Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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5. A lenda do curupira

Por muito tempo conseguiu vagar pela mata sem ser pressentido pelos índios. Um dia, porém, não teve tanta sorte, e sua vara de queixadas em desabalada carreira passou inadvertidamente entre um bando de caçadores.

Ouviu seus gritos incrédulos, e viu que uns apontavam aos outros chamando atenção para sua presença. Após se por a salvo, acalmou-se e achou melhor verificar o bando de caçadores.

Tangeu sua vara para longe, e aproximou-se dos caçadores sorrateiramente. Por sorte eles estavam bastante assustados, e conversavam em voz alta sobre o ocorrido, em volta de uma fogueira.

- Era um índio, tenho certeza! – disse um deles.

- Acho que era um macaco. Nenhum índio consegue correr montado nas costas de queixadas. – disse outro, incrédulo.

Outro caçador, que pela sua conduta parecia liderar os demais, pôs fim à discussão, afirmando:

- Parecia um índio sim, mas tinha os cabelos vermelhos, da cor de urucum. Acho que é esse índio ou essa aparição que tange os queixadas contra os caçadores. Precisamos tomar cuidado com ele, não sabemos o que caaporas fazem com índios. Precisamos caçá-lo, quando isso for possível. Pode ser que seja um índio louco, e só quando estiver morto vamos ter sossego.

Assim caapora redobrou os cuidados em suas andanças. Mas como costumava aproxima-se das tabas, foi visto outras vezes, sempre correndo veloz com seus queixadas. Queria evitar os índios o máximo possível, mas nem sempre as coisas são como se quer, e às vezes a natureza pede socorro.

Em uma dessas vezes, um lamento percorreu a floresta.

Aves grasnavam assustadas, os macacos faziam algazarra, alvoroçados, pulando de árvore em árvore sem destino certo. Até a onça esturrava sem razão aparente. Os cabelos do caapora arrepiaram-se misteriosamente, e ele saiu com sua vara de queixada sem rumo certo.

Guiado pelo voejar das aves aflitas, logo encontrou a fonte dos distúrbios: um grupo de caçadores promovia uma matança desenfreada de animais em um capão à beira de um rio. Haviam feito um cerco, e agora empilhavam corpos de animais no centro de uma clareira, alguns ainda vivos, mas seriamente feridos por lanças e flechas. Sem poder se conter, o caapora açulou os porcos contra os índios, e armado com um galho de urtigueira, castigava severamente os índios caçadores.

Apanhados de surpresa o grupo não teve reação, correndo desarvoradamente para todo lado. Os queixadas, no entanto, cercavam-nos, sempre os conduzindo de volta à clareira, onde estavam à mercê da urtigueira do caapora. Alguns curumins que acompanhavam o grupo permaneciam escondidos na orla da floresta, assistindo a tudo. Estavam apavorados demais para fazer qualquer coisa.

Tão repentinamente quanto atacaram, os queixadas e o caapora se retiraram. Ao passar pelos curumins o caapora deteve-se e olhou para eles. Estavam paralisados de medo.

- Matar bicho só para matar fome. Não pode judiar. – e sumiu mata adentro.

Depois que o grupo retornou à aldeia, os curumins se encarregaram de espalhar o ocorrido. Os caçadores envergonhados diminuíram sua ânsia pela caça. Poucos se aventuravam, e ainda assim, só caçavam quando necessário. A lenda se espalhou pelas aldeias próximas, e alguns disseram que o caapora era o espírito da mata, protetor dos animais e da floresta, e deram-lhe o apelido de Curupira.

Os curumins, em suas entradas pela floresta, sentiam menos medo que os adultos, pois a crença era que se não judiassem dos bichos, o caapora os deixariam em paz. Assim correu a lenda no tempo…

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