Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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7. Os caaporas

Peri não resistiu, e sua urina desandou. Iberê perdeu a fala.

Por algum tempo não puderam se mexer. Somente quando o caapora mandou-lhes seguir até onde estava a estranha índia, conseguiram sair do estupor. Caminharam em silencio, com as pernas bambas, com o caapora logo atrás. A índia ao vê-los, assustou-se, mas caapora logo a acalmou.    

Levou os curumins até uma lapa, onde lhes deu frutas e água. Iberê agora sentia seu pé cada vez mais dolorido, mal resistindo ao choro. O caapora, percebendo a dor do menino, aplicou uma pasta viscosa, que aliviou um pouco a dor. Depois pegou umas frutinhas e espremeu numa cuia d’água. Peri viu as frutinhas, lembrando que tinha visto muitas delas perto da taba.  

- Bebam a água. Faz dormir. Precisam descansar. Dor no pé vai passar.  

Os curumins obedientes tomaram a água. Logo a sonolência veio, e se ajeitaram numa das paredes da lapa. Pouco depois dormiam profundamente. O martelar de uma araponga os acordou no dia seguinte. O pé de Iberê doía menos, mas ainda dificultava o caminhar.  

- Precisam ficar mais. Pé ainda não bom. Não se afastem daqui. – e dizendo isso entregou-lhes frutos e uma cuia com água.  

Depois de alimentados e já bem menos temerosos, os curumins arriscaram-se a dar uma olhada em volta. Na entrada da lapa encontraram a índia estranha, que acalentava um bebê.  

- Esse meu. Nasceu de mim. Outros enjeitados. São caaporas agora. – dizendo isso afastou-se.  

Os curumins não entenderam de imediato. Logo depois perceberam olhares ocultos nas moitas e nas grutas. Ficaram bem quietos, prestando atenção. Passado algum tempo, um a um, curumins apareciam. Muitos tinham defeitos, uns sem pernas, outros com estranhas faces com olhos afastados. Alguns arrastaram-se até eles e os tocaram. Os curumins estavam petrificados de medo. Não sabiam o que era aquilo.

Nisso dois caaporas maiores apareceram, conduzindo gentilmente os defeituosos até o interior das grutas. O caapora que os alimentara apareceu.  

- Não tenham medo. Eu caapora Piatã, o mais velho. Outros caapora agora, curumins enjeitados. Ela Jaci-porã – apontou a índia com o bebê. – Nós caapora. Vocês não contar nada. Perigoso. Vocês ficar quietos, ser feliz. Vocês sei que são curumins eté. Amanhã levar de volta para a taba. Não tenham medo.  

Alguns curumins defeituosos voltaram com frutos, oferecendo a Peri e a Iberê. Logo estabeleceu-se um entendimento entre eles, e começaram a brincar.

Apareceram alguns filhotes de queixada, e a brincadeira tornou-se em montaria de queixadas. Peri e Iberê mal sentavam no lombo dos bichos, e caiam. Os defeituosos agüentavam-se mais tempo. Os curumins nunca tinham visto queixadas tão grandes. Mesmo os filhotes eram maiores do que aqueles que os índios caçavam perto da taba. O dia passou divertido, e logo a noite chegou.  

No dia seguinte o pé de Iberê não doía mais, e logo cedo o caapora Piatã iniciou a caminhada de volta à taba. Fizeram o trajeto todo a pé, sempre acompanhados pelos enormes queixadas, demorando dois dias até que os curumins reconheceram as imediações de sua taba.  

- Agora vocês vão só. Não falem da gente. Vocês curumins eté. Os caapora precisam viver em paz. Vão. Não falem nada. – após estas recomendações, montou um queixada, e toda vara saiu desabalada carreira mata adentro, desaparecendo em pouco tempo.  

Peri olhou para Iberê e disse:  

- Não vamos falar. Vamos dizer que achamos o caminho por sorte. O caapora cuidou da gente. Eles não são povo sumarã.  

Iberê concordou, e juntos seguiram o caminho já conhecido. Chegando a ocara, os índios correram até eles alegres com seu retorno. Por várias vezes contaram suas andanças pela mata até acharem o caminho de volta. Em nenhum momento falaram dos caapora. Afinal eles eram curumins eté. Entre os curumins diziam que foram protegidos pelo Curupira, mas sem falar dos caapora. Assim reforçaram a lenda que o Curupira, ou o caapora, era protetor da floresta e dos animais, e que até ajudavam as crianças perdidas. Só não tolerava os adultos que maltratavam a natureza.

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