Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

1Likes
0Comentários
2712Views
AA

7. Sinais da mocidade

 

7 - Sinais da mocidade

 

Nico olhava para Liza sentada a uma pedra no riacho. A água logo abaixo estava avermelhada. Liza estava sangrando e apertava desesperada a barriga. Gritava e gritava, mas Nico não conseguia atravessar o riacho. Liza levantou-se toda suja de sangue, e pulou em direção a Nico. Ele caiu e estava se afogando.

 

Subitamente acordou e sentou-se na cama. Estava suado e ofegante.

- De novo esses pesadelos!

Tentou dormir novamente, mas o pesadelo voltou, acordando-o banhado em suor. Ainda era muito cedo, mas levantou-se e foi tomar um banho. Depois ficou sentado em sua cama esperando a hora de sair para a faculdade. Nos últimos quinze dias Liane estivera ocupada com alguns trabalhos práticos na Faculdade, e mal tinham tempo de conversar.

 

Encontrou Liane na lanchonete, almoçando sem muito apetite.

- Olá, Liane. – beijou-a no rosto.

- Oi, Nico. Almoça comigo?

- Obrigado, mas estou sem fome. Vou pedir um suco para te acompanhar. É impressão minha ou você está realmente prá baixo?

- Esses dias foram corridos, montes de trabalhos, aulas chatas. Ainda bem que a partir de hoje vai melhorar, o pior já passou. Minha cara feia é por causa das... questões de mulher...

- Por falar em questões de mulher, tive um pesadelo...

- Sonhou que era mulher? – Liane brincou, mas logo contraiu o rosto.

- Gracinha... Posso te ajudar em alguma coisa? Está se sentindo bem? Tem cólicas? Quer que te leve pra casa?

- Não, estou bem. Isso me deixa meio prá baixo, só isso. Daqui a pouco o humor melhora... mas o que você entende dessas coisas? E o que tem a ver com pesadelo?

- Tudo a ver... Liza sangrando, sabe?

- Ah, quer dizer que quando você falava dos pesadelos, Liza sangrando, eram... as questões de mulher dela? E o que isso tem de assustador?

- Não é isso. O sangramento nos pesadelos é de rios de sangue, e Liza grita e pede ajuda, e se desespera, mas... tirando o terror todo, são essas coisas de mulher mesmo. A primeira vez dela foi tão natural, não sei porque tenho pesadelos com isso.

- Vai me dizer que...

- É... Eu estava com ela, e a ajudei. A primeira menstruação dela foi ao meu lado. Assisti tudo, desde o começo. Foi um momento especial para mim.

- Nossa, isso já está ficando obsessivo.

- Não acho. Bem, tem uma coisa que você pode achar realmente obsessivo, de resto, eu passava todo tempo com Liza, nada mais normal.

- É Nico, mas estas coisas de mulher são tratadas quase em segredo.

- Puro preconceito. Se houvesse mais diálogos entre os pais e as crianças, não precisava ser assim. E também os meninos deveriam entender essas coisas, ajudaria a entender a mudança de humor das meninas. Esse tabu só atrapalha.

- É? E como foi essa primeira vez de Liza?

- Liza estava na segunda série do ginásio...

 

“Foi um ano em que Pai fez muitas viagens. Pouco se comentava a respeito, e eu só sabia que era negócio com uma loja ou coisa parecida, e não me preocupava muito com isso. Em nossas casas tudo corria tranqüilo. Na escola era tudo rotina, parecia que o fato da moça grávida no final do ano passado tinha acalmado os demais alunos. Já não havia tanta pressão, e a sombra do escândalo diminuía o ímpeto dos namoricos.

Foi um ano frio, e as férias do meio do ano foram sem graça. Cavalgamos muitas vezes, dessa vez cada um com seu cavalo, pois estávamos ficando grandes para um cavalo só. Claro, era muito mais agradável cavalgar agarrado à Liza, mas o cavalo se cansava fácil, por isso deixamos esse costume.

Quase no fim dessas férias fomos passear no riacho. A água não estava tão fria, mas não quisemos nos banhar, apenas ficamos chapinhando na margem.

- Ai, Nico, está acontecendo alguma coisa! – e dizendo isto ela pôs a mão no ventre.

- Que foi? Está sentindo dor? É cólica como ontem? Você está bem?

- Não sei. Não é dor. Parece mais que está saindo um xixi ardido.

- Ai, meu Deus. Consegue andar? Precisamos voltar para casa.

Olhei para as calças dela e vi uma pequena mancha escura.

- Ei, Liza. Tire a calça, deixa eu ver o que está acontecendo.

Ela baixou a calça e eu vi uma mancha vermelha na calcinha. O seu rosto demonstrava preocupação, e lágrimas já desciam de seus olhos.

- Fica calma, Liza. Acho que já sei o que é. Melhor você tirar a calcinha e se lavar. Deixa escorrer o sangue. Lembra daquelas aulas malucas? Acho que é sangue da menstruação. É só deixar correr.

- Tá bom, tá bom... acho que é isso.

- Tá sentido dor?

- Não, não. É só ardido... e esquisito, só isso.

Ela despiu-se e acocorou-se na beira do riacho. Logo surgiu uma mancha avermelhada que foi levada pela correnteza. Liza se lavou, e quando achou que já tinha passado vestiu as roupas novamente.

- E agora, o que eu faço? E se sangrar de novo?

- É só sangue... um pouquinho... não faz mal.

- Está bem, mas acho que vou sangrar de novo.

- Olhe, coloque meu lenço enrolado dentro da calcinha. Assim não vai vazar muito. Mas é melhor irmos para sua casa e falar com Dona Nena.

No caminho recomendei a Liza que me devolvesse o lenço depois.

- Mas vai ficar nojento! Mesmo se eu lavar muito vai ficar manchado. E você não vai querer usar uma coisa dessas, vai? Eca!

- Lava ele pra mim. Pode parecer nojento, mas não vou usá-lo. Vou guardar como lembrança do dia em que minha amiga-namorada virou moça.

Dois dias depois Liza devolveu o lenço. É uma das minhas relíquias, guardo-o até hoje.

Chegando na casa do seu Chico, Liza foi direto ao banheiro e eu fui procurar Dona Nena. Achei-a na cozinha, acabando de desenformar um bolo.

- Dona Nena, Liza vai precisar de sua ajuda.Ela está no banheiro, e logo logo vai precisar da senhora.

- Que aconteceu? Está machucada?

- Não Dona Nena. É aquela coisa de moça... a senhora sabe... sangue...

- Ah, entendi. Meus Deus, e agora? Ainda não tinha pensado nessas coisas. Que vou fazer?

- Não se preocupe, Dona Nena. Hoje em dia é fácil. Tem umas coisas na farmácia que as moças usam nesses dias.

- Tá certo, tá certo. Acho que vou pedir à sua mãe para me ajudar nesse assunto. Estou muito desatualizada. Acho que ela é de mais valia... mais nova.

- Vá ajudar Liza. Deixe que eu cuido do bolo.

 

Dez minutos depois Liza e Dona Nena chegaram à cozinha. Parece que ela já estava bem.

- Improvisamos, mais ainda vamos precisar de sua mãe.

- Eu vou falar com ela, e... Liza, me desculpe... eu tinha esquecido...

- Esquecido do quê?

- Lembra faz quase um mês quando você sentiu dor? Falei com Mãe e ela me disse que provavelmente eram cólicas, e já estava na idade de você tornar-se moça.

- E como você sabe que faz quase um mês?

- Lua cheia, que nem hoje... 28 dias. Aprendi na escola...

- Ah, bem pensado. Eu não sabia que você preocupava-se tanto com minhas coisas... obrigado...

- Mas eu esqueci. Devia ter me lembrado, te avisado. Ontem vi você pondo a mão na barriga, e fazendo careta que nem quando chupa limão. Eu devia ter me lembrado disso. Você sentiu cólicas de novo, não foi?

Ela assentiu.

- E eu nem falei pra Dona Nena nem pra minha mãe. Desculpe.

- Puxa, Nico. Não sabia que você cuidava tanto de Liza. Fico contente com isso.

- Liza é minha amiga, Dona Nena. Inseparável ou coisa assim, e eu gosto muito dela. Vou até em casa. Amanhã Mãe vai até a cidade e pode comprar aquelas coisas que Liza vai precisar.

Corri até em casa e achei Mãe bordando.

- Mãe, preciso de um favor seu...

- Que foi Nico?

- É que Liza teve aquele negócio de moça, você sabe... sangue... e eu queria que você trouxesse da farmácia aquelas coisas que as moças precisam nesses dias.

- Ah, que cabeça a minha! Eu esqueci completamente. Mês passado você me falou disso, das cólicas, e eu logo imaginei que fosse acontecer. Até comprei, só esqueci de mandar pra Dona Nena.

- Mãe, você é demais. Obrigado. Posso levar agora?

- Vou com você. Preciso conversar um pouco com Liza. Assunto de mulher. Vamos?

Pegamos o pacote e fomos até a casa de Seu Chico. Mãe teve uma longa conversa com Liza. Não ouvi o que falaram, mas no dia seguinte Liza me contou. Basicamente aquelas coisas das aulas especiais da diretora.

Quando nos despedimos de Dona Nena, ela falou pra minha mãe:

- Fiquei admirada com Nico. Como ele é cuidadoso. É um menino de ouro. Trata Liza como verdadeira irmã. Estou muito contente. Muito obrigado a vocês. E obrigado por conversar com Liza. Sabe, estou muito ultrapassada nesses assuntos, muito velha para isso. Parece que hoje em dia os meninos sabem mais que a gente. Sei que Nico tem um coração de ouro, e gosta muito de Liza. Ela está em boas mãos com vocês. Deus lhes pague.

Voltamos para casa quase noitinha. No caminho Mãe me questionou:

- Você anda muito com Liza. Vocês tem alguma coisa. Vocês não andam fazendo estripulias, andam?

Minhas orelhas pegaram fogo. Ainda bem que estava escurecendo e não dava pra ver direito.

- Claro que não, Mãe. A gente só brinca e passeia. E eu gosto muito de Liza, não ia querer fazer bobagens e magoá-la. Gosto muito dela, só quero o bem...

- Tá certo... – e encerrou o assunto.”

 

- Eu ficava atento a Liza nos dias de lua cheia, observando se ela sentia cólicas ou coisa parecida. Ela tinha boa saúde, mal se incomodava com seus dias de “coisas de mulher”. Essa história não tem nada de ruim, não sei porque virou um pesadelo tão chato.

- Quer dizer que você praticamente assistiu a primeira vez de Liza e cuidou dela? E guardou uma lembrança?

- É... estive com ela nesses momentos especiais. E se você disser que essa lembrança é coisa obsessiva, não vou duvidar.

- Essa eu não esperava, Nico. Nem sei o que dizer.

- Vai ver que esses seus dias mexem com sua cabeça e você não pensa direito. Não se preocupe, cuido de você, afinal não sou um tapado nessas coisas de mulher.

- Ah, vamos embora...

 

Foram até a casa de Liane. Nico ficou com ela até a tarde, fez-lhe café, ajudou-a a arrumar a casa, organizou os livros. Já ia saindo quando Liane lhe falou:

- Fico pensando, Nico, se você e Liza não são predestinados. Não acredito muito nessas coisas de destino, mas no seu caso...

- Foi o que a cigana disse.

- Cigana?

- Na verdade uma velha que se passava por cigana para sobreviver, e apareceu nas roças um dia.

 

“Foi no ano em que Liza estava no segundo ano do ginásio. Nesse ano ganhamos dois novos colegas de charrete. Eram dois meninos das roças além da fazenda, estavam começando o primário, no entanto já tinham quase dez anos. Tinham entrado tarde na escola. Eram muito brincalhões, e rapidamente fizemos amizade. Em alguns fins de semana íamos a cavalo até as roças onde moravam. Era um lugar muito pobre, e muitas crianças não iam à escola. Apesar disso eram criativos e divertidos. Uma das brincadeiras era de escolinha, quando juntavam-se um monte de crianças para rabiscar os papéis de cadernos velhos que eu e Liza levávamos.

Numa dessas idas, apareceu por lá uma mulher que se dizia cigana. Pura enganação. Lia a sorte do povo em troca de algumas moedas, e muitos acreditavam no que ela dizia. Eu tinha uma moeda no bolso e resolvemos entrar na brincadeira. Pedi para ela ver a minha sorte e a de Liza em troca da moeda. Depois de examinar nossas mãos, muitos “hums” e outros resmungos, sentenciou:

- A linha da vida de vocês dois é muito parecida. Vocês ainda vão fazer muita arte juntos. Nunca vão ficar longe um do outro de verdade, mesmo que separados, porque são destinados a ficarem juntos. Haverão alguns desencontros e reencontros. Ligados pelo destino. E... vocês já são namorados?

As pessoas em volta riram a valer. Ficamos meio sem jeito, mas logo todos levaram na brincadeira. Quase todas as previsões da cigana falavam de amor, encontros e desencontros.

- Essa mulher inventa uma porção de bobagens.

- Eu gostei especialmente da parte de fazer muita arte. Vai ser divertido. E... da parte de ficarmos juntos.

-É. Isso eu também gostei. Só acho que não é o futuro que ela viu, foi o agora. Ela ficou nos olhando e disse as coisas que mais nos agradavam.

- Até a parte de namorados?

- Claro! Sua mão não desgruda da minha!

- Ah, é? Eu não percebo isso.

- Ainda bem, senão eu ia ficar encabulado.

- Então porque você não larga da minha mão?

- Porque eu gosto, e não me importo que as pessoas achem que somos namorados. A gente tinha combinado isso, lembra?

- É, mas não era pra ninguém saber.

- Vai ver ela é cigana de verdade.

- Tomara que sim, principalmente pela parte de nunca ficarmos longe...

Foram dias divertidos passados com aquelas pessoas da roça. Conhecemos as plantações, o trabalho com barro, aprendemos a pescar, enfim, conhecemos uma vida na roça mais roceira que a nossa. Era uma gente alegre, que precisava de pouco para viver.”

 

- Sempre achei que fosse enganação.

- Vai saber. Eu também não acredito nessas coisas. Tem gente que acredita tanto nessas coisas que fazem acontecer.

Nico ficou pensativo, mas não disse nada

 

Join MovellasFind out what all the buzz is about. Join now to start sharing your creativity and passion
Loading ...