Caapora

Caapora recria a lenda do Curupira, eliminando as influencias nocivas do homem branco na cultura indígena, que só serviram para contaminar e corromper a pureza das lendas indígenas, cuja finalidade primordial parecia ser de ensinar e dar bons exemplos de vida.

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1. Ibirá

 

Enquanto se preparava para dormir, Ibirá ouvia o canto lamentoso do urutau, o que combinava bem com sua aflição. Depois de algum tempo, encolheu-se na rede sem esperanças de conciliar no sono. Estava agoniada demais para dormir, e remoía as últimas descobertas sobre sua vida. Pensava em Cauã, o qual jamais veria novamente. Não recriminava sua atitude, sabia que não havia opções. Cauã embrenhara-se na floresta com a intenção de nunca voltar.  

Ela mesma não sabia o que seria de sua vida, tudo estava nas mãos do morubixaba, cujos conselhos aguardaria até o amanhecer. Devido à gravidade da situação, o próprio morubixaba pedira um tempo para pensar, para tentar encontrar o melhor caminho. Certamente a morte seria a melhor solução, mas não tinha coragem suficiente para isso, e também pensava em sua cria, que se bulia em suas entranhas, de antemão condenada.  

A mãe de Ibirá viera de uma taba distante, a Taba do Grotão, logo depois de perder seu companheiro, vítima de uma onça. Trouxe consigo um filho homem, deixando lá Ibirá pequena, sob os cuidados de seus parentes. Na época havia carência de mulheres para os afazeres da Taba da Beira, e havia necessidade da colaboração dos outras tabas da tribo para a sobrevivência de todos. Não era possível simplesmente abandoná-la, pois outras tribos se apossariam da região, causando mais dificuldades. A mãe de Ibirá, no entanto, não durara muito, morrendo com a febre tremedeira poucos dias depois. Seu filho permaneceu por ali, criado junto aos outros curumins, desligando-se assim desligara-se de seus parentes que viviam na outra taba,  e isso foi sua perdição.  

Quando se tornou cunhã, Ibirá pensou em seguir os passos de sua mãe, indo para a Taba da Beira. Por esse tempo apareceu por ali  um curumin-guaçu caçador, chamado Cauã, que perambulava pela floresta das imediações. Ibirá apaixonou-se por ele, e passou a acompanhá-lo. Acabaram unindo-se, e em conseqüência, Ibirá emprenhou. Decidiram então seguir até a taba onde Cauã morava, para acertar a situação junto ao morubixaba e ao pagé da tribo, mas protelaram essa decisão por alguns meses. Quando enfim seguiram viagem, Ibirá já se encontrava com a gravidez bem avançada. Ao chegar na Taba da Beira, procuraram o morubixaba, que  permitiu aos dois viverem ali. O pagé, a quem cabia a união final dos dois, encontrava-se viajando pelas outras tabas, e eles teriam que aguardar a sua volta.   Passaram-se semanas, quando enfim o pagé voltou.

Cauã e Ibirá estavam ansiosos para se apresentarem a ele, e quando o morubixaba os mandou até sua oca, foram o mais depressa possível, dentro das condições de Ibirá, que estava perto de dar à luz. Para espanto dos dois, assim que conheceu a situação, o pagé reagiu transtornado:  

- Isso não pode ser! Tudo está errado, vocês não podem ficar juntos!  

Então contou a história da mãe de Ibirá. Cauã era o filho que viera com ela, portanto irmão de Ibirá. De acordo com os costumes daquela tribo, irmãos não podiam ficar juntos, e os filhos defeituosos e filhos de incestos deveriam ser abandonados à sua própria sorte no seio da floresta. Invariavelmente acabavam mortos pelos animais. E por garantia, os frutos incestuosos eram mortos pelos próprios índios, pois acreditavam que se sobrevivessem trariam desgraça à tribo.

Cauã ficou desesperado, e garantindo nunca mais voltar ao convívio dos índios, abandonou a aldeia, embrenhando-se na floresta. O morubixaba mandou que Ibirá permanecesse em sua oca, pois precisava de tempo para decidir o que fazer.   Isso ocorrera pela manhã, e agora Ibirá varava a madrugada remoendo sua aflição, ouvindo o choro lamentoso do urutau. Não tinha ilusões, sabia que seu filho seria condenado, e deveria morrer, pelo bem da aldeia.

Seria melhor que ela própria morresse, acabando de vez com essa agonia. Mas lhe faltava coragem para isso, e o instinto materno firmava-se cada vez mais, obrigando-a a tentar encontrar soluções. Isso lhe tirava o sono, e os sons da floresta penetravam cada vez mais em seus pensamentos.  

 

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