Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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3. O nascimento do caapora

Um estranho silêncio tomava conta da mata quando Ibirá acordou. Além de dores agudas, sentia toques gelados e úmidos em seu corpo.

Quando o atordoamento do sono passou, percebeu que estava cercada por um bando de filhotes de queixadas, os quais, curiosos, fuçavam seu corpo. Uma pontada aguda em seu abdômen fez com que ela emitisse um grito de dor, o que assustou os filhotes, mas logo eles estavam de volta.  

Ibirá, entretanto, não podia mais se incomodar com isso: sua cria estava nascendo. O parto não foi demorado nem muito doloroso. Logo estava em seu colo um pequeno curumim, igual aos que já vira nascer, a não ser por uma fina cabeleira avermelhada e pezinhos tortos.

Tão logo veio ao mundo, precipitou-se num berreiro, que foi acompanhado pelos guinchos do bando de filhotes. Alguns deles aventuraram-se a fuçar o bebê, e lamber-lhe o sangue e a sujeira do parto. Ibirá apenas cuidava para que não o machucassem, estreitando-o no colo.

O berreiro atraiu alguns queixadas adultos, dentre eles uma grande porca, mãe dos filhotes, que parecia irritada com essa invasão de seus domínios. Ibirá, muito fraca para fazer qualquer coisa, estreitou ainda mais seu bebê, e virou-se contra o fundo da gruta, esperando o desfecho, o fim de sua agonia. Sabia que os queixadas eram violentos, e suas grandes presas estraçalhavam a carne com facilidade, por isso os índios os temiam. Fechou os olhos.

Seu curumim já se calava, buscando o seio para amamentar-se.  

- Pelo menos não morrerá com fome. – Pensou Ibirá, desesperançada.  

O fim não veio, no entanto. A grande porca aproximou-se e se esparramou no chão, suas costas nas costas de Ibirá e deixou que seus filhotes tomassem conta de suas tetas. Assim firmou-se uma tolerância tácita entre Ibirá e os queixadas. O pequeno curumim sobreviveu, mãe e filho convivendo com os porcos. Criou-se entre os filhotes, e não poucas vezes compartilhando as tetas da mãe queixada.  

Depois do parto, Ibirá sentiu suas forças renovadas.

Dedicava-se a cuidar de sua cria, o curumim nascido no mato, um pequeno caapora, o caapora de Ibirá. Fez dali sua casa, aprendeu observando os bichos a sobreviver às doenças da floresta. Descobriu folhas amargas, aprendeu a lamber a lama que cura, onde todos os animais buscavam socorro. Muitas vezes esteve cara a cara com onças e jaguatiricas, mas parecia que naquele lugar os animais não lhe atacavam.

Caapora foi crescendo, e como tinha dificuldades de correr, logo aprendeu a galopar nos queixadas, primeiro os filhotes, depois os maiores, e se deslocava em grande velocidade pela mata, acompanhando o alvoroço da vara.

Logo estava forte o bastante para percorrer novos caminhos, e passou a conhecer a floresta tão bem quanto os outros bichos. Sentia-se bicho, parte da natureza que o acolhera. Ibirá lhe ensinou a respeito da vida dos índios, seus costumes e medos, e deu-lhe o nome de Piatã.

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