Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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2. A fuga de Ibirá

O morubixaba e o pagé dirigiram-se pela manhã à oca de Ibirá. Haviam decidido que Ibirá permaneceria na aldeia até o nascimento do curumim, quando então seria levada à Taba do Grotão, assim que possível. Sua cria teria o destino de costume. Tão logo nascesse, seria entregue a alguns índios, que deveriam levá-lo para o seio da floresta. Não precisava dizer que deveria ser morto lá, pois os índios eram suficientemente temerosos para deixá-lo vivo. Para ele não haveria esperanças nem compaixão.

Ao chegarem à oca, não encontraram Ibirá, ninguém sabia onde ela fora. O morubixaba reuniu a tribo e sentenciou:  

- Ibirá fugiu. Leva com ela uma cria de seu irmão. Essa cria não pode viver. Se alguém encontrar Ibirá, deve levá-la para o Grotão. A cria, se estiver viva, deve ser entregue ao pagé, para o fim que precisa ter. Não pode haver compaixão, senão será a desgraça de nós todos.  

Ibirá não tivera coragem para esperar a decisão. Ao primeiro canto do Uirapuru, quando a aurora começava a espantar a escuridão, deixou sua oca entrando na floresta. Caminhava em direção às serras de pedra, que eram temidas pelos índios, pois ali viviam os animais mais ferozes, como a onça traiçoeira e os bandos de gigantescos queixadas, os ferozes porcos-do-mato.

Não tinha esperanças, mas decidira entregar seu destino às forças da natureza. Não podia mais viver entre os índios, sua vergonha seria sempre lembrada. Assim caminhou durante todo o dia, alimentando-se de frutos e saciando sua sede nos olhos d’água pelo caminho. Ao anoitecer, abrigou-se em uma grota protegida por espinheiros. Pelo cheiro ali era uma toca abandonada de catetos. Mal a escuridão tomou conta da floresta, Ibirá adormeceu, acordando no dia seguinte, como sol já no horizonte. Não fora incomodada por nenhum animal. Seguiu seu caminho, alimentando-se aqui e ali com as frutas que encontrava.

Caminhou o dia inteiro, parando de vez em quando para descansar. Estranhamente não sentia medo dos animais. Vira por duas vezes jaguatiricas no alto de matacãos, e cruzara o caminho de um bando queixadas, que passaram em alvoroço sem se incomodar com ela. Já era bem tarde quando chegou a uma pequena cachoeira, e ali próximo, encontrou uma gruta funda. No entanto sentiu o cheiro fresco dos queixadas. Provavelmente era uma de suas tocas recentes.

Já se dispunha a sair dali quando uma pontada no abdômen a fez curvar-se. Quase entrou em pânico, não poderia permanecer naquele lugar, pois os porcos poderiam voltar e a estraçalhariam. Tentou andar, mas a dor era intensa e impedia seus movimentos.

Vencida, deitou-se a um canto e, apesar das dores, logo foi tomada por intenso torpor e adormeceu.  

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