Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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4. A Infância

- Por que vivemos aqui? – perguntou Piatã a Ibirá, certo dia.

Ibirá então contou o costume dos índios. Assim soube que era um curumim condenado, que sobrevivera por conta da coragem de sua mãe de abandonar a aldeia e submeter-se ao julgamento da natureza. Por pouco tempo pareceu triste, mas logo sua alegria voltou, juntamente com suas correrias pela floresta com a vara de porcos.

O tempo passou, e um dia Ibirá encontrou um esqueleto na floresta. Um índio que morrera , provavelmente atacado por onça. Ao aproximar-se dele, um arrepio tomou conta de seu corpo: junto aos ossos do pescoço, um colar. O mesmo colar que Ibirá dera a Cauã quando foram viver na Taba da Beira. Desse dia em diante definhou rapidamente, e não mais saiu das proximidades de sua toca, até que um dia não resistiu a uma febre tremedeira e morreu.

O caapora Piatã agora estava sozinho com os animais. Sua mãe se fora, a única de sua espécie que conhecera…

Caapora superou a morte da mãe, encontrando apoio nos bichos. Cada vez mais aventurava-se pela floresta, conhecendo novos lugares. Adorava a companhia dos queixadas e seu ritmo de vida, correndo para lá e para cá pela imensa floresta. Em suas andanças aproximou-se dos aldeamentos, mas sempre teve o cuidado de manter-se oculto.

Um dia encontrou um lugar que lhe causou pavor: bem no coração da mata, uma porção de ossos espalhados, todos de curumins bem pequenos. Muitos despedaçados, apenas restos de esqueletos, mas dentre eles um mais recente, ainda com sobras de carne apodrecida neles. Isso lembrou o que sua mãe lhe dissera a respeito dos bebês enjeitados. Ele poderia estar ali, seria um desses restos…

A partir daí, em sua patrulha pela floresta o caapora sempre retornava a esse lugar. Algo o atraía, não sabia por quê. Até que viu um curumim condenado vivo! Era um curumim, recém-nascido, deformado, que provavelmente não sobreviveria mais do que até a noite. Caapora ficou em alvoroço, seu sangue fervia. Decidiu então levar o pequeno abandonado para sua toca, dar-lhe uma chance. O pequeno tinha apenas tocos de pernas, e nas mãos faltavam dedos.

Felizmente na toca uma nova ninhada nascera, então não seria difícil alimentar o pequenino. Passados uns dias o curumim defeituoso já mostrava sinais de sobrevivência. Seu pequeno rosto tinha os olhos muito afastados, mas intensamente brilhantes.

O Caapora encontrara um motivo mais para viver. Todo dia patrulhava as proximidades das aldeias, colhia frutos e caçava pequenos animais. Aprendera com sua mãe que a carne era necessária aos índios, mas não tanto quanto os outros alimentos colhidos pela floresta. Só caçava eventualmente.

Em suas andanças vira caçadores com grande número de animais abatidos. Isso lhe causava irritação, pois sabia que muitos daqueles animais eram abatidos desnecessariamente, apenas por diversão.

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