Submundo

Narra a estória de um rapaz morador do subúrbio carioca que trabalha com informática e precisa realizar uma série de alterações nos sistemas de sua nova empresa. Em pesquisas via internet, ele descobre que os melhores especialistas nas áreas em que ele necessita de ajuda, pertencem ao submundo hacker e essas pessoas são praticamente inacessíveis. Ele consegue fazer contato mas A Polícia Federal está no encalço de todos e nosso protagonista "dança junto". Eles começam a trabalhar para um grupo secreto do submundo do governo brasileiro, recuperando dinheiro desviado por políticos desonestos através de infiltração nas instituições bancárias. A PF oficialmente não sabe de nada e coloca toda sua equipe de peritos no encalço dos mesmos. O banco lesado contrata consultorias externas para procurá-los. Os políticos e seus asseclas os caçam para eliminá-los. O submundo cria um grupo especial de agentes extremamente letais para protegê-los. Em pouco tempo, cria-se um caos.

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4. A Base

 

Dia seguinte às 08:00 o despertador tocava freneticamente e Smoke levantava com algum esforço. Aquele quarto de hotel era confortável, mas muito impessoal. A responsabilidade de acordar cedo e ir a base, lhe tirara o sono. Passou a noite se revirando na cama. Ele tinha duas horas para chegar lá e preparou calmamente seu banho na hidromassagem. Nada no mundo tiraria ele daquele quarto sem aproveitar a hidro.

Meia hora depois quando saiu da banheira, pediu café da manhã e a conta. Pagou em dinheiro e na saída pegou novamente um táxi, pedindo para que fosse para a casa da Elisa.

Chegando lá, pediu para o taxista esperar enquanto iria a portaria do prédio. Ela não estava em casa e Smoke entregou o notebook para o porteiro pedindo que ele entregasse para Elisa informando que em breve ele viria para buscar. Ele foi bem específico informando que ela não deveria se preocupar. Para onde ele estava indo não poderia nem precisaria portar aquilo. O porteiro muito prestativo deixou-o tranqüilo dizendo que tudo correria normalmente.

Smoke voltou para o Táxi e nessa hora pediu que ele se dirigisse para o bairro da Glória, mais precisamente na rua Conde Lajes, rua dos fundos do famoso motel Ébony onde na década de 80 um famoso radialista havia morrido ao lado de sua amante em uma banheira de hidromassagem. Smoke riu com a lembrança do fato e dele ainda estar com o cheiro da sua.

O taxista parou conforme a instrução de Smoke, recebeu o dinheiro e foi-se embora para mais um dia de trabalho, enquanto Smoke em pé na calçada acendia seu primeiro cigarro do dia. Ele estava no ponto correto e no horário informado.

Na maioria das vezes o transporte era realizado por veículos do tipo Volkswagen Kombi, por serem muito comuns e de fácil caracterização, pois existiam aos milhares pela cidade mas no geral, poderia ser qualquer coisa inclusive motos.

Um furgão preto Mercedes Benz, com os vidros negros, escurecidos por insulfilm, parou ao seu lado abrindo a porta lateral deslizante. Smoke já sabendo o procedimento, entrou, levantou os braços enquanto a porta já se fechava. O auxiliar da van revistava-o e lhe retirava pistola, relógio, carteira, cigarro, isqueiro, chaveiro e telefone. Colocou tudo em um saquinho plástico, vedou e jogou no banco da frente da van, Smoke sabia que na sua saída da base, receberia o saquinho de volta.

O veículo começou a andar e a escuridão do interior trouxe algumas lembranças em sua mente pois aquela não era a primeira vez que ele se encontrava dentro de um transporte e isso sempre lhe trazia recordações de missões passadas e tudo que lhe ocorrera desde o fatídico dia em que houve a rebelião no presídio onde ele cumpria sua pena e que ele conseguira fugir, fuga essa que teve um preço, e que ele pagará ainda por muito tempo.

Smoke sabendo que não conseguiria ver nada durante o trajeto, pois todos os vidros eram totalmente negros, tratou de deitar no banco e ter um pouco mais de sono enquanto o transporte seguia por caminhos desconhecidos. Desde muito ele havia desistido de tentar acompanhar com a mente todos os movimentos do veículo para tentar deduzir o caminho tomado, pois os condutores de transportes maldosamente chamados de cocheiros pelos HC's, nunca faziam o caminho direto para a Base, dependendo das instruções recebidas, poderia acontecer até a troca de transporte em alguma garagem. Em resumo, só se chega na base, convidado.

Algum tempo depois, Smoke despertara com a total falta de movimento da Van, ele lentamente levantou-se e estalou metade do corpo, não sabia se estava dormindo há muito tempo ou se a van acabara de parar. A porta estava aberta e ele se viu em uma garagem que ele já conhecia. As paredes eram de cor verde clara, pintadas com tinta acrílica, não se via nenhum tipo de iluminação natural, era um ambiente totalmente fechado com uma grande quantidade de luzes fluorescentes brancas e fortes. O chão era cinza claro com pinturas do tipo estrada com faixas centrais amarelas, preto onde seria o asfalto, sinalizações de velocidade e direção, assim como de vaga de estacionamento. Tudo parecia artificial de tão limpo mas ele sabia que aquele era um dos locais mais sérios do país e que não existia espaço para brincadeiras. Haviam outros transportes chegando e parecia que o movimento estava anormal pois os cocheiros de Smoke já estavam de saída.

O teto da garagem possuía muitas câmeras que não deixavam de vasculhar cada centímetro do local, ele sempre achou que existiam mais do que o necessário, mas nunca teve oportunidade sequer de saber quem era o responsável pela segurança dos desembarques nas garagens. Apesar do tempo de serviço, seu conhecimento sobre as instalações era restrito, restrito apenas ao necessário.

Smoke foi em direção a única saída que a garagem tinha para as pessoas que estavam a pé. Ao lado de cada vaga de transporte, existe uma escada que leva as pessoas a um patamar mais alto cerca de dois metros, e depois em forma suave de funil o caminho vai se estreitando até se tornar um corredor longo, muito longo e com muitas curvas tanto para a esquerda quanto para a direita e sempre em cada fim de reta existia mais algumas filmadoras desse circuito interno de vigilância que deveria ter mais televisores que a metade do país. Ele também não deixara de notar desde o primeiro dia, que cada fim de corredor tinha sua parede composta de um material metálico pesado, como um grande portão. Ele pensou inicialmente se tratar de algum caminho bloqueado, mas no seu período inicial de treinamento, lhe foi apresentado a função que tal porta exercia. Era uma simples blindagem para o DAI, Dispositivo Anti-Invasão composto por quatro metralhadoras cíclicas calibre .50 nos primeiros 200 metros do trajeto e 20mm nos últimos 100 metros de corredor, todos equipados com os terríveis DEPM's, Dispositivos de Enquadramento por Movimentos, que atirava em qualquer coisa maior que um rato. A abertura das portas era feita pela central de vigilância e depois que estivesse aberta, automaticamente entravam em funcionamento. Smoke não sabia se aquilo já havia sido utilizado algum dia, mas lembrou que certa vez uma das paredes do lado oposto ao DAI estava bem estragada e ao questionar um segurança sobre aquilo, disse-lhe que havia ocorrido um teste de invasão. Seguiu em frente.

Smoke agora estava passando por uma grande catraca no centro do corredor, que ia do chão até o teto e só se movia em um único sentido, o sentido anti-horário, a única maneira de passar era naturalmente ir em frente como uma porta giratória de banco, mas, uma vez lá dentro, não se tem mais como sair. Logo depois da catraca, existe um salão com quatro seguranças bem armados, um em cada canto, e em um pedestal protegido, suspenso dois metros do chão. Cada um dos pedestais era ligado ao outro por um corredor de maneira que os guardas em posição superior e defensiva tinham sempre toda visão do local. Esse salão deveria medir o mesmo tamanho que uma quadra de basquetebol.

No centro, dando passagem para outra área, estavam os terminais de reconhecimento biométrico pela íris e pelo escaneamento completo da mão. Para chegar a eles, passava-se novamente por outra catraca que se trancava deixando a pessoa em uma jaula de pouco mais que dois metros quadrados para realizar o procedimento de identificação. Depois desse ponto, andava-se pouco mais de duas dezenas de metros em direção ao identificador. Smoke foi adiante, colocou a mão em um local que realizava escaneamento de todos os dedos e da palma da mão direita, além de posicionar o queixo em um suporte de metal e borracha de silicone macia, para o reconhecimento da íris. Logo acima da sua cabeça acendeu uma luz verde, a catraca atrás dos identificadores se abriu e ele seguiu em frente por outro corredor. Mais adiante, parou em uma fila. Olhou em volta e ficou curioso para saber os níveis daqueles hc´s que ali estavam, o movimento estava realmente anormal, e isso parecia que estava deixando a todos inquietos. Após uns 10 minutos que pareceram eternos, a catraca foi liberada e Smoke avançou para a porta oito que estaca com a luz verde acesa. Entrou e trancou a porta. Imediatamente uma luz iluminou todo o cubículo mostrando que havia outra porta e uma parede de vidro blindado com um segurança olhando-o diretamente. Havia uma grande tela de 29 polegadas de um monitor de TV que mostrava a foto de registro do smoke em tamanho natural para que o segurança verificasse visualmente sua autenticidade, a base sempre mesclava tecnologia com antigos processos de identificação, e até então funcionava muito bem sem registro de fraudes.

 

Havia a informação de que o senhor Smoke estava sendo esperado pelo coordenador Havoc. O segurança pegou uma tira de plástico um pouco mais comprida que um pauzinho de picolé e inseriu em um aparelho similar aos utilizados em restaurantes para cartões de crédito. Uma luz verde acendeu e no mesmo instante abriu-se a porta de vidro que era recolhida para o alto, Smoke passou olhando para cima, querendo saber onde ela havia se enfiado. Recebeu um leve e seco cumprimento de cabeça do segurança que lhe colocou a pulseira e verificou se estava bem ajustada de maneira que não soltasse, saísse ou incomodasse muito. Nulseira estava escrito:

“Smoke --> Subsolo 8 --> Havoc”

 

A base tinha um sistema de orientação todo desenvolvido internamente e de grande eficiência e facilidade, Smoke não entendia o porque de não se vender essa tecnologia, pois não tinha nada demais, apenas a idéia que era boa. Ele recebia uma “Smart Pulseira” conhecida também como SP, que continha o código dele, o código da pessoa com que ele se encontraria, o código do seu local de origem na base e o código do local de destino. Smoke caminhava em frente e no fim do corredor no alto na parede, um pequeno quadro com muitos leds e ligados e um servidor central, capturava a aproximação da SP, lia o destino, escrevia o nome Smoke e indicava o caminho, esquerda ou direita. Smoke foi seguindo preguiçosamente as orientações até chegar a um elevador onde um painel de led´s acima da porta dizia:

“Smoke, ingresse nesse elevador”.

Ao entrar, o elevador lia o destino de Smoke, transmitia a central, que devolvia ao elevador o andar que ele deveria seguir. No caminho, o elevador foi recebendo outras pessoas e chegando ao seu andar, uma voz sintetizada disse:

— Senhor Smoke, oitavo subsolo, favor seguir pela esquerda.

Lá se foi Smoke, sabendo que se virasse para a direita, naturalmente o sistema leria sua SP e saberia de imediato que ele estava fora de sua rota autorizada. Logo seria interceptado por alguns seguranças e deixado de molho em alguma sala desconfortável por algumas horas, portanto era melhor seguir o caminho pois ele sabia da eficiência do sistema e de como os seguranças também o eram.

Ao fim da caminhada, Smoke chegou a uma sala e escutou ao longe uma voz metálica falando:

— Senhor Havoc, Smoke lhe espera na recepção.

Era o sistema atuando, e o interessante é que, mesmo que o senhor HAVOC estivesse dentro do banheiro, o sistema sabia que ele estava lá pela localização da SP e somente executava a voz, no local exato da SP. Qualquer tentativa de enganar o sistema, ou não portar a SP, era punido exemplarmente pelas pessoas que controlavam aquilo tudo, que assim como Smoke e Havoc, não estavam ali para brincadeiras, tudo era muito sério, sigiloso e profissional.

 

Smoke estava agora na sede administrativa do núcleo no qual ele fazia parte, ele já conhecia seu trajeto e o local, mas era sempre interessante acompanhar esse simples e eficiente sistema. Sentou-se em um sofá, confortável. Reparou que o ar condicionado não emitia nenhum ruído mas uma pequena fita balançava freneticamente na saída do ar a uns três metros do chão, bem no encontro do teto com a parede. Esticou as pernas e o corpo ainda mastigado reclamava da soneca na van. Desejou um café mas não tinha permissão para usar a máquina que estava a vista.

A porta se abriu e o velho, chato, ignorante, metido, ranzinza e eficiente Havoc de sempre apareceu, Smoke se levantou, os dois apenas bateram a cabeça um para o outro. Havoc seguiu em frente e se serviu de uma chícara de café. Perguntou para Smoke:

— Com açucar ou adoçante?

— Como você sabe que eu queria café?

— Putz, Smoke depois desse tempo todo acha que ainda não te conheço? Você ainda fuma, acabou de chegar de um transporte, dormiu o tempo todo, desde antes da chegada que não fuma, tá com um cabelo que parece aquele empresário de boxe americano. Você está com cara de quem quer um café!

— Faz um capuccino então sabichão e me diga que movimentação é essa?

— É combatente, isso aqui está um inferno desde o incidente da semana passada.

— Que incidente? Não estou sabendo de nada.

— Pensei que no caminho até aqui você descobrisse.

— Havoc, dá um tempo que tú sabe que eu não sou nenhum modelo de comunicação e simpatia e esse pessoal do transporte parecem autistas.

— Mataram toda uma célula. - Smoke escutou e arregalou os olhos.

— O que? Como? E o apoio?

— Morreram também.

— Como isso foi acontecer?

— O HC4 que dava apoio na operação com os HC 9, uns oito meninos muitos bons, não atentou para as orientações do apoio e na ânsia de terminar o serviço, ficaram cercados. O apoio combateu como pôde mas no fim todos foram mortos e o último apoio, já ferido teve de seguir o protocolo. Telefonou para seu coordenador, relatou o fato e desligou. Cercado, recolheu os explosivos plásticos dos amigos mortos e preparou uma despedida para seus atacantes. Sabe-se que realmente não sobrou ninguém nem vestígios de seres humanos de maneira que o segredo da operação, da célula e da base foi mantido.

— Esses caras do apoio, são muito estranhos, não tem coração, sempre tive medo deles, por essas e outras que sempre no treinamento nos dizem que o apoio tem o comando na rua e não seguí-lo pode resultar na morte.

— Sim Smoke, e por isso que se chamam carcaça. É o que resta quando eles passam. E aqueles moleques eram bons mesmos, até o fim mantiveram a disciplina e nem se abalaram, como é difícil conseguir gente assim, como é difícil, e derrepente perdemos todos de uma vez, por culpa do HC4. Que desperdício de material humano, tanto deles como dos carcaças, a maioria não tem família, mas os que tem alguma coisa, deverão estar recebendo esses dias alguma gorda compensação financeira sem vínculos com a base como é de praxe.

— E agora como fica?

— O próprio comando já soltou seus cães e conforme o protocolo novamente, o figurão que patrocinou a emboscada está com os minutos contados.

— Ok, mas o que eu estou fazendo aqui?

— Simples Smoke, com a intensidade com que as coisas estão acontecendo, muitas equipes estão passando por apertos. Estamos perdendo pessoas a um ritmo preocupante. Os HC3 começaram a falar nisso e os Cabeças concordaram que chegamos novamente no período de avaliações para aquisições. Você sempre foi eficiente nesse tipo de trabalho. Tenho aqui um grupo de rapazes para você fazer uma prospecção, mas com cuidado pois a Federal já está no encalço deles. Nessas pastas estão os perfis de cada um e você tem todo tempo do mundo para estudá-los, naquela caixa no chão a esquerda existe mais material sobre eles, fique a vontade pois você já consta na lista do rancho e do dormitório, bem vindo ao lar. Amanhã de manhã voltamos a nos falar. Vai ser bom ver a arena vibrando novamente.

Smoke não gostou do que ouvira. Se a arena iria vibrar, significava que muitos outros hackers de campo do mesmo nível que o dele, também estavam realizando prospecções. Entrar para a base era um caminho sem volta. Não que a base lhe proibisse de ir embora, mas porque ao sair, um exilado se tornava uma um artigo muito interessante e com muitos inimigos. Mas nesse momento o que o incomodava, era oferecer a pílula vermelha. definitivamente era algo que ele não gostava de fazer.

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