Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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8. Piatã capturado

Passaram-se dois ou três anos. A tribo mantinha-se como podia, ora com períodos de bonança, ora com dificuldades. Os períodos difíceis, de pouca colheita, poucos frutos na mata, poucos peixes, obrigavam os índios a se valerem da caça, o que lhes trazia grandes preocupações.

O caapora continuava atento aos desmandos dos caçadores. Alguns haviam sido açoitados com galhos de urtiga, às vezes tinham seus pés amarrados com embira, às vezes simplesmente postos a correr por causa dos queixadas sempre em movimento alvoroçado. Os curumins, que por vezes acompanhavam os adultos nas caçadas, para aprender a arte, divertiam-se pregando sustos nos adultos, imitando assobios do caapora, e à noitinha, contando casos dos desafortunados caçadores, sempre exagerando um pouco.

Assim a lenda do caapora foi se firmando no povo, e isso incomodava a alguns caçadores mais afoitos, principalmente àqueles que já haviam cruzado o caminho do caapora.  

Surgiu então um desejo de capturar o caapora para dar-lhe uma lição. Nesse tempo, alguns índios haviam feito contato com outras tribos, e aprendido a caçar com armadilhas feitas de redes de embira, pegando os bichos vivos. Alguns animais eram levados à taba e criados com restos de comida, estando sempre disponíveis quando a escassez chegava.  

Num desses períodos de dificuldade, foram à floresta preparar armadilhas para capturar alguns bichos. As mulheres haviam tecido redes de tramas bem largas, que não prendiam animais pequenos, só os maiores, do porte de catetos pra cima. Escolheram um lugar perto da trilha que os animais costumavam fazer em direção a um riacho, e lá montaram as redes, ficando de tocaia, escondidos em moitas reforçadas com galhos. Algum tempo depois surgiu o que eles mais temiam: um bando de queixadas, que eram animais muito perigosos para se prender em redes, e por azar dos índios, alguns deles se entrelaçaram nelas, debatendo-se furiosamente.

Os caçadores não conseguiam se aproximar, tamanha a fúria dos animais. A confusão parecia piorar, até que um dos índios conseguiu cortar uma das pontas da rede, e eles se libertaram, menos um, que continuava a guinchar furioso.   Estavam sem saber o que fazer, quando viram o caapora aproximando-se. Mais que depressa procuraram esconderijo nas moitas, e ficaram observado o que ia acontecer.

O caapora aproximou-se da rede, tentando libertar o queixada que se debatia furioso. Puxando as tramas da embira, finalmente o caapora conseguiu abrir uma brecha para o animal sair, mas de tanto se debater, o queixada acabou com um dos pés amarrado, e corria de um lado para outro. Quando, por fim, se livrou da amarra, saiu em desabalada carreira mata a dentro. O animal fugiu, porém o caapora acabou enrodilhado na embira por conta dos movimentos do queixada.  

Ao perceberem a situação, os índios pouco a pouco foram tomando coragem para se aproximar. Resolveram então jogar outras redes em cima do caapora, e quando acharam que ele estava suficientemente preso, levaram-no à taba, para ouvir a opinião do morubixaba sobre o que fazer.

Alguns estavam receosos, queriam libertar o caapora para não terem mais encrencas, mas outros diziam que era o momento para se livrarem da aparição.   Chegando à taba, o morubixaba foi chamado, e decidiu convocar os mais velhos da tribo para deliberarem sobre a situação. O caapora, com rede e tudo, foi levado ao centro da ocara, onde foi amarrado a um tronco.

À tardezinha, curumins, cunhataís e cunhãs chegavam da colheita de frutos e se deparavam com a cena inusitada. Logo o caapora estava cercado por uma multidão de curiosos.  

- Tem cabelos de fogo – diziam uns.  

- Seus pés são tortos! –admiravam-se outros, e assim o murúrio era geral.  

Alguns homens mais atrevidos jogavam coisas no caapora, ou o cutucavam com varas.  

- Vejam! É um enjeitado que sobreviveu. – disse um índio mais velho, sem muita certeza.  

Peri e Iberê, agora quase curumins-guaçu voltavam de uma pescaria quando viram a multidão. Aos poucos se aproximaram do centro da ocara, e viram o caapora todo enredado. Foram chegando cada vez mais perto, ignorando a advertência das mulheres, que diziam que caapora era perigoso. Quando caapora os viu, seus olhos brilharam em reconhecimento.  

- Curumins eté. – murmurou.  

Mas Peri e Iberê não puderam ouvir mais nada. Várias mãos de mulheres temerosas os arrastaram para longe.

A noite caiu, e pouco a pouco os índios se recolhiam, até que ficaram apenas dois índios, designados pelo morubixaba para vigiar o prisioneiro. Peri e Iberê estavam preocupados. Sabiam que o caapora não era mau, e que outros dependiam dele para sobreviver. Nunca haviam falado de sua estada na terra dos caapora, mas lembravam-se muito bem dela, e  inclusive achavam que os frutos que encontraram pelo caminho quando estavam perdidos tinham sido deixados pelo caapora, para que não sentissem fome. Já era noite avançada quando Iberê, sem conseguir dormir, teve uma idéia.

Chamou Peri, e juntos foram até a borda da mata, escondidos, apanhar frutinhas iguais àquelas que caapora lhes dera, e que faziam dormir. Conseguiram achá-las e retornar à oca sem dificuldades. Lá espremeram várias delas numa cuia de água, pegaram algumas frutas, e foram levar para os dois índios que vigiavam caapora.

Os índios, sem suspeitar de nada, serviram-se à vontade, e depois ralharam com os curumins para que voltassem à oca.   Não passou muito tempo, os vigias estavam dormindo.

Peri e Iberê, rapidamente e com cautela desembaraçaram o caapora das redes. O caapora, que estava dormindo, acordou assustado, mas logo reconheceu os dois. Quando percebeu que estava livre, sorriu e fez um cafuné na cabeça dos dois, logo embrenhando-se na mata, sem nada dizer.

Os curumins voltaram sem serem percebidos à oca.  

Pela manhã acordaram com o alvoroço na ocara. Os índios olhavam pasmos para o amontoado de embira sem o caapora, que parecera estar tão bem enroscado na véspera. Os mais corajosos matutavam para saber como o caapora escapara, os mais medrosos afirmavam que o caapora era uma aparição, um espírito da mata que não podia ser preso. As mulheres todas tendiam a acreditar na aparição, muitas se sentiam aliviadas pelo seu desaparecimento, pois nunca o caapora incomodara os índios pequenos. Acreditavam mesmo que ele os protegia dos animais da floresta.  

As especulações duraram todo o dia, e ao chegar da noite, o morubixaba, tendo reunido todos na ocara, anunciou:  

- Caapora foi embora. Nenhum de nós, nem Pagé, sabe o que aconteceu. Tupã não deixou a gente compreender o mistério do caapora, então isso não é coisa para a gente querer resolver. Precisamos cuidar da vida da tribo. Não vamos caçar mais do que precisamos, não vamos pegar bichos que não podemos cuidar. Assim vamos cuidar das nossas coisas.  

De repente parecia que não tinha havido nenhuma agitação. Ninguém mais se incomodou em resolver o mistério, nem sequer questionaram os vigias que tinham dormido. Acharam que tinha sido ação misteriosa do caapora. Os vigias também não se lembraram das frutas e da água oferecidos pelos curumins, e assim a vida voltou ao normal na aldeia.   Mas a lenda foi fortalecida e perdurou por muitos anos.  

 

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