Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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6. Tentações

 

6 – Tentações

 

No sábado à tarde Nico foi à casa de Liane. Tinha pedido o carro do pai emprestado, assim poderiam dar uma volta depois do cinema. De maneira nenhuma queria assistir a filmes pouco recomendados nos cinemas que costumavam freqüentar. Talvez fossem a uma das inúmeras salas nas imediações da Rua Sete de Abril, onde o grande movimento de pessoas garantia um pouco o anonimato.

- Estou pronto para a tortura sexual. Vamos?

- Do jeito que você fala, até parece afeminado. Olha que começo a achar que o Frank está certo.

- O Frank é um gozador. Só pensa naquilo e está sempre se dando mal. E dane-se o que pensam de mim.

- Você quer ir agora? Não é muito cedo?

- Eu não vou querer ir à noite, é muito perigoso. A gente acaba se misturando com prostitutas e cafetões. Nesses lugares, à noite, fica cheia dessa gente.

- Está bem, vou tomar um banho rápido e já volto.

O rápido de Liane começou a demorar tanto que Nico preocupou-se. Resolveu ir até o quarto dela saber se estava bem. Chamou, mas ela não respondeu. Então abriu a porta, e a encontrou secando os cabelos. Ao vê-lo, assustou-se, pois estava sem roupas.

- Nico! Como você vai entrando assim? Me deu um tremendo susto.

Nico corou. – Desculpe-me. Eu chamei e você não respondeu. Não sabia que se incomodava tanto...

- Não é isso. É que não somos namorados nem nada, não temos essas intimidades...

- Desculpe-me, já estou saindo.

- Deixa prá lá. Pode ficar. Frescura minha. E também sei que você não vai me agarrar...

- Também acha que sou afeminado ou coisa parecida?

- Não, claro que não. Só acho que não vai.

- Bem que tenho vontade. Você é linda demais. – Nico aproximou-se dela e beijou-lhe os cabelos.

- Ai Nico... assim você me deixa sem jeito.

- Desculpe, Liane. Você é linda, e saiba que te desejo muito. Não precisa ficar com vergonha, finja que não estou te olhando e dá tudo certo.

- Mais uma daquelas coisas com Liza, não é? – Liane mostrou-se aborrecida.

- É... Nossa! Nem me dei conta que estava te aborrecendo com minhas chatices... Vem cá... – puxou-a a si e a abraçou. – Eu gosto muito de você, muito mesmo. Se não tivesse tão... amarrado... acho que você a muito tempo seria minha mulher. Eu gosto de você, fico feliz em fazer o que você quer, estar contigo, e te acho linda, atraente. Vem, sente um pouquinho, não sinta vergonha... – apertou mais o abraço. – Viu? Fico excitado em te ver, sempre fiquei. Sinto arrepios, comichões, do mesmo jeito que ficava quando estava com Liza. Percebe? É porque gosto de você de verdade, só não consigo ser teu, sou de outra, de um sonho do passado, talvez. Vai, me aperta mais, deixe seu corpo me sentir, isso é bom, e não estaremos quebrando nenhuma regra. Nua ou vestida, sinto você do mesmo jeito, só que nua você é muito mais bonita... atraente... gostosa...

- Nico, para com isso, vou acabar tendo um troço...

- Então tenha... não há mal algum. Só temos que obedecer nossos limites, senão quebramos o encanto do amor entre nós...

- Você fala de amor... que entende por isso?

- Não sei, só sei que amor de verdade é diferente de amor de sexo, não é sacanagem...

- Nico, acho que não quero mais ir ao cinema... fica aqui comigo... juntinho... mesmo que sem... avançar.

- Fico, Liane. Relaxa.

Nico sentou-se na cama, e Liane aninhou-se em seu colo. Fechou os olhos, enquanto Nico acariciava sua pele delicadamente. Quando Nico a deixou, já de noite, simplesmente envolveu-se num cobertor e dormiu. Tinha sido uma tarde extremamente prazerosa, apesar de não ter havido mais que carícias e sussurros. Sentiu-se completamente satisfeita.

 

Dia seguinte, domingo, foi almoçar na casa de Nico. Aproveitou a tarde para por em dia os conhecimentos de Direito Civil, com a ajuda dele. Já era noite quando Liane foi levada para casa por Nico. Ela o puxou para dentro.

- Fiquei curiosa com uma coisa... como você e Liza se... digamos... mantinham com relação aos desejos?

- Curiosa! Achei que tivesse chateada comigo por causa de ontem.

- Que nada. Foi maravilhoso. Nunca tinha sentido tanto prazer sem... fazer... quero dizer... sem aprontar...

- Você é doida! Minha doida quase namorada que quase me fez perder a virgindade!

- Você ainda é virgem? Eu não sabia... Vou contar pra todo mundo.

Nico avermelhou terrivelmente.

- Lá vem você com essas coisas! Não é crime, sabia? Só fiz uma opção de... – baixou os olhos – me entregar a uma pessoa especial. Bem que tentei quebrar essa decisão, mas nunca consegui. Estou destinado...

- Liza, não é?

- É...

Liane sentiu que Nico estava ficando embaraçado. Mais um pouco iria desmoronar de vez. Ela já conhecia a reação: deprimia-se, chorava facilmente, falava pouco e ficava insuportavelmente chato.

- Reaja, Nico. Perguntei por curiosidade, não quero te chatear. Depois de ontem vou pensar seriamente em me apaixonar por você... de novo.

- Antes do horrível dia que tive de deixar Liza, tudo que passei ao lado dela foi bom, não posso viver sem isso. Acho que tenho pesadelos porque me falta... ela.

- Eu sei, Nico. Acho que é isso mesmo. Fiquei curiosa em saber como tudo começou... bem, como a promessa começou. Só isso. Se não quiser, não precisa...

- Deixa eu respirar um pouco... – foi até a cozinha e tomou um copo de água. Ao retornar ajeitou-se no sofá e chamou Liane.

- Vem, deita aqui no meu colo, que te conto. Só não vá dizer que fui um sem-vergonha, porque... acho que fui mesmo, e me torturo por isso.

 

“Liza estava com dez anos e eu com onze. Um pouco antes de começar o ano letivo... Ela ia fazer o terceiro ano primário e eu o quarto, descobrimos uma trilha que beirava o cafezal, e ia até perto da porteira da fazenda. A trilha seguia até a mata, e passava perto do ingazeiro. Havia um desvio um pouco antes, que descia à beirada da mata. Lá descobrimos um belo riacho, que corria em um leito pedregoso. Um alargamento logo abaixo de uma pequena cachoeira formava uma cacimba. A água, nessa época, estava bem morna, muito gostosa.

Na primeira vez que estivemos no riacho, tiramos apenas os calçados e brincamos nas margens, entre as pedras. Na segunda vez fomos mais ousados.

- Vamos entrar? Será que é fundo?

- Vamos ver... acho que não é, quase dá pra ver as pedras do fundo. Vamos entrar?

- Não podemos molhar a roupa, senão vovó vai brigar. Vamos tirar.

- Tirar a roupa? Mas isso não é sem-vergonhice?

- É, acho que é...

Ficamos pensativos por alguns momentos. Então Liza falou:

- Lembra daquele dia que entramos no quartinho abandonado e ficamos cheios de pulgas? Vovó falou que não precisava ficar com vergonha. Tomamos banho juntos e não ficamos com vergonha. Aquilo não foi sem-vergonhice. É só não ficar com vergonha nem ficar fazendo bobeiras. Promete não ficar com vergonha nem fazer bobeiras?

- Naquele dia eu não fiquei com vergonha. De que bobeiras você está falando?

- Ah... sei lá. Mas prometa.

- Está bem. Prometo.

Rapidamente nos despimos, eu ainda meio encabulado, mas Liza puxou-me pela mão para dentro da água.

- Você é muito bonita sem roupa, está diferente...

- Para com isso. Me deixa encabulada. Ah, deixa pra lá. Vamos brincar na água.

- Bem, prometer é fácil, difícil é não ficar com vergonha.

- Então faz de conta que você não está me vendo, e eu faço de conta que não vejo você. Foi você que me disse isso naquele dia, e eu fiz direitinho.

- Está bem...

Chegamos à parte mais funda, que não tinha nem um metro, o tinha leito formado por cascalhos. O contato com a água nos tirou o acanhamento, e ficamos brincando. Não sei qual lugar parecia melhor: a cacimba, a cachoeira ou as corredeiras. Escorregar nas pedras também era muito divertido. Brincamos por bastante tempo, e depois ficamos ao sol para secar nossos corpos. Tínhamos esquecido a vergonha, como se aquilo fosse uma coisa bastante natural.  Sentados, deitados de costas, deitados de frente, em pouco tempo estávamos secos. Depois, Liza ajudou a tirar a areia do meu corpo. Fiz o mesmo com ela. Era um contato gostoso. Nos vestimos e ficamos mais algum tempo sentados nas pedras.

- Foi muito divertido. Podemos vir mais vezes.

Liza me abraçou e eu retribui.

- Podemos sim. Só não vamos esquecer da nossa promessa: nada de sentir vergonha e nada de fazer coisas feias.

- Certo. Prometo. Vai ser nossa promessa. Essa vai ser a nossa cacimba, nossa cachoeira. Não vamos falar daqui pra ninguém. Vai ser nosso segredo.

Era gostoso abraçar Liza, e nesse dia ficou mais ainda. Ficamos ainda mais algum tempo ali, e depois voltamos para casa. Voltamos ali mais algumas vezes, sem constrangimento nenhum. Com a chegada do inverno a água ficou muito fria e passamos uns bons meses sem nossos banhos. Somente no final do ano a água voltou a ficar agradável, e conseguimos nos divertir mais vezes.

Percebi que Liza estava crescendo, seu corpo ficava cada vez mais bonito. Eu também estava crescendo, mas me achava meio desajeitado. Pensava que Liza enjoaria da minha companhia, no entanto, cada vez mais ela procurava estar comigo, e logo esqueci essas coisas, e ficamos cada vez mais ligados”

 

- Viu? Não tem sacanagem nenhuma, mas ainda assim me senti um pouco... sem-vergonha.

- E na escola? Essa ligação de vocês não era percebida?

- Era interessante na nossa escola o fato de haver um forte preconceito entre as crianças da roça e as da cidade. As da cidade eram vítimas de brincadeiras, perturbações, e eram também mais admiradas, procuravam estar sempre juntas. As da roça eram simplesmente ignoradas. Isso em parte era bom, porque as brincadeiras mais chatas e as zoações se davam mais entre as crianças da cidade. Por vezes até brigas saiam dessas brincadeiras. Por outro lado o amor próprio das crianças da roça estava sempre em baixa, pelo desprezo dos colegas, e às vezes até dos professores. Para Liza e eu isso foi bom, porque passamos despercebidos durante o ano, não fomos molestados nenhuma vez, e ninguém reparava muito no fato de estarmos sempre juntos.

- Quando foi mesmo?

- Ela estava no quarto ano, e eu no primeiro ano do ginásio. Isso foi em, deixa eu ver... 65, 66 eu acho. Nos ajudávamos mutuamente, nas lições e tarefas para casa. Quase sempre eu ia à casa do Seu Chico estudar. Na hora de fazer lições não havia muita conversa, somente algumas perguntas ocasionais, explicações e achismos. Nas lições de Liza eu podia ajudar mais, pois já havia passado por elas. Por isso não tínhamos muitas dificuldades na escola. As leituras, qualquer matéria que fosse, eram muito mais agradáveis. Muitas vezes líamos à sombra das árvores, especialmente do nosso ingazeiro. Líamos em voz alta, um para o outro, sempre juntinhos, e por vezes um deitado no colo do outro. Passamos bons momentos assim.

- Ah, não era só brincadeiras e liberdades. Vocês também faziam coisas sérias juntos.

- É, juntos em tudo. E para prolongar esse prazer, passamos a pegar rotineiramente na biblioteca da escola, livros de aventuras, os quais líamos juntos, rostos colados, abraçados, como namoradinhos de escola.

- Puxa, Nico. Achei muito legal.

- Nós éramos realmente namoradinhos, e de vez em quando inventávamos novas liberdades. Nesse tempo montaram uma lanchonete na escola que vendia refrigerantes e davam canudinhos. Meu pai e seu Chico nos davam dinheiro suficiente para comprar lanches e refrigerantes, mas comprávamos só uma garrafa e pegávamos dois canudinhos. Era muito legal tomar refrigerante na mesma garrafa, pois tínhamos que ficar com os rostos colados, os lábios quase se tocando. Alguns alunos nos imitaram, e isso acabou virando moda na escola, para desespero dos pais e professores. Felizmente não prestaram muita atenção a nós, por sermos da roça. Só não imitaram nossa brincadeira particular, a qual fazíamos com a maior discrição: o teste dos lábios, que invariavelmente tinha o mesmo resultado, mas sempre nos causava arrepios: doce, docinho.

- O “doce, docinho” que você me contou...

- Esse período foi muito bom para todos nós. Pai ganhou bastante dinheiro com seus negócios, a fazenda de seu Chico deu bastante lucro, safras foram boas. Descobri que o cafezal era um negócio entre meu pai e seu Chico. Com os rendimentos, pai começou a negociar mais na cidade, chegou até a viajar a São Paulo por algum tempo. Essas coisas eu fiquei sabendo por ouvir conversas, não sabia nada concreto, mas também não me interessava muito. Seu Chico comprou cavalos novos e alguns outros animais, arrumou a casa da fazenda. Todos estavam muito satisfeitos.

- Cavalos? Quando eu era pequena, Papai me deu um pônei. Era um cavalo baixinho que ele tinha trazido não sei de onde para mim. Não me adaptei muito bem. Vocês se divertiram muito com os cavalos?

- Foi uma época muito boa. Teve também as roupas novas de Liza...

 

“No fim do ano, Mãe e Dona Nena viajaram à Capital, onde compraram uma porção de roupas novas para Liza e para mim. Eram roupas da moda, ficamos parecidos com as pessoas da cidade. Liza fez questão de vestir todas as peças, uma a uma, e desfilar para mim. Mãe e Dona Nena estavam distraídas na cozinha, fazendo bolos. Eu e Liza meio que esquecidos no quarto. Liza continuava seu desfile. De começo ia atrás do biombo e trocar, e depois, resolveu não fazer esse vai e vem, e passou a trocar-se diante de mim. Ela estava ficando cada vez mais bonita, seu corpo como de moça. Depois de vestir todas as peças, abriu uma gaveta e me mostrou as mais bonitas: uma porção de calcinhas rendadas, de cores suaves, belíssimas.

- Lembra de nossa promessa? Nada de vergonha, nada de bobagens.

- Claro que lembro. Nunca vou esquecer, não quero te magoar.

Então ela, num relance, despiu-se toda e vestiu uma daquelas calcinhas. Fiquei sem fala e totalmente corado. Depois de algum tempo consegui dizer:

- Nossa! Você ficou linda!

Liza então pegou outra peça na gaveta, que eu não tinha ainda visto, e colocou sobre o peito: um sutiã de mocinha. Só então percebi que seus seios estavam começando a tomar forma, e por isso ela estava ficando tão atraente.

- Nossa, Liza! Você está ficando moça. Até me dá uns comichões...

Ela sorriu satisfeita e deu um beijou no meu rosto corado.

- Agora chega. Vamos tomar café.

- É bom mesmo, eu já estava ficando tonto.

- Deixa de bobeira! Você está perdendo a vergonha?

- Desculpe... – e fiquei realmente encabulado.

Liza me abraçou, só de calcinhas. Tremi as pernas. Depois colocou novamente suas roupas do dia a dia e me arrastou pela mão para a cozinha. Mãe e Dona Nena continuavam tagarelando satisfeitas com a viagem.

Uns dias depois fomos passear no riacho, mas ficamos sem jeito de nos banhar. Apenas tomamos sol nas pedras e conversamos. Acho que naquele dia não iríamos conseguir cumprir nossa promessa, era melhor não arriscar.”

 

- Durante as férias de fim de ano nossos dias ficaram longos e cheios de atividades. Os cavalos novos eram bons, logo estávamos cavalgando com segurança. Era bom cavalgar cada um no seu cavalo, mas em alguns passeios íamos em um só, a passo lento, observando as paisagens.  Às vezes Liza me levava, e eu ia agarradinho a ela, às vezes eu a levava, e ela ia agarradinha a mim. Acho que essa era a melhor coisa do passeio...

- Imagino...

- Só no final da férias tomamos coragem de novo para ir ao riacho.

 

“Faltavam poucas semanas para recomeçarem as aulas. Não havíamos hesitado em nos despir, mas depois disso o acanhamento foi extremo, parece que nos dávamos conta de cada curva dos nossos corpos, e sentíamos vergonha por isso. Entramos na água, que estava tépida como sempre, entretanto demoramos muito a relaxar, e não nos sentimos completamente à vontade.

Enquanto tomávamos sol para nos secar, Liza falou:

- Nico, precisamos perder essa vergonha de nós mesmos. Prometemos isso.

- É, Liza, mas é cada vez mais complicado. Sinto arrepios e comichões, e fico com vergonha por você estar me vendo.

- Ah, Nico. Eu sei o que acontece, mas não ligo. Faço de conta que não está acontecendo nada. Finja que não estou vendo, está bem? Não fizemos isso no começo e deu certo?

- Foi... mas... promete não ficar com... bem... medo, raiva, nojo... ou qualquer coisa... sabe? Não consigo evitar certas coisas...

- Prometo sim. Vou sempre fingir que não está acontecendo nada.

- Então está bem.

Repentinamente Liza me abraçou, apertando-se contra mim.

- Para, Liza...

- Não. Faça de conta que não está acontecendo nada. Eu não me importo de encostar em você. Também sinto comichões, mas é só não ligar.

Então apertei mais o abraço e ficamos assim por algum tempo. Depois, ainda meio molhados, nos vestimos.

- Nossa! Acho que quase fizemos uma besteira.

- Que nada. Acho que da próxima vez que viermos aqui não vai ser tão difícil. Sabe... gosto de estar perto de você, de qualquer jeito, não quero ter medo disso.

- Eu também gosto de estar perto de você, só não quero estragar tudo com alguma bobagem. Se você acha que podemos evitar coisas erradas, por mim está bem...

- Nico, quero te dizer uma coisa: eu sinto arrepios de qualquer jeito, então de um jeito ou de outro não faz diferença.

Ri.

- Eu também sinto, só não te conto. Acho que é por isso que fico com medo de te abraçar, às vezes.

- Pode me abraçar quando quiser. Eu gosto do teu abraço.

- Então... – e puxei Liza num abraço apertado.

Assim superamos a questão de “sentir vergonha” ou “sentir desejos proibidos” em nossos passeios no riacho. Claro, continuávamos sentindo, mas fingíamos não sentir.”

 

- É por isso que não tenho vergonha de encostar em você e deixá-la sentir minha excitação. Aprendi com Liza que além do desejo, isso é um sinal de que nos gostamos.

- Desculpe-me Nico. Eu agora entendo. É mesmo muito legal. Antes eu só pensava em besteiras.

- Bobinha! Aproveite, é bom!

- Como é que naquele fim de mundo vocês aprenderam tantas coisas?

- Tivemos sorte. Foi por causa de um período difícil que a escola passou, senão ainda estaríamos com os velhos tabus na cabeça...

 

“Foi quando Liza estava na primeira série do Ginásio eu na segunda. Nossos colegas de escola também estavam crescendo. Os meninos mais desengonçados, as meninas mais bonitas. Algumas colegas pareciam já moças feitas, e não tardou para despertar nos meninos certos desejos e brincadeiras não tão certinhas. As brigas estavam aumentando, assim como os namoricos. Os segredos de sexo eram comentados nas rodinhas, e a inocência paulatinamente ia desaparecendo. Tínhamos contato com os colegas mais velhos e ouvíamos comentários e conversas mais estranhos.

Parece que o objetivo dos meninos da cidade era atacar as meninas, e destas era provocar os meninos. Tabus e segredos não revelados pelos pais eram discutidos entre a turma ostensivamente entre risadinhas e gestos obscenos. Revistinhas pornográficas circulavam de mão em mão, e às vezes iam parar na mão dos professores. A diretora então decidiu acrescentar aulas especiais em todas as classes do ginásio para tratar das questões da vida. Como sempre as crianças da roça eram quase ignoradas, e isso fazia com que os alvos das preocupações fossem as crianças da cidade, incluindo a vigilância mais cerrada do inspetor de alunos, um senhor de cabelos brancos, que se escandalizava com cada beijo trocado e com as revistinhas que conseguia tomar dos alunos. A diretoria vivia cheia dos infratores. Foi um ano complicado na escola. Liza e eu conversávamos bastante sobre esses assuntos durante nosso rotineiro trajeto casa-escola escola-casa. De certa forma foi bom, porque nesse ano amadurecemos bastante, perdemos alguns preconceitos e desvendamos alguns tabus. Entendemos melhor também a questão dos nossos desejos.

Meus pais e os avós de Liza, entretanto, permaneciam ausentes dessas coisas, com a educação antiga que haviam recebido, e não podíamos expor-lhes nossas dúvidas e receios. Precisávamos conviver com as informações nem sempre corretas das aulas especiais da diretora e com os burburinhos quase sempre exagerados das rodinhas de alunos. Em suma, aprender por nós mesmos. Aprendemos bastante sobre doenças venéreas, gravidez e outras coisas relacionadas. Também entendemos a posição das igrejas, o conceito que tinham do pecado e os tabus populares.

Para desespero da diretora, uma das moças do colegial, de 16 anos engravidou, e isso foi um escândalo. Era a primeira vez que uma aluna aparecia grávida na escola, e isso fez com que ela intensificasse suas aulas especiais, e até com aconselhamentos particulares às alunas. Não era raro encontrar uma aluna completamente vexada após uma dessas sessões particulares com a diretora.

Chegamos ao final do ano carregados de informações a respeito de sexo. Na primeira vez em que fomos ao riacho depois das aulas, conversamos longamente sobre essas coisas, e chegamos à conclusão que deveríamos manter nossa promessa de qualquer jeito. Tínhamos muita liberdade, pois meus pais e avós de Liza não tinham o costume de nos vigiar, e isso era um perigo. Precisávamos manter sempre nossa cabeça no lugar. Assim nossa promessa tornou-se: não sentir constrangimento pelas coisas do nosso corpo, mesmo que excitados, e nos manter puros, intactos. Em outras palavras, nada de sexo.

Também decidimos que não éramos realmente namorados, pois os namorados viviam se agarrando e só pensavam em bobagens. Decidimos sermos amigos, talvez amigos íntimos, inseparáveis... talvez um pouco mais que amigos, uma vez que beijos e abraços estavam permitidos, mas que devíamos cuidar um do outro.

No comecinho do ano seguinte, antes do início das aulas, passamos por uma prova de fogo. Estávamos novamente no riacho. De início me senti terrivelmente envergonhado com minha excitação, ainda mais que Liza estava desenvolvendo um belo corpo, e usava sutiã constantemente, exceto quando estava em casa. Vê-la nua foi assim foi uma experiência inesquecível, mas ao mesmo tempo constrangedora, devido à reação do meu corpo. Fingimos não nos notar, no entanto foi difícil relaxar.

Desviei minha atenção à água, e acabei relaxando. A partir daí nos divertimos bastante. Até nos permitimos alguns encontrões e toques fugazes, e alguns beijos roubados. No final, correu tudo bem.  Tomamos sol juntinhos para nos secar, mas sem agarração, e até nos permitimos espanar a areia um do outro, nos observando sem constrangimento.

- Você está ficando um rapaz muito bonito. – Liza acariciou meu rosto. – Já tem até uns pelinhos de barba...

- Você é que está ficando uma moça bonita. Linda mesmo.

Entre elogios atrapalhados nos vestimos e fomos até o ingazeiro.

- Liza, me dá um abraço apertado. Preciso espantar meus comichões.

- Seu bobo. Para de falar essas tolices. – e me abraçou.

Foi um abraço gostoso, meio que de amigo, meio que de namorado (aquele tipo agarrão), e que terminou com um beijo. Um beijo de verdade, bem molhado e demorado.

- Sabe, Liza, eu gosto demais de você.  Um dia quero ser seu namorado de verdade, do jeito certo. Não quero ser só seu amigo inseparável.

- Andei pensado nisso e também quero ser sua namorada. Não quero ficar longe de você... Acho que até já somos namorados, do jeito certo, não como aqueles namorados da escola, que só pensam em se agarrar.

- Então vamos descombinar essa coisa de amigos e vamos ser namorados do jeito certo.

- E não vamos contar pra ninguém, isso só interessa pra gente.

- Então está combinado. Te amo.

- Te amo.

Beijamo-nos de novo. Essa história de beijo estava ficando muito legal. Nessa época uma música que tocava no rádio de Seu Chico tornou-se a minha preferida. Era “Flor do Cafezal” cantada por Cascatinha e Inhana, e dizia assim:

 

Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal

Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal

Ai menina, meu amor, minha flor do cafezal

Ai menina, meu amor, branca flor do cafezal

Era florada, lindo véu de branca renda

Se estendeu sobre a fazenda, igual a um manto nupcial

E de mãos dadas fomos juntos pela estrada

Toda branca e pefumada, pela flor do cafezal

 

Liza era minha branca flor do cafezal”

 

- Liza estava mudando mesmo. Estava linda... – o olhar de Nico perdeu-se no passado.

Liane olhou o relógio e sobressaltou-se. Já passava da meia noite.

- Nossa, Nico! É muito tarde! Melhor você ir para casa descansar. Eu tenho de dormir bem para enfrentar a chatice das aulas amanhã.

 

As aulas realmente foram muito chatas. Liane estava aborrecida, o professor de Direito Constitucional iria demitir-se, mas fez questão de pedir um trabalho escolar antes de deixar a cátedra. A turma de Nico estava tendo dificuldades com o professor de Teoria Geral do Estado, a maldita TGE, como chamavam.

Estavam na lanchonete, tomando suco, quando Frank, um colega da classe de Nico, veio sentar-se com eles.

- Olá, meninos. Como vai esse falso namoro de vocês?

- Vai muito bem, obrigado. Melhor que o seu com Patrícia.

- Duvido. Não com esse Nico que não pega nada. Até parece desmunhecado! Só falta desmunhecar de vez...

- Para com isso! – Nico irritou-se – Não sou desmunhecado. E acho que é melhor um desmunhecado do que um palhaço como você. Passa o tempo todo atacando Patrícia, mordendo, bolinando. Até parece que quer fazer amor com ela em público, só pra dizer que é homem. Só um retardado para achar que mulher gosta disso. Nem aquelas que ficam no paredão da Estação da Luz suportam esse tipo de coisa. Deixa de ser retardado!

- E o que você tem com isso? Você...

- Cala a boca. Patrícia só suporta esse vexame porque gosta muito de você, mas um dia vai se encher e te dar um pé na bunda. Acorda, idiota!

- Vai te catar! O que você entende disso?

- O suficiente para saber que seu jeito de troglodita não leva a nenhum lugar. Mulheres tem sentimentos, sabia? Querem ser amadas, acariciadas, beijadas e amassadas, mas querem acima de tudo, respeito e carinho. Você só pensa naquilo... Se gostasse mesmo de Patrícia, a tratava de maneira diferente. Deixa ela te sentir, te abraçar. Quando você tiver perto dela, não a ataque que nem um cachorro atrás de uma cadela. Abrace, acaricie, deixe que ela perceba que você está a fim, mas não force. Simplesmente sinta o corpo dela, deixa ela sentir o seu. Mulheres querem se sentir amadas, mas não gostam de abrir as pernas a toda hora. Tudo tem seu momento. Enquanto você tiver sujeira na cabeça, o máximo que vai conseguir é agir que nem um retardado. E se você forçar, perde ela de vez. Todo mundo já está rindo da tua cara.

- Não vou ficar aqui ouvindo besteiras!  - Frank levantou-se – E olha aqui... – desistiu de falar e estava indo embora. Parou a uns metros da mesa e voltou-se para Nico.

- Nico, estou perdido em TGE, tem jeito de...

- Está bem, seu tonto. Passa em casa amanhã depois do almoço, a gente troca umas informações e te empresto minhas anotações e um bom livro...

Frank retirou-se.

- Nossa, Nico. Ficou azedo...

- Frank é um idiota, e só sossega quando alguém broqueia com ele.

 

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