Submundo

Narra a estória de um rapaz morador do subúrbio carioca que trabalha com informática e precisa realizar uma série de alterações nos sistemas de sua nova empresa. Em pesquisas via internet, ele descobre que os melhores especialistas nas áreas em que ele necessita de ajuda, pertencem ao submundo hacker e essas pessoas são praticamente inacessíveis. Ele consegue fazer contato mas A Polícia Federal está no encalço de todos e nosso protagonista "dança junto". Eles começam a trabalhar para um grupo secreto do submundo do governo brasileiro, recuperando dinheiro desviado por políticos desonestos através de infiltração nas instituições bancárias. A PF oficialmente não sabe de nada e coloca toda sua equipe de peritos no encalço dos mesmos. O banco lesado contrata consultorias externas para procurá-los. Os políticos e seus asseclas os caçam para eliminá-los. O submundo cria um grupo especial de agentes extremamente letais para protegê-los. Em pouco tempo, cria-se um caos.

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1. Prólogo

Tudo começou, quando em uma tarde de terça-feira, cansado após um turno de dezoito horas ininterruptas de programação para entregar um projeto dentro do prazo, busquei um bar para beber alguma coisa antes de ir para casa. Estava muito frio no centro do Rio e um forte vento parecia perfurar minha pele. Prenúncio da chegada de mais uma frente fria vinda do sul do país. Buscava um bar abrigado e me lembrei que no terceiro andar do Edifício Central, havia um e que também servia um belo frango assado.

 

Tomei a escada-rolante e fui para o bar. As lojas ao redor já estavam fechando.

Chegando lá reparei que não estava cheio, claro, muito normal em uma terça-feira gelada. Definitivamente os Cariocas não gostam de frio, mas meu caso era o de apenas relaxar a mente não fazendo nada e se possível, bebendo algo.

O local segue o padrão dos antigos bares, onde o balcão em forma de “U” possui bancos em toda sua extensão externa e o interior serve apenas para a movimentação dos garçons.

Sentei-me do lado esquerdo do “U” e reparei que na parte do fundo havia um casal muito fogoso e que só havia uma aliança com ambos; e esta, estava na mão esquerda do homem. Ela com um copo de chope na mão esquerda, não possuía a mesma aliança. Presenciei uma traição matrimonial. Realmente este bar era estratégico para quem desejasse se esconder.

Havia também um grupo de pessoas com roupas modestas e algumas sacolas negras, do tipo de lixo, e de grande volume. Eram ambulantes. O que mais chamou minha atenção foram as gostosas gargalhadas que davam, notava-se que eles gostavam muito uns dos outros.

Ao meu lado direito estava um par de amigos que também conversavam, só que um pouco mais reservado e rabiscando coisas o tempo todo de maneira que um parecia tentar convencer o outro de algo que me era impossível saber.

Na minha frente, bem na minha direção mesmo e do outro lado do balcão, estava um homem cabisbaixo, com barba por fazer e aparência muito cansada. Constantemente ele esfregava o rosto com ambas as mãos e ficava a olhar dois papeis que estavam no balcão ao lado do seu copo de cerveja.

Fiquei curioso para saber o que ele estava olhando quando o garçom parou na minha frente quase que me assustando. Tive vergonha, não gosto de bisbilhoteiros mas lá estava eu, bisbilhotando.

Pedi uma Malzbier e um galeto. Me prometi que não olharia mais para o cara, deixa ele lá, cada um na sua. Fiquei os próximos minutos pensando sobre minha últimas horas de trabalho e me questionando se aquilo valia a pena, tanto tempo sem ver a família e quase sempre sem o reconhecimento dos seus superiores, eu realmente invejava as pessoas que saíam normalmente as cindo da tarde e iam para suas casas ou faculdade ou sei lá o que, o fato era que eu não conseguia fazer nada diferente de trabalhar.

Saía cedo e chegava tarde, faltando tempo para tudo. Chegava a ser deprimente.

Meu frango chegou e pedi mais uma Malzbier, comi com sofreguidão; pedi umas batatas fritas e praticamente jantei. Soltei um leve arroto, coloquei a mão na boca e olhei em volta para ver se alguém havia percebido, foi quando reparei que o cara a minha frente possuía um filete de lágrimas correndo pelo seu rosto. Aquilo me chamou a atenção, esqueci tudo o que estava pensando e realmente não consegui fazer mais nada. Ele enxugou a lágrima com o ante-braço e apagou o caminho que ela havia feito em seu rosto. Caiu outra lágrima e ele não se preocupou em tirá-la. Seu relógio caro, seu celular moderno e o molhe de chaves com uma de carro eram poucos elementos para montar um perfil que pudesse deduzir o por que do choro.

Reparei que o garçom que me atendeu também acompanhava a situação. Ele lavava alguns copos e disfarçava olhares em direção ao estranho. Quando ele passou na minha frente, chamei-o e pedi mais uma cerveja. Perguntei-lhe se conhecia o cara e ele disse que vez em quando aparecia ali e ficava a chorar olhando aquelas fotos.

— Fotos? - Falei sozinho. - Aqueles papeis eram fotos, algo começava a fazer sentido. Deveria ser algum ente querido que se foi e deixou a saudade.

Ele começava a soluçar inaudivelmente e colocou a testa no balcão. Nesse momento não pude me conter e fui até ele. Dei a volta e coloquei minha mão no seu ombro. O garçom fez um gesto de longe como que querendo evitar que eu fizesse aquilo. Súbito, o estranho virou-se em minha direção, colocou rapidamente as fotos nos bolsos internos de sua jaqueta, sacou algum dinheiro, colocou no balcão, levantou-se e foi embora. O garçom fez uma cara feia e trouxe a minha conta.

— Nós já tentamos conversar com ele, mas ele só quer ficar quieto. Como ele vem, bebe e paga a conta direitinho, o chefe manda deixar ele em paz.

 

Passei o resto da semana vigiando o bar sempre que saia do trabalho e o estranho nunca estava lá. Na terça-feira, quando completou uma semana do ocorrido, já me programava para visitar o bar quando me surgiu a idéia de ir no mesmo horário, tarde, a noite.

Chegando lá, pasmem, o estranho estava no mesmo lado e na mesma cadeira. Fui direto para meu antigo lugar e de frente para ele pedi minha Malzbier. Perguntei ao garçom há quanto tempo ele estava ali e respondeu que haviam uns 30 minutos e também que ele sempre vinha nas terças.

Lá estavam as fotos e o filete de lágrimas no seu rosto. Ele tinha um problema, e era sério. Visivelmente estava deprimido. Ele levantou a cabeça e me viu olhando-o. Parecia um pouco mais sereno do que da última vez. Aquilo me impulsionou para que fosse ao seu encontro e mais uma vez ele se retirou. O garçom balançou a cabeça negativamente.

Uma semana depois, cheguei mais cedo no bar, só que agora com uma estratégia diferente. Me sentei no lugar do estranho.

Já passavam duas horas do horário que regularmente o encontraria ali. Eu, já havia desistido e apoiava os cotovelos no balcão olhando para o fundo do copo e pensando em como voltar para casa, quando alguém por detrás de mim falou:

— Desculpe, mas você está no meu lugar.

Resmunguei displicentemente.

— Aqui ninguém tem cadeira marcada. - Virei-me e lá estava ele de pé com o mesmo casaco e cara de triste. Foi um baita susto, fiquei sem saber o que falar, levantei na hora e passei para o banco ao lado. Ele olhou para mim e em seguida olhou para o meu lugar do outro lado do balcão, como que sugerindo um distanciamento. Ali fiquei, ali permaneci.

— Garçom, o de sempre. – Disse ele desnecessariamente pois o garçom já trazia seu chope.

Fiquei olhando-o sem saber como iniciar minhas perguntas. Não podia ser indelicado, mas para que ele falasse deveria ter sua confiança. Ele sentou e eu perguntei:

— É alguém muito querido é claro?!

— Sim. - Respondeu ele secamente.

— Esposa, filho ou algo assim? - Perguntei.

— Não importa e não interessa que você saiba, você poderia me deixar sozinho um pouco com a minha dor. - Falou pausadamente e tão direto que quase me levantei, mas respondi.

— Todos temos as nossas dores, sofrer não é uma exclusividade sua meu amigo. Temos que tentar superar. Com o tempo as coisas melhoram e você supera isso, mas não se entregue.

Ele olhou-me diretamente nos olhos e calmamente me disse.

— Companheiro, que tipo de dor você conhece? De que dores você entende para me dizer que a minha dor é passageira? Não desejo ao meu pior inimigo o que se passou comigo. Não perdi uma pessoa, perdi muitos amigos e entes queridos e todos em um breve espaço de tempo. É mais dor que uma pessoa possa aguentar, dizem que o universo é infinito meu caro mas infinita é a minha dor.

Nesse momento ele passou a mão pelo rosto, deu um breve suspiro e colocou o cotovelo no balcão apoiando a cabeça. Em seguida insistindo falei.

— Conte-me o que houve contigo e talvez eu possa entender todo esse sofrimento. - Dei um longo gole na minha cerveja e esperei pela resposta.

— Você nem ninguém acreditaria. - Disse ele em tom de desgosto e eu respondi.

— Tente, tenho todo o tempo do mundo.

— Você precisaria dele, é uma história muito longa e com muitos detalhes para que alguém normal possa entender. Estou pensando se vale a pena lhe contar algo.

— Eu sou um Zé Ninguém, talvez seja bom para você, compartilhar esse sofrimento. O que eu poderia fazer ?

Reparei que um garçom cutucou um outro e ambos olharam em nossas direções. O estranho estava passando por algum conflito interno, me olhava e olhava para o copo de chope. Balançou a cabeça negativamente. Achei que havia desistido de contar, até que ele falou.

— É, que mal há nisso?! Está pronto? Vou começar bem do início. Se encher o saco, pode ir embora sem problemas, essa não é a história mais bela que você vai ouvir mas infelizmente é a minha. E se eu ficar de saco cheio, também vou embora, não sei se aguentarei ir até o fim.

 

Foi assim que tudo começou.

Realmente foi uma história longa, precisei de mais alguns encontros e algumas horas de gravações para que pudesse compreender a sua totalidade, o estranho não tinha muita paciência em responder perguntas, basicamente deixava-o falando, fazia minhas anotações e trocava as fitas.

É uma história difícil de acreditar, mas foi assim que ele a contou.

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