento. Todos trabalhariam como um só, esse é o princípio do cluster, colocamos todas as máquinas para trabalhar como uma só, e parece que o programa funcionou a contendo.

— E o programa de acesso remoto, o SSH? Trocou? Perguntou Mr. Fat.

— A coisa mais bela do mundo. Ele tem embutido no seu código, uma instrução para mandar sempre para um determinado lugar, a senha do root que a pessoa digita quando faz uma conexão remota, ou seja, mesmo que os administradores mudem a senha por acharem que estão fazendo a coisa certa, não vai adiantar, pois estaremos recebendo sempre a nova senha.

— Mas Ponytail, que hora que você fez isso? - Perguntou Hallcox.

— Quem fez foi meu programa, estava programado para automaticamente após a quebra, utilizar a senha de administrador para infiltrar esse SSH novinho. Eu sou realmente um gênio! Para que tanta tecnologia se não sabem utilizá-la corretamente.

— Smoke? Disse Hallcox no rádio.

— Sim!

— Me diga como é que eles poderiam nos pegar se nós pensamos em tudo, em todos os log´s no firewal no sistema de detecção de intrusão, em tudo que eles tinham de mais moderno. Como que nos pegariam?

— Pegariam-nos no que não pensamos.

Pensamos em tudo, manda esse cara chupar um prego, não me venha com esse pessimismo - concluiu Mr. Fat. Hallcox respondeu:

— Não é pessimismo, é realismo. Sempre tem algo idiota que esquecemos e pimba, dançamos.

— Estão recolhendo as digitais dos computadores e devem estar fazendo o mesmo nos servidores pois tem um grupo lá na sala. - afirmou Smoke pelo rádio.

— Mãe do céu – gritou Mr. Fat – Não pensamos nisso, Hallcox estava certo, quanta burrice a nossa, não pensamos nas DIGITAIS! Na verdade ninguém imaginou que teríamos a visita da polícia.

Hallcox rindo disse:

— Mr. Fat, acho que vou dançar nessa com você. Ponytail trabalha disfarçado lá e deve ter digital dele até na privada do banheiro das mulheres. Você tem ficha na polícia.

— Estou ferrado – Suspirou Mr. Fat.

— Calma, nada que o Mr. Smoke não resolva para você, não sei como mas para tudo ele tem um jeito – Disse Hallcox tentando aliviar o amigo.

Chegou a hora de Ponytail tirar sua casquinha do gordo.

— É gordo, acho que tua hora chegou, e por falar nisso, já te contei sobre um conhecido que foi preso pela Federal. Rapaz como ele sofreu, esses caras não tem coração mesmo sabe, esse meu amigo tinha um negócio de venda de muambas em Copacabana e um belo dia a PF meteu o pé na porta e rasparam o apartamento inteiro; ele tinha uns US$ 500.000 em mercadoria mais uns US$ 70.000 em dinheiro, levaram tudo para central lá na Praça Mauá. Sabe como é, toda corporação tem seus bons policiais, o que é maioria, esses eram os bons. Fizeram tudo conforme o manual.

— Conta logo essa bosta. - Gritou Mr. Fat ansioso.

— Pois é, chegando lá eles foram entregues para outra turma, um pessoal mais administrativo. Sabe o que falaram para ele?

— Não o que?

— Que ele tinha perdido o dinheiro, mas que eles deixavam ele partir com toda a mercadoria se entregassem o fornecedor dele de bandeja, entregar mesmo, limpinho na mão dos “Homi”. O cara ficou louco com a possibilidade de não perder os 500.000 e falou mais que político em debate nas vésperas de eleição. Uma hora depois saía ele sem os 70.000, mas com toda a mercadoria. Duzentos metros depois uma blitz com os mesmos policiais não pensou duas vezes, abriu fogo contra o rapaz que nada pode fazer, e nos jornais no dia seguinte, foi noticiado que a Polícia agindo prontamente evitou que um enorme carregamento de muamba fosse roubado da sede da polícia e que no enfrentamento um bandido havia sido baleado e morto. Agora imagine só o que eles poderiam fazer com você gordo? - Mr. Fat nada falou, estava com a cabeça caída entre os ombros e já havia de arrependido de ter participado da operação.

— Ponytail, isso é verdade? – Perguntou Hallcox.

— Claro que não, disse Ponytail, rindo e já tentando fugir das mão de Mr. Fat que somente gemia e tentava amassá-lo, o próprio Hallcox sentiu vontade de fazê-lo, mas seria melhor gastar suas forças para evitar que Mr. Fat realmente amassasse o baixinho que ria sem parar tentando escapar.

 

Era madrugada e muitas horas ainda passariam até que chegasse a hora deles irem embora, Hallcox preparou o alarme de seu celular para tocar as 7:00AM, duas horas antes do funcionamento do salão onde estavam agora, e teriam tempo suficiente para se misturar as pessoas que entram e saem do prédio em horário comercial. Todos dormiram.

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...