Nicolas e Elizabeth

Pode um amor cultivado desde criança resistir ao tempo e à separação? É verdadeiro ou ilusão de crianças? Promessas... o amor pode ser eterno...
(Até julho publicarei todos os capítulos - acompanhe)

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11. Retorno

 

11 - Retorno

 

Viajar à noite tinha suas vantagens. Podia-se fechar os olhos e tentar dormir. O barulho do ônibus era quase hipnótico e fatalmente os passageiros caiam no sono, uma hora ou outra. A ansiedade de Nico fez com que ele dormisse mal no dia anterior, por isso não foi difícil pegar no sono. Um sono sem sonhos. Quando acordou já estavam perto do destino. Eram mais de 10:00 horas quando desembarcaram. Ainda tinham mais uma boa hora de carro até a fazenda. Felizmente Seu Chico mandara alguém buscá-los, e não houve mais atrasos. Nico estava nervoso, nem prestou atenção ao caminho. A poeira da estrada também impediu que ele reparasse nos detalhes. Quando se deu conta, estavam na porteira da Fazenda. O carro manobrou e os deixou na porta da casa. Seu Chico, Dona Nena e Liza os esperavam do lado de fora. Liza, linda, completamente adulta. Mesmo sorriso, mesmo olhar. O coração de Nico disparou, mas ele respirou fundo e se controlou. Seu olhar cruzou num relance com o de Liza, mas não conseguiu fixar-se. Percebeu que ela também estava se esforçando para manter a naturalidade, e não quis incomodá-la encarando-a. Dona Nena adiantou-se e abraçou Nico, enquanto seu Chico cumprimentava efusivamente seu pai. Depois Nico abraçou fortemente Seu Chico. Quando chegou a vez de Liza, conseguiu apenas apertar-lhe a mão. Seu tão esperado reencontro resumiu-se a isso: apenas um aperto de mão. Entraram todos na casa, conversando desencontradamente, mas Nico não prestava atenção. Começou a transpirar, estava sentindo-se sufocado. Foram todos à cozinha, a mesa já posta, e almoçaram.

Nico comeu pouco, estava com as mãos trêmulas, evitava olhar para as pessoas. Relanceou o olhar à Liza, e percebeu que ela também estava pouco à vontade. Terminado o almoço, todos foram à sala.

- Nico, meu rapaz – Disse seu Chico – como você está diferente. Virou um belo homem. Foi muito bom você ter vindo. E na época certa! Lembro-me que você gostava muito do cafezal, e ele está todo florido. Vai ser uma boa safra. Aproveite a tarde e vá vê-lo, não perca tempo. À noite colocamos a conversa em dia. Liza, você não que acompanhar Nico? Não deixe que ele se perca.

Assim Nico e Liza foram em direção ao cafezal. Caminharam em silêncio por algum tempo. Depois de tantos anos o reencontro foi só um aperto de mão! Nico não sabia o que pensar. Chegando na estradinha em que tantas vezes passaram, Nico deslumbrou-se com a beleza do lugar. Os cafeeiros totalmente carregado de flores, o chão atapetado de branco, mais lindo que nunca. Seus olhos ameaçaram encher-se de lágrimas, mas ele as reprimiu e controlou-se.

- Está realmente lindo. Acho que nunca esteve tão bonito.

- É. Este ano está sendo especial.

Foram caminhando, poucas palavras, aqui e ali uma frase para quebrar o silêncio, e quando se deram conta, estavam às margens do riacho. Aquele era o lugar mágico para eles, onde ocorreram suas grandes descobertas e seus grandes momentos.

- A água esta quente. Tire os sapatos e sinta.

Nico desajeitadamente tirou o calçado. Liza fez o mesmo. Caminharam em direção à água, e suas mãos, obedecendo a um hábito antigo, automaticamente se enroscaram. Estavam à beira da água e caminharam mais alguns passos. A água acariciava seus pés, como dando-lhes boas vindas. As mãos se apertaram e em instantes abraçaram-se, primeiro frouxamente, mas depois desesperadamente. Nico não conseguiu mais conter as lágrimas.

- Liza, senti tanto sua falta. Achei que nunca mais ia te ver. Quis vir aqui, mas Pai disse que não era correto, que deixasse você em paz, mas nunca te esqueci.

- Nico, eu também nunca te esqueci. Vovô sempre dizia para eu tocar a vida. Não consegui. Minha vida não tem sentido sem você. Não fala mais nada, Nico, só me abraça.

Foram longos minutos nesse abraço, em lágrimas e palavras desconexas. Quando conseguiu controlar o choro, Nico ajoelhou-se na água, e abraçando Liza pelo ventre e lhe disse:

- Eu nunca devia ter te deixado. Devia ter insistido com meu pai para ficar. Te fiz sofrer. Me perdoa, Liza, por favor, me perdoa.

- Ah, Nico, não foi culpa sua, não foi nossa culpa. Aconteceu, não podíamos fazer nada, só agüentar. E agüentamos, não foi? Cada um tocou sua vida, e aqui estamos, cinco anos depois.

Nico deu-se conta que não sabia nada da vida de Liza nesses cinco anos, nem ela sabia da dele. Quem sabe ela arranjara outro namorado? Não, não podia ser, o abraço já dizia tudo. Mas se fosse apenas um abraço de saudades?

- Liza, você ainda gosta de mim?

- Claro, seu bobo. Acha que esqueci nossos combinados? E você? Já arrumou outra namorada?

Beijaram-se. Agora era o verdadeiro reencontro. Parecia que o tempo estava se corrigindo, passado e presente se conectando. O murmúrio da cachoeira trazia de volta a lembrança dos tempos passados, quando fizeram dali seu lugar especial.

- Nico! Você molhou as calças! Agora vai ter de molhar o resto. – e o empurrou em direção à cacimba. Nico desequilibrou-se e caiu na água. Quanto estava tentando levantar-se, Liza jogou-se em cima dele, e juntos caíram na água.

- Ei, não era esse o combinado. Não podia molhar a roupa.

- Não faz mal. Colocamos a roupa para secar nas pedras.

Despiram-se, jogando a roupa de qualquer jeito nas pedras banhadas pelo sol. Eram novamente crianças brincando no riacho, na cacimba, na cachoeira, escorregando nas pedras, abraçando-se, deixando-se tocar. O resto do mundo deixou de existir, só havia aquele lugar.

Muito depois, já exaustos, deitaram-se na laje semi-submersa, mesmo lugar do último encontro, há cinco anos atrás.

- Lembra-se das nossas promessas? Eu nunca as esqueci. Nos primeiros meses em São Paulo, cheguei a escrevê-las em todos meus cadernos. Quando nos separamos éramos namorados de verdade, lembra? Pra mim continua assim...

- Eu lembro de tudo, porque nos primeiros meses eu chorava todos os dias, e vó já estava ficando preocupada. Contei a ela as promessas, nossos encontros, só não falei das nossas sem-vergonhices. Vó gosta muito de você, e sempre falou que um dia você iria voltar, ia ficar tudo bem.

Abraçaram-se mais intimamente, trocaram beijos. Sentiram que seus corpos ansiavam por esse encontro e deixaram-se dominar. Dessa vez esqueceram dos limites, prolongaram ao máximo o prazer do momento. Depois, tomando sol nas pedras enquanto as roupas secavam, voltaram à questão das promessas.

- Liza, quebramos a promessa. Fizemos as bobagens que sempre queríamos evitar. Dessa vez não fiz nada para impedir. Espero que você possa me perdoar.

- Isso tinha de acontecer um dia. Na verdade eu queria isso. Minha primeira vez de verdade tinha de ser com você. Ficarei feliz, mesmo que você vá embora de novo. Todos meus melhores momentos foram a seu lado, esse também tinha de ser.

- Eu te amo demais, Liza. Agora precisamos resolver a questão de “ir embora”. Quando em vim, disse a Pai que era só para te ver e saber como você estava, mas agora não quero voltar para São Paulo, e isso vai deixá-lo aborrecido.

- Não Nico, não estrague seu relacionamento com seu pai. Existe outra opção: eu posso ir para São Paulo. Eu preciso estudar mais, e aqui não tem faculdades, estou perdendo tempo. Vô e Vó vão entender...

- Melhor a gente pensar com cuidado... – Nico ficou pensativo.

- É, mas não temos muito tempo. Vamos nos vestir e continuar nosso passeio. Quero ir até o ingazeiro com você, como nos velhos tempos.

Para Nico, o passado parecia ter retornado. Ele estava sentado ao pé do Ingazeiro, Liza deitada com a cabeça em seu colo. Nico acariciava os cabelos de Liza.

- Conta um pouco das coisas para mim... a escola, a roça, seus namorados...

- Não mudou quase nada, sempre a mesma rotina. Pouco tenho ido à roça. Aqueles meninos de lá pararam de estudar, algumas pessoas se mudaram daqui. Nós agora estamos passando uma boa parte do ano na cidade, Vô e Vó querem ir para lá definitivamente. Dizem que estão muito velhos para ficar no mato. Quanto a namorados, você esquece que era o meu namorado? Acha que eu ia trair você? Tive bons amigos e amigas, a cidade é um lugar que dá para se divertir muito, mas essa coisa de amor, acho que parou em você. Tive dois bons amigos, me dava bem com eles, não eram do tipo de querer ficar namorando, dava pra conversar. Foi coisa passageira.

- Hoje em dia eu tenho uma boa amiga, acho que é a única que me entende. Outras queriam me ter para elas, pegajosas. Liane é diferente. Acho que esteve apaixonada por mim, mas felizmente desistiu. A conheci a uns três anos, e desde então tenho contado a ela algumas coisas sobre nós... na verdade tudo... foi um jeito que achei para estar sempre lembrando de você.  Também conto a ela meus pesadelos. É como se fosse minha melhor amiga inseparável, uma quase-namorada...

-  Você tem pesadelos?

- Um monte. Quase toda semana. Semana passada foi quase todos os dias. Acho que foi por isso que resolvi falar pro meu pai que viria até aqui no fim do ano. Achei que ele fosse brigar comigo, mas sabe o que ele fez? Me trouxe com ele agora, antecipou minha visita! Acho que ele estava com um pouco de remorsos de nos ter separado...

- E os pesadelos?

- Sempre com você. Você se afogando, sufocando, sangrando, gritando, queimando...

- Que horror!

- E eu não conseguia te ajudar nenhuma vez. E no fim eu sempre saía correndo e o mundo ia sumindo até eu acordar. Semana passada sabe o que me fez dormir depois do pesadelo? Tomei um suco de laranja e fiquei beijando o travesseiro, dizendo: doce, docinho, doce, docinho, que nem um retardado.

Liza gargalhou. - Acho que você está ficando maluco!

- E você vai ter de me agüentar com essa maluquice.

- Você tem alguma coisa com essa... quase-namorada? Trocam beijos? Abraços? Amassos? Você é um traidor...

- Aí é que está a questão. Ela é quase namorada porque as pessoas acham que é, mas nunca existiu essas coisas de namorados. Bem... uns amassos talvez... mas não consegui passar disso, sempre lembrava de você, e aí travava tudo. Uma vez até falaram que eu era meio, como se diz mesmo? Afeminado?... porque não namorava. Ignorei, mas fiquei bem preocupado.

A conversa foi se prolongando. O sol já estava baixando no horizonte quando resolveram voltar para casa. Quando os viu chegado, Seu Chico sorriu satisfeito.

- Veja, Nena. Aqueles dois se entenderam. De começo mal se falaram, agora estão tagarelando sem parar, como nos velhos tempos.

- É mesmo. Fico feliz que os dois estejam bem. O problema é que agora que se juntaram de novo vai ser difícil de desjuntar. Já pensou nisso? Nico tem de voltar para São Paulo, pode não querer fazer isso...

- Agora somos nós que temos de decidir certas coisas. Mas amanhã pensamos nisso, deixa o vento soprar para onde quiser hoje.

Esperaram Nico e Liza na porta.

- Ei, Nico, Liza, o que aconteceu com suas roupas? Porque estão molhadas?

- Precisei jogar Nico no riacho para que criasse juízo.

- E se jogou depois para pegar um pouco para ela.

- E deu certo?

- Que nada, a água levou tudo embora.

- Ah, ainda são crianças! Vão se trocar e voltem para tomar um café. E, Nico, não acorde seu pai, ele está tirando um cochilo, estava muito cansado da viagem.

Os dois foram para o quarto de Liza, onde estava a mala de Nico e se trocaram em silencio. Depois voltaram à cozinha, onde Dona Nena preparara o café. Havia o habitual da fazenda: pão caseiro, bolos, queijo, café e leite.

- Se quiser faço um suco de laranja.

- Não precisa, Dona Nena, obrigado. Assim está ótimo.

- Estou muito contente por você ter voltado, Nico. Confesso que me preocupei quando você chegou, e mal cumprimentou Liza.

Nico ficou corado.

- Ah, Dona Nena. Eu não sabia como Liza estava, se tinha arranjado outro namorado ou tinha esquecido de mim. Fiquei com medo de ofendê-la ou ser inconveniente. E ela também mal olhou para mim.

- Eu também não sabia como você estava. Podia ser que você já tivesse esquecido de mim.

- Sua boba. Você acha que eu viria até aqui se tivesse esquecido de você? Vim porque gosto de você, não agüentava mais ficar... longe...

- Sabe, vó. Esse traidor até arranjou uma quase namorada. O nome dela é Liane. Ele fala dela todo jeitoso. É assim que ele lembra de mim. Aposto que algum dia ele vai me apresentar a ela, todo sem jeito: “Liza, queria te apresentar Liane, minha quase namorada”, e vai ficar com a cara vermelha...

- Liza! Já disse que é apenas uma amiga! Para com isso!

- Está bem. Só estava brincando! Me dá um beijo e vamos fazer as pazes.

Depois do café Nico e Liza se ajeitaram no sofá e ficaram conversando. Havia escurecido e Dona Nena estava preparando as acomodações.

- Nico, sua cama está preparada no quarto de visitas, seu pai já está acomodado lá. Não sei se ele vai acordar para jantar...

- Se a senhora não se incomodar, eu gostaria de dormir aqui no sofá. Assim não perturbo Pai. E não se preocupe, raramente ele janta. Preciso conversar mais um pouquinho com Liza. Prometo falar baixinho...

- Tudo bem, pode ser. Se quiser jantar, tem comida lá na cozinha. Liza pode preparar para você. Eu e Chico vamos nos deitar. Estamos acostumados a dormir cedo. Vejam vocês dois se acham juízo...

- Pode deixar, Dona Nena. As cabeças já estão no lugar. É que tem muita coisa em cinco anos que precisam ser conversadas.

A conversa realmente rendeu. Já era madrugada quando Liza foi vencida pelo sono, e dormiu ali mesmo encostada em Nico. Logo que Liza adormeceu, ele também entregou-se. Pela manhã seu Chico encontrou os dois dormindo no sofá, mas não quis acordá-los. Mais tarde, no entanto, o pai de Nico os acordou, e parecia bastante aborrecido com o filho.

- Nico! Que negócio é esse de dormir no sofá, ainda por cima com Liza? Não respeita a casa?

- Desculpe, pai. Eu e Liza ficamos conversando e pegamos no sono. Pedi a Dona Nena para dormir no sofá, porque não queria incomodá-lo, e precisava falar com Liza.

- Ai, Nico. Você me está me deixando preocupado. Não sei se foi certo trazê-lo agora...

- Pai, não se preocupe. Vá cuidar de seus negócios, e a tarde a gente conversa direito. Vai dar tudo certo, Pai. Dessa vez vai dar.

- Sei não, sei não...

 

Saíram logo em seguida, ele e seu Chico. Tinham somente aquele dia para acertar os documentos, e logo à noite Nico e o pai iriam voltar a São Paulo. Nico e Liza aproveitaram a manhã para ir às roças a cavalo. Encontraram alguns conhecidos, conversaram e almoçaram por lá. Quando estavam retornando, encontraram o velho Tião com sua charrete.

- Mas eu não acredito! O pequeno Nico! E como está grande, um homem feito. Nossa, Nico, que bom ver você de novo. – Apearam, o velho Tião desceu da charrete e abraçou Nico. – E você, Liza, hoje tá que nem uma flor que acabou de desabrochar. Jogou a tristeza pra longe?

- É, seu Tião. Nico voltou.

- Tá vendo, Liza? Eu não disse que um dia ele ia voltar? Nico, quando você foi embora, levou a alegria dessa menina junto.

- Eu sei, seu Tião, mas agora vou arrumar tudo. Vou levá-la comigo, ou, se meu pai não deixar, eu fico.

- De qualquer jeito vou ficar feliz da vida. Deus foi bom, deixou eu ver vocês juntos de novo. Era tão bonito nos tempos da escola, vocês sempre agarradinhos. A vida às vezes atrapalha a gente, é preciso teimar.

Liza abraçou o Velho Tião.

- Obrigado Seu Tião.Esses anos todos o senhor foi como um pai para mim.

- Diga isso não, Liza. Só fui um velho que entendia seus suspiros. Você sempre vai ser a pequena Liza para mim.

- Precisamos ir, seu Tião. Vou embora hoje, se tudo der certo. Se não der, não vou nunca mais. – Abraçou o velho Tião. – Pai está nos esperando. Adeus.

- Adeus, Nico. Cuide bem dessa menina. Até mais Liza.

O velho Tião subiu na charrete e seguiu em frente, sorrindo e conversando consigo mesmo, satisfeito com a vida.

Chegando em casa, Seu Chico e o pai de Nico já tinham voltado da cidade.

- Nico, é melhor você se preparar para a viagem. Vamos sair logo de noitinha. – recomendou o pai assim que ele e Liza retornaram das roças.

- Pai, preciso conversar uma coisa com o senhor, Seu Chico e Dona Nena.

- Ah, Nico, não vai começar...

- É sério, pai. E pensado. Já decidimos, só precisamos do apoio de vocês.

- Vê lá o que vai aprontar. Acho que não devia ter te trazido assim, tão apressadamente.

- Ei, pai. Cinco anos não é nada apressado.

- Deixa Nico falar. – interveio Seu Chico. – Eu e Nena confiamos nele, sabemos que tem a cabeça no lugar.

- Pai, se acalme. Não é tão complicado assim. É simples: não quero mais ficar longe de Liza, só isso. O problema que a fazenda e São Paulo são muito distantes, então só há duas soluções. Conversamos bastante sobre isso. Ou eu fico...

- Nem pensar, nem pensar. A faculdade... não vai abandonar tudo agora. Tem de pensar no futuro, você ainda é novo, tem muito que se preparar para a vida. Ah, Nico, tira essas coisas da cabeça...

- Certo, Pai, você tem razão. Não vou deixar de pensar nisso, minha cabeça está no lugar. A outra opção é Liza ir com a gente para São Paulo...

- Você não pensa nos avós dela? Quer tirar a menina daqui, a única pessoa da família que eles tem? Em troca do quê?

- Pai, Liza quer continuar estudando. Ela pensa no futuro, não é uma menina tola. Um dia vai ter que enfrentar a vida sozinha. Você acha que vai ter graça uma vidinha aqui, sem um objetivo, sem formação e sem... tá, talvez ela até consiga um novo amor, eu sei... e... Seu Chico, Dona Nena... eles precisam ter certeza que Liza... Pai, Liza precisa ter um futuro garantido para que os seus avós possam gozar a velhice tranqüilos. Entende?

- Ah, Seu Chico, não sei o que dizer. Não consigo resolver essa confusão.

- Acho que Nico está certo, seu Atílio. – atalhou seu Chico. - Eu e Nena sempre apreciamos o cuidado que ele tinha com Liza, nunca nos trouxe aborrecimentos. Esses últimos anos foram difíceis para nós. Agora estamos indo morar na cidade, já ficamos bastante tempo por lá, e Nico tem razão. Aqui não tem futuro para Liza, para continuar a estudar vai ter que se mudar para uma cidade maior, e a vida aqui é sem graça para uma moça como ela. A gente ficaria sossegado se ela estivesse perto de Nico, ele sempre cuidou dela, não é, Nena?

- É verdade. Nico foi mais que um irmão para ela. Se ela for para longe vamos sentir sua falta, mas temos nossa vidinha aqui, e de um jeito ou de outro, vamos saber compensar. E ficaremos sossegados sabendo que ela está em boas mãos.

- Dona Nena, eu não sei o que fazer...

- Pai, não fique se preocupando, eu e Liza...

- Nós não estamos pensado com o corpo... – interrompeu Liza – pensamos com a razão. Já decidimos que não queremos mais ficar longe um do outro, e também não vamos tomar decisões apressadas. Temos todo tempo do mundo, desde que pertos, para conversar, trocar idéias, nos aconselharmos. Aprendemos a viver assim. Vô e Vó sempre cuidaram de mim como se fossem pais, Vocês são meus segundos pais, Dona Alva foi uma mãe cuidadosa comigo, e Nico... mesmo se um dia deixar de ser meu... namorado... nunca vai deixar de ser um... irmão, amigo... e eu sempre vou precisar de um por perto. E eu quero estudar mais, e Nico pode me ajudar.

- Mas temos que pensar em... podemos arrumar um lugar para você em casa, mas... será que é conveniente? Entende? Ficaríamos felizes em ter você por lá, você é como filha, mas vocês dois juntos, toda hora? Por mais juízo que tenham, sempre vamos ficar preocupados. E Seu Chico e Dona Nena? Não sei...

- Pai, também conversamos sobre isso. Liza não quer morar em casa... talvez por algum tempo, sim... mas só até arrumar um lugar para morar... perto, é claro... queremos terminar nossos estudos e... – hesitou – se Liza for agora, ainda dá tempo de fazer os exames para uma faculdade... e... Pai, mesmo lá, perto da gente, pode ser que Liza arrume outra pessoa... sabe... e... mesmo assim, quero ficar perto. Não sei viver sem isso. Por favor, entenda a gente. Seu Chico, Dona Nena, nos ajude...

Por momentos todos pareciam constrangidos. O Pai de Nico estava nervoso, suava muito, sem saber como sair da situação. Seu Chico, semblante carregado, confabulava baixinho com Dona Nena. Liza e Nico se calaram, e ficaram em um canto esperando. Por fim, Dona Nena tomou a iniciativa de retomar a conversa e, colocando a mão no ombro de Nico, disse:

- Liza não vai com você... hoje não. Não dá tempo de arrumar as coisas dela, nem de comprar passagem. Vamos mandá-la o mais rápido possível. Eu e Chico achamos que é melhor que ela esteja em São Paulo, lá tem as melhores escolas, mais oportunidades, mas não é só isso: você estará lá, e o lugar de Liza é perto de você. Nós vamos aproveitar o que nos resta da vida, e esperamos que vocês venham nos ver de vez em quando. Agora, se já se preparou para a viagem, vá comer alguma coisa. Não é bom viajar com fome. Deixe Liza cuidar de você agora.

Um nó na garganta impediu de Nico responder. Ele levantou-se e dirigiu-se à cozinha, Liza seguiu atrás. Longe dos olhares, se abraçaram e se beijaram.

- Deu tudo certo... vai dar tudo certo... eu te esperarei. Se você não for logo, venho te buscar de qualquer jeito.

- Chega de pesadelos. Vai dar tudo certo.

Seu Chico e Dona Nena conversaram ainda longamente com o pai de Nico. Ao se despedirem, o pai de Nico estava mais tranqüilo. Já no carro, Nico olhou para trás e viu Liza abraçada à Dona Nena. Dessa vez ela sorria. Apesar disso chorou silenciosamente, meio que de tristeza por ter de deixá-la mais uma vez, meio que de alegria, por saber que em pouco tempo estariam juntos novamente.

Somente quando estavam a uma hora de viagem, o pai de Nico quebrou o silêncio.

- Nico, você me deixa em cada situação... mas você vale ouro, meu filho, vale ouro.

- Desculpe, pai. Gosto muito de você. Vai dar tudo certo, você vai ver.

- Quando nós nos mudamos para São Paulo, eu e Seu Chico sabíamos que vocês iriam sofrer um bocado, mas era necessário. Duas crianças que estavam criando uma dependência muito forte, entende? Achamos que a separação ia colocar tudo no lugar, vocês iriam ter novos amigos, novos ambientes, e com o tempo, só o que fosse duradouro iria persistir. Achamos também que não seria bom contatos entre vocês, mesmo que por carta, porque isso estaria sempre alimentando alguma esperança, e achávamos que a cabeça de vocês era ainda muito imatura para lidar com essas coisas. Parecia que estava dando certo. Você sempre foi muito dedicado aos estudos, sempre soube cultivar amizades, mesmo que não tendo aqueles namoricos tão comuns na juventude, tudo parecia correr bem. As poucas vezes que falei com seu Chico, ele me disse que Liza ia bem, se comportava normalmente, tinha lá suas amizades na cidade, e ia vivendo, mesmo um pouco mais séria, mais fechada, segundo Dona Nena, mas isso podia ser coisa do crescimento, as mudanças normais da pessoa quando está chegando à fase adulta. Eu e Alva também achávamos você um pouco mais triste, mas tínhamos esperança que o tempo corrigisse tudo. Ultimamente, com seus pesadelos, começamos a nos preocupar, e achamos que estava na hora de vocês se reencontrarem, para ajustar as coisas, entende? Erramos em não ter feito isso a mais tempo. Espero que você possa nos perdoar...

- Vocês estavam certos, Pai. Éramos crianças, tudo isso podia ser mera ilusão. Eu e Liza vivíamos praticamente sozinhos no mundo, com toda liberdade, e isso podia ter confundido tudo. Nada como o tempo para fazer as coisas perecerem o que realmente são. Sabe, Pai? Tivemos muito próximos de fazer grandes besteiras de verdade, mas de um jeito ou de outro sempre soubemos nos conter, não queríamos magoar nem vocês nem os avós de Liza, e isso nos fez amadurecer um pouco precocemente. Mas vocês estavam certos, podíamos estar confundindo as coisas. Não os culpo, nosso destino é que nos colocou nessa situação. Por outro lado, o que foi verdadeiro permaneceu, e o que é verdadeiro é que não consigo viver longe de Liza. Espero que compreendam isso... acho que eu e Liza já estamos em condições de tomar nossas próprias decisões e nos cuidar... sempre fizemos isso, e não temos pressa... podemos sempre pensar com cuidado em tudo, se estivermos juntos...

- Eu sei, eu sei. É que eu esqueci que você cresceu. É agora um homem feito, e tem a cabeça no lugar. Estou orgulhoso de você, filho. Muito. Muito mesmo... e vê se dorme, a viagem é longa.

 

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